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Bom selvagem

Adauto Novaes, Artepensamento 1990

O MUNDO SENSÍVEL CONQUISTA O SEU LUGAR

1. Na profunda transformação que marca a cultura moderna, o mundo sensível, outrora degradado a instância inferior por crenças como a da superioridade da alma sobre o corpo, adquire uma presença e uma intensidade sem paralelo, a ponto de se poder falar em sua verdadeira descoberta.

2. A experiência sensível é radicalmente histórica, elaborada de modo diverso por cada cultura, sociedade e indivíduo, e foi o século das Luzes que inventou o reino do sensível ao livrá-lo da atribuição de inferioridade, numa crise da consciência ocidental que significou alargamento, humanização e enriquecimento.

SISTEMA E FRAGMENTO

1. A paternidade da filosofia moderna, atribuída em geral a Descartes como artesão do racionalismo nascente, deve ser compartilhada com Montaigne, o autor dos Ensaios.

2. Ao declarar que os outros formam o homem enquanto ele apenas o recita, Montaigne toma distância crítica da metafísica e da pedagogia tradicionais centradas no conceito de forma, tradição à qual Descartes, ao contrário, se filia e dá prosseguimento.

3. A definição aristotélica do homem como animal que fala, e por isso político e imediatamente social, foi convertida pela tradição em animal racional, e Descartes aprofundou essa herança ao construir racionalmente o homem como dualidade substancial de animalidade e racionalidade incomunicáveis.

4. Em vez de construir o homem, Montaigne o recita, pintando não o ser imutável mas a passagem, dissolvendo a forma da condição humana no indivíduo comum e fazendo do método uma educação do olhar voltada para as diferenças e para o mobilismo universal, que chega até o canibal brasileiro tomado como bom selvagem.

5. Descartes e Montaigne opõem-se como essência e existência: o primeiro delimita o homem num mundo fixo de essências, enquanto o segundo se abre à interminável diversidade dos modos de ser, na qual o índio brasileiro não é animal nem racional e nada deve à tradição grega.

6. A linha cartesiana desenvolve o raciocínio sistematizador, que culmina no idealismo hegeliano e, mesmo após a crise do sistema filosófico, impõe-se de modo avassalador na organização social, na tecnologia e numa globalização totalitária que ocidentaliza o mundo.

7. O antídoto ao sistema está no fragmento inaugurado pelos Ensaios de Montaigne, o ensaio entendido como fragmento desenvolvido, de modo que o pensamento moderno se expressa por duas modalidades antitéticas e complementares, como o raciocínio e a intuição.

8. Nem os gregos, que tiveram no diálogo sua forma ideal e cujo Heráclito se aproxima antes das sentenças oraculares, nem os medievais, cujas Sumas reúnem tratados independentes à maneira da via-crúcis, conheceram o sistema e o fragmento modernos.

9. O fragmento corresponde ao espírito da época e complementa necessariamente o sucesso do sistema, como mostram os Pensamentos de Pascal, os moralistas franceses dos séculos XVII e XVIII e os românticos alemães, como Novalis, para quem a filosofia é a ânsia de sentir-se em casa em todos os lugares.

10. Com a queda do sistema filosófico, o fragmento e o ensaio passam a delimitar os novos caminhos da filosofia, de Nietzsche a Sartre, cujo tratado maior, subintitulado ensaio, transfigura-se inteiro em fragmento quando a condição humana é referida ao advérbio hoje.

11. Constituindo-se em contraposição ao sistema, o fragmento recolhe o que escapa à racionalidade, adentra-se na pluralidade equívoca do ser e assume o corpo, a experiência sensível, as paixões e uma natureza avessa ao matematismo, numa passagem que vai de Descartes a Rousseau e de Bach a Beethoven.

12. O conceito de bom selvagem oferece uma questão particular, mas não tanto, para aprofundar esse tema.

O CONCEITO DE BOM SELVAGEM

1. O bom selvagem nunca existiu e é apenas uma fantasia, mas, como conceito-limite voltado à transgressão, mostra como a fantasia pode fazer história e constitui um dos caminhos pelos quais a cultura moderna tenta assimilar a verdade do nominalismo.

2. O pressuposto essencial do bom selvagem é a ideia de viagem, reinventada nos inícios da modernidade quando as peregrinações em torno do mesmo cedem lugar às expedições em busca do outro e do insólito, situadas agora nas coordenadas do tempo e do espaço, da história e da geografia.

3. Como as viagens se fazem sobretudo na imaginação, o bom selvagem pertence à ordem do imaginário, e por ele se presentifica a alteridade, num deslocamento de teor ontológico que rompe o absolutismo da Identidade e está na raiz da crise da metafísica e da morte de Deus.

4. Natural e simples, o bom selvagem é um revolucionário em estado puro e origem de toda revolução, trazendo na pele uma ideia de natureza que suprime a dicotomia sujeito-objeto e que, contra a perversão teológica de Thomas Morus, inscreve o homem simplesmente neste mundo.

5. Simples significa desprovido de convenções artificiais, e o bom selvagem vive fora da civilização racionalista ocidental, alvo da crítica de Rousseau ao homem máquina e às convenções da corte, esquema também retomado por Diderot.

6. A miséria humana resume-se na guerra civil travada a vida inteira entre o homem natural e o homem artificial nele introduzido, conflito do qual apenas circunstâncias extremas como a miséria e a doença reconduzem à primitiva simplicidade.

7. Se a convenção gera o mal e o mal cura o homem, o bom selvagem representa a ruptura do homem civilizado consigo mesmo e, idealizado como mito e universal concreto dessacralizado, exprime a crise inaugural da figura do santo e dos valores da santidade.

8. O bom selvagem pertence inteiramente à ordem da natureza, com virtude puramente natural, sem fé, sem lei e sem rei, sem nenhuma autoridade que transcenda sua soberania natural.

9. Nada há de bárbaro nos povos ditos selvagens, pois cada um chama bárbaro o que não se pratica em sua terra, e suas virtudes vivas e naturais são abastardadas pelos civilizados para se ajustarem a um gosto corrompido.

10. A idealidade do bom selvagem, forrada de nostalgia, não se desprende do mundo da natureza.

11. Despojado das idealidades cristãs e da pretensa superioridade do racionalismo, o bom selvagem aproxima-se do philosophe da outra linhagem da razão moderna, a do ensaio-fragmento, que vai de Montaigne à filosofia inglesa, a Rousseau, aos enciclopedistas e ao romantismo, num conflito entre dois tipos de razão que persiste na questão ecológica atual.

12. A idealidade do bom selvagem promove-o também à condição de modelo moral fundado num puro naturalismo de plena adaptação do homem à natureza.

13. Esses povos só merecem o nome de bárbaros por terem sido pouco modificados pelo espírito humano e conservarem sua ingenuidade primitiva, regidos por leis naturais tão puras que é lamentável não as ter conhecido antes o mundo civilizado.

14. Embora o modelo moral do bom selvagem dependesse em grande parte da fantasia, dadas as dificuldades de comunicação, ele virou moda e espetáculo nas cortes europeias, revelando a grande transformação dos valores morais que se precipita no século XVIII.

15. O bom selvagem converte-se num panóptico dessacralizado que obriga a Europa a tornar-se transparente a si mesma, identificando-se ao espírito crítico que acompanha cada passo da revolução burguesa e habitando as raízes da consciência histórica.

SOBRE O SENTIDO DA UTOPIA

1. O pano de fundo do bom selvagem e de seus aparentados é a utopia, situada no mesmo nível imaginário.

2. A ideia de utopia deve restringir-se ao mundo moderno, pois A república de Platão é um plano concreto de reforma social que se tentou realizar, e a Cidade de Deus de Agostinho apenas afirma, com consequências funestas, que a felicidade não pertence a este mundo.

3. No início dos tempos modernos o conceito de utopia define seu perfil algo etéreo numa literatura abundante e constante ao longo de séculos, de Thomas Morus, Campanella, Harrington, Bacon e Cyrano de Bergerac até Saint-Simon, Goethe, Marx e os anarquistas.

4. Diferentemente de Platão, os utopistas não tentaram realizar seus ideais, que se queriam literários, embora tentativas efetivas tenham ocorrido, por vezes desastrosas, como as reduções jesuíticas no Sul do Brasil e no Paraguai ou a colônia anarquista no Paraná, sempre longe da metrópole para resguardar a pureza da idealidade.

5. A utopia busca uma compensação pela aventura do imaginário, seja diante do racionalismo sem fantasia, das agruras dos novos tempos ou das contradições sociais, mas esse processo se mostra crivado de contradições, como a oposição do bom selvagem e dos utopistas à propriedade privada que o homem novo conquistava.

6. Embora mencionem religião e divindades, as utopias não têm caráter religioso e ocupam-se da organização deste mundo, o que favorece o elogio do prazer e da volúpia, já presente em Thomas Morus, para quem a sabedoria consiste em buscar a felicidade sem violar as leis.

7. As utopias abandonam progressivamente a questão religiosa e têm uma história própria, que passa pelos socialismos do século XIX e chega, no século XX, a utopias invertidas como as de Orwell e Huxley, caricaturas do mundo atual que confirmam o caráter constitutivamente burguês do tema.

A CRISE DA NORMA

1. Entre as muitas dicotomias da modernidade, a mais significativa é a oposição entre natureza e norma, que retoma o debate sofístico entre physis e nomos sob novas coordenadas no século XVIII, exemplarmente em Diderot.

2. Para Diderot, o mundo das normas construído pelas civilizações é gravemente suspeito e, sem poder ser simplesmente dispensado, deve passar pelo crivo de uma crítica rigorosa.

3. Submetidos a três códigos contraditórios, o da natureza, o civil e o religioso, os homens são forçados a infringi-los alternadamente, de modo que a lei religiosa se torna supérflua e a lei civil deveria apenas enunciar a lei da natureza.

4. O afastamento da natureza é também afastamento da felicidade, mas o império da natureza não pode ser destruído e perdura apesar de todos os obstáculos.

5. Está em causa sobretudo o prazer sexual, o maior e mais inocente dos prazeres, convertido pelas normas e convenções, especialmente pelas instituições religiosas, em fonte de depravação e de males.

6. A contestação da religião, que admite no máximo uma religião natural sem dogmas nem hierarquia, é apenas um subcapítulo da recusa da norma, mas os enciclopedistas, que não foram ateus, mantêm uma posição ambígua ao aceitar provisoriamente as normas vigentes, ambiguidade explicável por integrarem um processo histórico de dimensões inusitadas.

7. Kant transforma decisivamente a ideia de norma ao formalizá-la no imperativo categórico, derrubando os universais concretos do passado e democratizando a norma, abertura que no século XX se radicaliza em Sartre e que coloca no centro da ética a responsabilização do homem e o problemático conceito de humanidade, inventado no século XVIII.

8. Na estética a crise da norma é mais lenta e só no século XX se completa, com a arte que tem por escopo a própria arte, enquanto o século XVIII nada antecipa, como mostra Diderot, que ainda reivindica a verossimilhança e a tríade do verdadeiro, do bom e do belo.

9. O século XVIII, porém, inicia a invenção do Homo aestheticus, quando o gosto se torna subjetivo e ligado à sensação, e sensível, prazer e volúpia encontram no corpo seu denominador comum, de modo que o prazer passa a pertencer ao estatuto ontológico do corpo e a estética conquista sua identidade como reinvenção da realidade humana.

10. Essa conquista é inteiramente histórica, e a nudez do bom selvagem traz na pele um novo modo de ser que torna insuficiente a velha alternativa entre materialismo e espiritualismo.

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