1.9 Irredutíveis
BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.
O Idiota e o Espírito Objetivo
9. O Jogo dos Irredutíveis
1. O inventário das diferenciações e irredutibilidades afasta-se da tripartição classificatória e um tanto acadêmica de Merleau-Ponty entre ordens fisiológica, psíquica e social, pois assume em Sartre uma forma mais maleável, de comércio pluridirecional entre as camadas do real em que tudo está em tudo, ao mesmo tempo concentrada em torno da dicotomia sujeito-objeto, entendida em sentido ontológico e dialético, cujo nome próprio é o singular universal, com o sujeito na complexidade de um Flaubert e o objeto distendido às proporções da História e da Cidade.
2. O privilégio atribuído ao momento subjetivo, esse irredutível que mantém e ultrapassa as condições objetivas e faz de Gustavo um microrganismo que sofre e totaliza à sua maneira a conjuntura histórica, não prejudica a história, mas integra a contradição dialética entre exteriorização e interiorização, e o irredutível opera como categoria universal segundo a qual, no limite, nada é redutível a nada, pois cada parte, embora o todo nela esteja presente, possui uma finitude irredutível que a distingue do todo e das demais partes.
3. Essa problemática tem dimensão ontológica e recusa toda causa primeira metafisicamente privilegiada, pois a subjetividade só acontece no jogo da interiorização e da exteriorização e a infraestrutura não coincide com o fundamento, de modo que as relações de produção, embora primeiras e causais em sua exterioridade, são sustadas pelas múltiplas mediações dialéticas que tornam o real indedutível, e todas as alienações, irredutíveis entre si, estruturam-se no elemento da alienação primeira do modo de produção e acabam por exprimi-la, mesmo quando a contradizem.
4. Toda essa problemática tem caráter histórico definido, o do homem contemporâneo, cuja subjetividade, mesmo esmaecida, só se torna inteligível como decorrência da cultura burguesa, e Kierkegaard e Marx constituem a tarefa futura, verso e reverso da singularização do universal e da universalização do singular, núcleo em que reside Gustavo Flaubert.
5. Resta examinar em que sentido e de que maneira o singular universal que é Flaubert se relaciona com sua obra.
