1.5 Homem
BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.
O Idiota e o Espírito Objetivo
5. O Homem Constituído
1. A questão do imaginário conduz ao tema complexo, ainda à espera de ampla discussão, das relações entre Sartre e a psicanálise, que aqui recebe apenas algumas pinceladas.
2. Entre as realidades que marcaram a evolução de Sartre, o marxismo só entra tardiamente num pensamento inicialmente insocial e atomizado, ao passo que o diálogo com a psicanálise está presente desde o início, pois o inconsciente freudiano ameaçava diretamente a autonomia do cogito, embora os pontos de partida sejam opostos, já que Freud canaliza a pesquisa para o inconsciente e a sexualidade enquanto Sartre alarga a consciência em busca de uma transparência que permanece seu ideal até as últimas entrevistas, mesmo reconhecidas as dificuldades humanas e históricas de realizá-la.
3. Apesar da reticência persistente quanto ao inconsciente, Sartre aproximou-se de certas teses de Freud por meio da noção de constituição, avessa a tudo o que defendia O Ser e o Nada, mostrando na longa análise do romance familiar de Flaubert uma proto-história altamente determinante, da qual a personalização permanece caudatária, o que faz do campo da psicanálise, enquanto ciência, essencialmente a elucidação da constituição, plano em que o sujeito se torna mais dócil à observação científica, enquanto a personalização tende à rebeldia e só se deixa abordar cientificamente por redução ao momento anterior.
4. O próprio Freud, no ensaio sobre Leonardo da Vinci, reconhece os limites da psicanálise diante da inclinação peculiar do artista à repressão dos instintos e de sua extraordinária capacidade de sublimação, chegando a admitir um grau de liberdade inexplicável psicanaliticamente, ainda que a questão se complique porque a liberdade mal ocupou Freud e porque a psicanálise, em sua dimensão clínica, visa à recuperação do humano para além da ciência teórica.
5. A análise da personalização de Flaubert não se reduz a um inventário de sua liberdade, pois, desde a Crítica da Razão Dialética, a liberdade monolítica dos caminhos da liberdade cede lugar à ambiguidade radical da vivência e Sartre se torna mais positivo, a ponto de seu intento coincidir com a delimitação freudiana do estudo biográfico como ação conjunta de constituição e destino, forças interiores e poderes exteriores, divergindo sobretudo no modo de realizá-la, especialmente quanto a esses poderes exteriores.
6. A constituição, embora em seu limite inferior seja passividade constituída, cedo se complica com a introdução de uma margem de personalização antes mesmo da adolescência, pois a experiência íntima se define ontologicamente pela presença a si e exige determinar o modo como a vivência se faz viver, instalando uma ambiguidade em que a personalização nascente nunca supera totalmente a constituição.
7. Como o homem não pode ser ponto de partida de si mesmo, a constituição abrange as contradições das estruturas familiares, que traduzem os conflitos objetivos da época, num deixar-se viver espinosista em que a criança se vive como modo da substância, e esse modo de viver se faz aos poucos personalização, de sorte que constituição e personalização formam uma totalização, como no pessimismo de Gustavo, nascido da proto-história e personalizado pela história.
8. A totalização é um processo dinâmico e dialético em que as estruturas familiares são interiorizadas em atitudes e reexteriorizadas em práticas pelas quais a criança se faz ser o que dela se fez, de modo que a personalização consiste na ultrapassagem e conservação, no seio de um projeto totalizador, daquilo que o mundo fez e continua a fazer do indivíduo.
9. Esse processo dialético exige mediações que particularizam a totalização e explicam por que nem toda criança constituída risível se torna cômica, e é na análise dessas mediações que a finura de Sartre recria a matriz imaginante de Flaubert, mostrando como sua constituição se faz leitora num abandono à passividade e num exercício espiritual em que o imaginário, distraído do real, transforma sua desrealidade em irrealização.
10. O fundamento ontológico de todo esse processo reside na práxis, que comporta um momento em que o ser vivo se volta para sua própria inércia, ultrapassada mas conservada, para trabalhar o inerte, e, radicalizado, remete ao ser e ao nada, presenças maiores da investigação sartriana.
11. O perfil provisório da constituição se completa com a observação de que a análise das mediações visa explicar o surgimento do escritor Flaubert e de Madame Bovary, obra mergulhada na constituição infantil e construída como momento privilegiado da personalização, o que conduz à questão das relações entre psicanálise e arte antes do retorno ao homem e ao escritor Flaubert.
