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bornheim:1980:1.4

1.4 Apogeu da Biografia

BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.

O Idiota e o Espírito Objetivo

4. Apogeu e Impasse da Biografia

1. A evolução da ideia de biografia, problema raramente discutido, merece ao menos algumas indicações sumárias, indispensáveis para o prosseguimento da análise.

2. As Confissões de Rousseau, que se apresentam como o único retrato verdadeiro de um homem segundo a natureza, exprimem o narcisismo de um burguês que se julgava digno de retrato na época em que sua classe se acreditava a estirpe do homem universal, rendendo-se à tendência que edificava o universo burguês sobre a soberania do eu, sem que isso apague o heroísmo de enfrentar os escândalos que essa natureza e essa verdade provocaram.

3. Poesia e Verdade, de Goethe, constitui a autobiografia clássica do individualismo burguês em seu momento mais equilibrado, ao definir como tarefa da biografia mostrar o homem em suas relações com a época que o favorece ou contraria, molda e determina, transformando a moldura fixa e exterior de Vasari no caudal da História e buscando a síntese entre indivíduo e século, homem e mundo.

4. O equilíbrio clássico cedeu a vicissitudes marcadas pelo contínuo alargamento das bases do fato biográfico, a começar pela irrupção do cotidiano e do social após a Revolução Industrial, visível em telas como Os Comedores de Batata de Van Gogh, que provocou o declínio da excelência atribuída aos homens ilustres, já não responsáveis pelas mudanças históricas, e gerou ao mesmo tempo uma biografia lânguida, sentimental e demagógica e uma alienação popular sedenta de cultos da personalidade.

5. A descoberta da proto-história e o advento da psicanálise ratificaram a queda da exemplaridade hagiográfica e conferiram à biografia um caráter mais racional, pois a infância, antes inexistente e prudentemente evitada por Goethe, ganhou significado imenso a partir de Freud, cujo feroz pessimismo quanto à possibilidade da verdade biográfica acaba por dizer o contrário, já que a Interpretação dos Sonhos pode ser lida como uma autobiografia às avessas.

6. As interpretações psicanalíticas não permitem vislumbrar a superioridade de um homem, pois, como na lembrança infantil de Goethe analisada por Freud, desmontam sempre experiências triviais do patrimônio comum da Humanidade, de modo que a genialidade só pode ser afirmada de fora e a descoberta da proto-história, aliada ao desmascaramento das condições sociais, rebaixa a biografia do herói e torna mentirosas as biografias do passado.

7. Do ponto de vista da biografia tradicional, a análise excepcional de Flaubert resulta decepcionante ao revelar apenas um homem comum, vagamente doente, igual a qualquer criado, pois cada homem é todo o homem, e mesmo assim esbarra num dado irredutível, o salto qualitativo do estilo enquanto processo criador, que nenhuma condição explica e cuja grandeza exige análise em outro plano.

8. A evolução da biografia desde a Renascença converte a exterioridade em interioridade e o elogio do indivíduo em dialética histórica, chegando ao paradoxo de que a biografia, ao esgotar todo o campo do possível e tornar o indivíduo transparente, culmina em sua própria suspensão no anonimato da história e da proto-história, de modo que a verdade biográfica exige o exagero necessário de distender o indivíduo numa realidade outra e constituinte.

9. A biografia torna-se crítica porque o homem, embora continue a existir, já não ocupa o centro e precisa ser compreendido a partir de uma anterioridade absorvente, o que conduz ao problema central do tempo presente, o de recuperar o homem como filho do próprio homem por meio das relações entre história e proto-história, tematizadas desde o início do século pelo marxismo e pela psicanálise.

10. A biografia contemporânea, que extrai sua validade da ciência, recorre também a uma retórica de apresentação vívida derivada da literatura, a qual, longe do sentimentalismo das biografias romanceadas de gosto pequeno-burguês, decorre da própria fidelidade ao postulado científico de elaborar um retrato vivo e não uma peça de museu.

11. Essa exigência nasce do interior da psicanálise, ciência rebelde à pura quantificação, como reconhece Freud ao constatar que seus relatos clínicos têm feição literária por imposição da natureza do tema, o que se aplica inteiramente à biografia, que deve transmitir um sabor do qualitativo.

12. O desejo de que O Idiota da Família seja lido como um romance verdadeiro responde à necessidade da imagem e à inevitável reinvenção do biografado pela empatia e pela compreensão, sustentada por uma metodologia vigilante de reconstrução do objeto-sujeito, numa análise em que o autor de O Imaginário retoma um homem feito de imaginação, que arma o imaginário contra o real e vive acotovelado ao nada, devolvendo o pensamento sartriano às suas primeiras preocupações.

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