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1 Ilusão e duplo
ROSSET, Clément. L'école du réel. Paris: Les Éditions de Minuit, 2008.
- Nada é mais frágil que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real: essa faculdade é tão frequentemente tomada em falta que parece razoável imaginar que não implica o reconhecimento de um direito imprescritível, o do real a ser percebido, mas configura antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória.
- Tal tolerância pode ser suspensa por qualquer um a seu bel-prazer, assim que as circunstâncias o exigem, como as alfândegas que podem decidir de um dia para o outro que a garrafa de bebida ou os dez maços de cigarros, “tolerados” até então, não passarão mais.
- Se os viajantes abusam da complacência da alfândega, esta se mostra firme e anula todo direito de passagem; do mesmo modo o real só é admitido sob certas condições e até certo ponto, e, se abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa.
- Uma interrupção da percepção põe então a consciência ao abrigo de todo espetáculo indesejável, e o real, se insiste em ser percebido, sempre poderá ir se mostrar em outro lugar (aller se faire voir ailleurs).
- Essa recusa do real pode revestir formas muito variadas: a realidade pode ser recusada radicalmente, considerada pura e simplesmente como não ser (“isto que creio perceber não é”), com técnicas igualmente diversas.
- Posso aniquilar o real aniquilando a mim mesmo: fórmula do suicídio, a mais segura de todas, embora lhe seja ligado um minúsculo coeficiente de incerteza, como mostra Hamlet: quem suportaria os fardos de uma vida acabrunhante se o temor de algo depois da morte, região inexplorada de onde nenhum viajante retorna, não perturbasse a vontade e não nos fizesse suportar os males que temos por medo de lançar-nos nos que desconhecemos?
- Posso também suprimir o real a menor custo, salvando a vida ao preço de um colapso mental: fórmula da loucura, igualmente segura, mas que não está ao alcance de qualquer um, como lembra o doutor Ey: “não é louco quem quer”.
- Posso enfim, sem sacrificar a vida nem a lucidez, decidir não ver um real cuja existência reconheço: atitude de cegueira voluntária, simbolizada pelo gesto de Édipo que fura os olhos no fim de Édipo Rei, e que tem aplicações mais ordinárias no uso imoderado de álcool ou droga.
- Essas formas radicais de recusa do real permanecem marginais e relativamente excepcionais; a atitude mais comum diante da realidade desagradável é diferente: livro-me dela de modo mais flexível, por um modo de recepção do olhar a meio caminho entre a admissão e a expulsão pura e simples, que não diz nem sim nem não à coisa percebida, ou antes lhe diz ao mesmo tempo sim e não.
- Sim à coisa percebida, não às consequências que deveriam normalmente segui-la: é como um raciocínio correto coroado por conclusão aberrante, uma percepção justa impotente para engrenar num comportamento adequado a ela.
- Não me recuso a ver nem nego o real que me é mostrado, mas minha complacência para aí: vi, admiti, mas que não se me peça mais; mantenho meu ponto de vista e persisto no comportamento como se nada tivesse visto, coexistindo paradoxalmente a percepção presente e o ponto de vista anterior, o que é menos uma percepção errônea que uma percepção inútil.
- Essa “percepção inútil” constitui um dos caracteres mais notáveis da ilusão, que seria erro considerar oriunda principalmente de uma deficiência do olhar: diz-se por vezes que o iludido não vê, é cego, cegado, que a realidade se oferece em vão à sua percepção, que ele não a consegue perceber ou a percebe deformada, atento só aos fantasmas de sua imaginação e de seu desejo.
- Essa análise, válida para os casos propriamente clínicos de recusa ou ausência de percepção, parece sumária no caso da ilusão, e antes fora de seu objeto: na ilusão, forma mais corrente de pôr o real de lado, não há recusa de percepção propriamente dita, a coisa não é negada, apenas deslocada, posta em outro lugar, e o iludido vê, à sua maneira, tão claro quanto qualquer outro.
- Alceste, em O Misantropo, vê perfeita e totalmente que Célimène é uma namoradeira, percepção que acolhe todo dia sem pestanejar e nunca põe em questão, e no entanto é cego: não por não ver, mas por não acordar seus atos com sua percepção; o que vê é posto fora de circuito, e a coqueteria de Célimène é percebida e admitida, mas estranhamente separada dos efeitos que seu reconhecimento deveria ter no plano prático.
- A percepção do iludido é como cindida em duas: o aspecto teórico (o que se vê, de theorein) emancipa-se artificialmente do aspecto prático (o que se faz); por isso esse homem afinal “normal” é bem mais doente que o neurótico, por ser, ao contrário deste, resolutamente incurável.
- O cegado é incurável não por ser cego, mas por ser vidente, pois é impossível “refazê-lo ver” o que já viu e ainda vê, e toda “repreensão” (remontrance) é vã; no recalque e na foraclusão o real pode eventualmente voltar, pelo “retorno do recalcado” nos sonhos e atos falhos, mas na ilusão a esperança é vã, pois o real jamais voltará, já estando ali; o doente de que se ocupam os psicanalistas é caso anódino e benigno em comparação com o homem normal.
- A expressão literária mais perfeita da recusa da realidade talvez seja a que Georges Courteline oferece em sua célebre peça Boubouroche (1893): Boubouroche instalou a amante, Adèle, num pequeno apartamento, e um vizinho de andar o avisa caridosamente da traição cotidiana de que é vítima, pois Adèle divide o apartamento com um jovem amante que se esconde num armário sempre que Boubouroche a visita.
- Furioso, Boubouroche irrompe em casa de Adèle a uma hora inabitual e descobre o amante no armário; à sua cólera Adèle responde com silêncio descontente e indignado, dizendo-lhe que é tão vulgar que não merece sequer a simples explicação que teria dado logo a outro, menos grosseiro, e que o melhor é se separarem.
- Boubouroche admite de imediato seus erros e a infundada suspeita e, depois de fazer-se perdoar por Adèle, só lhe resta voltar-se contra o vizinho de andar, o odioso caluniador (“o senhor é um velho veado e um ingênuo”, vieux daim et poire).
- A peça singulariza-se porque, ao contrário do que costuma ocorrer, o logrado não se nutre de desculpa nem explicação alguma, e o espetáculo de sua infelicidade não é velado por sombra alguma: a ilusão não está do lado do que se vê, e assim se explica que se possa ser logrado sem ser logrado por nada; e no entanto Boubouroche, com visão correta dos eventos, tendo surpreendido o rival no esconderijo, continua a crer na inocência da amante.
- Imagine-se que ao volante, com muita pressa de chegar ao destino, eu encontre um sinal vermelho: posso resignar-me ao atraso, parar e esperar o verde (aceitação do real); posso recusar uma percepção que contraria meus desígnios, ignorar a proibição e furar o sinal, isto é, não ver um real cuja existência reconheci (atitude de Édipo furando os olhos).
- Posso também julgar que esse obstáculo trará tristeza cruel demais para minhas faculdades de adaptação ao real e decidir acabar suicidando-me com um revólver do porta-luvas, ou “recalcar” a imagem do sinal vermelho no inconsciente, onde enterrado não virá à tona na consciência, a menos que se metam um psicanalista ou um policial; nesses dois casos opus recusa de percepção à necessidade de parar que a percepção do sinal me impunha.
- Há outro meio de ignorar essa necessidade, que se distingue dos anteriores por fazer justiça ao real e, ao menos em aparência, concordar com a percepção “normal”: percebo que o sinal está vermelho, mas concluo que cabe a mim passar.
- É exatamente o que ocorre a Boubouroche, cujo raciocínio tranquilizador seria: há um rapaz no armário, logo Adèle é inocente e não sou corno; tal é a estrutura fundamental da ilusão, uma arte de perceber certo e errar na consequência.
- O iludido faz do evento único que percebe dois eventos que não coincidem, de modo que a coisa percebida é posta em outro lugar e impedida de confundir-se consigo mesma, como se o evento fosse magicamente cindido em dois, ou dois aspectos do mesmo evento ganhassem cada um existência autônoma: no caso de Boubouroche, o fato de Adèle ter dissimulado um amante e o fato de ele ser corno tornam-se milagrosamente independentes.
- Descartes diria que a ilusão de Boubouroche consiste em tomar uma “distinção formal” por uma “distinção real”: ele é incapaz de apreender a ligação essencial que une, no cogito, o “penso” ao “sou”, ligação-modelo de que uma das inúmeras aplicações lhe ensinaria ser impossível distinguir realmente entre “minha mulher me trai” e “sou corno”.
- Outro exemplo notável de ilusão análoga à de Boubouroche está em Proust, em Um amor de Swann: ao preparar-se para enviar a Odette sua “mensalidade” ordinária (fora-lhe apresentada primeiro como mulher sustentada, qualidade que esquecera ao apaixonar-se), Swann se pergunta de repente se o ato que pratica não equivale a sustentar uma mulher, se receber dinheiro de um homem, como Odette dele, não coincide com ser o que se chama “mulher sustentada”.
- Percepção fugaz do real, que o amor de Swann por Odette logo risca: um acesso de preguiça de espírito, congênita, intermitente e providencial, apaga toda luz em sua inteligência, tão bruscamente quanto se pôde depois, com a iluminação elétrica instalada por toda parte, cortar a eletricidade numa casa; o pensamento tateia um instante no escuro, ele tira os óculos, limpa as lentes, passa as mãos nos olhos, e só revê a luz ao deparar com uma ideia toda diferente, a de que seria preciso tentar enviar no mês seguinte seis ou sete mil francos a Odette em vez de cinco, pela surpresa e alegria que lhe causaria.
- Tal “preguiça de espírito” consiste essencialmente em separar em dois o que é um só, em distinguir entre mulher amada e mulher paga, e Proust tem razão em dizê-la “congênita”; mas ela não é própria nem de Swann nem da paixão amorosa, interessa a todo o gênero humano, de que figura o caso principal de ilusão: fazer de um só fato dois fatos divergentes, de uma mesma ideia duas ideias distintas, uma penosa e outra “toda diferente”.
- A cegueira exemplar de Boubouroche (e de Swann) põe na pista do laço muito profundo que une a ilusão à duplicação, ao Duplo: como todo iludido, Boubouroche cinde o evento único em dois, e não sofre de ser cego, mas de ver dobrado; “você viu dobrado”, diz-lhe Adèle a certa altura, em sentido algo diferente, mas surpreendentemente premonitório e significativo.
- A técnica geral da ilusão é fazer de uma coisa duas, como a do ilusionista, que espera o mesmo efeito de deslocamento e duplicação da parte do espectador: enquanto se ocupa da coisa, orienta o olhar para outro lugar, onde nada se passa; assim procede Adèle com Boubouroche: é verdade que há um homem no armário, mas olhe ao lado, veja como eu te amo.
- O ensaio que se segue visa ilustrar esse laço entre a ilusão e o duplo, mostrando que a estrutura fundamental da ilusão nada mais é que a estrutura paradoxal do duplo, paradoxal porque a noção de duplo implica em si mesma um paradoxo: ser ao mesmo tempo ela mesma e a outra.
- O tema do duplo é geralmente associado aos fenômenos de desdobramento de personalidade (esquizofrênico ou paranoico) e à literatura, sobretudo romântica, como se dissesse respeito essencialmente aos confins da normalidade psicológica e, no plano literário, a certo período romântico e moderno.
- Não é o que se verá: o tema do duplo está presente num espaço cultural infinitamente mais vasto, em toda forma de ilusão, já presente, por exemplo, na ilusão oracular ligada à tragédia grega e a seus derivados (duplicação do evento), ou na ilusão metafísica inerente às filosofias de inspiração idealista (duplicação do real em geral: o “outro mundo”).
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