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Jullien

François Jullien

CORNAZ, Laurent; MARCHAISSE, Thierry; JULLIEN, François (ORGS.). L’ indifférence à la psychanalyse: sagesse du lettré chinois, désir du psychanalyste; rencontres avec François Jullien. 1. éd ed. Paris: Presses Universitaires de France, 2004.

A China funciona para [François Jullien] não como objeto de fascínação pela distância ou pelo exotismo, mas como comodidade teórica — um ponto de exterioridade radical que permite recuar em relação ao pensamento europeu e adquirir perspectiva crítica sobre ele.

  • A exterioridade da China se justifica por duas condições únicas: a da língua, que sai do tronco indo-europeu, e a da história, pois, diferentemente do mundo árabe ou hebraico, a China se desenvolveu por longo tempo fora das referências ocidentais.
  • O que legitima a alternativa que a China deixa entrever é o fato de oferecer um mundo de pensamento tão explicitado, comentado e textualizado quanto o europeu.
  • Pascal condensou essa tensão no célebre: qual dos dois é o mais “crível”, “Moisés ou a China”?

O uso que Jullien faz da China é heurístico e estratégico — não propriamente metódico, mas oblíquo: um desvio infinito para sondar o que acontece ao pensamento quando ele rompe com os filosofemas europeus.

  • O desvio pelo chinês visa experimentar o estranhamento do pensamento: o que ocorre quando ele se desprende das línguas de sintaxe e das construções que elas operam, de tudo que trama por baixo as possibilidades do pensamento europeu.
  • Trata-se de um desvio cujos efeitos de retorno foram aguardados desde o início: sondar os pressupostos implícitos e as escolhas soterradas da razão europeia, reencontrando, a partir do exterior chinês, uma tomada efetiva sobre o impensado europeu.

A categoria de “diferença”, usualmente aplicada à China mesmo entre sinólogos, é em parte fictícia, pois pressupõe um quadro comum a partir do qual comparar — quadro esse que simplesmente não existe.

  • Para que haja diferença, seria preciso dispor de um referencial comum no interior do qual comparar e opor East and West; mas a China não se escreveu na mesma página de história que o “nós” europeu.
  • O que Foucault chamava precisamente de “heterotopia” da China — o fato de seu “lugar” ser simplesmente “outro” — está na origem de sua indiferença: os textos chineses, de saída, não nos “olham”; não estão voltados para nós e não fazemos parte sequer de seu horizonte implícito.
  • A dificuldade nunca verdadeiramente superada para o leitor de textos chineses é ter constantemente diante de si coerências que não estão diretamente em relação com as expectativas teóricas europeias e com o que se aprendeu a pensar.
  • A única saída é trabalhar localmente, pacientemente, ponto por ponto, ao sabor das coerências tecidas pelos grandes textos chineses e dos comentários da tradição que os desdobram, tentando progressivamente extravertê-los — colocá-los em face dos próprios questionamentos europeus.
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