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Hofmannsthal

Hugo von Hofmannsthal (1874-1929)

Estética, linguagem e crise da expressão

JANIK, Allan; TOULMIN, Stephen Edelston. Wittgenstein’s Vienna. New York, NY: Simon & Schuster, 1973.

  • A consciência dos problemas centrais da comunicação e da autenticidade moral não se restringe a Karl Kraus e a seus aliados, sendo igualmente manifesta no caso de Hugo von Hofmannsthal, cuja trajetória literária oferece um exemplo paradigmático da tensão fin-de-siècle entre forma estética, linguagem e sentido da vida.
    • A emergência do jovem Hofmannsthal sob o pseudônimo Loris, em 1891, provoca admiração generalizada no círculo da Jung Wien, devido à perfeição formal e à intensidade lírica de sua poesia, percebida como herdeira direta de Goethe e Hölderlin.
      • A unidade entre forma perfeita e capacidade de condensar o permanente no efêmero confere às poesias de Loris o estatuto de modelos de perfeição estética.
      • O choque causado pela revelação de que Loris era um estudante de dezessete anos reforça a percepção de sua genialidade precoce, sintetizada na expressão do “milagre de Hofmannsthal”.
  • A formação cosmopolita de Hofmannsthal constitui elemento determinante de sua obra, penetrando todos os aspectos de sua produção literária.
    • A origem burguesa, combinada com o título nobiliárquico concedido ao pai, insere-o numa posição social híbrida.
    • A herança judaica, as conexões italianas e alemãs e a conversão familiar ao catolicismo romano produzem uma síntese cultural singular.
    • A educação italiana e a familiaridade com a tradição latina impedem o surgimento do conflito típico entre o ideal moral germânico e o esteticismo latino.
    • A ausência de conflito geracional e a inexistência de uma oposição rígida entre arte e vida no ambiente familiar explicam a falta de necessidade de rebelião característica de outros autores vienenses.
  • Esses elementos biográficos ajudam a compreender as particularidades da posição de Hofmannsthal diante do esteticismo europeu.
    • O esteticismo dominante afirma a autonomia absoluta da forma e a identificação da essência da arte com a produção de beleza formal.
    • A oposição entre arte e vida, concebida como universal pelos estetas europeus, é rejeitada por Hofmannsthal.
      • Para outros autores, essa oposição se articula como crítica à ética burguesa e protestante.
      • Em Hofmannsthal, tal antagonismo é impensável, pois a arte não se concebe como separada da totalidade da existência.
  • A concepção hofmannsthaliana da poesia orienta-se pela busca de uma unidade entre o eu e o mundo.
    • A poesia é entendida como lugar de mediação entre subjetividade e objetividade.
    • O jovem Loris busca essa unidade no nível das impressões sensíveis, onde o mundo é apreendido imageticamente.
      • A experiência poética consiste no registro e na articulação dessas impressões.
      • Na imagem poética, conteúdo objetivo e forma subjetiva coincidem.
  • A filosofia do conhecimento de Ernst Mach oferece a Hofmannsthal um fundamento teórico que parece legitimar sua experiência poética.
    • A redução do mundo às sensações confirma a primazia da experiência sensível.
    • A ciência, ao recorrer à matemática, afasta-se da imediaticidade das sensações.
    • A poesia, ao contrário, parece capaz de expressar a realidade de modo mais direto e completo.
      • O poeta seria, assim, mais fiel à realidade do que o cientista, por permanecer no plano da experiência imediata.
  • A questão decisiva passa a ser a possibilidade de coincidência entre objetividade e subjetividade na imagem sensível.
    • Hofmannsthal encontra uma resposta provisória na tese platônica da preexistência.
      • Todas as almas participam de uma unidade originária com o universo.
      • O conhecimento se identifica com a reminiscência.
    • A função da lírica consiste em despertar harmonias latentes, revelando um sentido oculto da existência.
  • As primeiras obras dramáticas e poéticas de Hofmannsthal refletem essa preocupação com a morte e a preexistência.
    • A temática da morte aparece como via de acesso ao limite da linguagem.
    • Essa preocupação juvenil prepara o reconhecimento posterior da insuficiência do esteticismo.
  • Na fase inicial, o sentido da vida não se apresenta como problema para Hofmannsthal.
    • A passividade estética permite uma fusão mística com a totalidade da criação.
    • A poesia emerge espontaneamente, como expressão de uma fonte interior inesgotável.
    • Essa condição se rompe por volta dos vinte e cinco anos, quando ocorre uma crise radical.
      • Surge a consciência do egoísmo implícito na postura estética.
      • A escrita poética torna-se impossível.
  • A crise da linguagem encontra sua expressão literária decisiva na Carta de Lord Chandos.
    • A incapacidade de pensar e falar coerentemente simboliza a falência da palavra poética.
    • A percepção do sentido do mundo persiste, mas não pode mais ser verbalizada.
    • A linguagem revela-se inadequada para expressar aquilo que é mais essencial à vida.
  • A perda da fé na palavra poética não implica ausência de conteúdo, mas inadequação do meio de expressão.
    • O problema não é o silêncio absoluto, mas a inexpressabilidade dos valores últimos.
    • A crise aponta para os limites intrínsecos da linguagem na abordagem do sentido da vida.
  • Diante da falência do esteticismo, impõe-se a necessidade de um novo meio de comunicação.
    • A rejeição do esteticismo conduz à busca de uma forma capaz de ensinar a pensar com o coração.
    • Essa busca leva à colaboração com Richard Strauss e à redescoberta do teatro barroco espanhol.
    • O teatro passa a ser concebido como meio de transformação ética e existencial.
  • A raiz da crise de Lord Chandos reside na descoberta do caráter moralmente empobrecido da lírica impressionista.
    • A exclusão da dimensão moral configura uma distorção da realidade.
    • A crítica implícita ao sensualismo machiano revela a insuficiência das teorias baseadas apenas em impressões sensíveis.
      • As questões fundamentais da vida não podem ser representadas imageticamente.
  • A solução artística de Hofmannsthal assume a forma do Gesamtkunstwerk.
    • A unificação das artes visa produzir uma experiência simultaneamente social e religiosa.
    • A arte deixa de representar o mundo para buscar a transformação da vida.
    • A ópera e o teatro alegórico tornam-se instrumentos privilegiados dessa tarefa.
  • As obras tardias encenam a condição existencial do ser humano e sua redenção do egoísmo.
    • O núcleo ético dessas obras está enraizado na ideia de agape cristã.
    • A arte assume uma função socializadora e redentora.
  • A revalorização do legado barroco habsburguês fundamenta a visão cultural de Hofmannsthal.
    • Esse legado é concebido como base de uma cultura humanista universal.
    • A arte é investida de uma missão profética de humanização da sociedade moderna.
  • A problemática da linguagem em Hofmannsthal ilustra uma hipótese mais ampla sobre a cultura vienense.
    • A consciência dos limites da linguagem torna-se condição inevitável para artistas e intelectuais do período.
    • Essa problemática manifesta-se de modo convergente em diferentes campos do pensamento e da arte.
  • Outros autores vienenses enfrentam a mesma questão sob formas distintas.
    • A experiência do silêncio e da clausura do eu caracteriza a literatura pré e pós-guerra.
    • A linguagem revela-se incapaz de mediar a subjetividade mais profunda.
  • A reflexão de Musil exemplifica a persistência desse problema.
    • A impossibilidade de traduzir a experiência interior em palavras constitui o núcleo de sua obra.
    • A literatura surge como alternativa à filosofia, incapaz de resolver seus próprios impasses conceituais.
  • Em síntese, por volta de 1900, os problemas da comunicação, da autenticidade e da expressão simbólica encontram-se plenamente formulados.
    • O terreno está preparado para uma crítica filosófica geral da linguagem.
    • Essa crítica será desenvolvida à luz de três tradições filosóficas fundamentais: o neoempirismo de Mach, o criticismo kantiano e suas derivações, e o anti-intelectualismo ético-religioso de Kierkegaard e Tolstói.

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