SOBRE A TEOLOGIA
A filosofia é o esforço do homem para tomar consciência da realidade da maneira mais completa. O inventário das possibilidades da reflexão, na perspectiva clássica, divide-se em três capítulos principais: o homem, o mundo e Deus. A doutrina de Deus constitui a primeira parte, e a mais decisiva, da metafísica como um todo. Deus constitui o horizonte mais amplo para o uso do pensamento, e é em função de Deus que as outras realidades se estabelecem.
Esse esquema tripartido tem sido alvo de diversas críticas, mas não se pode dizer que tenha sido definitivamente abandonado…
… A eliminação de Deus implicaria uma supressão da própria metafísica, algo a que a maioria dos pensadores de hoje não se resigna. Mesmo aqueles que afirmam a morte de Deus não suprimem, como veremos, a função filosófica da ideia de Deus. Deus permanece, portanto, uma vertente da filosofia; mas, embora seja sempre um objeto de reflexão, não é um objeto como os demais. Está bem estabelecido, pelo menos desde Kant, que, se é possível construir um discurso coerente sobre o homem ou o mundo, o mesmo não se aplica a Deus…
… É claro que, se nos afastarmos das representações grosseiras do senso comum religioso, Deus não se apresentaria a nós de maneira análoga. Ele não se encontra em lugar algum e, por definição, qualquer representação que pretendesse torná-lo admirável trairia, ao mesmo tempo, a autenticidade de sua essência. O simples fato de nomeá-lo deveria fazer explodir a linguagem humana, incapaz de suportar tal carga, como, aliás, afirma incansavelmente ao longo da história da espiritualidade a tradição da teologia negativa. Um mesmo discurso não poderia valer tanto para o homem quanto para Deus — ou então uma mesma palavra deveria assumir significados radicalmente diferentes. Se for verdadeira para o homem, não diz respeito a Deus; se for verdadeira para Deus, não poderia dizer respeito à ordem humana.
Vê-se aqui plenamente a dificuldade prejudicial com que se depara a afirmação da filosofia clássica: o sistema pretende realizar um dispositivo de equilíbrio triangular por meio de uma habilidosa negociação das relações entre o homem, o mundo e Deus, considerados, em última análise, como três perspectivas convergentes sobre uma mesma realidade. De fato, a teologia, a psicologia e a cosmologia racionais reúnem o real sob a invocação de uma obediência totalitária, sendo o denominador comum entre as três subdivisões fornecido pela pretensão de racionalidade. G. Gusdorf, Traité de Métaphysique, A. Colin, 1956, p. 370-371.
