User Tools

Site Tools


gusdorf:tm:start

TRATADO DE METAFÍSICA

PRIMEIRA PARTE. O QUE É A METAFÍSICA? [5]

CAPÍTULO I. A CONVERSÃO METAFÍSICA. [7]

O problema do começo da filosofia na história. Crítica do mito de Sócrates e da definição restritiva e ocidental da metafísica. Tempo da filosofia e tempo humano. Pode haver uma filosofia sem filósofos? O fator humano resiste às diversas reduções. A meditação abre um caminho de uma questão a uma resposta. Movimento perpétuo.

A filosofia em partida. O obstáculo das instituições e a hipoteca universitária. O batismo metafísico do espanto e o círculo vicioso do sistema. Filósofos da questão e filósofos da resposta. Toda doutrina tende a renegar suas origens humanas, mas toda doutrina é, na realidade, a encarnação de uma história espiritual. Qual é o verdadeiro Descartes?

A conversão como passagem de linha é ininteligível. O racionalismo diante do escândalo de um choque de retorno da existência sobre a essência. O recurso inevitável ao mito. A verdade como linha de vida. O sentido do acontecimento. A resolução filosófica. O terremoto e a vida nova. A segunda conversão, que anula a primeira. Não se deve matar o tempo. O metafísico é um revelador do mundo. Todo fim é um recomeço.

CAPÍTULO II. A VERDADE EM METAFÍSICA. [44]

A ilusão de soberania metafísica: reis e filósofos. O despotismo da razão e o fim da história. O filósofo não é o senhor do tempo. A verdade não pertence propriamente a ninguém. A metafísica figura a conversação da humanidade consigo mesma ao longo da história. Mestre e discípulo. A obra filosófica como meio de comunicação. O sentido da repetição e a recolocação em jogo das significações. A verdade como pacto de comunicação. O serviço da verdade realiza-se no testemunho. A figura fugada da história da filosofia. O grande filósofo e os comentadores: a verdade última justifica uma comunidade de invocação.

CAPÍTULO III. GÊNESE DA METAFÍSICA. [61]

A metafísica é o olhar humano que assume o mundo. As bases pré-reflexivas da organização do mundo. O sono dogmático do instinto e o despertar do pensamento. A palavra marca a entrada no mundo do mito. O dogmatismo das liturgias de repetição imobiliza o gênero de vida. Do mito à metafísica: o estado de problema. A idade dos Impérios e a entrada na história. O comportamento categorial mede o novo espaço vital. A não violência e a unidade na diversidade da vida social ou da vida pessoal. A metafísica, sublimação e arbitragem dos instintos e dos mitos, cuja recorrência não cessa de exercer-se sobre a consciência. O filósofo esforça-se por conjurar a desorientação do homem no mundo e a insegurança da história. A reflexão traz a história à razão; reagrupa os poderes do conhecimento doravante repartidos entre especialistas. A função específica do filósofo.

CAPÍTULO IV. CIÊNCIA E METAFÍSICA [82]

Solidariedade originária da física e da metafísica. A ciência ameaçada pelo dogmatismo teológico e pelo dogmatismo metafísico. A autonomia do campo experimental e a constituição das ciências do homem. A afirmação cientificista e a promoção metafísica da ciência. Seu fracasso. O neopositivismo do Círculo de Viena e sua crítica. O filósofo fascinado pela matemática. A conceitualização científica não recobre a totalidade do domínio humano. As ciências positivas necessitam de um fundamento metafísico. O complexo de inferioridade de dupla entrada do sábio e do metafísico. O partido do homem e o partido das coisas. A metafísica deve desprender o sentido da unidade humana, fazendo justiça a todos os testemunhos legítimos.

CAPÍTULO V. CRÍTICA DO ABSOLUTO. [102]

O absoluto ou a pedra filosofal. Esplendor e miséria da filosofia geral. O paradoxo da participação do relativo no absoluto, chaga aberta do dogmatismo. Mas a referência ao absoluto designa a apreensão originária do ser, cuja experiência se situa para além do discurso. A experiência e a eternidade no tempo entre os místicos e entre os filósofos. O absoluto é o sagrado do metafísico. Teologia e metafísica como empreendimentos de rememoração do absoluto. A revelação histórica do crente e a ideia verdadeira dada ao pensador. Perigo do absoluto como incógnito que permite ao pensador ausentar-se de seu pensamento. O absoluto não é senão o foco imaginário de um campo mental e espiritual. A realidade humana do absoluto como expressão total. Meu coração desnudado ou a escatologia da existência. Mas a experiência do absoluto não é uma experiência absoluta. O desejo de ser Deus. A invocação do absoluto não resolve nada e destrói a realidade humana. Inventário dos absolutos metafísicos. Todo conceito levado ao absoluto se volatiliza. Necessidade de renunciar ao separatismo de uma revista dos dois mundos. O absolutismo como patologia da verdade. Desgaste e declínio dos absolutos.

CAPÍTULO VI. ESPECIFICIDADE DA CONSCIÊNCIA METAFÍSICA. [133]

Morte e ressurreição da metafísica. A metafísica como consciência e não como conhecimento. Não possui conteúdo exclusivo, mas recoloca em jogo todas as significações. A questão metafísica é a questão da questão. A realidade humana em sua integralidade pessoal. A presença no mundo para além dos deciframentos especializados da experiência. Nenhuma ingenuidade radical, mas uma exegese indefinida das expressões humanas. A metafísica, dimensão específica do ser humano, e tomada de consciência da história sobrenatural da pessoa. Exemplo: o sentido da morte. A interrogação metafísica deve manter com vigilância o partido do homem. Nenhuma garantia sobre o ser. Vir ao mundo.

BIBLIOGRAFIA (da 1ª parte) [155]

SEGUNDA PARTE. O HOMEM NO MUNDO [159]

INTRODUÇÃO. OS TEMAS DA METAFÍSICA: O HOMEM, O MUNDO, DEUS. [161]

A evacuação cientificista ou intelectualista da realidade humana e a restauração atual da metafísica. Redescoberta da pessoa, do meio, da encarnação e do Deus vivo. Solidariedade dos temas da metafísica.

PRIMEIRA SEÇÃO. ANTROPOLOGIA. [167]

CAPÍTULO I. O ESCAMOTEAMENTO DO HOMEM NA FILOSOFIA. [167]

A filosofia como escola de desumanização e o postulado da permanência do homo philosophicus. A metafísica ligada às ciências do homem. O antropomorfismo mais perigoso é aquele que se ignora. A tradição metafísica do dualismo e a partilha do homem entre o sensível e o inteligível. O paradoxo cartesiano do pensador estranho ao próprio corpo. O monismo spinozista e o ensaio de axiomatização racional da vida pessoal. A antropologia kantiana. Materialistas e idealistas contemporâneos concordam em manter o dualismo. O homem real não é um objeto filosófico. O homo sapiens em falso em relação à existência. As filosofias da existência, apesar das aparências, não renovam a posição do problema. O ser encarnado segundo Gabriel Marcel. O corpo psíquico segundo Sartre; desconhecimento da história natural e da história social. Estrutura e significação em Merleau-Ponty. O impasse da fenomenologia. Uma filosofia total não deve limitar-se a uma exegese da linguagem. O espírito, uma vez separado do real, não o reencontrará mais: desvios do ocasionalismo e do imaterialismo. Absurdo da tese do soberbo isolamento do espírito. A consciência não é uma substância, mas uma função. A soldadura do corpo e do espírito: o complexo humano é sua própria medida de inteligibilidade.

CAPÍTULO II. A ENCARNAÇÃO. [210]

A condenação racionalista do corpo. Filosofias da natureza e filosofias do espírito como pensamentos da totalidade. O corpo como domínio privado. O corpo próprio segundo Gabriel Marcel não é o organismo. O corpo como para outrem em Sartre perpetua a tradição dualista e não leva em conta os dados da biologia. O corpo, sentido encarnado, berço das significações segundo Merleau-Ponty. Papel do esquema corporal. Mas o esquema corporal é o resultado de uma elaboração da experiência. A formação da individualidade no primitivo e na criança. A experiência do espelho. Nenhuma especificidade da ordem biológica no homem. Crítica do ocasionalismo de Merleau-Ponty, prisioneiro de uma epistemologia idealista no nível das significações. Os limites da fenomenologia. Por uma epistemologia da complementaridade. A unidade da relação causal e da significação vivida. A pesquisa biológica é uma parte do espaço cultural. O corpo, a matéria, são constituídos por sentidos impostos ao pensamento. A medicina psicossomática suprime a linha de demarcação entre corpo e espírito. A biologia da individualidade e o monismo da personalidade. A patologia do corpo próprio exprime uma apreensão em valor do domínio vital. O corpo, primeira ordem da experiência e fundamento da vida privada. É a revelação natural do ser humano. Corpo e finitude: tomar conhecimento do próprio corpo.

CAPÍTULO III. OUTREM. [250]

Caráter solidário da consciência. O terceiro homem: Eu é um outro, o outro é um Eu. A “insularização da consciência” no racionalismo clássico.

Sociologia da reabilitação de outrem no pensamento contemporâneo. A existência em participação no primitivo. A sensibilidade social da criança pequena e a democracia escolar segundo Piaget. A contribuição da psicanálise. Gênese do alter ego segundo as psicologias das profundezas.

A interpretação filosófica. As ambiguidades de Sartre e a concorrência das fenomenologias. A simpatia segundo Scheler. Solidão e comunidade. Insuficiência do método fenomenológico e necessidade de um partido ético. Papel indutor da presença de outrem. Interioridade mútua das existências; a comunicação, contudo, não deve encontrar sua apoteose numa mística da identidade. O limite da finitude mantém a relação entre os homens numa incerteza última. Outrem, ao mesmo tempo dado e postulado, supõe um risco irredutível e uma opacidade residual, apenas Deus podendo arbitrar soberanamente a comunicação.

BIBLIOGRAFIA (da 1ª seção da 2ª parte) [289]

SEGUNDA SEÇÃO. COSMOLOGIA [293]

CAPÍTULO IV. O MUNDO NATURAL. [293]

A hostilidade do filósofo para com o mundo. O universo do discurso mascara o mundo natural. Dificuldade de acesso ao pré-reflexivo. A constituição do objeto pela neutralização da presença e o acosmismo intelectualista. É preciso seguir o movimento pelo qual a consciência vem ao mundo. O pacto de aliança entre o eu e o resto: por um nativismo do mundo humano. O mundo como englobante e como horizonte, como espaço vital orientado. A pluralidade dos mundos: os mundos dos animais e os mundos humanos. Especificidade do mundo humano: alargamento do raio de ação material, mental, espiritual. O cosmos e a transfiguração da natureza. Do cosmos mítico ao universo dos sábios. O mundo inteligível da teoria física não passa, contudo, de uma espécie de mito do espírito. O mundo real transcende todos os números; o sistema do mundo não suprime o mundo. A terra dos homens permanece o centro metafísico do universo. O mundo do artista. Os mundos pessoais são espaços-tempos indefinidos.

CAPÍTULO V. O MUNDO CULTURAL. A HISTÓRIA. [333]

Nenhuma filosofia sem pano de fundo. O cosmos metafísico e a expansão do céu. A perda do lugar ontológico e a descoberta moderna do meio pelas ciências humanas; o acosmismo dos metafísicos e o espaço-tempo vital do reino humano. A categoria da evolução e a história natural da humanidade. O sentido cósmico situa a filosofia segundo a flecha do devir. A categoria da cultura e a história da civilização. Emergência da variável histórica com a tomada de consciência do devir humano. A filosofia da história esforça-se por reconduzir a história à razão, mas o historicismo consagra o fracasso desse empreendimento. A relatividade histórica das concepções do mundo e a sociologia do conhecimento. Possibilidade de um monismo da totalidade pela mediação da cultura histórica.

A encarnação social do ser humano está ligada à encarnação biológica. Criação continuada da humanidade no homem. Antropologia e sociologia. Historicidade do ser humano, a personalidade de base. A elaboração do mundo: o fator técnico e sua função. A metafísica não deve desinteressar-se da luta pela vida cotidiana. Encarnação e alienação. A civilização se faz todos os dias.

BIBLIOGRAFIA (da 2ª seção da 2ª parte) [367]

TERCEIRA SEÇÃO. TEOLOGIA [370]

CAPÍTULO VI. O HOMEM E DEUS. [370]

O esquema tripartido da filosofia clássica e os paradoxos da razão triunfante. É impossível falar de Deus e, contudo, necessário reservar-lhe um lugar. O metafísico retira seu Deus da cultura religiosa estabelecida e dos mitos reinantes. O sentido do sagrado e sua expansão cosmológica. A função Deus, horizonte necessário da meditação. Gênese recíproca do homem e de Deus.

Erro do teólogo e do filósofo, se pretendem realizar um discurso coerente relativo a Deus. O panteísmo é o desfecho do racionalismo ontológico. A teodiceia da razão e as provas da existência de Deus. A razão e a fé, e o fracasso das tentativas de conciliação. O pressuposto histórico da revelação permanece irredutível. Demonstração ou mostração. Os mitos religiosos formam o conteúdo hipotético-dedutivo da razão formal. Daí o fracasso das reduções críticas da fé por critérios puramente intelectuais: redução patológica, analítica, cultural, humanista. O ateísmo contemporâneo. Impossibilidade de eliminar a transcendência do sagrado, que permanece princípio de orientação transcategorial.

A significação da relação do homem com Deus. O aspecto teórico, o aspecto prático, o aspecto sociológico da afirmação religiosa. As degenerescências da fé. A relação viva com o Deus vivo. Nenhuma theologia perennis. O caminho do metafísico não é o atalho místico. O testemunho como comunicação indireta. Dificuldade de um ateísmo propriamente dito. Funções de Deus: o criador do mundo, o pai da graça, mantidas pela teologia da ausência e da revolta. Nenhuma negociação de igual para igual entre o homem e Deus. A última palavra da existência humana não pertence ao homem.

BIBLIOGRAFIA (da 3ª seção da 2ª parte) [425]

CONCLUSÃO. LIBERDADE, VALOR, RAZÃO [429]

O declínio dos absolutos também se produz na metafísica. Nenhum repertório de soluções adquiridas de uma vez por todas. O homem real não é somente o homem do biólogo, nem o do médico, nem o do psicólogo, do historiador ou do sociólogo. Realiza um fenômeno de totalidade irredutível a este ou àquele de seus aspectos. Apenas o homem pode dar conta do homem. Por uma metafísica da emergência e por uma concepção não euclidiana e não cartesiana da vida pessoal; categorias da precariedade, da criação, da finitude.

Absurdo da exigência de uma liberdade radical, liberdade contra Deus, contra o mundo, contra outrem e contra si mesmo. Tradição da liberdade ocidental. O atualismo prometeico desconhece o sentido da situação. A liberdade em condição numa ética da pessoa. A mesma alternativa do tudo ou nada falseia o sentido da afirmação de valor. O homem não pode pretender uma soberania absoluta de direito divino. A axiologia não é uma teodiceia, mas há uma especificidade humana dos valores, irredutível às críticas naturalistas. O homem identifica a si mesmo ao identificar seus valores. Pluralismo axiológico e coexistência pacífica. Cada homem deve passar por sua própria conta do caos ao cosmos. A razão não pertence a ninguém. Corresponde ao conjunto dos esquemas operatórios para o bom uso do mundo e de si. A luta pela vida espiritual.

gusdorf/tm/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki