0 Prefácio
BRASSIER, Ray. Nihil Unbound: Enlightenment and Extinction. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2007.
1. Na primeira epígrafe, de Nietzsche em 1885, desde Copérnico o homem vem rolando do centro em direção a X.
2. Na segunda epígrafe, de Steven Weinberg em 1978, quanto mais o universo parece compreensível, mais parece também sem sentido.
3. O termo niilismo tem algo de batido, pois se escreveu demais sobre ele e a urgência que talvez comunicasse foi embotada pela superexposição, restando um vocábulo marcado por familiaridade enfadonha e indeterminação nebulosa, mas poucos temas filosóficos prendem tão imediatamente quem não se interessa por filosofia quanto a tese do niilismo em sua acepção mais ingênua, a de que a existência não tem valor, afirmação aparentemente banal que guarda profundezas ainda não sondadas pelos filósofos, apesar da abundância de livros e artigos eruditos.
4. Embora a literatura filosófica sobre o niilismo seja vasta e inclua obras importantes, algo de importância filosófica fundamental permanece não dito e enterrado sob as eruditas dissertações sobre suas origens históricas, ramificações contemporâneas e implicações de longo prazo, aspectos tão mapeados que o modo mais simples de esclarecer o propósito do livro é dizer o que ele não faz.
5. O livro não trata o niilismo como doença a diagnosticar e curar, nem exalta o pathos da finitude como baluarte contra a húbris metafísica, como Critchley, nem celebra a indeterminação da interpretação como libertação do universalismo opressivo do racionalismo iluminista, como Vattimo, nem reafirma a autoridade da razão contra o ceticismo e o irracionalismo, defendendo Platão contra o existencialismo heideggeriano, como Rosen, ou Hegel contra o pós-estruturalismo francês, como Rose, nem oferece uma genealogia conceitual do niilismo, como Cunningham, uma pré-história crítica do problema, como Gillespie, ou um panorama de suas ramificações na filosofia e na literatura dos séculos XIX e XX, como Souche-Dagues.
6. Duas teses fundamentais sustentam o livro, a primeira de que o desencantamento do mundo, consequência do processo pelo qual o Iluminismo rompeu a grande cadeia do ser e desfigurou o livro do mundo, é efeito necessário da potência fulgurante da razão e vetor revigorante de descoberta intelectual, não uma diminuição calamitosa, ideia inspirada na obra de Jonathan Israel, corretivo salutar à onda de revisionismo anti-iluminista com que tanta filosofia do século XX foi cúmplice, devendo o desencantamento ser celebrado como conquista da maturidade intelectual, e a segunda de que o niilismo não é, como sustentaram Jacobi e tantos depois dele, uma exacerbação patológica do subjetivismo que anula o mundo e reduz a realidade a correlato do eu absoluto, mas o corolário inevitável da convicção realista de que há uma realidade independente da mente, indiferente à existência humana e alheia aos valores e sentidos com que se pretende revesti-la para torná-la mais hospitaleira, já que a natureza não é lar de ninguém nem progenitora benevolente e a filosofia deveria deixar de exortar ao restabelecimento do sentido da existência e da concórdia entre homem e natureza, não sendo um consolo para a autoestima humana, de modo que o niilismo não é um dilema existencial, mas uma oportunidade especulativa, já que o pensamento tem interesses que não coincidem com os da vida e podem ser opostos a eles, possibilidade investigada aqui de modo reconhecidamente insuficiente, como incursão preliminar a desenvolver em trabalhos posteriores.
7. O livro divide-se em três partes, a primeira, Destruir a imagem manifesta, que parte da distinção de Wilfrid Sellars entre as imagens manifesta e científica do homem-no-mundo, examina o impasse entre as pretensões normativas da psicologia popular e uma ciência da cognição que eliminaria a crença na crença para reintegrar a mente à imagem científica, analisa a crítica de Adorno e Horkheimer à racionalidade científica em nome de outra relação entre razão e natureza inspirada em Hegel e Freud e expõe a crítica de Meillassoux ao correlacionismo kantiano-hegeliano, apontando as dificuldades de sua reabilitação da intuição matemática, a segunda, Anatomia da negação, que examina como Badiou contorna essas dificuldades com uma concepção subtrativa do ser que evita o idealismo da intuição ao custo de um idealismo da inscrição e busca, a partir de Laruelle, sair do impasse entre o idealismo da correlação e os da intuição e da inscrição matemáticas com um realismo especulativo regido por uma lógica não dialética da negação, e a terceira, O fim do tempo, que põe essa lógica em prática reconstruindo criticamente a função ontológica da relação entre morte e tempo em Ser e tempo de Heidegger e em Diferença e repetição de Deleuze e recapitulando a narrativa nietzschiana da superação do niilismo antes de propor uma reinscrição especulativa da pulsão de morte freudiana, cuja sublimação é a chave do vínculo íntimo entre vontade de saber e vontade de nada.
