DA CONSTITUIÇÃO DE UM OBJETO TÉCNICO (ABELLIO)
Na visão do filósofo Raymond Abellio (RA1965, RA1981 e RA1989), um processo mais denso e complexo se dá na constituição de um objeto técnico, que é o processo de gênese ou de instituição do “eu” que deste objeto se apropria. Um processo em que “sujeito” e objeto técnico se configuram, sob tensão permanente, como polos de uma díade, em co-gênese mútua. Em outras palavras, “eu” e técnica são, neste processo, o zênite e o nadir, ou seja, os extremos de um eixo ordenador na gênese e desenvolvimento de ambos.
Esse processo, cujas etapas respondem pela instituição do “eu” e pela constituição do objeto técnico, simultaneamente, responde também pela ascensão progressiva da Razão a um determinado lugar e papel, no indivíduo e na sociedade.
Dado o próprio caráter “iniciatório” do processo de instituição do “eu”, Abellio identifica suas etapas a “ritos de passagem” nesta gênese. Usando, com reservas, uma terminologia religiosa, Abellio denomina as etapas desta gênese “sacramentos”, que etimologicamente diríamos que podem significar “fazimentos sagrados”, parafraseando Darcy Ribeiro.
Assim sendo, entre o momento da etapa de concepção e o da etapa de nascimento, quer dizer durante a gestação propriamente dita, segundo Abellio, faço parte das “águas indiferenciadas” no seio de minha mãe. Não sou “ser-no-mundo” mas “ser-antes-do-mundo”. Embora apenas indicativa, pode soar confusa esta colocação de Abellio, pois se apropria de uma expressão de Heidegger, “ser-no-mundo”, que poderia ser aplicada a todos os “rituais de passagem” analisados por Abellio, dependendo do entendimento que se tenha de mundo, mundanidade.
Para Abellio, cabe aí uma questão: que “eu” é este que aqui fala e que tem ele de comum com este outro “eu”, imerso nas “águas indiferenciadas”? De imediato deparo com a contradição ou ilusão de toda explicação genética, que não poderia jamais ser uma explicação radical, na medida que se apoia sempre sobre o saber atual disto mesmo que a gênese deve explicar. De imediato, me vejo tratando do inacabado em termos de acabado, e digo inocentemente: eu fui ou eu sou, enquanto eu resto a ser.
É um fato: o “eu” que aqui fala é o “eu” atual, tal qual se tornou e ainda se torna. Ele apenas lança um olhar objetivante, e, por conseguinte, alienante, sobre este embrião de onde veio e cujo olhar próprio ele, daqui onde se encontra, não pode afirmar conhecer. Embrião cujo “mundo”, “mundanidade própria”, de onde observo, desconhece por completo. E nada, com efeito, não me permite dizer que o embrião também não tenha também seu olhar, embora este seja para este eu aqui e agora, como se jamais tivesse sido, ou, pelo menos esteja encoberto por camadas e camadas de novas vivências.
Assim, toda reserva deve ser feita desde o inicio sobre o caráter imperfeito da visão deste “eu”, que é, pode-se dizer, duplamente inocente, no sentido que é inocentemente objetivo, pois “vê”, de fora, o embrião do qual originou, como um objeto banal semelhante a todos os embriões humanos, e também uma visão inocentemente subjetiva, pois se associa a uma visão “histórica”, provavelmente provisória e em todo caso localizada e limitada ( Abellio1965, p. 37 ).
Dessa maneira, segundo Abellio, percebe-se que todo discurso radical sobre a gênese do “eu”, ou seja, sobre sua plena instituição, em sua dimensão espacial e temporal, será, portanto, um convite a nos fazer sair da objetividade e da subjetividade ingênuas, e pode-se mesmo pensar que esta necessidade que temos de reconhecer em tudo que vemos, estruturas invariantes, e mesmo esta confiança intuitiva que temos no termo estrutura, indicam uma certa crença na possibilidade de “ir além” das aparências.
Retomando as etapas ou os sacramentos, definidos por Abellio, temos primeiramente, a “Concepção”, enquanto evento que me constitui como “ser-no-mundo”, porém um mundo ainda pouco diferenciado no seio de minha mãe, guardando uma certa analogia com as “águas indiferenciadas” do Gênesis bíblico.
Ao final da gestação tem lugar a segunda etapa, o “Nascimento”, por meio do qual se dá meu posicionamento diante do mundo, criando a primeira distancia, o primeiro Mit-sein (ser-com) sem que “eu” o saiba, obrigatoriamente. Meu nascimento é uma abertura da transcendência diante de todos os olhos que me cercam, embora ainda não o seja, para os meus próprios olhos.
Durante a infância o poder separador de meus sentidos desenvolve-se, gradativamente ampliando minha distância do mundo, em outros termos, intensificando esta transcendência iniciada com o Nascimento. Nas águas indiferenciadas, nenhuma separação me era perceptível; a vida de minha mãe era minha vida, sua morte geralmente minha morte, e meu “eu”, neste caso se dissolvia no dela.
O Nascimento significa uma separação, fundando o mundo “para-mim”, mas ainda de forma difusa, sob meu olhar ainda despreparado, pois para meus sentidos, que começam a “tatear”, e que nem reconheço ainda como meus, este mundo ainda mal me pertence. Vejo uma série de modos mais e mais complexos do mundo; não há apenas um mundo, mas uma série indefinida de “modos” do mundo.
Neste sentido, o sacramento seguinte, o “Batismo”, seria a etapa na qual, justamente, me torno consciente de meus sentidos. Onde adquiro a capacidade de perceber que percebo e onde uma relação é assim conscientemente percebida por mim, entre “eu” e mundo. Ou seja, quando desperta a consciência das sensações, ou dos próprios sentidos, mediadores entre sujeito e objeto, e uma relação passa a ser conscientemente percebida entre homem e mundo de objetos.
No Batismo, intensifica-se a consciência da relação sujeito-objeto, em detrimento da antinomia de seus polos (sujeito e objeto), em outros termos, reconhece-se, mais e mais, que a noção de objeto guarda sempre subjacente a si, a de sujeito, e vice-versa.
A etapa seguinte, a “Comunhão”, intensifica a experiência do “Batismo”. Por meio dela, aprofunda-se mais essa “percepção da percepção”, transfigurando a relação sujeito-objeto de tal maneira, que tem início uma nova percepção: a de sujeito em um mundo de sujeitos, e não apenas de objetos. De fato, manifesta-se um novo modo de presença do “eu” e de atuação da Razão, que permite ao ser humano reconhecer também a importância da intersubjetividade na continuidade da gênese do “eu”; agora assegurada pela postura de sujeito, em um mundo de sujeitos…
Segundo Abellio, as etapas não são todas obrigatoriamente percorridas, até sua conclusão, a plena instituição do “eu”. Da mesma forma, as passagens de uma para outra não são instantes, mas transcursos. Segundo uma visão justa, não existiria qualquer gênese linear, pois tudo estaria se dando ao mesmo tempo, o que tornaria impossível todo discurso e mesmo toda denominação, obrigatoriamente sujeitas a linguagem, em seu percurso linear de natureza espaço-temporal. Com efeito, para Abellio, nomear é estabelecer, ao mesmo tempo, não apenas um espaço de conexões, mas também caminhos e um tempo de percurso, nestas mesmas conexões.
Das águas indiferenciadas até a instituição do “eu”, pode-se notar que tudo que percebemos, ou imaginamos, ou pensamos, não é o que somos radicalmente, enquanto pura subjetividade. Não somos estes objetos que percebemos, não somos as imagens que se oferecem, não somos as noções que pensamos, nem o discurso que sustentamos. Como pura subjetividade, profere-se “eu”, e em seguida, percebe-se, imagina-se e cogita-se, alguma coisa, que é objeto em relação a este “eu”, ou seja, em relação a este princípio radical de cada subjetividade, este ato de ser. (Allard l’Olivier, 1977 (AOIC))
Quanto à constituição progressiva, após a etapa de “Concepção”, do chamado “ob-jeto”, entendido como “isto-posto-adiante” do “eu” (este último sendo o princípio radical que atribui existência ao objeto), é preciso compreender que este objeto é sempre definido (nomear um objeto, com efeito, é torná-lo uma ferramenta, nem que seja um instrumento de linguagem; mas a utilidade nada mais é que uma banalização da verdade, ela não revela o objeto ou o ente enquanto tal), no seu ser, pelo estabelecimento de um conjunto aberto de relações, lhe conferindo funcionalidade, utilidade, mas sem revelá-lo em todo seu ser, que também guarda em si o mistério de meu próprio ser, enquanto subjetividade pura. Esta relação que une subjetividade pura ou radical a objeto, pode ser denominada intenção, como preconiza Husserl; o ser desta intenção, o ser do objeto e o ser do sujeito, a subjetividade, se configuram, portanto, como momentos ou modalidades da intencionalidade 1).
- primeiro, o livro sobre a mesa é parte do mundo, e se tornar visível é um destaque do mundo, pois o mundo não é uma soma ou agregado mas a condição a priori de destaques, aparições, ou seja, o mundo é aqui um suporte unitário e global de possíveis destaques do mesmo; o mundo deve portanto ativar para “mim”, pôr diante de “mim”, algo até então passivo, algo candidato a objeto; não cabe aqui um debate sobre a primazia do mundo ou do corpo na percepção, ou seja, quem dispara a percepção; seria um debate semelhante àquele que tenta descobrir quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha; o fato é que uma espécie de corrente ou fluxo se estabelece entre o mundo e algo candidato a objeto, que surge ou se destaca do mundo; o livro que vejo é algo do mundo que se faz posto diante de mim, portanto um objeto do mundo, e para que seja visível, deve se destacar de alguma maneira sobre um fundo que assim se torna mais ou menos distinto; este fundo, o mundo enquanto suporte de todos os surgimentos que se candidatam a objetos, é transparente, não recai sobre a minha visão, mas é o horizonte que a torna efetiva, a sustenta;
- segundo, algo a ser um objeto qualquer, se destacando do mundo, ou sendo individualizado do mundo, se torna por conseguinte ativo em relação a este último, que, por sua vez, se torna passivo; o mundo se mantém assim enquanto fundo mais ou menos indistinto, verdadeiro suporte unitário e global de candidatos a objetos, ou seja, condição a priori da emergência deste mesmo candidato a objeto; neste sentido, é que o mundo se apresenta como “pano de fundo”, horizonte de objetividade, não “visível” em si, mas que assegura, por sua vez, a visão de candidatos a objetos …
- o candidato a objeto destacando-se, tomado por um sentido como a visão e tomando o sentido que o eleje objeto (um jogo de palavras que indica tanto o fato do objeto ganhar presença nos órgãos de sensação, como também significado), rejeitando certa indistinção com o resto do mundo, estabelece com este último, no entanto, uma primeira relação ou razão do tipo Objeto/Mundo; pode-se mesmo dizer que tal objeto se tornou ativo em relação ao resto do mundo, considerado então passivo; existe assim, e sempre existirá, uma dualidade forma-fundo do lado do percebido…
- esta mesma dualidade também se instala do lado de “mim”, daquele que percebe, um percebedor “relativo ao corpo” (instância contingente e conjuntural do Percebedor Absoluto) e candidato doravante a sujeito; um ou mais sentidos (visão, audição, tato etc.) se abrem e se tornam ativos, se destacando do fundo passivo, em repouso, do corpo; no exemplo do livro sobre a mesa, é preciso que minha vista, que enxerga o livro e se interessa especialmente nele, se abra e se torne ativa (+), sobre o fundo posto em repouso de meu corpo; este se torna passivo (-) e suas demais funções se fundem no fluxo de uma certa indistinção; em nossa figura, uma rotação tem lugar, do objeto para a vista, ou seja, um sentido se cria;
- a vista se tornando ativa, acolhe o objeto, mas o fato capital é que, sob a excitação da vista, uma corrente se estabelece da vista (+) para o corpo inteiro (-); o corpo, anteriormente feito passivo pela abertura da vista, se torna ativo, mas a um grau de atividade maior do que antes do inicio da percepção; do lado do percebedor doravante sujeito (do latim subjectum, lançado ou posto sob), forma-se assim uma segunda relação do tipo Sentido/Corpo, em interação com a primeira relação Objeto/Mundo…
- meu olhar deu o objeto ao corpo e meu corpo inteiro se apropria do objeto, ou “sujeita” o objeto, tornando-o um instrumento ou ferramenta, segundo a vigência do primeiro modo de desvelamento do ente ou sendo, caracterizado por Aristóteles 2), a techne; esta apropriação deve ser entendida como uma intensificação do objeto; em outros termos, meus sentidos, por seu poder discriminador, têm por missão distinguir, enfocando os objetos do mundo, mas meu corpo inteiro tem por missão, por seu poder integrador, reintegrar em si, sob a forma de instrumentos ou ferramentas, estes objetos distintos, e de assim se abrir a um novo modo de ser do mundo; com referencia à figura acima, por uma segunda rotação, em sentido inverso da primeira, o corpo, novamente ativo, como no inicio da percepção, fecha o circulo se voltando para o mundo feito então passivo; o corpo, graças aos novos poderes, devidos ao instrumento ou ferramenta incorporado, vai animar mais uma vez o mundo, que volta a se tornar ativo, promovendo um novo ciclo, com novas emergências de objetos, sujeitos, instrumentos, etc…
- tanto o objeto, quanto o sentido da vista são emergências locais de uma realidade global, que devem vir a ser “re-enraizadas” ou arriscam voltar a se dissolver no mundo e no corpo, respectivamente;
- a constituição comum de objeto e de sujeito, através dessa análise da percepção, indica que, do lado do objeto, temos uma relação ou razão Objeto/Mundo e, do lado do sujeito, outra razão Sentido/Corpo; estas duas razões estão associadas na forma de uma proporção que as combina da seguinte forma: Objeto/Mundo = Sentido/Corpo; assim, como já havia reconhecido Husserl, a colocação em relação de dois termos ou de dois polos, e somente dois, como sujeito e objeto, é uma noção ingênua, pois não há polos ou termos que sejam estáveis na gênese do “eu”; uma relação deste gênero oculta na verdade a emergência de uma proporção, ou seja, de um ciclo de relações, como na figura acima, levando à multiplicação, à intensificação e à transmutação dos polos ou dos termos..
- essa proporção não é fechada nem estável, e seus termos não são fixos; é uma proporção não isolável, tomada e levada em um movimento dialético; pelo esquema da figura acima, é possível notar que o processo de percepção “crucifica” um “mim-mesmo”, a cada ciclo, no espaço-tempo; o que importa, no entanto, é compreender bem o sentido da passagem do termo à razão ou relação, enquanto acoplamento de termos, e da razão à proporção, enquanto acoplamento de razões; não importa aqui discutir quem comanda toda a operação, mundo ou pessoa, mas sim entender sua dação, seu acontecimento e sua vigência.
A “estrutura absoluta” pode ser entendida como um apontamento para o operação do que os gregos denominavam “noûs”, que Heidegger traduz por “o notar que apreende o notado”3)). Ou seja, a estrutura absoluta aponta para os modos de desvelamento “nos quais o ser-aí descerra o ente (o sendo) como atribuição e negação” 4), com relevância maior para os modos de desvelamento “techne” (arte, perícia, técnica), vetor para baixo na figura acima, e “sophia” (compreensão, sabedoria), vetor para cima na figura.
Bibliografia:
- ABELLIO, Raymond. La Structure absolue. Essai de phénoménologie génétique. Paris: Gallimard, 1965
- ABELLIO, Raymond. Approches de la nouvelle Gnose. Paris: Gallimard, 1981
- ABELLIO, Raymond. Manifeste de la nouvelle Gnose. Paris: Gallimard, 1989
- ALLARD l’OLIVIER. L’illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977
- CARNEIRO-LEÃO, E. et all. A Máquina e seu Avesso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987
- FATTAL, M.. Pour un nouveau langage de la raison. Paris: Beauchesne, 1987
- FINK, Eugen. L’Analyse intentionnelle et le problème da la pensée spéculative. Paris: Desclée de Brouwer, 1952
- LAWLOR, R.. “The Measure of Difference. Ratio, proportion, and analogy in mathematics and life”, Parabola XVI(4), 1991
- TAYLOR, Charles. As Fontes do Self. A construção da identidade moderna. São Paulo: Loyola, 1997

