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Boa ciência e más aplicações

Buena ciencia y malas aplicaciones

Excertos de “La trastienda del sabio”. Posfacio “Contra el Cientismo”. Ed. Fontalba, Barcelona, 1983.

O grande postulado dessa filosofia é que a “ciência” é cultural, social e politicamente neutra. (…). Em outras palavras, a ciência, como tal, não tem nada a ver com o domínio dos valores. É apenas o uso que se faz dela que a torna boa ou má, um dos lemas fundamentais de todos os defensores do cientismo, sejam eles de esquerda ou de direita. A “ciência” é intrinsecamente pura, apenas as suas utilizações podem ser impuras.

Assim, Joe Metzger cita favoravelmente uma conferência de Roux sobre Ciência e Cultura Humanista: “Em geral, são certas aplicações da ciência e não a ciência em si que estão em causa”. Acalmem-se. Se ocorrem erros, estes nada têm a ver com a natureza da ciência (ou seja, da ciência ocidental). Paul Caro, diretor de pesquisas do CNRS, desenvolve a mesma concepção da ciência: “É uma máquina, não se pode julgar sua ação, tudo depende do uso que fazemos dos órgãos que ela cria para nós” (Le Monde Dimanche, 24 de fevereiro de 1980). Quanto ao Prof. Hamburgen, seu raciocínio é análogo. É preciso considerar como neutros (afirma em seu livro Demanin les autres, Flammarion, 1979) não apenas o progresso científico, mas também o progresso técnico, pois é um erro “confundir o progresso científico ou técnico com o uso que se faz dele”. Ou ainda: “Não, o desumano não é a ciência, nem mesmo a tecnologia, mas a forma como os homens as utilizam”.

Este ponto de vista parece particularmente ousado, pois o progresso técnico significa, por exemplo, a produção de armas mais aperfeiçoadas e eficazes. Seria necessário admitir, então, que o fato de se desenvolver novas bombas e novos foguetes, granadas e novos gases de combate, etc., não tem nada a ver, em si mesmo, com a sua utilização.

O progresso técnico é neutro, como diriam os verdadeiros cientistas, no fundo uma variável independente. Daí se deduz que a sociedade não está verdadeiramente envolvida no desenvolvimento tecnológico. Este segue o seu caminho de forma autónoma. Produzindo indistintamente vacinas e “soro da verdade”, bombas e diversos dispositivos eletrônicos, técnicas de condicionamento e aviões supersônicos, centrais nucleares e computadores, fertilizantes e submarinos atómicos. A única coisa que socialmente suscitaria alguns problemas seria o modo de utilização.

Reconheçamos que essa filosofia pode apresentar argumentos. E fazer valer, por exemplo, que os numerosos técnicos que criaram as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki eram apenas agentes neutros do “progresso científico e técnico”. Eles não pediram que as bombas fossem utilizadas, mas isso aconteceu porque foi assim que os políticos decidiram. Assim, se houvesse algum erro ou falha nessa questão, seriam estes últimos os responsáveis (para simplificar, deixo as famosas cartas que Einstein enviou a Roosevelt em 1939 e 1940).

Pela minha parte, considero que essa maneira de abordar o problema gera uma confusão terrível. Se se trata apenas de dizer que os cientistas e técnicos, enquanto indivíduos, não tinham “más” intenções, concordo. Mas acredito que o cerne da questão está em outro lugar. Não diz respeito tanto às subjetividades de certos indivíduos, mas ao próprio significado do “progresso científico e técnico”. Ora, o argumento das más utilizações leva sobretudo a dissimular as conexões existentes entre esse progresso e o desenvolvimento social considerado em seu conjunto. Seja como for, é artificial falar da ciência e da técnica como se fossem transcendentais à sociedade, como se obedecessem a uma espécie de lógica interna totalmente independente dos fatores externos (ou seja, econômicos, políticos, culturais etc.).

(…)

“Não só a ciência e a técnica estão na sociedade, mas a sociedade está presente na empresa científica e técnica”.

thuillier/thuillier-boa-ciencia-mas-aplicacoes.txt · Last modified: by mccastro

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