Fonseca: Representação
FONSECA, Eduardo Ribeiro da. Uma estreita passagem: o conceito de corpo nas obras de Schopenhauer e Freud. Curitiba: Editora UFPR, 2014.
A noção de representação
O sujeito como sustentáculo da realidade
1. A noção de representação constitui o ponto de partida da filosofia schopenhaueriana, expressa na sentença de que o mundo é representação do sujeito que conhece.
2. A representação exprime a forma de toda experiência possível e imaginável, sendo conceito mais geral que tempo, espaço e causalidade, de modo que tudo o que existe existe para o sujeito.
3. O sujeito e o objeto são opostos e complementares, limitando-se reciprocamente de modo inextrincável, pois as formas essenciais e universais de todo objeto residem a priori na consciência do sujeito.
4. As formas a priori configuram o princípio de razão do devir, expressão geral das condições formais dos objetos, e a necessidade quadruplamente enraizada abrange as modalidades lógica, física, matemática e moral.
5. A coexistência de vários estados constitui a essência da efetividade, em que a mudança de qualidade e forma se articula com a fixidez da substância material e com a duração que a conserva sob a lei de causalidade.
6. A necessidade é intrínseca às relações causais e tem como fundamento exclusivo o princípio de razão suficiente, pertencendo inteiramente ao objeto, de modo que ser necessário significa seguir-se de um dado fundamento.
7. Cada classe determinada de representações existe por uma disposição no sujeito designada faculdade de conhecimento, cabendo à sensibilidade pura o correlato do tempo e do espaço e ao entendimento o correlato da matéria ou causalidade.
8. O entendimento tem como única função conhecer a causalidade, e a ela corresponde toda a matéria, cuja essência é a ação em geral.
9. Schopenhauer conserva de Kant apenas a causalidade entre as categorias, modificando o entendimento ao transferir para ele as formas do tempo e do espaço e ao fazê-lo operar com intuições puras a partir de dados fisiológicos.
10. A base fisiológica do organismo oferece ao entendimento uma perspectiva causal que seleciona e configura os dados da realidade, posteriormente sistematizados em conceitos pela atividade cerebral, produzindo a efetividade como fazer-efeito do sujeito.
O corpo como objeto imediato do conhecimento
1. A primeira e mais simples atividade do entendimento é a percepção intuitiva dos objetos do mundo efetivo, que pressupõe a causalidade e tem como ponto de partida as sensações experimentadas pelo corpo animal como objeto imediato.
2. O cérebro recolhe os dados dos sentidos interno e externo e os sintetiza em intuições, referindo imediatamente o efeito à sua causa e originando a percepção de um objeto situado no espaço, relação imediata, necessária e certa que se dá por e para o entendimento.
3. O conhecimento empírico resulta de um processo exclusivamente mediado pelo corpo, no qual o entendimento aplica sua forma solitária, a lei de causalidade, transformando sensações subjetivas em intuições perceptivas objetivas.
4. A intuição ocorre pela ação sensorial sobre o objeto imediato, o corpo material, sem a qual não há matéria, pois esta é inteiramente pura causalidade, e todo conhecimento empírico se reduz à diferenciação imposta pelo objeto imediato em relação aos dados que o afetam.
5. As formas a priori que residem no cérebro constituem a condição da existência objetiva dos objetos externos, enquanto a percepção interna das afecções do querer e das sensações orgânicas forma a base física do entendimento e a raiz do conhecimento do mundo como representação.
6. O termo conhecimento não se aplica ao próprio corpo como objeto imediato, pois as sensações são apenas o ponto de partida das intuições, e a presença imediata do corpo é definida como sentimento, ainda que o filósofo empregue o vocábulo conhecimento de modo ambíguo.
7. Os problemas linguísticos apontados permitem situar o objeto imediato como condição prévia e marco inicial do conhecimento, distinguindo os fenômenos da sensação, que apresentam os dados, dos da percepção intuitiva, que formam sínteses subjetivas.
8. O estudo do corpo como objeto imediato expõe a fisiologização do processo de apreensão do mundo como representação, pois o conhecimento começa na sensação indeterminada e se concretiza no entendimento, faculdade inata sediada no cérebro.
9. O corpo como objeto imediato é um conjunto de sensações ainda cegas, passíveis de transformação em objetos do mundo, não se posicionando propriamente como objeto, mas como ponto em que os outros corpos atuam sobre ele.
10. Os corpos dos animais também são objetos imediatos, servindo de ponto de partida para a intuição do mundo, e todos os animais possuem entendimento, pois são capazes de conhecer objetos sob a forma de motivo que determina seus movimentos.
11. O entendimento é comum aos animais em geral e evidencia seu aspecto pré-racional, sendo incapaz de errar e apenas de iludir, enquanto somente a faculdade de razão pode julgar o certo e o errado e detectar a ilusão do entendimento.
12. O entendimento é inacessível ao ensinamento da razão porque a precede, de modo que a ilusão persiste irremovida ainda que o erro seja prevenido, sendo a realidade oposta à ilusão e a verdade oposta ao erro.
13. O entendimento, ao aplicar tempo, espaço e causalidade aos dados dos sentidos, constrói a realidade como escultor do mundo, consistindo em apreensão intuitiva das conexões causais que precisa ser reduzida a conceitos abstratos para ser fixada.
14. O corpo pode ser examinado como objeto entre outros objetos, submetido à lei de causalidade e às condições formais do conhecimento, merecendo o nome de representação, pois a imagem integrada que se tem de si é formada pelo cérebro.
15. Sem o entendimento não haveria objeto nem sujeito empírico, e a partir do momento em que o corpo se dá como objeto mediato passa a existir a sensopercepção em seu sentido mais completo, na simultaneidade entre objeto imediato e mediato.
A razão (Vernunft) e sua relação com o entendimento
1. A razão é faculdade secundária ao entendimento que transforma representações intuitivas em conceitos abstratos, tornando possível a linguagem e o pensamento simbólico.
2. As representações abstratas, chamadas representações de representações ou conceitos, são desenhadas a partir das representações intuitivas originais e abrangem inumeráveis coisas individuais em uma totalidade complexa.
3. A única diferença radical entre o ser humano e os animais é a faculdade cognitiva de razão, que elabora a classe distintiva dos conceitos, a partir dos quais surgem outros ainda mais abstratos.
4. Todo conteúdo da reflexão só tem sentido em relação à intuição e à percepção, e os conceitos mantêm com as representações intuitivas uma relação necessária que constitui toda a sua essência e realidade.
5. O intuicionismo e o empirismo de Schopenhauer são de suma importância porque o empirismo é o solo em que o filósofo planta sua metafísica, buscando a solução do enigma do mundo no que nele se dá imediatamente.
6. A intuição do mundo é a base das construções intelectuais que permitem correlacionar os dados da efetividade em classes de representações e inferir uma unidade de plano na natureza, da qual a razão, faculdade especificamente humana, está excluída como parasita do conhecimento intuitivo.
7. O conhecimento intuitivo apreende diretamente os conteúdos da efetividade em suas relações causais, enquanto o produto da razão é derivativo e, por sua natureza abstrata e artificial, torna as pessoas vulneráveis à especulação, à dúvida e ao erro.
8. O erro é consequência exclusiva do uso da faculdade de razão, podendo reinar por séculos e estender seu jugo sobre as nações, enquanto as conquistas da verdade da experiência subsistem como o maior patrimônio da humanidade.
9. A reflexão é um eco do conhecimento intuitivo, caracterizado pela clareza de consciência, e estabelece a diferença radical entre a inteligência humana e a animal, permitindo ao homem referenciar o futuro em relação ao passado, evitar perigos e planejar ações.
10. A capacidade de recordar traz lembranças dolorosas e a de antecipar engendra possibilidades terríveis, como os fantasmas dos perigos da vida e a própria morte, configurando o aspecto negativo da razão.
11. Como a razão está fixada à linguagem, pensamentos e ações nocivas permanecem através das gerações, e a ampliação da consciência provoca sofrimento cada vez maior, de modo que, no cômputo geral, a razão é deficitária e os animais parecem mais felizes que a humanidade.
12. Apenas in abstracto vários motivos podem ser apresentados à consciência, comparados entre si e excluírem-se uns aos outros, sendo a essência da razão reduzir a efetividade dos conceitos abstratos por intermédio da linguagem.
13. O significado procurado do mundo jamais poderia ser encontrado se o investigador fosse apenas o puro sujeito do conhecimento, pois é só como corpo que o sujeito existe no mundo, torna-se indivíduo e conhece.
14. O sujeito empírico aparece como um segredo para si mesmo e sustenta as representações na consciência, sendo o corpo uma região fronteiriça entre a representação condicionada e a volição inconsciente que é sua essência.
15. A prioridade de Schopenhauer em relação a conceitos essenciais da psicanálise reside em tomar a experiência interna do sujeito como algo que o define não como conhecedor, mas como desconhecedor de si mesmo, por ignorar o sentido da volição como coisa primária.
16. Esse desconhecimento do mundo interno exige uma interpretação que considere a linguagem ativa, imediata e não racional do organismo, isto é, o querer como função inconsciente, desejo mais amplo do que a consciência pensa desejar e que verdadeiramente define os indivíduos.
