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rosenzweig:estrela:1.0.5

1.0.5 Deus

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

  • A unidade abandonara o Todo; comparável à obra de arte, era para o exterior uma unicidade individual e permanecia Todo apenas no interior, deixando assim espaço ao seu lado. Outrora o lógico travara aparentemente um combate incessante pela primazia contra o ético, e agora o metalógico abriu lugar ao metaético. A multiplicidade reunida em unicidade individual e o Uno individual desde sempre, formas sob as quais se defrontavam mundo e homem, podiam respirar lado a lado.
    • Assim se cumpria a exigência antes posta no interesse do metaético: o quadro podia exprimir seu desinteresse caso se pendurasse na mesma parede outro relevo, o que era impossível para o afresco, pois ele não se interessava por nada situado fora dos quatro lados de sua moldura. Essa fria impassibilidade do quadro diante da parede, sem a qual não encontraria lugar, é o preço da boa coexistência entre quadro e relevo.
    • O metalógico pôde mostrar paciência para com o metaético apenas por ter posto uma cadeira à porta para o lógico, que de início se achava em situação mais difícil que a da ética, pois esta sabia de imediato onde buscar refúgio, ao passo que o lógico estava sem pátria nem domicílio. Na medida em que pretendia ser um “absoluto”, unidade pura e simples, o mundo dispensou seus serviços e tornou-se simplesmente não absoluto.
    • Não só o mundo, mas o próprio Deus podia encontrar lugar fora de suas fronteiras, se quisesse um. Contudo esse mundo metalógico, justamente por ser sem Deus, não oferecia proteção alguma contra Deus. De Parmênides a Hegel o mundo fora seguro contra os deuses (securus adversus deos), porque encerrava em si o Absoluto, como já exprimira Tales ao dizer que o “Tudo” está cheio de deuses; o cosmos pós-hegeliano perdeu essa segurança.
    • A condição de criatura reivindicada para o mundo, a fim de salvar a ipseidade (ipséité) do homem, deixou também Deus escapar do mundo. O homem metaético é o fermento que deslocou a unidade lógica e física do cosmos em mundo metalógico e Deus metafísico.

O metafísico

  • Sobre Deus houve por longo tempo uma ciência chamada “metafísica”, e as noções de “metalógico” e “metaético” foram formadas sobre a significação que essa palavra assumiu ao longo da história. Numa introdução limitada à alusão, é preciso temer ainda mais a confusão com conceitos filosóficos antiquíssimos, e é mais difícil evitá-la. Já a propósito do Si-mesmo (Soi) metaético fora difícil evitar a confusão com a noção de personalidade moral; recorreu-se à analogia do poeta lírico ou do santo, e poder-se-ia citar o papel do vilão no teatro, com seu “assim sou e assim quero ser”, para evidenciar a libertação total frente à ordem de um reino moral dos fins, ao risco de obscuridade e de suspeita de diletantismo filosófico.
    • Era igualmente inevitável que o conceito metalógico de mundo sucumbisse em parte à confusão com o conceito de natureza, quase consequência necessária da primeira: identificado o homem metaético, a despeito do nome, com a personalidade moral, restava equiparar o cosmos metalógico ao conceito crítico de natureza. Recorreu-se aí ao remédio contestável da comparação, contestável por não deixar mostrar a verdade mais profunda, o que nela é mais-que-comparação (plus-que-comparaison).
    • Por comparação indicou-se o fechamento e a totalidade internos da obra de arte e sua individuação externa; na imagem da parede indicou-se sua carência de ser externa, que aflora na necessidade da representação, da exposição e, em última instância, do espectador para completar a existência da obra; arriscou-se por fim a referência ao conceito teológico de criatura, que antecipa muita coisa. Assim se buscou distinguir o conceito de mundo do conceito crítico de natureza, que ele excede de longe, pois encerra todos os conteúdos possíveis de um sistema filosófico, desde que apareçam como elementos não “do” Todo, mas apenas de “um” Todo. Essas dificuldades reaparecem reforçadas no conceito metafísico de Deus.
  • Metafísico não significa afísico. Todo acosmismo, toda negação indiana, toda sublimação espinosista e idealista do mundo é apenas um panteísmo invertido, e é justamente o conceito panteísta do Todo que foi preciso superar para alcançar o conceito metafísico de Deus. Assim como o metaético faz do homem livre senhor de seu ethos, que ele possui e não o inverso, e o metalógico faz do logos um “ingrediente” do mundo, que o possui e não o inverso, o metafísico de Deus faz da “physis” um “ingrediente” de Deus.
    • Deus tem uma natureza, a sua própria, abstraindo-se inteiramente da relação que porventura mantenha com o físico fora de si, com o “mundo”: tem sua essência feita de natureza, sua essência que está aí. Isso é tão pouco óbvio que a filosofia, até Hegel, não cessou de contestar-lhe essa existência própria.
    • A forma mais sublime dessa contestação é a prova ontológica de Deus, pensamento tão velho quanto a filosofia: sempre que os teólogos, insistindo na existência de Deus, começaram a pesar sobre os filósofos, estes lhes escaparam por essa “prova”, e a filosofia guardiã enfiou na boca do lactente faminto “teologia” a identidade entre ser e pensamento, como chupeta para que não gritasse.
    • Com Kant e Hegel chega-se a um duplo ponto final dessa escroqueria secular. Kant a encerra ao submeter a prova à crítica, separando rigorosamente ser e existência; Hegel, ao contrário, elogia a prova, pois ela coincide com o conceito fundamental de toda visão filosófica do mundo, o pensamento da identidade entre razão e realidade, e devia valer tanto para Deus quanto para o resto. Na ingenuidade desse elogio dá-lhe, sem o suspeitar, o golpe de misericórdia aos olhos da teologia.
    • Fica livre o caminho para a elaboração filosófica da existência de Deus, independente do pensar e do ser do Todo: Deus precisa ter existência antes de toda identidade entre ser e pensamento, e, se é preciso pressupor aqui uma dedução, a do ser a partir da existência é preferível à da existência a partir do ser, tantas vezes tentada nas provas ontológicas. Com isso segue-se a via indicada na última filosofia de Schelling.
  • Esse elemento natural em Deus lhe dá a verdadeira autonomia frente a todo o natural fora dele, pois, enquanto não inclui sua natureza em si, está em última instância indefeso diante da pretensão da natureza de incluí-lo nela; mas não esgota o conteúdo do conceito metafísico de Deus. O conceito metaético de homem não se esgota em ter seu próprio ethos, nem o metalógico de mundo em ter seu próprio logos, nem o metafísico de Deus em ter uma, a sua, natureza.
    • O que faz o homem homem é assumir, a contragosto, com humildade ou como coisa natural, essa herança ética e essas dis-posições (dis-positions) suas; e o que faz do mundo um mundo criado é apenas a plenitude, o entrelaçamento e a sucessão incessante de suas figuras, não seu caráter pensável graças ao logos próprio. Do mesmo modo, Deus ainda não está vivo só por ter sua natureza: é preciso que se acrescente a liberdade divina, que palavras como as de Dante, “onde se pode o que se quer”, ou o cumprimento do indescritível em Goethe obscurecem quase mais do que iluminam. Só quando esse “algo” vem em suplemento, como o autenticamente divino, realiza-se de fato a vitalidade de Deus. Como para a “natureza” de Deus se remeteu a Schelling, para a “liberdade” de Deus seguem-se as pegadas de Nietzsche.
  • A história da filosofia jamais contemplara um ateísmo como o de Nietzsche, primeiro pensador que não nega Deus, mas, em sentido propriamente teológico, o “denega”, ou mais exatamente o amaldiçoa. Trata-se de maldição tão terrível quanto a com que Kierkegaard iniciou sua experiência de Deus, e é isso que significa a célebre frase: “Se Deus existisse, como suportaria eu não ser ele?” Nenhum filósofo jamais enfrentara assim, olhos nos olhos, o Deus vivo.
    • O primeiro homem verdadeiro entre os filósofos foi também o primeiro a contemplar Deus face a face, ainda que só para denegá-lo, pois essa frase é a primeira denegação filosófica de Deus em que Deus não está indissoluvelmente ligado ao mundo. Ao mundo Nietzsche não poderia ter dito: se ele existisse, como suportaria eu não sê-lo. Ao homem vivo aparece o Deus vivo.
    • O Si-mesmo (Soi) cheio de desafio contempla com ódio raivoso a liberdade divina, livre de todo desafio, que o força à denegação por ser obrigado a tomá-la por ausência de limites: como suportaria de outro modo não ser Deus? Não é o ser de Deus, mas sua liberdade que o leva a proteger-se assim; o mero ser de Deus, mesmo que nele cresse, poderia dispensá-lo com uma gargalhada.
    • Assim o metaético, como antes o metalógico, expulsa de si o metafísico e o manifesta justamente como “personalidade” divina, como unidade, e não como unicidade, à semelhança da personalidade humana.
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