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GUERRA DAS CIÊNCIAS

G. Gusdorf, Vers une Métaphysique, cahier II : L'affirmation de la conscience métaphysique, Paris, CDU, p. 3-4. et Traité de Métaphysique, A. Colin, 1956, p, 84.

«A oposição que se estabelece entre a ambição metafísica e a atividade científica poderia ser caracterizada, por um lado, por uma pretensão totalitária, por um dogmatismo do transcendente ansioso por reduzir os detalhes dos fatos à obediência definitiva dos princípios racionais, — e, por outro, por uma modéstia animada pelo horror de ter razão precipitadamente, que se limita à imanência e prossegue com paciência a decifração de uma realidade cada vez mais complexa. O caso de Descartes e Galileu fornece aqui um exemplo significativo. A condenação de Galileu em 1633 é um golpe terrível para o prudente Descartes; ela o obriga a reformular seu sistema e a adiar sua publicação. Mas essa solidariedade inicial entre os dois homens não impede uma divergência essencial entre o metafísico Descartes e Galileu, que figura como um dos primeiros modelos do cientista moderno. Descartes se expressou sobre isso com a maior clareza. Ele reconhece que Galileu seguiu o caminho certo: «Em geral, escreve ele ao padre Mersenne, acho que ele filosofa muito melhor do que a maioria, na medida em que se afasta, tanto quanto pode, dos erros da Escola e se esforça para examinar as questões físicas por meio de raciocínios matemáticos. » Contudo, mesmo tendo esse primeiro ponto conquistado, Descartes repreende Galileu por ter adotado nessas pesquisas uma atitude que lhe parece claramente insuficiente: «Parece-me, prossegue ele, que lhe falta muito no sentido de que ele… não se detém para explicar completamente um assunto; o que mostra que ele não os examinou por ordem, e que, sem ter considerado as causas primeiras da natureza, buscou as razões de alguns efeitos particulares e, assim, construiu sem fundamento” (out. 1638, ed. Adam Tannery, II, 380). Galileu dedicou sua longa carreira a pesquisas precisas; ele foi um dos organizadores do método experimental, ainda em seus primórdios. Descartes considera com certa piedade esse pesquisador excessivamente modesto que não determinou de forma absoluta os pontos de partida e de chegada de sua investigação. O que importa aos olhos do filósofo francês são “as causas primeiras da natureza” — ou seja, “os primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza que, um século e meio mais tarde, ainda preocupariam Kant”.

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