grassi:1970:2.4.1

2.4.1 Sinais

IV Sinais e espírito

1. Sinais conscientes e inconscientes

1. Diante da insuficiência da palavra racional e da proeminência da palavra indicativa, manifestada como expressão pictórica, impõe-se investigar se prevalecem a imagem, o sinal e o esquema, começando pelo exame do papel do sinal e do esquema no nível biológico.

2. Em seu tratado Sobre os Fenômenos Visuais Fantásticos, Johannes Müller, fundador da fisiologia moderna e descobridor da lei da energia vital específica dos sentidos, estabelece a diferença entre reações mecânicas e reações orgânicas.

3. Enquanto as reações mecânicas obedecem à lei da causalidade, segundo a qual uma determinada causa produz sempre um determinado efeito, há fenômenos essencialmente distintos dos mecânicos e químicos nos quais uma mesma causa provoca efeitos diferentes conforme o órgão afetado e causas diversas provocam no mesmo órgão um mesmo fenômeno, pois o fator causal produz apenas uma qualidade do elemento sobre o qual age, independente da natureza da causa.

4. Esses fenômenos são orgânicos porque transformam efeitos mecânicos ou químicos em formas de manifestação peculiares a cada órgão, como o músculo que responde com movimento a qualquer estímulo, seja galvânico, químico, mecânico ou orgânico, e o nervo óptico que reage com sensação luminosa a golpes, pressões ou quaisquer outras irritações.

5. A lei da energia vital específica dos órgãos sensoriais obriga a admitir uma lacuna entre os âmbitos orgânico e inorgânico, pois a pesquisa experimental depara com fenômenos em que já não se pode determinar uma sequência causal direta.

6. Não havendo continuidade entre causa e efeito no âmbito orgânico, convém falar em estímulo e reação, já que a vida responde por meio de seus órgãos segundo uma forma própria, o eidos, de modo que ela se define como o fenômeno natural que tem ideias em si, não em sentido lógico ou platônico, mas como resultado da investigação fisiológica, disciplina empírica encarregada de determinar a forma peculiar de reação de cada órgão.

7. A pesquisa de Uexküll sobre o comportamento prolonga as teses de Müller e mostra que as ideias inatas podem abranger os mais variados aspectos, inclusive movimentos, como no caso da gralha de bico vermelho, que, conforme demonstram as experiências, desconhece por completo a forma do grilo parado e só o ataca quando ele salta, por estar condicionada exclusivamente à sua forma em movimento.

8. O poder da ideia ou da imagem, como propriedade da vida que interpreta os fenômenos por si mesma, é esclarecido pela ciência do comportamento animal no nível da vida sensitiva, onde os sinais exercem uma função condutora e indutiva, no sentido original de epágein, levando o animal ao comportamento inato próprio de sua espécie.

9. A função diretamente indutiva da ideia inata, à qual o leigo costuma atribuir caráter mágico, revela-se na minhoca, que, incapaz de distinguir formas, reconhece pelo paladar, mesmo em folhas finamente cortadas, quais partes pertencem à base e quais às pontas, possuindo assim padrões de sabor cuja percepção significativa só pode ser inata.

10. Os sinais exercem também uma função unificadora e abstrativa, como no carrapato, que, quase desprovido de órgãos dos sentidos, reduz diretamente e sem abstração a multiplicidade dos mamíferos, de formas, cores, sons e sabores diversos, a um tipo único reconhecido por certa temperatura e certo odor, tipo que no ambiente humano só existe como conceito classificatório e nunca como objeto encontrado na vida real.

11. No âmbito humano os mesmos sinais exercem poder sobretudo no inconsciente, entendido como a resposta direta a portadores de significado que não passa pelo processo racional mediador, embora a faculdade racional jamais possa ser separada dos elementos vegetativos e sensitivos que lhe fornecem o material, elementos que só se tornam ambíguos ao emergir aquém do limiar racional, conforme a imagem de Carus da vida psíquica como um grande rio contínuo iluminado pela consciência apenas num pequeno ponto.

12. No nível da vida inconsciente, que se realiza diretamente a partir dos sinais e não do saber, a distinção entre sujeito e objeto é inadmissível, pois a imediatez das interpretações sensoriais forma uma unidade indivisível de obediência aos sinais, sem dúvidas, surpresas ou perguntas, ao passo que no nível consciente esse ato unificado se desintegra em elementos separados, o objeto como algo a ser definido e o sujeito como aquele que busca a definição, que precisam ser reunidos pelo processo racional.

13. A aquisição de conhecimento exige um meio, um terceiro termo de comparação no qual as ideias e sua objetivação, aparentemente incombináveis e no entanto interdependentes, possam ser expressas, e esse movimento intencional da alma no domínio do cálculo simbólico, em sentido amplo, é o pensamento, que não vive exclusivamente nem na ideia nem na objetivação, mas é apto a exprimir a relação entre ambas.

14. Como os fenômenos sensoriais se manifestam por órgãos a serviço da vida e a atração e a repulsão sinalizam seu êxito ou fracasso, todos eles vêm desde o início coloridos por esses sentimentos, sendo o sentimento o eco que tudo quanto se agita na noite do inconsciente lança na luz da vida consciente, de modo que processos emotivos e racionais estão inseparavelmente ligados.

15. Entre os elementos característicos do inconsciente estão o prometeico e o epimeteico, e a imediatez com que os sinais desencadeiam ações exclui o erro, possível apenas no processo mediador de buscar e encontrar a causa, certeza infalível que explica o surgimento ocasional de teorias românticas sobre o poder destrutivo da consciência e da atividade racional.

16. O inconsciente e o irracional são chamados confusos e obscuros não por carecerem de ordem, já que a vida pré-racional se desenrola segundo padrões inatos que chegam às profundezas da vida vegetativa e formam os humores sem exigir motivação racional, mas por não serem iluminados pelo conhecimento, e a pesquisa sobre o comportamento confere às teorias de Carus seu verdadeiro sentido ao desmitologizar o inconsciente, reduzindo suas funções ao efeito imediato dos sinais.

17. O pensamento, como processo lógico de conhecimento e autoconsciência, tem por finalidade atribuir significado aos fenômenos mediante uma mediação fundada nas condições vegetativas e sensitivas do homem, enquanto a vida inconsciente obedece imediatamente aos significados inatos, de modo que o exame consciente desse domínio absoluto do princípio psíquico sobre a matéria, que ainda não pensa em pensamentos mas em formas, representa um grande passo rumo ao autoconhecimento.

18. A vida que se desenrola direta e inconscientemente só é qualificada de obscura e indefinida porque suas manifestações sensoriais ainda não foram explicadas pela atividade racional ou exigem nova definição.

19. Enquanto os portadores de ação na vida vegetativa e sensitiva permanecem anônimos e unidos indissoluvelmente a seus objetos, o sujeito como unidade indivisível só surge quando a atividade racional se torna necessária para construir um mundo consciente, e a esse sujeito Carus chama pessoa, associando, ainda que com etimologia incorreta, os termos anima, spiritus e pneuma ao sopro divino que ressoa através do indivíduo, como a voz do ator através da máscara, e o faz definir-se segundo a razão a partir da origem arcaica.

20. No nível da atividade racional, em que as manifestações sensoriais são interpretadas indiretamente, surgem possibilidades que substituem o impulso direto por uma escolha entre múltiplas alternativas, de modo que a vontade emerge da tomada consciente de decisão e o desligamento do impacto inconsciente das imagens, em favor de um significado espiritual a ser buscado, dá lugar à liberdade, inexistente no inconsciente, onde não há intenção, resolução nem escolha.

21. Embora Freud e Jung tenham tratado o inconsciente e o papel dos sinais com mais objetividade e acuidade, e Carus permaneça no campo das comparações e analogias sem elucidar como se dá o desatamento do elemento humano e de onde vêm suas novas ligações, sua terminologia ainda não científica e sua linguagem analógica revelam-se mais simples e inteligíveis para as questões aqui em jogo.

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