8 Epistemologia
CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.
A investigação da epistemologia tradicional: encerramento
1. A investigação tradicional do conhecimento depende de procedimentos reconhecíveis na avaliação ordinária das afirmações, mas suas perguntas e dúvidas permanecem parcialmente artificiais, sem que essa artificialidade baste para rejeitá-las, pois seus contrastes podem ter usos legítimos e a descrição de um problema ainda não esclarecido não permite determinar antecipadamente tudo o que seria relevante incluir.
2. A projeção das palavras em novos contextos pode tornar-se apropriada mediante explicações que esclareçam sua pertinência, mas os conflitos filosóficos sobre aquilo que deveria ser dito não se resolvem simplesmente pela predominância de um uso compartilhado, deixando cada participante diante de uma dificuldade histórica que exige uma resposta pessoal.
3. Uma crítica decisiva à investigação tradicional precisaria mostrar que o contexto construído pelo filósofo o impede de significar aquilo que pretende, em vez de apenas assinalar a falta de naturalidade de suas perguntas ou sua distância em relação ao uso ordinário.
4. A acusação de que alguém não compreende aquilo que suas palavras dizem distingue-se tanto da censura a uma fala descuidada quanto da afirmação de que os termos tiveram seu significado alterado, pois essas explicações não esclarecem o interesse e a força das formulações filosóficas.
5. A passagem da visão como meio geral de conhecer o mundo para a visão como fundamento de uma afirmação específica exige mostrar por que o objeto não estaria inteiramente à vista, tornando decisiva a legitimidade das perguntas sobre quanto dele é efetivamente visto.
6. As perguntas filosóficas sobre a visão não parecem inteiramente aceitáveis nem inteiramente desprovidas de sentido, exigindo esclarecer como o significado de uma palavra se relaciona com seus usos e com a possibilidade de projetá-la em novos contextos.
O fundamento da dúvida do filósofo exige projeção
1. As perguntas sobre quanto de alguma coisa foi realizado ou percebido apresentam sentidos diferentes conforme a atividade envolvida, podendo ser claramente pertinentes, aparentemente destituídas de aplicação ou apenas parcialmente compreensíveis.
2. Perguntar quanto de uma mesa foi polido ou de uma maçã foi comido possui aplicação imediatamente reconhecível, enquanto perguntas semelhantes sobre tocar um violino, arranhar uma mesa ou deixar cair uma xícara dependem de circunstâncias especiais que esclareçam sua finalidade.
3. A diferença entre possuir um sentido claro e possuir algum sentido depende de a aplicação contextual ser imediatamente compreensível ou exigir uma explicação específica que permita reconhecer sua pertinência.
4. A projeção de uma expressão parcialmente compreensível exige encontrar um contexto que justifique sua aplicação como prolongamento de um conceito conhecido, distinguindo-se tanto da recuperação de um uso ordinário esquecido quanto da invenção mais livre de uma gramática para uma expressão inteiramente insólita.
5. Mesmo perguntas aparentemente claras sobre a totalidade de uma atividade dependem de contextos delimitados e de uma tolerância compartilhada, que pode admitir diferenças quanto a comer uma maçã inteira sem aceitar qualquer redefinição de fumar um cigarro, decorar um quarto ou tocar um concerto.
6. A extensão das explicações necessárias para justificar uma projeção nem sempre é evidente, mas uma pergunta inicialmente estranha sobre quebrar uma xícara inteira pode tornar-se compreensível quando usos posteriores dos fragmentos mostram como o conceito se aplica àquela situação.
7. A pergunta filosófica sobre ver um envelope inteiro não permite uma resposta simples, mas também não é imediatamente absurda, exigindo que se investigue sua projeção em vez de rejeitá-la apenas porque conduz ao ceticismo.
8. A referência à parte traseira e ao interior do objeto pretende justificar essa projeção, mas não representa simplesmente uma prática particular que possa coexistir sem conflito com a nossa, pois interfere no conceito de visão necessário à comunicação ordinária.
9. O conflito introduzido pela investigação filosófica atinge também os conceitos e interesses ordinários do próprio filósofo, cuja tentativa de reservar um sentido especial ou mais rigoroso para “ver” contribui para a instabilidade de suas conclusões.
A projeção do filósofo apresenta um dilema
1. A afirmação de que não se vê a parte traseira nem o interior de um objeto precisa mostrar que ele não está inteiramente à vista no sentido ordinário dessa expressão, pois somente assim poderia sustentar a descoberta que a investigação pretende realizar.
2. Um objeto pode não estar inteiramente à vista porque outro o encobre, porque alguma de suas próprias partes obstrui a visão ou porque uma parte relevante não está voltada para o observador, sendo sobretudo estas duas últimas possibilidades pertinentes ao argumento filosófico.
3. A afirmação de que uma parte não foi vista pressupõe que essa parte tenha identidade e importância estabelecidas independentemente do simples fato geométrico de determinada região não estar visível daquele ponto de observação.
4. Uma parte pode ser identificada por um nome habitual ou por uma descrição circunstancial, tornando necessário perguntar se a expressão filosófica “metade traseira” efetivamente estabelece uma parte reconhecível e oculta.
5. A divisão de esferas parcialmente submersas pode ser representada por diagramas porque a situação confere aplicação à geometria, de modo que as regiões acima e abaixo da água possuem pertinência determinada pela investigação em curso.
6. Um diagrama que separa a metade dianteira da traseira de um objeto só representa adequadamente aquilo que não é visto quando o próprio objeto possui uma divisão pertinente, pois, sem essa correspondência, o modelo não encontra um ponto de aplicação.
7. A defesa de que a própria construção geométrica estabelece as partes sustenta que a posição do observador e a inscrição de um círculo bastariam para distinguir aquilo que está diante dele daquilo que permanece oculto.
8. A aceitação dessa projeção exige que a vida com o objeto confirme a divisão estabelecida, fazendo da metade traseira uma parte cuja identidade persiste e que continua invisível, em vez de uma região definida apenas pela posição momentânea do observador.
9. A imagem cética fixa a posição humana diante dos objetos como se todos conservassem permanentemente uma face oculta, separando os sentidos da atividade corporal e explicando por que a conclusão perde sua força quando o movimento e a vida ordinária restabelecem outras perspectivas.
10. Se o modelo representar fielmente uma divisão efetiva do objeto, a afirmação sobre a parte não vista será verdadeira apenas como fato local, sem sustentar uma conclusão geral sobre todos os objetos ou sobre o próprio modelo empregado.
11. O argumento enfrenta o dilema de utilizar um modelo sem aplicação, salvo mediante a deformação da vida corporal entre os objetos, ou de utilizar um modelo adequado cuja verdade particular não compromete a validade do conhecimento em geral.
12. A alternativa local descreve corretamente uma situação determinada sem produzir ceticismo, enquanto a alternativa geral deixa de descrever o mundo em que olhos e corpos se movimentam e os objetos não mantêm necessariamente a mesma face voltada para alguém.
13. Esse dilema não constitui uma refutação completa do ceticismo, pois ainda faltam uma análise da visão, um exame da interpretação fenomenológica da investigação e uma resposta a argumentos que tornem problemática a própria existência dos objetos pressupostos.
14. A persistência do dilema exige retornar ao fundamento da afirmação de conhecimento, pois a função imediata de uma razão para duvidar consiste em contestar esse fundamento e, por seu intermédio, a afirmação sustentada.
O fundamento do filósofo e um conflito mais abrangente com seus novos críticos
1. A passagem de não ver determinada parte para não ver o objeto inteiro não autoriza concluir que aquilo que se vê pertence necessariamente a outra categoria de coisas, pois, nas avaliações ordinárias, a limitação perceptiva pode impedir uma identificação sem determinar positivamente o que foi percebido.
2. A crítica que considera trivialmente verdadeiro dizer que ver um objeto é ver parte de sua superfície reproduz pressupostos problemáticos do argumento cético, admitindo sem esclarecimento tanto a identificação dessas partes quanto a inferência sobre aquilo que efetivamente se vê.
3. Como um fundamento sustenta uma afirmação particular, torna-se necessário perguntar se os exemplos filosóficos podem realmente ser imaginados como casos concretos de afirmações de conhecimento.
4. Descrever uma situação como exemplo de conhecer alguma coisa não esclarece automaticamente quando essa descrição seria pertinente, pois o fato de alguém poder responder corretamente a uma pergunta não basta para determinar o sentido de atribuir-lhe aquele conhecimento em qualquer circunstância.
5. A verdade de uma frase não constitui, por si só, uma razão para enunciá-la, pois a compreensão daquilo que alguém quer dizer depende também de reconhecer a finalidade de sua fala.
6. A defesa do senso comum de Moore confronta teses filosóficas com proposições que todos reconheceriam como verdadeiras, tomando a certeza dessas proposições como impedimento à verdade de doutrinas que as contradigam.
7. Em Wittgenstein e Austin, o recurso à linguagem ordinária enfatiza sobretudo o fato de as expressões serem empregadas por seres humanos em contextos compartilhados, contrapondo-se à investigação de significados isolados de seus usos concretos.
8. Reintegrar o ser humano à linguagem e à filosofia exige reconhecer como a investigação pode afastar as expressões das formas de vida que lhes conferem força, preservando seus significados vocabulares enquanto perde aquilo que se pretende dizer mediante elas.
9. A perda decisiva não consiste necessariamente no significado das palavras, mas na compreensão plena daquilo que se está dizendo, razão pela qual a busca de definições não basta para corrigir a dificuldade filosófica.
10. Relatar aquilo que alguém disse exige compreender o que foi afirmado e a finalidade da enunciação, pois repetir suas palavras pode não transmitir seu pensamento e empregar palavras diferentes pode expressá-lo corretamente.
11. A ligação necessária entre palavras e pensamento depende das formas de vida que fazem de certas enunciações afirmações, sem exigir uma realidade mais profunda que explique e assegure externamente essa ligação.
12. A multiplicidade das coisas que podem ser significadas mediante palavras não torna arbitrária qualquer aplicação, pois afirmar, chamar ou expressar uma emoção constitui uma atividade submetida a condições reconhecíveis.
13. Informar alguém exige dizer algo que ele possa compreender e que se tenha razão para considerar uma novidade para ele, distinguindo a simples capacidade de repetir palavras da posse dos critérios que permitem entender aquilo de que se fala.
14. A resposta “eu sei” pressupõe uma maneira compreensível de imaginar que o interlocutor poderia não saber, de modo que afirmações inteiramente desligadas dessa possibilidade tornam problemática também a pergunta sobre como se sabe.
15. A objeção às declarações filosóficas sobre a privacidade das sensações dirige-se à ausência de conteúdo informativo em seu emprego, e não a uma suposta impossibilidade de verificação, pois o problema pode ser alguém não perceber que nada está significando ao enunciá-las.
16. Fazer uma observação constitui outra maneira de realizar uma afirmação competente, mas também exige circunstâncias que tornem compreensível a atenção dirigida ao fato observado, sem permitir que qualquer coisa seja observada de qualquer maneira a qualquer momento.
17. A possibilidade de nomear ou observar algo depende de identificar um objeto de atenção e de compartilhar uma percepção daquilo que merece ser notado, mostrando que a linguagem exige concordâncias tão fundamentais quanto as capacidades sensoriais e práticas comuns.
18. A perda generalizada de interesses compartilhados poderia deixar as palavras mutuamente inteligíveis enquanto tornaria as pessoas incapazes de compreender a importância das observações umas das outras.
19. A defesa de que uma afirmação filosófica é estranha apenas por ser evidentemente verdadeira insiste que sua verdade deveria bastar para legitimar o enunciado, independentemente de uma finalidade contextual.
20. A investigação do sentido dessas afirmações não pretende proibi-las, mas exige que seu emprego corresponda àquilo que ordinariamente significam e que qualquer esforço para fazê-las dizer algo diferente seja examinado em suas motivações.
21. Uma atribuição de conhecimento pode tornar-se perfeitamente compreensível quando contrasta com uma ignorância, uma desatenção ou uma expectativa relevante, enquanto o procedimento filosófico tende a retirar essas condições e reconstruir teoricamente a inteligibilidade perdida.
22. A estranheza daquilo que parece óbvio resulta do modo como o filósofo apresenta a afirmação, tornando necessário compreender por que deseja tratá-la como uma evidência inteiramente independente de circunstâncias particulares.
23. Essa preferência pode decorrer tanto de uma imagem poderosa da linguagem quanto de concepções substantivas sobre o mundo, a mente e o conhecimento, cujas raízes incluem a influência histórica da ciência moderna.
24. A imagem causal herdada do corporealismo científico favorece a interpretação dos processos mentais e linguísticos como mecanismos e reduz as implicações da fala à alternativa entre relações formalmente lógicas e efeitos meramente psicológicos.
25. As implicações reconhecíveis dos usos ordinários não representam necessariamente uma deficiência da lógica, pois uma formalização não pretende reproduzir tudo o que uma expressão comunica e sua seletividade pode constituir uma virtude.
26. Tratar uma afirmação como simplesmente óbvia pode evitar o reconhecimento das implicações contextuais de seu enunciado, embora dizer alguma coisa possa implicar algo que o conteúdo isolado das palavras não implica dedutivamente.
27. A crítica precisa mostrar que as implicações do ato de falar não competem com a inferência lógica e que a satisfação obtida mediante usos artificiais talvez não responda à necessidade que move a investigação filosófica.
28. A possibilidade de imaginar circunstâncias em que uma afirmação faria sentido não garante que ela possua sentido claro fora dessas circunstâncias, pois dizer ou pensar que algo ocorre envolve condições das quais o filósofo tenta se libertar sem assumir os compromissos da fala.
29. A insatisfação com respostas dependentes da responsabilidade humana de afirmar conduz à construção de objetos, sentidos e experiências que parecem descobertas, embora possam representar fantasias produzidas pela recusa das condições humanas do conhecimento e da ação.
30. A apresentação de razões verdadeiras não assegura sua eficácia como fundamentos, pois determinadas considerações só funcionam como razões quando respondem a uma questão pertinente, enquanto a exigência de enumerar todas as condições de um fato pode depender de uma totalidade imaginária.
31. A multiplicação de razões genéricas pode constituir uma tentativa de assegurar credibilidade e afastar a dúvida sem oferecer fundamento para uma afirmação determinada, deixando cada razão sem o contexto que lhe permitiria responder efetivamente à objeção.
O contexto do filósofo não contém uma afirmação
1. Os exemplos tradicionais apresentam situações de conhecimento sem introduzir afirmações concretas, de modo que o filósofo precisa imaginar uma afirmação para conservar a coerência do procedimento, embora sua efetiva particularização impeça a generalidade da conclusão cética.
2. A apresentação de “porque vejo” como fundamento parece tornar real a afirmação investigada, mas essa defesa precisa considerar que o próprio fundamento também constitui uma afirmação submetida às mesmas condições de inteligibilidade.
3. O recurso filosófico à visão não funciona inicialmente como fundamento específico de uma afirmação específica, mas como indicação geral do modo pelo qual se conhece alguma coisa do mundo.
4. A passagem de ver um objeto para afirmar que ele foi visto não é automática, pois a existência de ocasiões em que determinada afirmação seria apropriada não transforma qualquer situação perceptiva numa dessas ocasiões.
5. Interpretar literalmente a ideia de que sempre afirmaríamos aquilo que vemos conduziria à hipótese absurda de uma reivindicação contínua de conhecimento, embora a investigação necessite de alguma passagem desse tipo para tratar a percepção como afirmação.
6. Estar em condições de afirmar algo não equivale a afirmá-lo, assim como poder realizar um empréstimo não equivale a realizá-lo, e a introdução de uma pergunta efetiva restabelece circunstâncias particulares que impedem a generalização cética de proceder automaticamente.
7. A investigação tradicional precisa examinar uma afirmação concreta para manter sua coerência, mas não pode limitar-se a uma afirmação concreta se pretende alcançar uma conclusão cética sobre o conhecimento em geral.
8. A força do ceticismo depende da combinação entre evidência aparente e generalidade, enquanto a ausência de uma afirmação concreta revela que a solidão do meditador pertence à estrutura da investigação e não constitui um detalhe acidental.
9. A insuficiência de fundamentos para excluir a meditação ou a rememoração exige conservar em aberto a questão sobre a independência entre aquilo que se reconhece como mundo e os efeitos de nossa constituição sensorial.
A conclusão do filósofo não é uma descoberta
1. A necessidade de imaginar uma afirmação que não pode estar efetivamente sob exame explica a aparência de descobrir algo quando se produz apenas uma ilusão de significado, embora essa explicação ainda exija mostrar concretamente como tal ilusão se forma.
2. Reduzir o ceticismo à adoção arbitrária de padrões excessivamente elevados não esclarece sua força, pois isso faria do filósofo alguém que define antecipadamente uma exigência impossível e depois se surpreende com o fracasso humano em satisfazê-la.
3. A impressão filosófica de uma descoberta inevitável não se explica por uma escolha deliberadamente absurda de critérios, a menos que se trate o filósofo e seus interlocutores como participantes de uma excentricidade manifesta.
4. A progressão cética transforma uma afirmação imaginada em afirmação efetiva e solicita fundamentos ordinários para sustentá-la, conduzindo a dúvidas que parecem eliminar o objeto e que diferentes tradições procuram superar mediante recursos como Deus, categorias, crença natural ou senso comum.
5. A ausência de plena naturalidade nas considerações empregadas impede tratar a conclusão como descoberta, sem que isso signifique simplesmente demonstrar sua falsidade, pois a dificuldade pode estar em ela não constituir uma candidata adequada à verdade ou à falsidade.
6. A conclusão deixa de ser uma descoberta quando aquilo que parece encontrado no mundo foi introduzido pela própria investigação, cuja dissolução dependeria de tornar reconhecível essa invenção.
7. O estabelecimento de partes de um objeto genérico exemplifica essa construção, pois a necessidade de tornar inteligível uma pergunta leva o filósofo a ajustar o mundo ao sentido exigido por seu procedimento, sem garantir que esse sentido corresponda àquilo que pretendia dizer.
8. As concepções filosóficas dos sentidos, do objeto em si, do comportamento e da própria sensação podem ser construções reciprocamente ajustadas, produzidas quando o isolamento em relação às atividades ordinárias deixa a percepção oposta, desde sua definição, à revelação das coisas como são.
9. A busca de certeza decorre de conceber o conhecimento como revelação da existência do mundo, distinguindo-se da investigação da identificação dos objetos, enquanto Wittgenstein enfrenta o problema igualmente geral de compreender o que faz de nosso conhecimento um conhecimento de um mundo de objetos.
10. A compreensão do dilema exige esclarecer como alguém pode não perceber que nada está significando, sem que suas expressões sejam intrinsecamente destituídas de significado, e como o conceito de conhecer a existência de algo orienta a investigação desde seu início.
Duas interpretações da epistemologia tradicional; fenomenologia
1. Demonstrar que uma invenção foi confundida com uma descoberta exige explicar como as expressões impostas pela formulação inicial do problema conduzem às construções específicas produzidas pela investigação.
2. Falar fora dos jogos de linguagem priva os conceitos dos critérios ordinários de aplicação sem necessariamente retirar o significado das palavras, deixando-os sem uma relação reconhecível com o mundo e com o sistema de conceitos em que funcionavam.
3. A impossibilidade de falar das partes absolutamente simples de uma cadeira sugere que a procura de entidades absolutas nasce da tentativa de falar de maneira absoluta, desligada dos contextos que tornam aplicáveis os conceitos.
4. A procura daquilo que realmente se vê passa a exigir um objeto absolutamente visível quando os critérios ordinários de ver o todo ou uma parte são suspensos, fazendo a resposta parecer imposta pelo próprio mundo em vez de depender da responsabilidade humana pelo emprego das palavras.
5. A investigação filosófica tende a produzir entidades correspondentes aos nomes quando busca uma explicação absoluta da nomeação, razão pela qual o impulso que conduz aos dados sensoriais não se satisfaz necessariamente com uma simples linguagem das aparências.
6. A interpretação da epistemologia como avaliação de afirmações difere de sua interpretação fenomenológica, pois a primeira examina aquilo que pode funcionar como evidência da existência dos objetos, enquanto a segunda pretende descrever o conteúdo e a qualidade da própria percepção ordinária.
7. A objeção fenomenológica sustenta que o procedimento tradicional altera a experiência que pretende revelar, mas a defesa de Firth admite essa alteração e desloca o problema para a legitimidade de utilizá-la como método de descoberta do conteúdo perceptivo.
8. A teoria segundo a qual a redução perceptiva revela uma consciência já contida na percepção original exige justificar o privilégio atribuído à atitude de dúvida, sem que a simples defesa da análise intelectual responda à distinção entre redução introspectiva e inspeção direta.
9. A interpretação da investigação como avaliação de afirmações explica a centralidade da dúvida e a passagem àquilo que efetivamente foi visto sem precisar postular uma hipótese psicológica sobre poderes especiais da redução perceptiva.
10. A dúvida constitui uma resposta ordinária a uma razão pertinente para questionar uma afirmação, e a revisão daquilo que foi visto pertence à própria gramática de oferecer fundamentos e contestá-los.
11. A peculiaridade da dúvida metodológica deriva da peculiaridade da afirmação imaginada que ela examina, enquanto a defesa da análise pode expressar a confiança nos procedimentos ordinários de afirmação sem pressupor inicialmente uma investigação introspectiva da consciência.
12. A relação entre as interpretações epistemológica e fenomenológica permanece aberta, assim como a possibilidade de tradições distintas atribuírem prioridade à dúvida ou à descrição da experiência, pois o próprio reconhecimento dos usos estranhos da linguagem envolve conhecimento de nossa consciência imediata.
O conhecimento da existência
1. A certeza pode ser concebida como ausência cartesiana de dúvida ou como resultado ideal de uma totalidade de experiências verificadoras, sendo que o segundo modelo não exige abandonar uma afirmação particular, mas admitir continuamente sua possível revisão diante de novas experiências.
2. A interpretação da investigação cartesiana como limitação da certeza a algo diferente dos objetos pode conduzir à reformulação das afirmações sobre coisas materiais como previsões ou conjuntos de afirmações acerca de experiências futuras.
3. O modelo verificacionista introduz progressivamente exigências de verificação conclusiva e referências a experiências isoladas que não estavam presentes na questão inicial, cuja aparente naturalidade precisa ser explicada juntamente com seus usos efetivamente ordinários.
4. O recurso direto à linguagem ordinária não basta para rejeitar essas expressões depois de introduzidas pela investigação, embora possa mostrar como seu uso foi forçado e quais projeções contextuais seriam necessárias para esclarecê-lo.
5. A defesa ordinária de que uma afirmação foi verificada pode ser levada a exigir uma verificação absolutamente conclusiva, cuja sustentação parece demandar a exclusão de toda possibilidade posterior de revisão e ameaça confundir certeza com rigidez pessoal.
6. A tentativa de enfrentar a negação filosófica da certeza mediante uma simples insistência na evidência disponível pode produzir uma repetição indefinida de verificações ou outras formas de incoerência.
7. A defesa de evidências absolutamente conclusivas de que palavras impressas não mudam espontaneamente ou de que casas não se transformam em flores trata como fatos empiricamente confirmados condições cuja alteração exigiria reconsiderar o próprio significado dos objetos e atividades envolvidos.
8. A diferença entre dizer que uma criança, um ganso ou uma rosa não possui dentes mostra que a aparência de evidência não dispensa esclarecer onde e como a atribuição faria sentido, esclarecimento igualmente necessário ao comparar diferentes afirmações sobre transformações em flores.
9. Recusar a aplicação de “verificação conclusiva” não equivale a negar que a afirmação possa ser verificada, mas a exigir que se esclareça o que contaria como verificação, pois tanto a defesa quanto a rejeição irrestritas dessa possibilidade podem compartilhar a imagem de um conhecimento sustentado por acumulação interminável de evidências.
10. A escolha de exemplos tão peculiares exige perguntar por que não se recorre a situações características em que a expressão “evidência absolutamente conclusiva” possui emprego ordinário reconhecível.
11. Uma sequência de indícios sobre a presença de alguém em Roma pode culminar numa fotografia considerada conclusiva, cujo valor depende do conhecimento adicional e das circunstâncias que orientam a investigação.
12. Mesmo uma evidência ordinariamente conclusiva admite dúvidas pertinentes sobre falsificação, de modo que seu caráter absoluto dispensa novas provas para a finalidade prática em questão sem estabelecer a impossibilidade de toda evidência contrária futura.
13. Sonhos e desenhos animados podem conferir sentido à transformação de casas em flores, mas essa projeção não preserva automaticamente o conceito ordinário de evidência, pois imaginar um mundo em que qualquer acontecimento sucede a qualquer outro altera as condições de sua aplicação.
14. Tratar a estabilidade dos objetos como um fato entre outros pressupõe a possibilidade de contemplar o mundo inteiro como um objeto ou conjunto completo de objetos, experiência ligada ao sentimento de exterioridade, impotência e contingência radical.
15. A concentração de toda a existência num objeto exemplar expressa um desejo de totalidade e de conhecer o mundo como se imagina que Deus o conhece, cuja superação não deve simplesmente substituir a pretensão divina pelo desespero diante da finitude.
16. A dificuldade de comunicar essa experiência exige reconsiderar sua descrição, pois sua força não se reduz às formulações já apresentadas.
17. A peculiaridade de afirmar que algo existe exige compreender por que essa expressão parece informativa e necessitada de prova, como ocorre quando a defesa de um mundo exterior reconhece a impossibilidade de provar suas próprias premissas e relaciona essa impossibilidade à dúvida sobre estar sonhando.
18. A exigência de provar a presença da própria mão manifesta uma experiência paradoxal de dúvida que parece simultaneamente inevitável e impossível, tornando necessário esclarecer aquilo que leva a oferecer fundamentos para uma afirmação tão elementar.
19. A busca de prova pode expressar a tentativa de restabelecer uma ligação absolutamente firme com um mundo convertido em objeto exterior, depois que as formas de vida que efetivamente sustentavam essa ligação foram suspensas.
20. A contemplação de um objeto sem uma pergunta determinada ou finalidade prática favorece a tentativa de declarar que ele é aquilo que é em si mesmo, mas essa insistência não fornece informação e pode transformar sua presença numa imagem de inacessibilidade.
21. A tentativa de tornar informativa a afirmação de que algo está ali em si mesmo produz a imagem de um mundo cuja realidade seria distorcida pela experiência, embora a existência de coisas em si assim concebidas não constitua uma afirmação propriamente verdadeira ou falsa.
22. A pergunta sobre como conhecer o objeto em si nasce num contexto sem afirmação concreta, no qual a própria investigação removeu as condições necessárias para que um pedido de fundamento pudesse receber resposta.
23. A ausência de um fundamento satisfatório decorre da ausência de uma afirmação que determine sua pertinência, e a incapacidade de dizer algo particular não demonstra a existência de um conteúdo inacessível, tornando a ilusão de informar-se uma questão de autoconhecimento filosófico.
24. A investigação de Austin concentra o conhecimento no reconhecimento dos objetos e sugere que não há critérios adicionais de existência para além dos critérios de identificação, distinguindo-se da exigência tradicional de certeza sobre a existência de um objeto genérico.
25. A relação entre os usos de localização e os usos de existência em expressões como “há” e “aqui está” permanece por esclarecer, impedindo concluir sem investigação adicional que toda questão de existência se reduz a uma questão de identificação.
26. A possibilidade de dispensar os termos “existir” e “existência” em favor de expressões equivalentes não elimina a necessidade de compreender como localização, identidade e propriedades articulam aquilo que uma coisa é, nem dissolve as experiências expressas pelas perguntas sobre por que existe algo e como se conhece sua existência.
27. A aproximação entre Wittgenstein e Heidegger inclui o reconhecimento de que a relação humana com o mundo como totalidade não se reduz ao conhecimento, enquanto a insistência em concebê-la dessa maneira pode custar a identidade e a própria relação consigo, sem que os limites do conhecer constituam simples fracassos.
28. A presença da pergunta sobre o mistério do ser nos Diálogos sobre a religião natural de Hume revela sua ligação com questões epistemológicas e religiosas, embora sua formulação em termos da escolha de uma possibilidade entre outras já introduza pressupostos antropomórficos.
29. A aceitação de uma linguagem sobre coisas não esclarece por si só a aceitação do mundo, assim como chamar essa relação de crença ou fé exige mostrar o que efetivamente se acredita e como tal fé seria adquirida, expressa, mantida, ameaçada ou perdida.
