POLÍTICA E GNOSE
Raymond Abellio. De la politique à la Gnose. Entretiens avec Marie-Thérèse de Brosses. Paris: Pierre Belfond, 1987
Prefácio de Marie-Thérèse de Brosses
A política
A arte e a comunicação
A mulher e o amor
Esoterismo e Estrutura Absoluta
Rostos imóveis
Genealogia e transfiguração do Ocidente
Prefácio
«Quando me pego refletindo sobre o pouco tempo que nos é dado para viver e para nos encher de experiências que valham a pena, a incontável multidão de pequenas dificuldades e pequenas satisfações que constituem a trama da vida se perde numa espécie de horizonte cinzento e indistinto, e as próprias noções de felicidade e infelicidade me parecem igualmente fúteis. Ao mesmo tempo, essa convicção todo-poderosa que habita em mim, de que serei sempre, doravante, ao mesmo tempo ator e espectador da minha própria aventura, ajuda-me a aceitar qualquer destino e a me fortalecer nele e contra ele.” (Os olhos de Ezequiel estão abertos)
O encontro com a obra de Raymond Abellio, achada ao acaso entre livros de um bouquiniste às margens do Sena, revelou-se um acontecimento fundador que transformou a compreensão do que significa ler.
- Raymond Abellio costumava repetir que não existem encontros, apenas compromissos marcados.
- O livro encontrado intitulava-se Assomption de l'Europe, de capa cor-de-rosa, e abriu imediatamente um universo intelectual desconhecido.
- A frase que o polegar indicou ao abrir o volume definia a história europeia como o momento em que o primeiro artista grego interrogou o sorriso impenetrável das ídolos egeias e, sem obter resposta, decidiu apagá-lo.
- Um segundo livro oferecido pelo vendedor, Vers un nouveau prophétisme, trazia o subtítulo “Ensaio sobre o papel político do sagrado e a situação de Lúcifer no mundo moderno”.
A obra de Abellio não se limita à especulação estéril, mas oferece um instrumento operatório que convida o leitor a praticar uma praxis voltada para o despertar do homem interior.
- Jean-Pierre Dautun descreveu a obra de Abellio como um método e uma pedagogia que transcende o tempo e ilumina civilizações desde a China antiga até o Israel eterno.
- Dautun identificou três ferramentas centrais na abordagem de Abellio: a cabeça, o sexo e a meditação sobre o tempo, a criação artística e a morte.
- Essas ferramentas seriam as únicas que escapam a qualquer poder socializado e diante das quais cada ser humano permanece sozinho consigo mesmo.
- A obra principal, A Estrutura Absoluta, tem seu esboço em A Fossa de Babel e representa, apesar da aparência metafísica, antes de tudo uma praxis.
Ler Abellio equivale a aprender a sair de múltiplas prisões intelectuais e existenciais que condicionam a experiência moderna.
- Ler Abellio ensina a sair da História tal como veiculada pelos meios de comunicação e a recusar o militantismo no visível.
- Abellio propõe uma saída da esquizofrenia sexual para viver o casal de forma plena — o que ele denominava “o casal último”.
- Sua leitura conduz da ciência do conceito para a ciência da consciência.
- Permite também sair do esoterismo e das coleções de símbolos.
- Em Visages immobiles, Abellio apelava à “consciência operante do leitor” para transcender o romance tal como institucionalizado.
Em 1965, ao ser convidado por Pierre Belfond a sugerir nomes para uma nova coleção de entrevistas, o único nome proposto foi o de Abellio, em detrimento de Samuel Beckett ou Marguerite Duras.
- Abellio era então totalmente desconhecido — ou antes, conhecido mas ignorado, o que equivale ao mesmo.
- Sua dificuldade de classificação o tornava marginal entre os marginais: política, filosofia, ciência, literatura e esoterismo se entrelaçavam em sua obra sem rótulo preciso.
- Parte do público o via como escritor de direita, outra parte como intelectual de esquerda, ambiguidade própria de quem deixou de ser “contra”.
Raymond Abellio é o pseudônimo de Georges Soulès, cuja trajetória pessoal forneceu a matéria viva para toda a obra literária e filosófica posterior.
- Nascido em bairro humilde de Toulouse, Soulès ingressou na Escola Politécnica apenas um ano após o bacharelado.
- Militou na oposição de esquerda do Partido Socialista e criou uma célula revolucionária na ala trotskista da SFIO aos vinte e dois anos, quando eclodiu a crise econômica.
- A partir de 1931, participou do grupo X-Crise, onde encontrou personalidades como Jacques Rueff, Louis Vallon e Jules Moch.
- Como engenheiro de Ponts et Chaussées, descreveu com entusiasmo épico, em Les Militants, a chegada da eletricidade ao interior rural.
- Próximo de Jules Moch e Léon Blum na época da Frente Popular, dirigiu o Serviço de Grandes Obras e Urbanismo, encarregado de um programa de 20 bilhões de francos que se reduziu progressivamente.
- Abellio costumava dizer que não se pode escrever um romance de amor sem ter realmente amado.
O encontro decisivo com Pierre de Combas, por volta de 1943, abriu as portas de uma metafísica renovada que reunia conhecimentos tradicionais chineses e hebraicos.
- O diálogo entre Combas e Soulès foi descrito como um diálogo socrático, uma maiêutica que levou o futuro romancista a fazer tábua rasa e reconstruir sobre as ruínas.
- Combas foi considerado por Abellio seu “mestre espiritual”.
- O aspecto dogmático do esoterismo transmitido por Combas incomodava Abellio, pois certas interpretações exigiam um ato de fé incompatível com o exercício lúcido da racionalidade.
- Para superar esse esoterismo dogmático, Abellio mergulhou nos trabalhos dos fenomenólogos modernos: Sartre, Merleau-Ponty e, sobretudo, Husserl.
A Estrutura Absoluta não se resume, pratica-se, pois reúne as lógicas do Ocidente avançado e do pensamento tradicional em uma síntese última e clara voltada para a autorrealização.
- A reputação injusta de “mago” atribuída a Abellio decorria de seu interesse por disciplinas marginais como alquimia, astrologia e guematria cabalística.
- Seus ensaios demonstravam ser possível, por uma leitura raciocinada da Tradição, compreender melhor a evolução do mundo — perspectiva distinta da futurologia limitada aos domínios econômicos e sociais.
- A Estrutura Absoluta estudada por Abellio é idêntica à estrutura dos quarks na física nuclear, e os 64 hexagramas do Yi-King — Livro das Mutações, de pelo menos 3.000 anos antes de nossa era — reaparecem nos 64 códons do código genético.
- Abellio escreveu: “Ciência moderna e conhecimento tradicional. Nada de negativo em sua oposição.”
No contexto em que a intelligentsia francesa gravitava em torno do marxismo e da psicanálise, Abellio relativizou ambas as doutrinas ao recolocá-las cada uma em seu próprio quadro.
- Para Abellio, o marxismo é uma física social e a psicanálise, uma fisiologia do homem; ambas tendem a cortar o ser humano de sua percepção do “homem interior”, de que falava São Paulo.
- Abellio não recusava essas doutrinas em seu campo próprio, mas rejeitava sua pretensão comum de se erigirem em explicação exaustiva do mundo.
- A fenomenologia, tal como Abellio a concebia, constitui a via ocidental do conhecimento, equivalente ao que o Zen representa para os orientais.
Abellio vivia num desprezo total pelas modas e pelo mundo literário parisiense, alheio a cenáculos e capelas, o que tornava ainda mais intensa a curiosidade despertada por sua obra e por sua personalidade enigmática.
- Boatos misteriosos circulavam sobre suas atividades clandestinas entre Vichy e o gaullismo, que lhe valeram, em 10 de outubro de 1948, uma condenação a dez anos de trabalhos forçados à revelia.
- Abellio foi absolvido por serviços prestados à Resistência, provado que sua posição no MSR lhe permitia fornecer informações preciosas, notadamente à Rede Kasanga — serviço de inteligência do Movimento de Libertação Nacional.
- Seu dossiê havia sido confundido com o de um homônimo, Jean Soules.
- O general de Bénouville testemunhou: “Sabia que Soules pertencia ao MSR. Desejava que lá permanecesse por causa das informações importantes que nos forneceu.”
O primeiro contato telefônico revelou a modéstia surpreendente de Abellio, e o encontro inicial, previsto como breve, transformou-se em uma longa conversa de quase cinco horas que marcou o início de uma cumplicidade de vinte e um anos.
- Abellio declarou de imediato estar tão habituado a ser lido superficialmente que qualquer possibilidade de verdadeiros entrevistas lhe parecia quimérica.
- Em seu pequeno apartamento tomado de livros e com mobiliário reduzido ao mínimo, o encontro serviu como teste de seriedade intelectual.
- Abellio costumava dizer ao telefone a seus diferentes solicitantes: “Não se fazem temas de conversa com temas de conversão.”
- Por trás das palavras corteses e das gargalhadas calorosas, havia uma inteligência implacável diante da qual não se podia nem usar palavras vazias nem permitir a menor aproximação.
- Esse míope, de olhar turvo por trás de óculos espessos, via sempre muito além das aparências.
