WUNENBURGER, Jean-Jacques. La raison contradictoire: Du modèle au symbolique. Paris: Albin Michel, 1990.
1. A produção da diferença, contrária às leis gerais do pensamento e rigorosamente inexplicável segundo Lalande, revela a ferida narcísica da razão humana, cujo desejo e dever de superar a distância que a separa de um real diverso e complexo, convertidos em fúria de compreender pela teologia, pela filosofia e pela ciência, esbarram sempre num excedente que lhe escapa, de modo que, como Sísifo, toda empresa especulativa desaba e a inadequação primitiva entre palavras e coisas torna frágeis e aproximativas todas as tentativas de cartografar o mundo.
2. Grande é então a tentação de recuar e rebaixar as exigências intelectuais, contentando-se com uma representação de segunda ordem que satisfaça as necessidades mais urgentes de inteligibilidade, canalizando o múltiplo por sistemas classificatórios, linguagens e códigos e estabilizando o movente por uma lógica identitária que ancora o fluxo das coisas em princípios simples e substâncias limitadas, conduta que visa conjurar tanto a desordem das matérias quanto a possibilidade de seu não ser.
3. Essa racionalidade identitária tende a referir a superabundância do real ao binômio do Mesmo e do Outro, a recortar as formas em pares binários, a fixar o movente em substâncias homogêneas e a exorcizar todo diferendo constitutivo de uma diferença, construindo uma representação clara e operatória que apazigua suas inquietações e assegura seu poder sobre as coisas, a grande prosa do mundo que disciplina a diferença em torno do princípio de não contradição, da classificação e de um núcleo de substâncias, vetor essencial do pensamento clássico cuja arqueologia Foucault reconstituiu como história do Mesmo.
4. Esse expediente que achata o mundo num mapa em vez de percorrer seus relevos arrisca conduzir a erros de paralaxe e a desfigurações, e a ortodoxia aristotélico-cartesiana, ao subsumir o diverso sob categorias identitárias, pode gerar uma leitura miniaturizada e anêmica das coisas, uma ilusão de inteligibilidade e uma diferença simulada ou amputada, hipertrofiada ou subestimada por lógicas da disjunção ou da conjunção, de modo que nem o inventário minucioso nem a classificação fria penetram a intimidade das articulações das coisas, e o enigma da diferença talvez decorra menos de um segredo impenetrável que da impotência ou da preguiça da razão.
5. Impõe-se assim questionar a autoridade da racionalidade clássica não apenas quanto aos limites jurídicos de sua competência, como no kantismo, mas quanto às raízes e figuras da discursividade erigidas sob o reinado da identidade, razão já destronada há mais de um século pela proliferação de ciências que exploram estratos surpreendentes do real e pelas filosofias da suspeita, de onde os apelos por uma apreensão mais contrastada e dinâmica da complexidade, irredutível à mera complicação, mediante a multiplicação das leituras e a plasticidade das figuras da representação.
6. Essa orientação deve ser reforçada porque a cultura moderna acentua, contra toda previsão, suas pulsões simplificadoras e identitárias, já que a difusão exponencial dos conhecimentos leva a codificá-los e abreviá-los em mensagens cifradas e slogans, as tecnologias da informação favorecem a digitalização binária em detrimento do pensamento analógico e intuitivo, hipertrofiando o cérebro esquerdo analítico e sequencial, e a renovação do sentido da profundidade trazida pelas ciências é frequentemente confiscada por ideologias esqueléticas.
7. Repensar a diferença e a complexidade numa perspectiva não identitária ganha dimensão cultural e mesmo política, pois reatar o entrecruzamento da identidade e da alteridade, da unidade e da pluralidade, da repetição e da mudança permitiria reencontrar um giroscópio intelectual para o homem contemporâneo, dividido entre um iconoclasmo intempestivo e a credulidade diante dos pensamentos prontos da modernidade, oferecendo-lhe um ponto fixo e um horizonte estável para melhor adaptar-se à ordem verdadeira das coisas, numa autêntica ecologia do espírito.
8. Essa empresa é facilitada pela longa história de uma racionalidade alternativa, mais lábil e menos dogmática, que antes das ciências matemático-experimentais nutriu as interpretações dos pré-socráticos e dos hermetistas renascentistas e, desde o século XVIII, sustentou discretamente um logos da Natureza que, sem renunciar à discursividade, recorre ao recorte polimórfico do real, às contrariedades efetivas e às configurações polares, buscando, como razão do claro-escuro, penetrar os nós, dobras e oscilações do real com a totalidade das formas cognitivas do espírito, em saberes mais próximos das configurações concretas e das formas simbólicas carregadas de sentido.
9. O fisicalismo contemporâneo, como assinala Gusdorf, limita-se a uma verdade de superfície que liga aparências à maneira de Hume, fenômenos sem númeno, ao passo que a especulação dos filósofos da natureza busca a coerência intrínseca e a arquitetura inteligível do real, penetrando a essência das coisas num conhecimento que implica sujeito e objeto e visa integrar o indivíduo ao mundo e o mundo ao indivíduo.
10. Em vez de resignar-se a essa cisão entre duas inteligências e ao desprezo da ciência dominante pelo saber da complexidade global do real, convém reavaliar essa racionalidade da sombra, destacar a riqueza de suas intuições e as promessas heurísticas de sua lógica e depurá-la de floreios anedóticos e sobredeterminações extravagantes, sobretudo num momento em que as ciências canônicas são chamadas à humildade epistemológica pela crescente desproporção entre a racionalidade clássica e as novas configurações descobertas no real.
11. Desde o início do século, a representação do mundo na astrofísica, na microfísica e depois na biologia faz a razão clássica sentir-se cada vez mais estreita em seus quadros identitários.
12. As ciências da natureza e as ciências humanas renunciaram ao ideal de uma unidade epistemológica capaz de iluminar todo o real por uma razão única e universal, multiplicando as grades de subsunção e emancipando-se da disjunção entre o homogêneo e o heterogêneo puros, como entre a identidade do mecanicismo e a alteridade romântica do vitalismo, movimento sustentado por uma crítica filosófica do racionalismo clássico que conduz a uma subversão epistemológica, submetendo o dado a um jogo cruzado de esquemas antagonistas e escalares.
13. A comunidade científica, frequentemente bachelardiana sem o saber, encoraja discursos que retomam as intuições mais antigas sobre a concórdia e a discórdia de todas as coisas e preparam, contra os pluralismos anárquicos ou niilistas que estilhaçam a diferença, uma racionalidade contraditória e conflituosa, segundo duas linhas de força: a substituição da totalidade clássica por uma totalidade compósita, poliédrica e antagonista, como no hólon de Koestler, herdeiro dos sistemas em tensão de Bertalanffy, e na complexidade de Edgar Morin, fundada na relação e na oposição e expressa na Unitas multiplex, e o confronto aberto com o logicismo ortodoxo em favor de modos de pensar contraditórios e paradoxais.
14. Em todas essas perspectivas a realidade abre-se a um sistema de estados plurais e incompatíveis que explicam ao mesmo tempo o ser e o devir, a ligação e a separação, e a complexidade contraditória, nascida em campos científicos delimitados, amplia-se numa visão global do mundo e reflui até seu substrato lógico, tornado alvo dessas empresas subversivas.
15. Na modernidade multiplicam-se os apelos a reconhecer o esgotamento da lógica identitária, como na crítica de Castoriadis às lógicas conjuntistas fundadas em objetos definidos e discretos, pois a definição cantoriana de conjunto reata a enigmática identidade parmenídica entre ser e pensar, segundo a qual o que é deve ser bem definido, distinto, componível e decomponível, e o que não é assim é menos ou nada, mera aparência, ilusão ou multiplicidade inconsistente.
16. O problema já não é conhecer juridicamente os limites da razão, como no criticismo kantiano, mas efetuar uma inversão rumo a outra abordagem do real, elaborando uma nova lógica à medida das partículas elementares, do campo cósmico, da auto-organização do vivo, do inconsciente e do social-histórico, que não são nem caos desordenado nem sistema de coisas bem recortadas, mas que se deixam em parte apreender assim, multiplicando-se os esboços de uma lógica paradoxal que deixa de restringir-se ao campo metafísico ou teológico para tornar-se alavanca da compreensão de todas as coisas.
17. Seguindo Varela, Dupuy reclama que as ciências fecundem a lógica do duplo vínculo para escapar aos imperativos de disjunção e alternância de uma lógica identitária que, recusando abarcar os polos contraditórios num mesmo olhar, oscila esterilmente entre eles, sem que a dialética hegeliana ofereça solução, pois sua síntese suprime tese e antítese, sendo necessária uma lógica do magma que aceite contradições, conflitos e oposições.
18. A reavaliação da contradição atinge até a matemática, como em René Thom, que esboça um arquétipo geral da morfogênese destronando os princípios de identidade mascarados no conceito de estabilidade e lexicalizados pelo verbo ser, inscrevendo a diferenciação das formas numa estrutura dinâmica geradora nascida do conflito de forças, o que permite uma classificação, uma álgebra e uma combinatória das formas num espaço multidimensional e abre a possibilidade de um estruturalismo dinâmico.
19. Questiona-se assim não mais a pertinência de modelos mecanicistas ou organicistas, mas a adequação do modo de pensar dominante, já que onde reinava uma única lógica tida por funcional e verdadeira concorrem agora ao menos duas, uma que encerra o dado num quadriculado plano e vigiável e outra que faz interpenetrar exterior e interior, espaço e tempo, identidade e alteridade, situando a episteme contemporânea numa bifurcação entre uma lógica parcelar e fechada e uma lógica aberta, pluridimensional e conflituosa, entre a lógica do comissário, binária e regida pelo terceiro excluído, e a lógica do iogue, aberta a uma quadripolaridade.
20. Sem negar a existência de setores homogêneos e simples, de dicotomias nítidas ou mesmo de fenômenos dialéticos, nem que muitas formas naturais e situações práticas se deixem abordar com segurança pela lógica identitária do Mesmo e do Outro, cumpre prevenir a razão contra todo uso monomaníaco de um regime de pensamento, de modo que a inteligibilidade da produção da diferença deve passar, como diz Mircea Eliade, pela espantosa variedade das soluções dadas ao enigma sempre recomeçado da polaridade e da ruptura, do antagonismo e da alternância, do dualismo e da união dos contrários.