1.13 Metafísica

STENGERS, Isabelle. Penser avec Whitehead “une libre et sauvage création de concepts”. Paris: Éditions du Seuil, 2002.

Entrada na metafísica

1. Neste capítulo e no seguinte esquecem-se os problemas particulares da ciência moderna para adotar o ponto de vista desapaixonado que considera a natureza das coisas antes de toda investigação especial particular, ponto de vista chamado metafísico.

2. Essa introdução ao capítulo Abstração, o primeiro dos dois escritos depois de abril de 1925, assinala o abandono da questão da ordem da natureza em que a ciência moderna confia, pois as investigações científicas são sempre particulares, como o alpinista que encontra a parede pela pega que ela oferece ou recusa, e suas questões supõem e traduzem, em caso de êxito, modos específicos de encontro ligados ao modo como algo deve aguentar, designando a realidade por seus relevos duradouros que recompensam a atenção adequada, ao passo que agora se trata da natureza das coisas no sentido mais geral, sem referência ao êxito ou fracasso de um modo particular de pega, ponto de vista desapaixonado porque terá o desafio apaixonado de construir conceitos que não favoreçam nem fundem nenhuma abordagem particular, mas respondam ao que exigem tanto o organismo que perdura quanto o que se desfaz, tanto o êxito quanto a confiança traída, tanto o elétron quanto a experiência de quem lê esta frase.

3. Mais tarde, sobretudo em Modes of Thought, o termo importância designará o que um organismo realiza, inclusive o êxito de um modo de sucessão em que cada nova ocasião realiza a conformidade mais estreita com o passado, ao passo que o termo valor pertencerá à metafísica, já que toda realização é valor, tomada de posição assim e não de outro modo.

4. Importância e função estão ligadas, pois a função que construímos matematicamente ou por razões discursivas aproveita uma conformidade mantida do presente com o passado, convertendo-a em razão do presente e exibindo o futuro apenas como reprodução do mesmo em circunstâncias diferentes, pouco importando que seja físico-matemática, biológica, como o órgão que aposta na importância do que o afeta, ou psicológica, como o passado que dá motivos ao presente, pois o que conta é que exibe a realização que constitui a continuidade do presente em relação ao passado.

5. Alguns viram na filosofia de Whitehead um panpsiquismo que atribuiria psiquismo a tudo o que existe, suscitando o escárnio sobre elétrons que pensariam como nós, malentendido que a importância da psicologia anunciada por William James poderia reforçar, já que o presente especioso é de certo modo o protótipo da ocasião atual que Whitehead tentará pensar, mas isso não significa atribuir psicologia, subjetividade ou emoções à ocasião atual, pois a experiência no sentido de James pôde servir de protótipo justamente por resultar de uma despsicologização deliberada da experiência usual, consciente, intencional e dividida claramente entre sujeito e objeto, e foi recusando à consciência reflexiva e a suas pretensões de invariância o privilégio do centro da cena que James explicitou o que a experiência humana exige da metafísica e aquilo a que exige que ela resista.

6. Inversamente, a psicologia talvez seja, entre as investigações especiais, a que mais vitalmente precisa dos recursos da metafísica no sentido de Whitehead, pois James, ao fazer da consciência uma função que produz a continuidade especiosa e as autoexplicações reflexivas que nos constituem como sujeitos autores contínuos de nossas experiências, sabia que fazia também filosofia, já que as situações que permitem explorar desapaixonadamente as pretensões apaixonadas da consciência reflexiva colocam questões que o psicólogo sério rejeitaria como filosóficas, razão para usar o termo alma, não em sentido religioso ou kantiano de salvação ou dever, mas associado à inquietude, à hesitação, à errância e à possibilidade de perder a alma, tipos de experiência que impuseram a Whitehead conceber a realidade como realização a partir do contraste entre potencialidade e atualidade.

7. A alma impõe sua questão à psicologia não porque esta, apesar do nome, a tenha por objeto, já que a experiência psicológica pertence à ordem da natureza como experiência sobre a qual se constrói um saber partilhado, que deve ser nomeada, descrita, discutida e qualificada, e o psicólogo e cada um de nós, ao analisar-nos psicologicamente, fabricamos descrições, interpretações e elucidações, isto é, funções, sendo secundário tratar-se de motivos e intenções e não de causas, pois o crucial é que descrevê-los pressupõe sua importância e impõe tomar uma perdurância como eixo, ao passo que a alma não é objeto de descrição, e a singularidade da psicologia, às vezes mal suportada pelo psicólogo nostálgico dos êxitos de colegas mais felizes, está em lidar com o que já não permite conjugar perdurância e êxito, exigindo que ele se desprenda do apetite pelo que, por sua perdurância, responderia a suas questões.

8. A alusão à alma pode ser vital para a psicologia não para atingir a verdade de uma experiência espiritual, mas por um apetite prático pelo que essa ciência encontra, e a investigação metafísica é pertinente por aceitar o desafio interpretativo de ser neutra quanto às possibilidades de pega implicadas pelo êxito duradouro, sugerindo certo humor diante do êxito de uma pega de que o psicólogo precisa, pois a imagem do alpinista funciona mal para ele, diante de uma parede caprichosa que oferece pega sem que se possa atribuir com certeza o êxito à pertinência das questões e que frustra o próprio sentido de escalar, podendo dobrar-se ou envolver o pesquisador em suas dobras, de modo que, se a neutralidade metafísica desse ao psicólogo força para aceitar o que sua experiência sugere, isto é, deixar de imitar o alpinista que define o que encontra em termos que autorizem julgá-lo e engajar-se pelos devires mesmo contra os que exigem a possibilidade de julgar, responderia à necessidade mais gritante de uma ciência que paga caro sua definição moderna e seu dever de repudiar a filosofia.

9. Os conceitos articulados em torno da ocasião atual nada têm de fundação metafísica da psicologia nem de teoria da alma, salvo no sentido leibniziano em que toda mônada, toda res vera, é alma, e, solidários de uma abordagem desapaixonada ou genérica, seriam deficientes se servissem para fundar um modo de experiência contra outros, guiar uma definição ou privilegiar um tipo de fato, devendo reencontrar a possibilidade de toda experiência, definição ou fato como mergulho noutras possibilidades de sentir, experimentar, pensar e devir, e sobretudo ser neutros quanto às distribuições do bom senso entre o que sabemos bem e o que não podemos crer, obrigando a considerar tudo o que a experiência cultivada de modos variados pode testemunhar, cada testemunho incidindo igualmente sobre a natureza das coisas, de modo que a experiência deixa de ser nossa para tornar-se o fato concreto por excelência que obriga à criação metafísica.

10. Sobre a realidade como tal, Whitehead afirmara, comentando Berkeley e os filósofos especulativos que Kant silenciou, que é processo, a entender como atividade subjacente de preensão e acontecimentos preensivos realizados, e, como raramente volta atrás em suas afirmações, limitando-se a aprofundamentos que sem contradizê-las podem reconfigurar inteiramente seu sentido, a atividade subjacente em relação à qual há individualização deverá doravante remeter à potencialidade em relação à qual há realização.

11. No coração do capítulo dedicado ao século XIX e à noção de energia cuja conservação esse século celebra, Whitehead aprofunda o contraste entre o subjacente e o realizado ou individualizado à luz do novo contraste entre potencialidade e atualidade, inserindo, num texto sobre a articulação entre a energia definida quantitativamente e a teoria do organismo, os três parágrafos do triplo envisagement, em que se trata subitamente da energia ou atividade eterna subjacente de que cada realização é uma individualização.

12. Dessa energia ou atividade eterna só se pode falar em termos abstratos, pois é preciso abstrair da atualidade, do que emerge como estado de coisas real, de modo que a eternidade deve ser entendida como o que a realização pressupõe enquanto temporalização, e Whitehead não pretende definir completamente a atualização, mas construir o contraste entre possibilidade e atualidade fazendo do possível o subjacente e deste uma abstração, deixando fora dela o que define a atualidade por contraste com a potencialidade, o valor, já que só a atualidade tem valor, como não cessará de repetir.

13. Ao contrário de Whitehead, que escreve como se fosse claro, o texto estranho, obscuro e importante do triplo envisagement deve ser abordado como um compromisso de pressupostos e consequências ainda indeterminados, aposta conceitual que anuncia um estilo mais que um procedimento acabado.

14. A consideração do fluxo geral dos acontecimentos leva a analisar uma energia eterna subjacente em cuja natureza há envisagement do domínio de todos os objetos eternos, fundamento dos pensamentos individualizados que emergem como aspectos de pensamento na história de vida de estruturações duradouras mais sutis e complexas, e também envisagement de todos os valores que seriam obtidos por um estar-junto real dos objetos eternos em situações ideais, sem valor intrínseco fora de toda realidade, mas valiosas como contribuição à tomada de posição, de modo que os acontecimentos individuais nascem da preensão individualizada de aspectos dessas situações ideais sob a forma de pensamentos individualizados dotados de valor intrínseco, valor que surge do estar-junto real de aspectos ideais, como no pensamento, e de aspectos atuais, como no processo dos acontecimentos, não podendo atribuir-se valor à atividade subjacente independentemente dos acontecimentos factuais do mundo real.

15. No parágrafo seguinte, pretendendo resumir, Whitehead distingue três tipos de envisagement, dos objetos eternos, das possibilidades de valor relativas à síntese dos objetos eternos e do estado de coisas atual que deve entrar na situação total produzível pela adição do futuro, repetindo com insistência que, independentemente da atualidade, isto é, da efetuação desse estado de coisas, a atividade eterna está divorciada do valor.

16. É difícil afirmar que o funcionamento do triplo envisagement seja inteligível, já que a escrita de Whitehead está em obra, em plena atividade de envisagement, mas é possível pensar com ele alguns pontos de sua elaboração e precisar a aposta de leitura.

17. Os objetos eternos tornaram-se conceito metafísico crucial, correlato do envisagement, e anunciam-se em três modalidades, todos os objetos eternos e seu domínio ou reino no primeiro tipo, reunidos em situações ideais no segundo e, no terceiro, aspectos dessas situações ideais objeto de preensão individualizada que participam dos acontecimentos individuais como estar-junto real de aspectos ideais e atuais, com uma analogia enigmática entre aspectos ideais e pensamento e entre preensão individualizada e pensamentos individualizados.

18. Diante dessa perspectiva grandiosa e obscura multiplicam-se as aproximações filosóficas, com a substância espinosista e seus modos individualizados, sublinhada por Whitehead, com o Intelecto de Plotino, bom candidato a um envisagement sem sujeito, e com um reino das Ideias platônico, aproximação ameaçadora por definir uma soberania dos objetos eternos sobre a atualidade, aproximações que se imporiam se Whitehead tivesse encerrado sua carreira com Science and the Modern World, mas, como essa perspectiva desaparece em Process and Reality, a atividade eterna subjacente é tratada não como resultado de seu pensamento, mas como momento de seu caminho.

19. O valor deixa de associar-se ao organismo enquanto perdura e passa a associar-se à atualização como tal, parte da metafísica indiferente à importância, ligada a toda estruturação que consegue perdurar e que uma investigação especial pode privilegiar, mas ligada ao envisagement, condição do valor que só existe pela tomada de posição efetiva que o conclui pela adição do futuro, pela individualização do que será por contraste com o que poderia ter sido.

20. A escolha do termo envisagement é significativa, pois em Process and Reality aparecerá o verbo envisager, que implica a questão de quem envisage, ao passo que aqui o substantivo traduz um aspecto de um processo sem sujeito, mas a explicação posterior da escolha do verbo já vale para o substantivo, pois associar os objetos eternos a uma visão ou intuição sugeriria uma atividade contemplativa desprovida da sede do fato concreto, quando a eternidade não é objeto de contemplação além do concreto, único valor, e envisager sugere uma atividade que designa como seu valor a atualidade a promover entre possibilidades, tornando estas deficientes e sem valor fora de sua atualização.

21. Whitehead recusa assim todo ideal contemplativo, como o que fez coincidir na tradição pós-platônica intelecto, inteligência e inteligível, e a ingressão dos objetos eternos nada tem de participação numa realidade mais alta e soberana, associando-se a um termo que evoca antes uma atividade atarefada, hesitante, talvez conflituosa, que as filosofias contemplativas ou que fazem convergir salvação, certeza e coincidência consigo caracterizariam como errância de uma alma distendida e desorientada, privada do que a orienta para seu destino autêntico.

22. Talvez só Leibniz, outro matemático, tenha adotado perspectiva semelhante sobre a experiência, ao propor na Confissão de um filósofo, como único conselho geral, perguntar sempre dic cur hic, diz por que isto, pedindo não saber, mas dizer, e não obedecer, ao tomar posição, a razões gerais, conformidades indiferentes às circunstâncias ou normas cegas, mas pôr essas generalidades à prova do aqui, envisageando a situação como um caso, do modo mais concreto e situado possível.

23. O envisagement leibniziano é um conselho moral que traduz o melhor, já que não podemos deduzir nossas escolhas de nenhum imperativo divino nem aceder às razões da escolha deste mundo como o melhor, mas podemos integrar em nossas decisões o fato de Deus ter escolhido este mundo, de modo que o conselho significa ser por este mundo, sendo melhor, sem promessa nem garantia, tomar posição que o afirme e se exponha a ele do que proteger-se por generalizações abstratas, por nobres que sejam.

24. Whitehead não é leibniziano, pois para ele o envisagement traduz o que se deve atribuir à própria atividade eterna subjacente para que a atualidade seja valor, e isso vale para toda atualidade, já que, embora o pensamento consciente e a hesitação entre possibilidades abstratas exibam e exijam um contraste positivo entre potencialidade e atualidade, toda ocasião, como individualização da atividade eterna, mesmo a ruga mais tênue e fugidia que diferencia a energia geral, tem valor e constitui uma tomada de posição individual.

25. Assim como o envisagement metafísico não privilegia a experiência humana, os objetos eternos não fundam nenhum privilégio das atividades cognitivas para as quais Platão requeria as Ideias, julgar, selecionar, avaliar segundo legitimidade, fidelidade ou semelhança, nem dinâmica alguma de elevação ou conversão, e no capítulo Abstração deve-se lembrar que o objeto eterno ou a idealidade transcende a atualidade, mas que a transcendência fica despojada de todo valor eminente que legitimaria as coisas deste mundo e de toda desejabilidade que orientaria as almas para a salvação, sendo, tal como a exibe a experiência de conhecimento, apenas o que a imanência, o fato concreto, exige para que nenhuma questão colocada pela experiência seja reduzida, negada ou desqualificada, segundo o procedimento que prevalecerá em Process and Reality de descrever todos os aspectos das experiências mais singulares e menos rotineiras como exibindo o que, do ponto de vista metafísico, toda atualização supõe.

26. Em toda ocasião cognitiva o conhecido é uma ocasião de experiência atual diversificada por sua referência a um domínio de entidades que a transcendem por terem conexões análogas ou diferentes com outras ocasiões, como um tom definido de vermelho implicado na ocasião imediata junto com a forma esférica de modo definido, que se exibem como transcendentes por terem outras relações com outras ocasiões.

27. Os objetos eternos impõem-se a partir das ocasiões cognitivas, das experiências que nos fazem falar, descrever, analisar e raciocinar sobre a experiência, mas esse privilégio não é metafísico, pois eles não são requeridos pelo conhecimento nem sinônimos de uma inteligibilidade pura que se manifestaria na realidade mutável, e sim requeridos pelo que experimentamos no conhecimento, devendo, se este não for fantasmagoria, estar implicados em toda atualização, já que descrição, análise e raciocínio, mesmo quando pretendem abstraí-los no enunciado tranquilizador desta mancha vermelha ali, implicam uma transcendência, um conjunto de referências que excedem esse vermelho, pois dizer vermelho implica que poderia ser azul, que algo é vermelho, que outras coisas podem ter o mesmo tom e que esse mesmo vermelho pode ser objeto de outras experiências.

28. Uma cor não é em si um objeto eterno, mas a experiência da cor testemunha a ingressão de um objeto eterno, chamado sensum quando exibido pela experiência sensível, classe particular de objetos eternos porque a experiência sensível, como a da cor, não implica necessariamente a pertinência de nada mais, reencontrando-se a caracterização do objeto sensível de Concept of Nature, em que a ingressão de um sensum não implica a ingressão de outros objetos eternos segundo modos especificados.

29. A cor como sensação não se refere especificamente às árvores, ao lago ou aos arbustos ali, mas pertence ao acontecimento da experiência, de modo que, quando se vai, se vai, enquanto a paisagem permanece, e é preciso ser, como Shelley, poeta da sensação para celebrar cintilações e jogos de sombra e luz sem descrever árvores ou um momento do dia, caso em que o contraste entre o que é e o que poderia ser não pode ser envisageado não por não existir, mas por dominar a experiência como milagre frágil sem garantia nem explicação, acompanhando-se o vermelho apenas do sentido da cor como possível, esse vermelho diferente de todos os outros.

30. Se, ao contemplar o amarelo de um trigal, a experiência implica outros amarelos já vistos ou os trigais de Van Gogh, ela exibe as múltiplas relações dos objetos eternos entre si, como também quando se trata do cinza destas nuvens, do tom calcário das pedras deste castelo, cores que pertencem às coisas, ou, exemplo favorito de Whitehead, do toque de azul neste quadro, necessário para que ele seja tal e não qualquer, sensação complexa inseparável do jogo de formas e cores e de uma composição arriscada que assina este quadro.

31. Só a injunção dos censores empiristas pode levar a ignorar violentamente o conjunto das proposições que se articulam irredutivelmente à percepção desse trigal, dessas nuvens ou desse castelo, e é o caráter ilimitado desse conjunto que dá sentido ao domínio de todos os objetos eternos, pois, se em Concept of Nature um acontecimento discernido era conhecido como ligado a outros discerníveis, no limite toda a natureza que se declara numa experiência, aqui domínio significa que um objeto eterno não pode fazer ingressão sem mobilizar de algum modo todos os objetos eternos.

32. Para falar em toda generalidade de um objeto eterno, Whitehead propõe dois princípios.

33. O primeiro princípio afirma que todo objeto eterno é uma entidade individual que é o que é a seu modo particular, essência individual descritível apenas como sendo ela mesma, e que sua essência é o objeto considerado enquanto acrescenta sua contribuição única a cada ocasião atual, idêntica em todas na medida em que o objeto é idêntico a si e variável segundo seus modos de ingressão, de modo que seu estatuto metafísico é o de possibilidade para uma atualidade, cada ocasião se define pelo modo como essas possibilidades se atualizam para ela, e a atualização é uma seleção que produz uma gradação das possibilidades segundo sua realização nessa ocasião, conduzindo ao segundo princípio, segundo o qual um objeto eterno, como entidade abstrata, não pode separar-se de sua referência a outros objetos eternos nem à atualidade em geral.

34. A definição de que o objeto eterno é o que é tem consequências singulares, a primeira das quais é a impossibilidade de descrevê-lo ou falar dele por si mesmo sem referência a outra coisa, pois não se remonta da cor ao sensum por semelhança ou analogia, já que então o sensum seria outra coisa, análogo ou modelo de algo, e algo lhe teria acontecido, como adquirir com os órgãos dos sentidos os meios de conferir-lhes finalidade, explicando-se ou explicando a cor-sensação, assim como o objeto inteligível círculo explicaria ou se explicaria no intelecto matemático.

35. Whitehead nunca mudará de opinião sobre esse ponto, pois o objeto eterno não arma nenhum juízo, não funda raciocínio, não confere poder a nenhum privilégio e não se comunica com nenhuma experiência pura, não sendo o inteligível nem inteligível, já que a inteligibilidade se refere a uma experiência atual, não guiando nem orientando e, se pode ser dito puro ou transcendente, é no sentido de impassível, radicalmente indiferente a suas ingressões e estranho a toda discriminação entre puro e impuro e a todo procedimento de purificação, porque do contrário seria algo mais do que é, caracterizável por alguns casos privilegiados de ingressão.

36. Na essência de cada objeto eterno há uma indeterminação que exprime sua paciência indiferente em relação a todo modo de ingressão em qualquer ocasião atual.

37. A relação de um objeto eterno com os demais, em Science and the Modern World com todos os demais, reconduz à questão do envisagement, pois o objeto do envisagement nunca é um objeto eterno, mas os objetos eternos e antes de tudo seu domínio.

38. O domínio dos objetos eternos não é uma totalidade estática e ordenada, mas a relacionalidade sistematicamente completa, uniforme e não seletiva de cada um com todos os outros, que Whitehead tentou caracterizar com grande esforço para afirmar que a seleção de um modo determinado de ingressão de um objeto implica um modo determinado de ingressão para todos, uma situação ideal correspondente a uma gradação das possibilidades, hierarquia abstrata encimada pelo objeto selecionado, considerações técnicas que não cabe seguir por arriscarem a formulação axiomática e não a metafísica e porque essa hierarquia colocará um problema maior que talvez explique seu abandono em Process and Reality, importando o que se queria formalizar, o envisagement como atividade eterna, e podendo o domínio dizer-se eterno, por contraste com a temporalização que é realização, por ser indiferente ao que o requer, pois nada lhe acontece e ele é eternamente o que é, expresso indiferentemente por qualquer das situações ideais selecionadas no segundo envisagement.

39. Cada realização é realização da possibilidade de valor que constitui uma situação ideal ordenando todos os objetos eternos, como mostra a experiência tu que me olhas, mas talvez sem me ver, com o número de proposições, tomadas de posição sobre o passado, implicações, es, ous, mas entãos, e portantos e e ses que pode suscitar, matéria potencial de um romance, generalizando a situação ideal o fio de todas as questões que uma experiência sob o signo da presença pode colocar, testemunhadas por romancistas ou psicólogos que celebram a experiência em vez de reduzi-la à trivialidade, e mesmo a percepção desta mesa vermelha, menos loquaz, carrega possibilidades indefinidas de tocar, apoiar-se, pousar, bater-se, admirar ou deslocar, enquanto em Concept of Nature o fato geral completo era o todo da natureza em relação ao qual houve discriminação e discernimento numa experiência sensível, importando ali que o que experimentamos tivesse correspondente na natureza, pois a imaginação nada explica e deve ela mesma tornar-se concebível, ao passo que aqui o importante é a caracterização da experiência como realização, já que realização individual não significa independência substancial, proximidade com Leibniz, para quem o mundo inteiro conspira em cada estado de cada mônada.

40. O estar-junto real dos objetos eternos na situação ideal não implica igualdade entre eles, pois cada situação corresponde a uma hierarquização determinada entre as inúmeras que o domínio tolera e supõe um modo de ingressão diferenciado para cada objeto, ordenando-os também enquanto excluídos, de modo que todos são incluídos de modo determinado por toda ocasião, alguns como excluídos, como não ente em relação a ela, e uma ocasião atual supõe uma síntese de ente e não ente.

41. Ao fazer da exclusão um modo de inclusão, Whitehead afasta-se de Leibniz e de um perspectivismo limitado à gama entre claro e confuso, permitindo à situação ideal afirmar-se como possibilidade de valor e à realização não ser ponto de vista sobre o mundo, mas engajamento num mundo, assim e não de outro modo, como na experiência do poeta da sensação, em que a particularidade dos sensa se torna singularidade ao incluir como excluídos os objetos eternos cuja inclusão positiva implicaria a percepção de uma paisagem colorida, ao passo que a insistência do futuro traduz a inclusão de objetos eternos num modo que exige a passagem a outras individualizações em que o não ente poderia tornar-se ente, e as questões, prolongamentos, interpretações e variações de interesse suscitadas por uma experiência testemunham modificações da situação ideal, em que um objeto sucede a outro no topo da hierarquia e um excluído pode ser incluído, definindo cada situação ideal abstratamente um mundo e um ponto de vista sobre o mundo, mas sendo o ponto de vista atualizado preensivo, que toma, apreende, recusa e exclui, por um mundo e não de um mundo.

42. Resta abordar o terceiro tipo de envisagement, que tem algo do movimento audacioso do gato que se torce em plena queda para cair de pé e não pode ser descrito independentemente da ameaça de que permite a Whitehead escapar, embora o gato que não se fere tenha mesmo assim sofrido a queda, de modo que se trata de problematizar o triplo envisagement, face abstrata da individualização propriamente dita, como momento arriscado do pensamento de Whitehead em que talvez ele sofra mais que crie as consequências dessa abstração.

43. Põe-se a questão de saber em relação a que a atividade eterna subjacente é abstração, pois, embora se tenha restringido os objetos eternos ao como da preensão para evitar confundi-lo com o fato concreto, a entidade atualizada assim e não de outro modo, o texto de Whitehead é por vezes menos claro e não se opõe categoricamente à interpretação que faria da atualidade simples passagem à realidade da própria estrutura ideal.

44. A dívida para com Gilles Deleuze revela-se aqui, na medida do risco a que essa interpretação expõe Whitehead, pois todo leitor de Deleuze está atento à diferença entre virtual e potencial, sendo o potencial feito para explicar o real e pondo a explicação sob o signo da semelhança ou do decalque, possível bem definido a que só falta a realidade e cuja realização é seleção do que se realizará, ao passo que o virtual, segundo a tese que Deleuze toma de Bergson, não se atualiza sem mudar de natureza, não podendo ser concebido à imagem de sua atualização, que nada tem de simples seleção.

45. Ao conceber os objetos eternos abstraídos de toda atualidade, Whitehead situa-se perto do virtual, pois o domínio deve dizer-se coexistência sem hierarquia, indiferente ao ou isto ou aquilo, reunião sem verdadeiro estar-junto, já que todo estar-junto real assinala a atualidade, mas ao construir, mesmo abstratamente, a situação ideal como relação determinada de todos os objetos eternos, constrói a figura de um possível a que talvez só falte a realidade e que teria o poder de explicá-la, como sugere a noção de possibilidade de valor, a que parece faltar apenas a realidade para ser valor, de modo que o segundo envisagement parece deixar à atualização o papel pobre de ratificar o possível selecionado.

46. Essa dificuldade designa a ausência de uma teoria da preensão, mas o problema é que a situação ideal não cria no leitor a sede de tal teoria nem faz existir sua ausência de modo lancinante como aquilo sem o qual a idealidade não teria valor, objeção grave testemunhada pela necessidade de Whitehead de repetir sem atualidade não há valor, e, quando a teoria das preensões vier em Process and Reality com os meios de levá-la até o fim, a abstração de uma atividade eterna subjacente desaparecerá.

47. Não surpreende que muitos whiteheadianos contemporâneos sonhem livrar o sistema dos objetos eternos ou fazê-los emergir historicamente, pois, enquanto não for radical a distinção entre atualização e realização no sentido de Deleuze e a realização puder ser interpretada como passagem à realidade de um potencial a que só faltava esta, o envisagement ameaça reduzir a atualização à realização do ideal e a diferença entre possibilidade de valor e valor a uma ratificação, questão ainda mais crucial quando Deus, em Process and Reality, se tornar um ser atual a que pertence o envisagement dos objetos eternos, perguntando-se como impedir que a realização se reduza a uma escolha entre mundos possíveis já idealmente determinados pelo envisagement divino e como não farejar a velha trapaça de pretender respeitar a liberdade do outro deixando-lhe apenas escolher entre soluções sem participar da construção do problema.

48. Os objetos eternos não incomodam em Process and Reality graças à distinção deleuziana entre virtual e potencial, que, ao permitir reconhecer o risco, permite também perceber, no que poderia parecer um pensamento contínuo, a extraordinária mutação problemática que o superará, inscrevendo-se o envisagement divino no próprio ponto de divergência entre realização e atualização e participando do modo de existência que Deleuze, seguindo Étienne Souriau, confere ao virtual, o de um problema a resolver, uma obra a fazer.

49. Enquanto a obra está em canteiro está em perigo, podendo viver ou morrer a cada ato do artista, seja a coreografia ágil do improvisador que percebe e resolve no mesmo instante os problemas do avanço apressado da obra, seja a ansiedade do fresquista que sabe que nenhum erro será reparável antes de secar o reboco, sejam os trabalhos do compositor ou do escritor com direito de meditar, retocar e refazer, todos tendo de responder sem cessar às perguntas da esfinge, adivinha ou serás devorado, mas é a obra que desabrocha ou se desvanece, progride ou é devorada.

50. A insistência do problema não contém implicitamente os meios de sua solução e a ideia da obra não é um modelo em que o artista se inspire, existindo apenas pelo risco que faz existir, pelo fato de a cada passo o artista saber-se exposto a trair, sobretudo quando, por preguiça, facilidade, impaciência ou pavor, julga poder decidir o caminho em vez de captar passo a passo a questão que lhe é posta.

51. Ao contrário da esfinge mítica, a esfinge de Souriau ignora a resposta ao enigma, e a deficiência do envisagement deixa de ser falta para designar a diferença de natureza entre virtual e atual, conotada por um risco sem identidade ou desafio determinado anterior a sua tomada atual e por uma espera do que responderá, não desta ou daquela resposta.

52. Era necessário encenar o risco a que, deste ponto de vista engajado, os conceitos expõem Whitehead antes de elucidar o terceiro envisagement, último aspecto do envisagement eterno e última palavra de Science and the Modern World, entendida como torção in extremis que não basta para resolver a dificuldade de um envisagement ideal que não suscita a sede do concreto, mas traduz que Whitehead já descobriu a necessidade de resistir ao declive a que sua construção metafísica o arrastava.

53. A situação ideal prolonga a tese de Concept of Nature de que o fato geral completo que experimentamos é toda a natureza, com a consequência de que, julgando produzir um ponto de vista local, assim e não de outro modo, é um mundo que foi escolhido, consequência a que o terceiro aspecto do envisagement vai parar ao preço de uma invenção conceitual que testemunha o que falta ao conceito de envisagement, a sede da atualidade, único valor, pois para preservar o valor individual Whitehead ousa fazer intervir in extremis, sem nenhum anúncio prévio, um Deus metafísico.

54. Graças a Deus, pode-se dizer, evita-se entre o valor tal como tem sentido para a experiência e o valor que decorre das possibilidades de valor do segundo envisagement um contraste que reduziria o primeiro a uma aproximação deficiente.