WEIL, Simone. Cahiers I Paris: Plon, 1951.
La Tenquita
1. Uma ave tem uma das patas congelada pela neve justamente quando partia em busca de alimento para os filhotes.
2. A tenquita pergunta à neve por que é tão má a ponto de congelar sua patinha.
3. A neve responde que o sol é ainda mais mau, pois a faz derreter.
4. A ave pergunta então ao sol por que é tão mau a ponto de derreter a neve.
5. A cadeia de perguntas remonta até o homem, que manda perguntar ao Senhor que o criou.
6. Por fim, a pergunta chega a Deus.
7. Somente diante do Senhor a ave omite a acusação de maldade e pergunta apenas por que ele criou o homem.
8. A cadeia completa vai do homem que fez a faca, passando pelo boi, a água, o fogo, o pau, o cão, o gato, o rato, o muro, o vento, a nuvem e o sol, até a neve que congelou a pata da ave.
9. E a tenquita chora.
10. O Senhor manda a tenquita ir em paz e cuidar dos filhotes, que devem estar com frio e fome.
11. A tenquita obedece e, ao chegar ao ninho, tem a pata curada.
12. Cabe suspeitar de uma deformação cristã nesse desfecho.
13. A cadeia de causas e reparações remete a Anaximandro.
Contos araucanos
1. Entre os contos que nunca terminam figura o da pequena espiral de fumaça.
2. Esse conto é muito belo.
3. Um príncipe se apaixona pelo retrato de uma princesa enfeitiçada, escondida por uma feiticeira numa cabana de onde sai um pouco de fumaça, e, sabendo apenas que encontrá-la quebrará o encanto, caminha meses até dar com uma dessas cabanas e interrogar uma velha à porta.
4. A velha responde que a princesa não está ali, mas talvez esteja na cabana de onde se ergue a pequena espiral de fumaça visível ao longe.
5. O príncipe caminha mais vários dias até essa casa distante, encontra outra velha sentada à porta e lhe dirige a mesma pergunta.
6. E assim por diante, indefinidamente.
7. Nos contos sobre os mortos, estes se distinguem, além do horror ao contato e à luz, por já não conseguirem pronunciar corretamente as palavras, deformando os nomes das estrelas, da lua e da água.
8. A cantiga de quem partiu de Córdoba e passou por Santa Fé encontra no caminho um aviso cujo conteúdo, quando perguntado, é a própria cantiga recomeçada, num círculo sem fim.
9. No conto da mulher do morto, um cacique morre combatendo os espanhóis e sua viúva o chora por meses, vivendo sozinha sem voltar a casar.
10. Certa noite o marido entra, recusa ser tocado e não quer que se traga fogo, partindo ao amanhecer e deixando a mulher muito cansada.
11. Na noite seguinte o mesmo se repete, e ao amanhecer ela já não consegue levantar-se.
12. Uma feiticeira lhe revela que o marido morreu por perda de sangue e suga o dela para recobrar forças, de modo que ela morrerá se não lhe cortar a cabeça.
13. A mulher prepara uma grande faca e, na noite seguinte, enquanto o marido dorme, corta-lhe a cabeça, da qual escorre sangue, embora o corpo seja um esqueleto.
14. Depois disso, ela vive em paz.
15. O morto sem carne evoca a grande batalha dos índios contra homens vindos do Norte, inteiramente de ferro, pernas, braços e cabeça, armados de longas facas de ferro, aos quais os índios não quiseram entregar sua terra.
16. A moça com cabeça de caveira, abandonada pelo noivo e obrigada a vagar sozinha por causar repugnância a todos, chora de alegria por não repugnar a um leão cuja pata curou.
17. Na história da filha do Cheruvius, espírito do fogo, talvez um vulcão, cada vez que este via a nuvem no alto batia os pés, gritava e vomitava, e a nuvem voltava a chorar e a água a descer.
18. A Neve sai da gruta e sobe a montanha, sem que sua mãe, a Nuvem, consiga protegê-la do sol, pois é levada pelo vento, enquanto o Sol quer dar-lhe um beijo.
Canção de mulheres (araucana)
1. Uma mulher casada é raptada por um homem que a leva para uma terra distante, Huinfali, onde ela canta ao chegar.
2. Em seu canto, a mulher diz vir de uma terra distante, azul, muito azul, ter vindo chorando sem cessar e ter perdido seu amigo.
3. A súplica pede ao velho de rosto branco e ao velho espírito de cabelos brancos que devolvam o céu azul, a nuvem branca e o sol quente no meio do céu.
“Atlântida”, Frobenius
1. No Alto Kasai, Fidi Maikullu envia o sol, a lua, as Plêiades e o homem para extrair vinho de palma, e, enquanto os astros, que nada beberam, voltam da trincheira em que são lançados, o homem, que bebeu e mentiu, nunca mais retorna, variando o motivo em outras tribos para bananas ou o fruto de uma árvore alheia.
2. Na queda de Kucha, no Kordofan, um rei destinado à morte ritual é salvo por um escravo vindo do Oriente cujas histórias distraem os sacerdotes do estudo dos astros, inaugurando reinados prósperos que despertam a inveja dos vizinhos, os quais invadem e subjugam o país.
3. Moussa, homem fortíssimo e riquíssimo, tem a família morta e os bens roubados por ladrões e, fugindo de um leão, cai numa armadilha de elefante, onde é encontrado em farrapos, imundo, ferido e cego de um olho.
4. Um homem cujo parente Moussa matara o reclama como prisioneiro para matá-lo no dia seguinte, os outros consentem, e Moussa recusa fugir com seu companheiro de cativeiro, pois a vida de nada lhe valeria se tivesse fugido.
5. O companheiro o força a fugir amarrado e amordaçado e é devorado por um leão, enquanto Moussa, com o nome manchado e o anel de ferro dos prisioneiros no pé, implora a um rico árabe que o tome como servo, recebendo depois a mão da irmã dele, rebanhos e meios para estabelecer-se.
6. Antes disso, Moussa matara por engano o filho do árabe e, anos depois, envia o próprio filho para confessar tudo e pedir que o matem, mas o árabe lhe dá a filha em casamento e o devolve carregado de presentes.
7. Depois de pôr em fuga ladrões de cavalos que atacavam o árabe, Moussa, lembrando-se de tudo o que recebera de quem só lhe retribuía o mal com o bem, conclui que já não pode deixá-lo viver e precisa matá-lo.
8. Moussa alcança o árabe e declara que lhe fez tanto bem que jamais poderia retribuí-lo, motivo pelo qual não suporta mais vê-lo e precisa matá-lo, e, capturado pelos aldeões e mantendo a mesma disposição, é condenado à morte pelo árabe para preservar a própria vida.
9. A mulher de Moussa suplica em vão ao irmão e ao marido, desata-lhe as amarras, mas ele se recusa a fugir sem matar o cunhado, e quando este vem falar-lhe Moussa o mata imediatamente, sendo ele próprio morto no dia seguinte e os bens de ambos tomados pelos aldeões.
10. Os filhos de Moussa são vendidos, e sua mulher, Sherifia, cobre-se de farrapos e passa o resto da vida mendigando de lugar em lugar.
11. Num texto de cerca de 2000 a.C., o deus afirma ter criado os quatro ventos para que cada homem respire como seu irmão, as grandes águas para que o pobre as use como seu senhor e cada homem semelhante a seu irmão, proibindo-lhes a iniquidade, que seus corações desfizeram.
Upanishads
1. O Atman exige que a alma do homem tome o universo inteiro por corpo, mantendo com ele a relação do colecionador com sua coleção ou do soldado que morria gritando “viva o imperador” com Napoleão, transportando-se para fora do corpo efetivo e, portanto, para o universo inteiro.
2. Isso é não só dever, mas natureza da alma, pois só se ama qualquer coisa para si mesmo, sendo o eu o único valor, e por isso o eu não pode ser finito, tendo a dimensão do mundo.
3. O eu é tão grande quanto o mundo, já que todos os sons se encontram no ouvido, como uma orquestra se reduz ao sulco único do gramofone e ao tímpano.
4. É preciso identificar-se com o próprio universo, pois tudo o que é menos que o universo, sendo parcial, está exposto às forças externas e sujeito ao sofrimento.
5. A continuidade do universo após a morte não consola enquanto se é outra coisa que o universo, mas, se este for como um outro corpo para a alma, a própria morte e os próprios sofrimentos passam a importar tanto quanto os de um estranho.
6. O universo inteiro deve ser, em relação ao corpo, o que a bengala do cego é em relação à sua mão, cuja sensibilidade já não reside na mão, mas na ponta da bengala.
7. Essa transferência é uma forma de leitura.
8. Uma aprendizagem é necessária.
9. Trata-se, de fato, de perder a perspectiva, o que talvez corresponda às preocupações chinesas com a levitação e com a perspectiva aérea na pintura.
10. Resta saber como continuar a agir como indivíduo, tema da Gita.
11. O sofrimento, como o físico, faz perder o universo, cuja existência se sabe sem que haja certeza dela, e basta tornar-se tal que se tenha essa certeza.
12. Os desejos que são realidade estão velados pela irrealidade, como o parente morto que já não se pode ver, mas todos os parentes vivos ou mortos e todos os desejos não realizados encontram-se ao descer em si mesmo, onde esses desejos reais existem.
13. Ao descer em si mesmo descobre-se possuir exatamente aquilo que se deseja.
14. Quem anseia por um ser morto deseja um ser particular, portanto mortal, aquele que morreu em tal dia e tal hora, e é esse ser, morto, que possui.
15. Quem deseja dinheiro quer um meio de troca institucional, adquirível apenas sob certas condições, e na medida dessas condições o possui.
16. Nesses casos, o sofrimento e o vazio são o modo de existência dos objetos do desejo, bastando afastar o véu da irrealidade para ver que são dados desse modo.
17. Quando isso é visto, ainda se sofre, mas se é feliz.
18. É preciso encontrar o Atman envolvido nas obscuras complexidades do corpo.
19. Não existe pluralidade, e quem julga ver pluralidade no universo apenas corre de morte em morte.
Grécia
1. A advertência platônica de não fazer o Uno depressa demais aplica-se também à busca do Bem, de Deus, do Atman ou do Tao.
2. Não se deve fazer o Uno sem antes reconhecer o quantos, isto é, o número intermediário.
3. Também na Índia há certamente o reconhecimento desse quantos.
4. Resta saber o que isso representa.
5. No espaço que está dentro do coração habita aquele que é mestre, soberano e senhor de tudo, que não se engrandece pelas boas ações nem se diminui pelas más.
6. Esse além do bem e do mal deve ser interpretado segundo o princípio taoísta de que quem possui a verdadeira virtude não tem virtude e por isso a possui, ao passo que quem possui uma virtude comum tem alguma virtude e por isso não a possui.
7. É preciso desapegar-se também da virtude e perder a consciência dela.
8. Trata-se de um soberano bem negativo.
9. Há o perigo de outra interpretação, para a qual certos textos parecem tender, e o que parece inteiramente ausente é a ideia de paixão e de encarnação.
10. A ideia fundamental é que se ama marido, mulher e todas as coisas para si mesmo.
11. Restringir o amor ao objeto puro é o mesmo que estendê-lo ao universo inteiro.
12. É a mesma noção dos estoicos, para quem se leva consigo tudo o que se possui.
13. As coisas preciosas são, com toda razão, intermediárias.
14. É preciso mudar a relação física entre si mesmo e o mundo, como o operário pela aprendizagem muda sua relação com a ferramenta e o marinheiro com o navio, sendo o ferimento físico o ofício que entra no corpo, de modo que todo sofrimento deve fazer o universo entrar no corpo.
15. A ferramenta faz perder um modo de sentir e o substitui por outro, pois não se sente o próprio cansaço, mas a fresa pressionando o metal, e todos os ofícios se baseiam em transferências de sensação, como na alavanca, em que ao abaixar-se sente-se levantar.
16. Hábito e destreza são uma transferência da consciência para um objeto distinto do próprio corpo.
17. Esse objeto deve ser o universo, as estações, o sol, as estrelas.
18. É preciso sentir o espaço.
19. Brahma é o espaço.
20. Giotto exemplifica esse sentir do espaço.
21. Assim como a relação entre corpo e ferramenta muda na aprendizagem, é preciso mudar a relação entre o corpo e o mundo.
22. Também quanto à duração há mudanças.
23. Não se trata de desapegar-se, mas de mudar de apego, apegando-se ao Todo.
24. O que hoje se odeia poderá vir a ser amado, desde que se sinta o ódio até o fundo e se saiba o que se odeia.
25. Através de cada sentimento, descendo, é preciso juntar-se ao Atman.
26. Cabe perguntar quem é que odeia.
27. Não é o eu que está aqui, neste ponto particular do espaço.
28. Através e além de cada sensação é preciso sentir o universo, pouco importando então se é prazer ou dor, como o aperto doloroso de mão de um ser amado há muito ausente.
29. A partir de certo grau de dor perde-se o mundo, mas depois vem a paz ao reencontrá-lo, e se o paroxismo volta, volta também a paz que o segue.
30. Compreendido isso, esse mesmo grau de dor converte-se em espera da paz e já não rompe o contato com o mundo.
31. Esse contato é alegria.
32. Em todo modo de vida há um ritmo a amar, pois toda vida, por mais artificial, está ligada à revolução diária do céu e às estações, e por esse ritmo, como pela bengala do cego, permanece-se ligado ao sol e às estrelas.
33. Não se escolhem as sensações, mas escolhe-se, mediante aprendizagem, o que se sente através delas, com ampla margem de escolha.
34. É regra importante não saltar os intermediários cedo demais, pois ou se esquece que são intermediários ou se salta por cima deles prematuramente.
35. A dor é um intermediário.
36. A morte também o é, e certa maneira de crer na imortalidade lhe retira essa eficácia de intermediário.
37. Tudo o que dilacera é intermediário.
38. Não se deve lutar contra eles, muito pelo contrário, como ocorre com o amor no Fedro.
39. Uma francesa que recebe uma carta em inglês anunciando a morte do filho é afetada de um modo se não entende a língua e de outro, até desmaiar, se a entende, o que mostra que ensaios de aprendizagem mudam o poder das sensações de nos modificar.
40. Uma massa confusa de desenhos pode parecer um pesadelo na ausência de sentido e tornar-se outra coisa quando disposta de modo a significar.
41. O conhecimento do terceiro gênero equivale à leitura.
42. Espaço e tempo são, em certo sentido, apenas pensamentos e, ao mesmo tempo, aquilo que acorrenta o ser pensante sem possibilidade de libertação.
43. A libertação efetiva quanto ao corpo tem na bengala do cego sua chave, donde o princípio de Espinosa sobre aquele cujo corpo é apto a muitas coisas.
44. A guerra, que reina sobre todas as coisas e faz uns livres, outros escravos, uns homens, outros deuses, é ilusão regida pela lei das sete moscas do alfaiate valente.
45. Só são dadas sensações, e jamais se pensa senão sensações, mas nunca se pensam propriamente as sensações, lendo-se através delas algo que não é arbitrário nem totalmente independente de nós.
46. O mundo é um texto de vários sentidos, e passa-se de um a outro por um esforço do qual o corpo sempre participa, como o alfabeto de uma língua estrangeira precisa entrar na mão à força de traçar os caracteres.
47. Fora disso, toda mudança na maneira de pensar é ilusória.
48. O eu é tal estrela no sentido em que a pena é parte do corpo ao escrever e o centro da existência está no ponto de contato da fresa com o metal, mas em relação aos outros homens o eu é aquele que vê o cubo de um ponto de vista e também de outro que não ocupa, lendo as sensações segundo leis diversas.
49. Amar o próximo como a si mesmo não significa amar todos igualmente nem jamais fazê-los sofrer, mas manter com cada um a relação de uma concepção do universo com outra concepção do universo, e não com uma parte dele, razão pela qual a escravidão, que faz do outro bengala ou mão, é contrária à natureza e à razão.
50. A guerra é um modo de impor outra leitura das sensações, uma pressão sobre a imaginação alheia.
51. As sensações são impostas de fora, mas sempre é possível oferecer algumas a si mesmo de modo não imediato.
52. A leitura das sensações também é imposta, mas sobre ela há um poder não imediato por meio do esforço e do hábito fornecidos pelo corpo.
53. É preciso distinguir o poder, apenas parcialmente nosso, de encontrar-se ou não em dada situação, diante de uma máquina, na prisão ou com uma faca na garganta, e o poder de, estando nela, lê-la de tal ou tal maneira.
54. Há frases que só o homem de tipo inferior pronuncia, outras que ambos pronunciam com sentidos diferentes, e provavelmente nenhuma que só o homem superior possa pronunciar, salvo pela primeira vez.
55. O mesmo vale para as ações, com a diferença de que a ação é ao mesmo tempo única e indefinidamente variada.
56. Há dois modos de mudar a leitura das sensações e a relação dos outros com o universo, a força, cuja forma extrema é a guerra, e a educação, ambas ações sobre a imaginação, mas à primeira só se reage, enquanto à segunda se adere.
57. Pela força pode-se degradar os outros ou impedir que se degradem, mas só pela educação é possível elevá-los.
58. Há uma terceira via, a beleza.
59. Cabe perguntar se a primeira pode combinar-se com uma das outras duas.
60. Talvez só seja permitido um uso negativo da força.
61. Há uma diferença fundamental entre o espírito da Bhagavad-Gita e a história de Joana d'Arc, pois Arjuna faz a guerra embora inspirado por Deus e ela a faz porque inspirada por Deus.
62. Pensar em Deus e amar a Deus não é senão certa maneira de pensar o mundo.
63. A guerra é a forma suprema de prestígio, e uma vez desembainhada a espada instala-se seu domínio, que a não resistência não evita, pois o contato com a força, pelo punho ou pela ponta, priva por um momento de Deus, como ao próprio Cristo, razão pela qual a Gita e os Evangelhos se completam.
64. Há algo essencialmente falso em certas partes do Antigo Testamento e na história de Joana d'Arc, cujas vozes estão ligadas ao prestígio, assim como Jeová.
65. Por mais justa que seja a causa do vencedor ou do vencido, o mal causado pela vitória ou pela derrota é inevitável, e por isso Cristo não desceu da Cruz nem lembrou, na angústia suprema, que ressuscitaria, e Arjuna não depôs as armas.
66. A conquista talvez seja uma maneira errada de buscar o Atman idêntico a Brahma, pois o homem precisa estar só no universo para identificar-se com ele, e embora uma apropriação finita, como um campo equivalente ao universo, permitisse querer apenas um dano limitado ao inimigo, o uso das armas traz necessariamente consigo o ilimitado.
67. O infinito que há no homem está à mercê de um pedacinho de ferro, por causa do espaço e do tempo, e manejá-lo reduz subitamente esse infinito a um ponto na ponta ou no punho, numa dor dilacerante que não deixa lugar para Deus, nem mesmo em Cristo, estágio necessário à encarnação, após o qual só resta a ressurreição.
68. Ao tomar as armas é preciso pensar em tudo o que se perderá se vencidos e que, vencendo, se fará perder o mesmo a outros amados como a si mesmo, e embora deixar o inimigo agir livremente seja inadmissível fora da condição de simples indivíduo condenado, sentir o frio do ferro leva a limitar-se e a depô-lo logo que a ameaça se afasta.
69. Ao toque do ferro deve haver um sentimento de separação de Deus como o de Cristo, pois de outro modo trata-se de outro Deus, como o dos mártires que tiravam alegria da tortura, semelhante ao adotado oficialmente pelo Império Romano e depois imposto por exterminações.
70. Há aquele em cujo rastro o ano desenrola seus dias.
71. O tecido do mundo é o tempo, que fora do pensamento nada seria, e se presente e futuro nada são sem quem os pensa, o universo nada é, de modo que o eu está associado à criação, desde que pense o tempo como cocriador.
72. Na aflição, o tempo leva o ser pensante, contra sua vontade, em direção ao que não pode suportar e que virá de qualquer modo, como no “afasta de mim este cálice”, e cada segundo aproxima algum ser do insuportável.
73. Há uma diferença infinita entre três horas de trabalho por peça numa máquina e três horas diante de um afresco de Giotto, pois a relação com o tempo é o tecido da vida e admite diferenças infinitas, sendo uma fuga de Bach seu modelo.
74. Entre os gregos, a ciência da natureza era ela mesma uma arte, tendo o mundo por matéria e a imaginação por instrumento e combinando o limitado e o ilimitado, donde o acordo entre ciência e arte, que entre os modernos se opõem porque a ciência analisa.
75. Trata-se de fazer do universo obra de Deus e obra de arte.
76. Esse é o objeto da ciência grega.
77. O objeto da ciência clássica é tornar o homem senhor e possuidor da natureza, assimilação a Deus muito diferente da grega, por um conhecimento encontrado em si mesmo e por reconstrução a priori análoga à decifração de uma mensagem em código desconhecido.
78. O objeto da ciência contemporânea é exprimir algebricamente as regularidades da natureza para utilizá-las.
79. Desce-se cada vez mais baixo.
80. Onde há progresso o nível é necessariamente baixo, como lembra o “ars longa, vita brevis”.
81. A desgraça e a crueldade são ilimitadas, e a tragédia captura esse ilimitado como numa rede, fazendo-o permanecer ilimitado e ao mesmo tempo deixar de sê-lo, com relações de força que aparecem como relâmpagos em que o homem perde a si, a Deus e ao universo, como em Fedra, única no teatro francês, e em Lear e Otelo.
Chandogya-Upanishad, VIII, 3
1. Os desejos são coisas reais sob um véu de falsidade, e quem perdeu um ente querido já não pode vê-lo, mas encontra os vivos e os mortos e tudo o que deseja sem alcançar ao ir lá onde residem esses desejos reais.
2. Um mais fraco equilibra um mais forte por meio do dharma, a força da força.
3. Ao perder alguém sofre-se porque o morto ou ausente se tornou algo imaginário, mas o anseio por ele não é imaginário, e é preciso descer onde reside esse desejo real, como na fome, em que os alimentos são imaginados mas a fome é real e deve ser agarrada.
4. O mal e a dor residem na perda de contato com a realidade provocada pela privação e pelo sofrimento, e o remédio é usar a própria perda como intermediário para alcançar a realidade, pois a presença do morto é imaginária, mas sua ausência é realíssima e passa a ser seu modo de aparecer.
5. A vida humana é uma composição em vários planos.
6. É preciso imitar o abandono ao tempo próprio das coisas inertes.
7. O tempo é a única violência e leva para onde não se quer ir, e mesmo o condenado à morte não seria executado se o tempo parasse, mas não se pode desejar que os astros se detenham, pois a violência do tempo dilacera a alma e pela fenda entra a eternidade.
8. Fugir do tempo é pecado.
9. No paraíso terrestre, não comer a maçã é como não pensar no urso polar, uma virtude negativa de desviar o pensamento das obsessões, pois basta um momento de obsessão para perder o paraíso e ser expulso nu pela espada do anjo.
10. A matemática na Grécia ligava-se ao desapego.
11. A contemplação de uma figura matemática, como fileiras de traços, põe em movimento as relações nela contidas.
12. Há aí uma identificação semelhante à do homem que levanta uma pedra com a alavanca.
13. Há nisso uma relação oculta com a beleza.
14. A álgebra talvez seja a causa da perda dessa eficácia matemática, razão pela qual os gregos não a tiveram.
15. Há uma purificação pelo espaço.
16. Existe analogia entre a Oréstia e a história do assassino que volta incessantemente à vida.
17. Escrever, como traduzir, é uma operação negativa que afasta as palavras que ocultam o modelo, a coisa silenciosa a exprimir.
18. Agir é o mesmo, como na fala de Orestes à mãe de que é ela, e não ele, quem se matará, ação nascida da situação que a exprime, ação bela que conclui o diálogo indefinido entre elementos desequilibrados, estabelece o equilíbrio único correspondente e na qual a pessoa do agente não aparece.
19. O fanatismo, porém, imita muito bem essa ação, e resta saber como distingui-los.
20. O destino reservado ao pai condena Clitemnestra à morte.
21. Clitemnestra parece cantar em vão um lamento fúnebre sobre o próprio túmulo enquanto ainda vive.
22. As coisas são símbolos de justiça.
23. Uma ação justa certamente não é aquela que se imagina dever fazer ao imaginar uma situação dada.
24. O critério não é “eu o faria de novo”, mas “não posso fazer de outro modo”, como Lawrence voltando em busca do árabe perdido.
25. O eu está ausente também do crime, mas de outra maneira.
26. Uma situação particular encontra uma consciência particular, e o resultado é uma mudança da situação.
27. Cabe perguntar se há aí um projeto individual.
28. A figura geométrica talvez sirva de modelo.
29. Todos os aspectos de uma situação devem ser trazidos ao espírito e ponderados com igual atenção, igual como a luz do sol, até que se estabeleça um equilíbrio, e então a atenção deve dirigir-se sobretudo ao aspecto escolhido para que a ação se realize.
30. O piolho e o arqueiro ilustram a técnica taoísta de atenção, em que se fixa um único alvo até que ele pareça maior que uma montanha e oculte o sol.
31. Sendo a guerra uma ação sobre a imaginação, a primeira dificuldade é libertar-se dos efeitos da imaginação, que impõe um único sistema de relações, e dispor, como num problema de geometria, dos diversos modos de combinar os dados de uma situação concreta.
32. O mundo admite várias leituras simultâneas, como numa partitura.
33. Cada ser humano, imagem de si mesmo, deve ser visto como uma prisão habitada por um prisioneiro e cercada pelo universo inteiro.
34. Em Homero, a existência dos mortos é uma existência imaginária.
35. Resta saber se existe uma vida no mundo, e não em alguma solidão, tão pura, bela e completa quanto uma estátua grega, ou ao menos uma ação assim.
36. O comportamento de Sócrates diante do tribunal talvez seja um exemplo.
37. A regra de vida de Sócrates não era defender a justiça e a verdade, mas não cometer injustiça nem trair a verdade, sem deixar de seguir sua vocação.
38. São Francisco atirando as roupas ao pai talvez seja outro exemplo.
39. Certas ações são fáceis de imaginar e difíceis de fazer, como a do romano que se entregou para que seus escravos não fossem torturados, diante de apenas duas possibilidades e sem exigir esforço inventivo.
40. Os julgamentos de Salomão, ao contrário, são atos resultantes de esforço inventivo.
41. A clemência do pai dos Gracos na Espanha talvez se inclua nesses casos.
42. A vontade pode ser pura e eficaz, livre e ao mesmo tempo eficaz, em dois sentidos.
43. No palco, o ato amadurece lentamente com o universo ao redor e depois se precipita no mundo.
44. A proporção detém o curso da díade.
45. Na média proporcional, como em três vezes doze igual a seis vezes seis, multiplicar sempre por doze ou dividir sempre três por dois estabelece dois infinitos forçados a submeter-se a uma relação finita.
46. Cabe perguntar se isso pode ser traduzido de modo concreto.
47. O quadrado e todos os retângulos possíveis talvez proponham essa tradução.
48. É necessário que o quadrado não seja desenhado.
49. Outro exemplo é o máximo, como soma de um produto.
50. Se a contradição entre o grande e o pequeno, o pesado e o leve, convoca o pensamento discursivo, a contemplação das contradições essenciais da condição humana pode ser o exercício da faculdade mais alta.
51. A ciência não tem o direito de pôr em dúvida as hipóteses primeiras no sentido platônico, pois está abaixo desse nível, como no caso do espaço contínuo e, portanto, da energia, que nesse plano convém ser sentido e imaginado mais do que concebido.
52. No Extremo Oriente, na China e na Índia, prevalece a ideia do êxito da virtude.
53. No Oriente Médio, na Pérsia, no Egito, na Grécia e no cristianismo, prevalece a ideia contrária.