Miklós Vető (1936–2020)
Filósofo, historiador da filosofia, teólogo especulativo e ensaísta húngaro-francês, professor emérito da Université de Poitiers, membro externo da Academia de Ciências da Hungria e da Academia Católica da França, Miklós Vető é um dos mais profundos e rigorosos historiadores do Idealismo Alemão e da metafísica cristã ocidental da segunda metade do século XX. Nascido em Budapeste em uma família de origem judaica assimilada, sobreviveu à perseguição e ao Gueto de Budapeste na infância; participou ativamente da Revolução Húngara de 1956 contra a ocupação soviética, após cujo esmagamento fugiu do país, asilando-se na Iugoslávia e, posteriormente, na França. Doutorou-se na Universidade de Oxford com tese seminal sobre Simone Weil (sob orientação de Iris Murdoch) e na Sorbonne com tese de doutorado de Estado sobre a metafísica de F. W. J. Schelling (sob a supervisão de Paul Ricœur). Notabilizou-se pela reconstrução sistemática, dialética e conceitual da história da metafísica moderna — articulando Kant, Fichte, Schelling, Hegel e o pensamento místico patrístico e medieval —, dedicando sua reflexão tardia à elaboração de uma grandiosa ontologia do dom, da criação divina, do mal moral e da pessoa humana.
1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)
VETÖ, Miklós. La métaphysique religieuse de Simone
Weil. Paris: Vrin, 1971. (2ª ed. rev.: Paris: L'Harmattan, 1997; tradução inglesa ampliada: The Religious Metaphysics of Simone
Weil. Albany: SUNY Press, 1994).
Foco: Primeira grande monografia acadêmica; reconstituição rigorosa do pensamento filosófico-religioso de Simone
Weil, articulando a sua leitura de Platão, os conceitos de decreação, gravidade e graça, a ausência de Deus e a fenomenologia da desgraça humana.
VETÖ, Miklós. Le fondement selon
Schelling. Paris: Beauchesne, 1977. (2ª ed. ampliada: Paris: Vrin, 2002).
Foco: Tese de doutorado de Estado monumental; exame filológico e metafísico vertical do tratado schellinguiano sobre a liberdade humana de 1809 (Freiheitsschrift). Análise da distinção ontológica seminal entre o “fundamento da existência” (Grund) e “o existente” (Existierende), a gênese do mal metafísico e o conceito de Ungrund (fundo sem fundo).
VETÖ, Miklós. La pensée de Jonathan Edwards: Esquisse de constitution d'une théologie religieuse. Paris: Cerf, 1987.
VETÖ, Miklós. De
Kant à
Schelling: Les deux voies de l'Idéalisme allemand. 2 volumes. Grenoble: Jérôme Millon, 1998, 2000.
Foco: Obra-prima historiográfica e sistemática (cerca de 1.000 páginas); reconstituição dialética da gênese e bifurcação do Idealismo Alemão. Volume 1 examina a radicalização da crítica kantiana por Karl Leonhard Reinhold, Salomon Maimon e Johann Gottlieb
Fichte; Volume 2 examina as respostas metafísicas alternativas desenvolvidas por Friedrich Schiller e F. W. J.
Schelling.
VETÖ, Miklós. Le mal: Essai sur la liberté ontologique. Paris: L'Harmattan, 2000.
VETÖ, Miklós. Études kantiennes. Paris: L'Harmattan, 2003.
VETÖ, Miklós. De la transcendance: Essai sur les structures fondamentales de la pensée chrétienne. Paris: L'Harmattan, 2006.
Foco: Tratado de metafísica especulativa cristã; dedução das categorias axiais de transcendência, revelação, encarnação, doação e redenção à luz da história dos grandes sistemas teológicos do Ocidente.
VETÖ, Miklós. De l'or et du cristal: Essai sur la pensée de F. W. J.
Schelling. Paris: L'Harmattan, 2008.
Foco: Segunda grande monografia sobre
Schelling; análise concentrada nas obras tardias da
Filosofia da Mitologia e
Filosofia da Revelação, explicitando a passagem necessária da filosofia negativa (essência pura da razão) à filosofia positiva (o fato incontornável do Ser livre e criador).
VETÖ, Miklós.
Gabriel Marcel: Les étapes d'une philosophie de l'incarnation. Paris: L'Harmattan, 2014.
Foco: Estudo da evolução do existencialismo cristão e do neossocratismo de
Gabriel Marcel, investigando a ontologia do corpo próprio, a fidelidade criadora, a disponibilidade existencial e a esperança.
VETÖ, Miklós. La naissance de la volonté. Paris: L'Harmattan, 2014.
Foco: Tratado genealógico e ontológico monumental sobre a história da faculdade da vontade no Ocidente; investigação de sua ausência relativa na filosofia grega clássica até sua emergência explícita na teologia bíblica, na antropologia patrística de Santo
Agostinho, na mística medieval de Bernardo de Claraval e nos grandes sistemas do Idealismo pós-kantiano.
VETÖ, Miklós. Le Père: Essai sur la transcendance et la liberté. Paris: Cerf, 2019.
2. Artigos Canônicos, Colaborações Institucionais e Antologias
3. Recepção Acadêmica e Circulação no Espaço Lusófono
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica
O Método Reconstrutivo do Idealismo Alemão: Diferentemente das leituras reducionistas marxistas ou puramente historicistas, Vető emprega um método de imanência conceitual rigorosa: a história da filosofia não é um museu de opiniões mortas, mas o desdobramento vivo e necessário de problemas especulativos. Em
De Kant à Schelling, Vető demonstra que a passagem de
Kant a
Fichte e deste a
Schelling não resulta de meras inclinações psicológicas individuais, mas de exigências lógicas internas ao próprio criticismo kantiano. A tentativa de
Fichte de fundamentar todo o real na autoafirmação do Eu puro (
Tathandlung) esbarrava inevitavelmente na incapacidade de deduzir a natureza corpórea e material em sua densidade cósmica própria; daí a necessidade dialética da
Naturphilosophie de
Schelling, que restabelece a natureza não como simples obstáculo moral ao sujeito, mas como a manifestação exteriorizada, orgânica e inconsciente do mesmo Absoluto que ascende à consciência no espírito humano.
A Ontologia do Fundamento e a Metafísica do Mal: O núcleo da contribuição ontológica de Vető à exegese schellinguiana reside na elucidação da distinção entre Grund (o fundamento obscuro, o solo primordial, o desejo inconsciente da natureza) e Existenz (a revelação límpida, a luz, o entendimento e o amor espiritual). O mal, para Vető, não é uma ilusão empírica nem uma simples fraqueza humana ou mera ausência de perfeição: o mal é um ato da liberdade ontológica. O mal nasce da perversão da vontade singular que, em vez de manter o “fundamento obscuro” subordinado à ordem harmoniosa do amor espiritual, eleva a sua própria individualidade egóica à condição de princípio universal dominante, gerando a desagregação, a mentira e o sofrimento cósmico.
A Gênese Histórica da Faculdade da Vontade: Em sua obra
La naissance de la volonté, Vető defende a tese de que a filosofia grega clássica desconhecia o conceito pleno de “vontade” autônoma, operando primariamente com as categorias de intelecto (
nous), apetite corporal ou tendência passional (
orexis,
epithumia). Foi o advento da revelação bíblica da Criação a partir do nada (
creatio ex nihilo) e da aliança histórica da liberdade moral que exigiu a forja do conceito de vontade. Ao reconstituir a reflexão de Santo
Agostinho sobre o pecado e a graça, Vető demonstra que a vontade humana descobre a sua própria existência no momento trágico do rasgamento interior: a experiência da impossibilidade de cumprir por si mesma aquilo que a mente reconhece com clareza como o bem. A vontade moderna e idealista nasce dessa ferida metafísica originária.
A Fenomenologia da Autodoação e da Graça: No âmbito da antropologia e da teologia filosófica, Vető fundamenta a singularidade da pessoa não em sua capacidade de cálculo instrumental ou autossuficiência biológica, mas na sua receptividade ao dom transcendente. O ato criador divino não é uma produção mecanicista, mas uma “retirada de si” (ecoando o conceito de decreação weiliano e do tsimtsum da mística judaica) para permitir que o outro exista em sua liberdade radical. A existência autêntica consuma-se quando a consciência humana, liberta da fascinação pelo fechamento egóico e da vertigem do mal, redescobre que ser livre não significa dominar imperialmente o mundo exterior, mas responder com gratidão à doação incondicionada do Ser.