7 Hermenêutica da indignação

VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.

1. A expressão hermenêutica da indignação tem duplo significado, designando tanto a interpretação que toma como objeto a indignação de Stéphane Hessel, dos indignados espanhóis, gregos e do Occupy Wall Street, quanto, no sentido subjetivo do genitivo, a interpretação motivada pela própria indignação, ambiguidade que reflete o duplo sentido da interpretação, ao mesmo tempo método para apreender o verdadeiro sentido de um fato pondo entre parênteses a subjetividade do intérprete e, etimologicamente, mediação de um intérprete cujo interesse é condição intransponível de toda interpretação, de modo que a própria pergunta por uma hermenêutica da indignação abre um horizonte político e filosófico irredutível a limites estritamente teóricos.

2. Responder ao que os indignados pedem ou querem significa interpretar o sentido de sua indignação, e como no inter de interpretar está também o sentido de tradução, a questão envolve tanto o problema da representação política, inclusive parlamentar, da indignação quanto o problema filosófico da impossibilidade da tradução radical discutido por Quine e Davidson, os quais, justamente por não dispormos de uma metalinguagem universal ou absoluta capaz de garantir a tradução perfeita entre línguas, como mostra a dificuldade de traduzir gavagai, introduzem um princípio de caridade.

3. Assim como, segundo a solução wittgensteiniana, só se aprende uma língua compartilhando a forma de vida que ela institui, compreender a fundo o que querem os indignados exige compartilhar sua indignação, mas a sutil diferença entre o que eles querem e o que querem dizer remete à representação política, pois o querer dizer, por pressupor uma língua comum, implica sempre um compromisso, enquanto a objeção recorrente de que carecem de programa positivo, alimentada pelo medo da desordem e pela inércia do existente que constitui a força do poder, torna-se ainda mais forte num Ocidente onde, apesar da crise, a revolução se tornou impensável porque OTAN, União Europeia, ONU e FMI acorreriam para restaurar a ordem, reduzindo a indignação a pura negação sem projeto, embora, conforme as teses de Benjamin, o que inspira os revolucionários seja menos a visão de um mundo feliz para os descendentes do que a lembrança indignada dos antepassados oprimidos.

4. Num mundo cada vez mais integrado e totalitário, em que qualquer transformação não habitual se torna impossível ou impensável, os projetos de unificação de Estados, continentes e do mundo tornam-se suspeitos, já que o ideal kantiano de uma república cosmopolita não podia prever o grau de controle hoje à disposição dos poderosos e a sociedade totalmente administrada inverte o princípio hegeliano de que o verdadeiro é o todo no adorniano o todo é o falso, de modo que os indignados de Madri, Nova York, Roma ou Londres, assim como os da Primavera Árabe, privados da possibilidade mesma de um sonho positivo, já não se chamam socialistas ou comunistas e, como verdadeiros proletários de hoje, desempregados comparáveis aos jovens dos bairros pobres do terceiro e quarto mundo ou dos campos de refugiados do Saara Ocidental, ficam reduzidos à recusa, ao ressentimento e à raiva social, tendo-lhes sido roubada até a imaginação por bancos e governos que os educaram no culto da marca e do supérfluo e que agora impõem a austeridade, numa sociedade cujas elites, como mostra a mediocridade dos serões de Berlusconi, também perderam toda imaginação.

5. A indignação constitui um caso emblemático para a hermenêutica porque nenhuma interpretação aceitável é possível sem participação e compartilhamento, sendo que a pretensão de uma sociologia livre de valores à maneira de Weber reduziria o intérprete a funcionário do sistema destinado a exorcizá-la, uma vez que a questão não é gnosiológica, mas diz respeito a todos enquanto partes embarcadas no conflito, inclusive banqueiros e acionistas das multinacionais, problema já enfrentado desde Dilthey com a noção de Erlebnis como identificação imaginária e, no fundo, estética com outras formas de vida, risco que reaparece no esforço de compartilhar a indignação e que, longe de ser motivo de vergonha, revela que a revolução pode ser também festa e libertação plena, pois os desejos de transformação social são desejos e não exigências racionais fundadas em cálculo utilitário ou em direitos humanos, e a desconfiança dos partidos revolucionários diante do desejo é uma forma de stalinismo pela qual os revolucionários adotam a ética repressiva de seus inimigos.

6. A indignação não é obra de arte nem texto de um passado remoto a ser revisitado por prazer estético como a domingueira da vida de que falava Hegel, pois sair da condição cotidiana pode ser algo muito mais concreto e real que um jogo da imaginação, como já recusa a própria arte contemporânea no teatro épico, não catártico e revolucionário de Brecht, e por isso a hermenêutica, ao deparar-se com tais fenômenos, é ela mesma posta em questão e, partindo da simples aplicação de um método à indignação, vê-se impelida, como Heidegger a partir de sua herança diltheyana, a uma conclusão prático-revolucionária que, embora ninguém esteja pronto para tomar o Palácio de Inverno ou o FMI, obriga ao menos a começar a pensar nisso caso se leve a sério o ensinamento do movimento dos indignados.