Xavier Tilliette

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. A retomada dos estudos schellingianos, observada logo após a última guerra, não se desmentiu, beneficiando-se da voga persistente de Hegel, da importância crescente de Fichte, do interesse atual pelo Idealismo alemão e, por que não dizê-lo, do apoio prestigioso de Heidegger, voltando-se as épocas menos criadoras espontaneamente para os grandes focos de pensamento perduráveis. Schelling atrai, porém, independentemente de seus pares, sendo aliás característica das pesquisas recentes ter desarticulado os lugares-comuns históricos, notadamente a trilogia Fichte-Schelling-Hegel concebida como gradação, prestando-se agora mais atenção à singularidade e à originalidade de cada um, à autocrítica a que se entregaram e às distâncias que tomaram uns em relação aos outros.

2. Aparece assim Schelling libertado do espartilho de chavões em que estivera preso por décadas, mesmo após os valorosos esforços de Tillich e Fuhrmans: o Proteu, o charlatão, o mago, o gnóstico, o renegado e perjuro, ou ainda o virtuoso, o ilusionista, o gênio visionário, o Prometeu cegado. Todo um sortimento desses clichês enfeita o livro tardio de Jaspers, felizmente compensado, em contraponto, pelas próprias observações do autor, que nunca deixam indiferente, tendo porém as lendas vida dura.

3. A tese, porém, obrigava, e Schelling houve, mantendo os conselhos de Jean Wahl, negativos e oblíquos como o demônio de Sócrates, estendidos por mais de dez anos, no bom caminho, tal como a amizade e a régia confiança demonstradas por Vladimir Jankélévitch não pouco facilitaram um trabalho que se mostrou mais espinhoso e mais lento do que se augurava à primeira vista.

4. Estando esgotada a obra, espera-se sem impaciência uma reedição que permita corrigir ao menos alguns mínimos erros e gralhas de impressão, não a desejando ao mesmo tempo por causa do preço inacessível que afastaria os estudantes, podendo-se porém, à falta do opus, oferecer, graças à amizade e à generosidade de Jean-Luc Marion e das Presses Universitaires de France, uma seleção de artigos compostos e publicados em sua maioria depois de 1970, estando vários deles inéditos em francês.

5. Sendo inevitáveis as repetições quando se multiplicam artigos e exposições, escolheram-se estudos que se completam, a fim de constituir um conjunto por assim dizer prismático, articulados sobre o itinerário presumido de Schelling, descrevendo alguns deles, aliás, um arco importante desse percurso, indicando uma nota ao final da obra o local e a data das diversas contribuições, permanecendo os textos intactos, salvo a homogeneização das referências, não tendo a bibliografia sido atualizada, embora nada de muito importante tenha aparecido que não esteja mencionado ao acaso das notas.

6. Deve-se, porém, constatar que, desde três lustros, a Forschung mudou um pouco de inflexão, traduzindo o interesse que os mais jovens dedicam a Schelling, através de promissoras dissertações — excetuando-se tal escrito pretensioso e tal descoberta da lua —, novas e inteligentes preocupações.

7. Estando a filosofia da natureza, apesar das aparências, a grande esquecida da Forschung, a caminho agora, graças a sérios trabalhos, de recuperar o tempo perdido e reaver seu lugar, breve mas intenso, no corpus schellingiano, restando porém muito a fazer.

8. Sem deteriorar-se de modo algum, a imagem do Idealismo alemão — expressão que, repita-se, só vale por sua comodidade — sofreu deslocamentos e alterações, não sendo mais Hegel a medida de todas as coisas.

9. Não sendo tampouco aberrante que os teólogos, após cura demasiado longa de hegelianismo, retornem, ou antes venham a Schelling e se instruam em sua ideia de positividade, que conjuga o teor efetivo dos documentos e testemunhos — portanto a força da Tradição — e o poder irrefragável do Fato, a iniciativa operante de um Deus agente.

10. Não obstante certos elementos fantásticos que oneram até o fim a cristologia (herdados sobretudo da mística protestante, Schwenckfeld, Sébastien Franck, Valentin Weigel), constitui a filosofia positiva tentativa original de filosofia cristã, particularmente pela involução do dogma, uma objetivação que não leva em conta o desenvolvimento nem a consciência eclesial e comunitária (sendo preciso demarcar-se de Hegel), mas apenas, à maneira de Johannes Climacus (o Kierkegaard pré-religioso), reporta todo o impacto doutrinal a uma historicidade pontual.

11. Revela-se cada vez mais que a História não passa de vasta empresa de decantação, imprevisível no detalhe mas já decidida no conjunto, sendo Satã quem faz a faxina e comanda grande alvoroço, não dando ainda, infelizmente, nenhum sinal de cansaço, abrindo sem cessar novos focos de infecção assim que estoura todos os abscessos purulentos, sendo o outro fornecedor da História em marcha o Israel refratário, freio robusto, fator de atraso cuja resistência prolonga os prazos, rearma os pesos do relógio, enquanto o diabo se atarefa no mostrador e nos ponteiros.

12. Sendo certa disparidade inerente a esse gênero de coletânea, esforçou-se por atenuá-la mediante a seleção, com vistas a oferecer, sob diferentes aspectos, uma visão de Schelling coerente e contínua.