10 Duas filosofias

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Apresentou-se Schelling em Berlim, em novembro de 1841, com rosto de Jano, munido de duas filosofias distintas e solidárias, empregando boa parte de seu primeiro semestre em explicar e justificar essa proposição insólita, o que não impede que Soeren Kierkegaard, ouvinte perplexo e trocista, dela zombe.

2. Curiosamente, não tendo a dualidade filosófica comovido em demasia os contemporâneos, pouco lhe prestando atenção, talvez por causa do desprestígio que manchava as palavras do velho filósofo, não parecendo especialmente intrigados nem mesmo um excelente historiador como Johann Eduard Erdmann, ou mais tarde Eduard von Hartmann.

3. Resumindo os dados: não sendo a aporia maior a rivalidade, a existência concomitante na história, de duas filosofias, de duas linhas ou tipos de filosofia, racionalismo, idealismo e realismo, criticismo e dogmatismo, filosofia crítica e filosofia especulativa, cujo curso paralelo segue, aliás, o traçado da evolução de Schelling.

4. Sendo a última filosofia de Schelling obra de longo fôlego, de retoques apagados, de arrependimentos secretos, importando porém manter presentes certas afirmações que o autor jamais revogou, ainda que implicitamente.

5. Por que então, inversamente, cindi-las? Aumentando a surpresa se examinarmos a composição efetiva de uma ou outra, sendo, com efeito, a filosofia negativa, embora tire seu nome dos sistemas malfamados da necessidade, transplantada do antigo sistema da liberdade, colhida da filosofia positiva ou grande empirismo na terminologia do Prefácio a Victor Cousin.

6. Acarretando a divisão excesso de problemas, restando provar sua razão de ser, tanto mais que a transição, momento escabroso do sistema desenvolvido, já se dava sem obstáculo na filosofia indivisa.

7. Tendo, enfim, Schelling elaborado a teoria das duas filosofias antes de ter operado a refação da filosofia negativa (suposta prorrogar a filosofia da Identidade), sem prever exatamente como se comportaria a filosofia positiva desligada do empirismo regressivo.

8. Ressaltando dessas observações gerais que o enigma verdadeiramente opaco está na cisão, não na unidade, sendo o enigma a cisão. Que intenção, que necessidade levou Schelling a separar o que estava unido, a declarar disjunto o que fazia boa parelha? Longe de dar conta de uma evidência ou de um estado de fato, acrescentando a dicotomia uma dificuldade a dissipar.

9. Encontrando-se Walter Schulz, já citado, que, em vez de buscar explicações acidentais e aleatórias, centra sua atenção na cesura das duas filosofias, vendo nela um problema, sim, mas um problema significante, um enigma que resolve todos os enigmas: precisando ele menos de explicação do que explicando o resto e a si mesmo, sendo o ponto de chegada e a consequência inelutável da evolução de Schelling.

10. Assentando assim a tese de Schulz, exposta com rigor, no momento de ruptura superada, na inflexão que engendra a partição em vez de ser seu problema ulterior, supondo que Schelling voltou sobre seus passos, refinou seu sistema constituído, e que a análise da transição o obrigou a estatuir duas filosofias, díptico ampliado da razão e de sua alteridade, da razão contingente ou finita e de seu fundamento imemorial.

11. Tendo a demonstração de Walter Schulz retirado certo opróbrio da última filosofia de Schelling, fazendo da dicotomia a pedra de toque do progresso último dessa filosofia, não nos convencendo porém inteiramente, por negligenciar as questões de composição e organização, e sobretudo por não levar suficientemente em conta a circunstância de o Übergang ser o mesmo depois como antes da tematização formal da separação das duas filosofias.

12. Encontrando-se em Jean-François Marquet o esboço de solução hábil, sublinhando ele a aporia interna da metafísica de Schelling ou mais exatamente de seu empirismo filosófico: como alcançar Deus livrando-se ao mesmo tempo do conceito e da experiência?

13. Sentindo-me mais próximo da perspectiva de Marquet, que faz aparecer a filosofia racional como uma extensão ou prótese, surgida da aporia do começo da filosofia positiva, tendo, porém, Schelling mantido até o fim a possibilidade de a filosofia positiva começar por si mesma e sem aviso prévio.

14. Concedendo primeiro a Schulz que a reconstrução da filosofia negativa constitui novo avatar do pensamento de Schelling, avatar metódico, pois deixa os conteúdos quase intactos, sendo o elemento inédito em relação às apresentações anteriores a aplicação do êxtase à razão: sendo o existente extático, sendo a razão extática.

15. Coincidindo o êxtase da razão com o fim da filosofia negativa, sendo um travão. Valendo a pena enumerar alguns sinônimos da razão extática: a razão dobrada (gebeugt), detida, cega, reduzida ao mutismo (verstummt), atingida (betroffen), estupefata (attonita), impotente, arrasada (niedergeschlagen), engolfada, aniquilada, sem movimento (regungslos), enregelada (erstarrt), pura essencialidade e substancialidade.

16. Prestando-se o êxtase, por sua própria ambivalência, a ligar os dois trechos da filosofia, fechando ele, conforme a incidência do olhar, definitivamente a filosofia racional, ou então inaugurando a filosofia positiva.

17. Sendo inextricáveis conceito e existência, ser puro e ser mesmo, ser supremo e existente necessário, nessa ponta “afilada”, nesse promontório da razão que é a Ideia invertida, só podendo a direção do espírito discerni-los, como a orientação do olhar modifica as imagens ambíguas dos gestaltistas.

18. Acontecendo a Schelling tomar a realidade em seu sentido trivial, sensível, mas sendo isso para sublinhar por comparação a precedência de um dado que se atesta, exaltando antes o existir puro, opaco, impenetrável, impermeável, destroço ou resíduo ontológico, por ser o sinal, a testemunha (também no sentido esportivo da palavra) transpassando o pensamento, de uma suprarrealidade cuja iniciativa intramundana somos exortados a buscar.

19. Tendo esses teoremas muito conhecidos, conhecidos demais, algo de enfeitiçante, não sendo revogados, ainda que se volte suavemente a noções limítrofes de que o êxtase é a expressão dramatizada (a fé, o não-saber, a autoridade dos sentidos, a representação).

20. Servindo o marco do êxtase, com o entrelaçamento das duas filosofias — vindo o fim final da negativa encravar-se no começo impossível da positiva —, antes para ligar do que para desligar, afastando-me aqui francamente da tese de Schulz.

21. Pouco importando: dando-se a propulsão ao princípio como começo, ao Deus atual em ato, em vários movimentos, chegando a filosofia racional a desprender Deus da “ideia absoluta”, “na qual estava como perdido”, e a recolocá-lo “em sua Ideia” — essa noção nova, tendo o editor a inserido nas Lições de 1842 —, enquanto natureza necessária, Ato por natureza, por essência, sendo por essência aquele que é.

22. Levantando a destinação religiosa, “sobrenatural”, da filosofia positiva o último véu sobre a manutenção obstinada de distinção à primeira vista arbitrária e dificilmente “crível”, e de um encaixe cujas versões são especiosas.

23. Passando o existente necessário, verdadeira noz-moscada da última filosofia, ora de um lado ora de outro, sendo normal, nessas condições, que as duas filosofias se toquem lado a lado, que as pontas do compasso se estreitem até tocar-se.

24. Ultrapassando, na passagem à filosofia positiva, o existente necessário subitamente a natureza necessária, sendo o Ev τι ejetado da filosofia negativa, havendo portanto redobramento e inversão.

25. Não sendo apenas a cesura que vacila, sendo o próprio começo da filosofia positiva que oscila, tendo-se aludido às incertezas do começo objetivo, não sendo o começo subjetivo menos cambaleante.

26. Atenuando um pouco esse heroísmo Schelling na lição seguinte, permanecendo porém a mola o querer que visa o Ser perfeito, indeclinável, devendo por isso o filósofo que se aventura rumo ao supraempírico e ao suprarracional ao menos fingir queimar suas naus e dar aspecto dramático à segregação da filosofia audaciosa, ainda que depois volte às divisões tradicionais, recosture em parte a cisão e, por fim, a verta com a maior facilidade do mundo nas fórmulas de Aristóteles.