2 Homem no mito

GABRIEL, Markus. Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewußtseinsgeschichte in Schellings “Philosophie der Mythologie”. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2006. (Quellen und Studien zur Philosophie, Band 71).

§2. O homem no mito ou a unidade de três enfoques: ontoteologia, antropologia e história da autoconsciência

1. Michael Theunissen, em seu ensaio O enfoque antropológico de Schelling, sustentou a tese de que no desenvolvimento do pensamento de Schelling se podem demonstrar três enfoques distintos, um egológico, um antropológico e um ontoteológico.

2. Como Schelling mesmo sempre se empenha em apresentar seu desenvolvimento filosófico como uma teleologia em direção à descoberta tardia de uma filosofia positiva, parece ao menos não ser uma máxima hermeneuticamente de todo equivocada perguntar se Schelling não está, nessa autoavaliação, de certo modo inteiramente certo.

3. Observando os problemas e propostas de solução discutidos no confronto com o Schelling tardio, pode-se constatar que os diversos intérpretes ou partem de um enfoque mais ou menos subjetividade-teórico, ou reconhecem na filosofia tardia um retorno à ontoteologia, ou colocam a antropologia no centro de sua reconstrução.

4. O paradigma subjetividade-teórico é defendido de modo mais acentuado por Walter Schulz, o retorno à ontoteologia foi elaborado por Dieter Henrich em conexão com a história da prova ontológica de Deus, e os motivos antropológicos ou existencialistas do Schelling tardio foram sublinhados por Habermas e pelos intérpretes próximos de uma ou outra variante da filosofia da existência.

5. Partindo da distinção de Theunissen, parece uma tentativa recompensadora investigar a filosofia tardia de Schelling, sobretudo as grandes introduções e a Filosofia da Mitologia, quanto ao modo como Schelling articula seus enfoques filosóficos aparentemente irreconciliavelmente díspares na última fase de sua produção.

6. Schelling antepõe à Filosofia da Mitologia, como se sabe, duas introduções, uma Introdução histórico-crítica à Filosofia da Mitologia e uma Introdução Filosófica, que contém ao mesmo tempo a exposição da filosofia puramente racional.

7. O projeto de Schelling, como mais tarde o de Heidegger, dirige-se contra a imagem cientificista do mundo, cujo conceito de objetividade é tendencialmente incompatível com a existência de observadores cuja observação não pode ser compreendida sem o existencial da significatividade.

8. Hegel compartilha em essência o diagnóstico de Schelling de que o mundo mitológico era um mundo da significatividade, mas reconhece nisso apenas um estágio religioso primitivo, no qual o conteúdo divino ainda não está mediado para a consciência e só por isso aparece como um oposto inexpugnável e por consequência como poder real.

9. Esse achado, porém, elaborado, como diz Schelling, apenas de modo histórico-crítico, necessita de uma fundamentação filosófica.

10. Por um lado, ela não consegue contar o ser mesmo, entendido como pura energeia no sentido aristotélico, entre seus conteúdos imediatos próprios, a ideia ou figura do ente, sob a qual Schelling compreende o resumo de tudo o que é pensável e por isso possível, que como tal não é necessariamente também real.

11. Por outro lado, o singular finito se perde no desempenho da pura contemplação filosófica, na medida em que não pode mais se reencontrar como tal em seu conteúdo último, a totalidade impessoal de todas as determinações essenciais.

12. A ontoteologia conduz, portanto, em última instância de volta à antropologia, sem ser por ela substituída.

13. Antropologia e ontoteologia remetem, pois, uma à outra, sem que se possa dizer inequivocamente onde Schelling propriamente se situa, pois ele não apresenta nem uma fundamentação puramente ontoteológica da antropologia nem uma fundamentação puramente antropológica da ontoteologia.

14. Vladimir Jankélévitch, ao que se sabe, foi o primeiro a destacar que a Filosofia da Mitologia pode ser lida como uma história idealista da consciência.

15. Ao desenvolver a filosofia negativa um conceito de pensamento que permite pensar a consciência como religião, e ao mostrar a Introdução histórico-crítica que o homem é essencialmente consciência, segue-se que a mitologia, na medida em que é história da consciência, é ao mesmo tempo história do ser e antropogonia.

16. O homem está na mitologia grega, em um duplo sentido, como o homem no mito.