ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).
Um leitor de Diferença e repetição declarava ter a impressão de comer um biscoito sem manteiga: excelente, mas seco, e essa impressão de secura, frequente na leitura de Deleuze, não se embota com o hábito, antes tende a reforçar-se.
A secura que a princípio sufoca acaba por seduzir o leitor, que descobre tudo o que ela lhe poupa: não há prantos, emoção nem estremecimentos metafísicos, nem cumplicidade com os grandes temas que ainda retêm o interesse filosófico.
Não há preocupação com a transcendência da alma ou do espírito, nem interesse por um sentido da história ou uma racionalidade do devir, que os modernos neo-hegelianos pretendem exibir em nome de Nietzsche, Marx ou Freud, nem respeito por valores estéticos ou morais quaisquer.
O que caracteriza Deleuze é, antes de tudo, um belo desentusiasmo: a filosofia não é feita para contribuir para a manutenção de esta ou aquela fantasia humana.
Trata-se apenas de descrever e, tanto quanto possível, de avaliar, não em função de valores extrínsecos ao discurso considerado, mas da coerência e da riqueza internas de uma filosofia.
Lacan declara que um tico de entusiasmo é a marca mais segura a deixar num escrito para que ele envelheça, e essa marca está ausente de todos os textos de Deleuze.
Tal contenção é tanto mais exemplar quanto não significa insensibilidade da pessoa de Deleuze, rica da habitual gama de fantasias pessoais a que ele soube recusar acesso direto à obra escrita, censura que se deve pôr em seu crédito como marca obrigatória do que se faz de honroso em literatura.
O exame do catálogo das obras confirma a impressão de frieza: seu caráter díspar e eclético parece testemunhar uma “objetividade” indiferente ao conteúdo do que examina.
Há um pequeno livro, admirável de ousadia e precisão, sobre Hume; um grande livro sobre Nietzsche, o único escrito até hoje por um intelectual francês que não seja completamente alheio ao pensamento nietzschiano; e um pequeno volume sobre Kant, destinado em princípio aos estudantes, que é chave do kantismo maravilhosa de simplicidade e precisão.
Há um livro sobre Proust, que propõe interpretação herética (antiplatônica) da essência proustiana; um livro sobre Bergson como filósofo sério, talvez também o único de Deleuze em que falta a manteiga absolutamente; e um livro sobre Spinoza, que discerne um escoliasta nietzschiano por trás do geômetra pseudocartesiano.
Há enfim livros mais recentes em que Deleuze assume temas destacados em outros, sobretudo as noções de diferença e repetição diferencial, que separam as filosofias clássicas (Platão, Kant, Hegel) das heterodoxas (Lucrécio, Hume, Nietzsche): ideia-força tanto de Diferença e repetição quanto de Lógica do sentido.
O conjunto dá impressão de dispersão e ecletismo, como se todos os filósofos e temas abordados estivessem num mesmo plano, reduzidos a uma mesma superfície, como sugere a Lógica do sentido: cada filósofo vale o que valer sua análise, e as construções só se diferenciam pela solidez e sutileza de sua armadura.
Duas coordenadas bastam para avaliar toda filosofia estudada: o sistema se sustenta? E consegue ser ao mesmo tempo sutil, isto é, aprisionar em sua armadura o maior número possível de elementos?
As filosofias parecem assim reduzidas ao esqueleto, privadas da carne ou, como diria Lacan, do “ar de sua canção”: Deleuze ignora que um filósofo não escreve só por desejar construir um belo sistema coerente e matizado, mas sobretudo porque as questões que aborda são carregadas de afetividade e lhe “tocam o coração”, como diz Scapin em Molière.
Trata-se de ignorância voluntária: Deleuze se quer indiferente a essas “significações” afetivas, como um anatomista atento apenas às articulações dos corpos que disseca, tal Saint-Saëns, que, diante da partitura de um jovem músico, ignorava os fastos orquestrais do allegro inicial e passava logo ao adagio central: quero ver como você se despe.
Mesma investigação técnica em Deleuze: ignora-se se uma filosofia é bela, verdadeira ou “soa” bem, e quer-se antes examinar como é feita, seu modo de construção e a solidez de seu arranjo.
O método poderia ser apenas acadêmico e universitário, e Deleuze parece por vezes estranhamente próximo de Martial Gueroult, mas há uma pequena diferença: o método toma emprestado da universidade o rigor, porém serve a um pensamento nem universitário nem acadêmico, justamente por não estar a serviço de pensamento, objetivo ou tema particular algum.
Esse é o paradoxo de Deleuze, inspirado nas séries de paradoxos da Lógica do sentido (paradoxo de Carroll, de Lacan etc.): a aliança do senso de nuance, precisão e distinção com a ausência de qualquer sistema em que integrar essas noções, por vezes sutilmente, mas sempre justamente distinguidas; em suma, a precisão para nada.
Perfeitamente distinguida, a noção é emancipada de todo contexto, o que a torna ininteligível e inefável, como a essência segundo Proust, e por isso Deleuze opõe à ideia clara e distinta cartesiana a ideia distinta e obscura, obscura na medida de sua própria distinção: quanto mais distinguida, menos informa sobre seu vínculo com as outras ideias.
Paradoxo de uma inteligência cuja finalidade é conceber a própria ininteligibilidade e que reconhece sua obra em seus próprios limites: o acesso ao singular, à compreensão da unicidade de um fato ou de um pensamento, que é seu objetivo, é ao mesmo tempo seu fim.
Muito esforço para trazer à luz algo que não fornece informação nem prazer à inteligência, pois todo pensamento (associação de ideias) não é menos aleatório que as associações de eventos que os homens chamam fatos e reclama o mesmo diagnóstico de facticidade, como Deleuze dizia desde seu primeiro livro: o fundo do espírito é delírio, acaso, indiferença.