Como a prova do medo se confunde com a apreensão do real, com o que nele há de constitucionalmente imprevisível e desconhecido, o medo intervém de preferência quando o real está muito próximo, no intervalo entre a segurança da distância e a da experiência imediata: quando se está muito longe, nada ainda a temer, e quando se chegou, nada mais a temer, o evento já tendo ocorrido, e o medo só tem razão de ser um pouco antes da chegada.
O mesmo vale para os aviões de carreira, sem grande risco em voo ou em solo, mas com curta fase crítica na decolagem ou aterrissagem, e o que há de tão temível no “bem perto” é apenas a proximidade que, sem ser nem totalmente longe nem totalmente aqui, basta para engendrar a incerteza, expressão geográfica da ambiguidade ontológica em que jaz todo medo.
Todo objeto terrificante é ambíguo, e se duvida se é isto ou aquilo, o mesmo ou outro, ou se é aqui ou lá, presente ou ausente, e é o caso de todo objeto próximo, que pode ser a si mesmo, como no desdobramento de personalidade: afundando no medo e na loucura, Maupassant torna-se estranho a si mesmo, percebendo-se não como um outro, mas como seu “muito próximo”, o duplo instalado em seu lugar, que descreveu em Ele? e O Horla.
Toda proximidade é inquietante, como a da mulher amada que às vezes perturba o itinerário amoroso: não há risco de inibição sexual nem quando a amante está longe, nem quando o amante está nela, mas só quando está próxima e chega o momento de passar aos atos, sempre aleatório por exposto ao medo, como diz
Montaigne no capítulo “Da força da imaginação” (Ensaios, I, 21), e o mesmo vale para o recuo diante do real ou a hora da verdade, que ocorrem não quando a coisa está lá, mas segundos antes.
O assassino que espreita na sombra é apenas perigoso se está longe ou à frente, mas terrificante se está muito perto sem que se o perceba, e o cinema de terror explora esse motor do medo, fundado menos na atrocidade de um perigo que em sua proximidade, iminência, como no filme Terror na linha (When a Stranger Calls): uma babá, numa vila da periferia, recebe chamadas de um homem que diz estar perto e querer matar todos.
A polícia, após controle telefônico, dá o último e aterrador telefonema: as chamadas vêm de dentro de casa, e o assassino não está nos arredores nem na sala, mas em algum lugar da casa, o que ilustra o medo e seu objeto: reação de pânico diante de algo que não está nem longe nem aqui, mas mora numa proximidade indeterminável.
É sina de toda realidade ser potencialmente terrificante enquanto próxima no tempo e no espaço sem ser ainda presente nem visível, e por mais seguro que se esteja das previsões, será preciso esperar a prova do real em pessoa, aqui e agora, para dissipar as apreensões da imaginação, como o jogador de bridge, só à vontade quando a dupla adversária reconhece a derrota, ou o de xadrez quando o adversário abandona.
Ninguém está jamais inteiramente assegurado, nem tranquilizado, quanto ao futuro, pois uma voz sopra ao ouvido do racionalista mais empedernido que a razão é de essência visionária, como diz Marivaux em Marianne, e que o real é imprevisível por natureza, e por isso a invisibilidade e a noite bastam para provocar medo: todo invisível é virtualmente temível, por não poder ser identificado de imediato e com segurança, e o medo é sempre um medo do último momento, quando o real vai dar seu veredicto, medo da realidade não enquanto real, mas enquanto ameaça tornar-se.