A alegria considerada aqui coincide plenamente com a alegria de viver e com o simples prazer de existir, entendidos menos como satisfação com a existência pessoal do que como aprovação do fato de haver existência em geral.
Uma longa tradição filosófica, de Platão a
Heidegger, procurou distinguir a verdadeira alegria da simples alegria de viver, fazendo a primeira depender de um afastamento das coisas particulares e de uma superação da existência transitória.
Essa tradição fundamenta-se na constatação de que nenhum objeto existente pode ser considerado objetivamente desejável de modo absoluto.
A verdadeira alegria tenderia então a assumir caráter místico ou metafísico, como experiência de uma presença permanente, de um ser eterno ou de uma libertação em relação à existência passageira.
Uma primeira defesa possível da alegria de viver consistiria em apresentá-la como acomodação resignada à fugacidade da existência e aceitação de satisfações provisórias em lugar de uma alegria absoluta.
Essa defesa permanece fraca porque concede antecipadamente superioridade à concepção adversária e reduz a alegria de viver a um sucedâneo da verdadeira alegria.
A defesa mais consistente consiste, ao contrário, em reconhecer que a alegria de viver não deseja estabilidade nem permanência, mas encontra precisamente na existência transitória, perecível e mutável a condição de sua satisfação.
O sabor da existência encontra-se no tempo que passa, naquilo que muda e jamais se fixa definitivamente, sendo essa própria mobilidade a forma mais segura de permanência da vida.
Apreciar a existência implica alegrar-se com seu caráter simultaneamente perecível e renovável, em vez de lamentar nela a ausência de eternidade.
O encanto do outono reside justamente em sua transformação do verão e em sua própria transformação pelo inverno, e não numa hipotética essência eterna do outono.
A vida encontra sua singularidade na distância em relação ao ser imóvel concebido por certas ontologias e metafísicas.
Ulisses exprime essa preferência pela existência finita ao rejeitar a imortalidade oferecida por Calipso e ao reconhecer, no encontro com Aquiles entre os mortos, a superioridade de uma vida miserável sobre o domínio glorioso do mundo dos mortos.
Viver significa, nesse sentido, recusar praticamente os atributos ontológicos da imortalidade e da eternidade.
A equivalência final entre alegria e alegria de viver exige ainda reconhecer, em sentido espinosano, maior realidade e perfeição na alegria atual e completa da existência do que numa alegria dirigida a um ser transcendente ainda virtual e incompleto.
Toda alegria plenamente realizada consistiria, portanto, na própria alegria de viver.