MEYER, Michel. De la problématologie: Philosophie, science et langage. Bruxelas: Pierre Mardaga Éditeur, 1986 (Coleção Philosophie et Langage).
1. O NIILISMO INTELECTUAL E A ÉPOCA CONTEMPORÂNEA
1. A desconfiança e o ceticismo em relação à filosofia, alimentados de dentro e de fora, foram uma das grandes características do pensamento do século XX.
2. À dúvida sobre a capacidade resolutiva da filosofia somou-se a crítica habitual à sua utilidade, vinda sobretudo das próprias faculdades onde tudo se instrumentaliza, e o triunfo do pensamento analítico que recorta seus objetos é necessariamente não filosófico, enquanto os cientistas que refletem filosoficamente sobre a ciência costumam generalizar considerações arbitrárias e de validade limitada, enraizadas na leitura particular de sua disciplina.
3. O ataque à filosofia, cético ou dogmático, não é novo, mas as sociedades que se encarniçaram em denegri-la sempre o fizeram em período de declínio, pois o abandono do pensamento crítico e racional, que empurra os indivíduos para novas religiões e seitas, nutre-se da desestruturação do pensamento e da vida que ele exprime.
4. A rejeição da filosofia raramente foi mais que índice de decadência, manifestando um ceticismo crescente quanto à sistematicidade do pensável, e essa fragmentação antecipa rupturas maiores, uma busca compensatória de intuições visionárias infundadas que desemboca no obscurantismo e no culto do charlatanismo intelectual.
5. Saber se é isso que ocorre hoje permanece em aberto, pois a filosofia sempre enfrentou ceticismos de todo tipo, de modo que pode tratar-se de uma nova versão de uma velha história, questão que a História de qualquer modo resolverá.
6. Cabe então perguntar em que consiste a particularidade da situação contemporânea.
7. A história das ideias mostra uma incapacidade crescente da filosofia diante do prodigioso desenvolvimento das ciências desde o fim do século XIX, sendo a ofensiva mais forte vinda não das ciências da natureza, autônomas havia muito, mas das ciências humanas, constituídas à custa das problemáticas tradicionais da filosofia.
8. A filosofia foi despojada do sujeito, seu fundamento, por Marx e Freud, que o mostram atravessado por outros discursos e alienado em suas pulsões e interesses, e por Nietzsche, que desenraizou os valores, enquanto a literatura pós-romântica e as grandes criações formais depois de Proust consagraram a fragmentação do sujeito, e a filosofia, primeiro tornada suspeita com a ideologização do discurso, ficou reduzida após o colapso das ideologias a uma função crítica, esquelética, defensiva e cética, sempre do lado errado.
9. Não surpreende que as ciências humanas tenham substituído a filosofia como positividade, convertendo o fraco discurso da consciência em ciência do inconsciente e o discurso idealista da história em sociologia, ciência do passado e economia desde os Manuscritos de 1844.
10. A filosofia só pôde pensar-se como inteiramente posta em questão ou incapaz de resolver seus próprios problemas, e o desenvolvimento das máquinas lógicas leva até a perguntar se o raciocínio é apreensível fora do matematizável e se o pensamento humano ainda depende da filosofia.
11. Por isso os filósofos do início do século interrogaram as possibilidades da filosofia, o que ela pode e não pode dizer, como Wittgenstein, e seu fim necessário como consagração do silêncio.
12. A reflexão de Heidegger é exemplar a esse respeito.
2. A QUESTÃO DO SER OU O PENSÁVEL IMPOSSÍVEL
1. Impõe-se perguntar a que corresponde historicamente o pensamento de Heidegger.
2. Esse pensamento representa uma etapa suplementar na autoproblematização da filosofia, ainda incapaz de refletir-se como tal, embora o vocabulário da interrogação esteja nele mais onipresente que nunca, prova da historialidade crescente do problematológico no século XX, e o que o impediu de conceituá-lo poderia ser o cuidado ontológico, com sua consequente crítica da ciência.
3. Essa leitura é, porém, superficial por não levar em conta o que Heidegger oferece de específico no próprio plano da ontologização do filosófico.
4. A ontologia tradicional pergunta pelo Todo do que é, e, como a ciência diz o que é, o recuo ontológico interroga o Todo enquanto não é simples elemento do Todo, diferença ontológica que, por não haver nada fora do Todo, faz do Nada o lugar de possibilização do metafísico, de modo que a renúncia ao ente põe o acento no Nada como nada do ente e, como só o que é tem razão, o Nada escapa à racionalidade da ciência.
5. Heidegger radicaliza a interrogação metafísica numa época em que a ciência parece torná-la mais impossível do que nunca, mas, por pensar o desafio em termos de diferença ontológica, o que poderia ter sido filosofia do questionamento tornou-se apenas questionamento impensado da filosofia, e, em vez de nascer da questão da linguagem tomada por si, a nova linguagem foi rebaixada ao poético ou à desconstrução historicizada da metafísica, desembocando no silêncio diante do essencial, no dizer do pensamento como calar explícito e no Ser indizível já implicado em Ser e Tempo.
6. Heidegger falou do questionamento mais que qualquer outro, mas não o pensou realmente e desde Ser e Tempo o rebaixou a outra coisa, conforme a tradição metafísica que queria superar, de modo que passagens que exaltam o questionar, como aquela em que os gregos viam no poder de questionar a nobreza de seu Dasein e chamavam bárbaros aos que não questionavam, são enganadoras.
7. Heidegger concede ao questionamento um papel importante mas não fundamental, pois ele só é fundamental na medida em que revela outra coisa, e a questão condutora deve ser interrogada pelo que revela dessa outra coisa e não pelo que ensina sobre o questionamento, mero acessório, razão pela qual ele rejeita como aparência a interrogação sobre a interrogação, tida pela razão sadia como absurda, niilista e egocêntrica.
8. A estrutura da questão condutora é triádica, interrogando o ente quanto a seu ser em vista do sentido do Ser, segundo a divisão não justificada de Ser e Tempo entre o interrogado, o perguntado e o questionado, e o além que funda essa interrogação será o Dasein e depois a história do Ser, de modo que a questão do Ser nunca leva Heidegger ao ser da questão, mas ao ente que questiona, o homem, interrogado não enquanto interroga, mas enquanto revela uma relação privilegiada com o Ser, analisada em existenciais alheios ao questionamento, prova disso sendo que a questão do Ser tem a mesma estrutura que a do ente, sem traduzir a diferença ontológica no próprio interrogar.
9. Questionar o Ser ou o ente é indiferente em termos de questionamento, e a questão do Ser, declarada a mais vasta, profunda e originária e co-perguntada em toda questão, torna as questões ainda mais impróprias para diferenciar o que se joga em outro lugar.
10. A demonstração não convence, pois dizer que a questão do Ser é ontologicamente primeira apenas define o ontológico, e, como observou Ortega y Gasset, Heidegger inflou o conceito de ser até torná-lo tudo aquilo sobre o que o homem se interroga, mero problema de vocabulário e promessa não cumprida, enquanto desde a Introdução à Metafísica o Dasein cede lugar à história do Ser, e o questionar se converte em escuta, a ponto de o gesto próprio do pensamento passar a ser prestar ouvido à palavra e apagar todos os pontos de interrogação.
11. Fecha-se o círculo, pois o questionamento, subordinado ao questionador e depois às filosofias do passado, deve apagar-se no reino do silêncio, já que a fundamentalidade é impensável quando não concebida em termos de questionamento, que, não pensado a partir de si, se torna derivado segundo a tríade ontológica ente, Ser e sentido do Ser, e o Ser torna-se o impensado de toda questão, que a ele remete indefinidamente sem jamais apreendê-lo.
12. Heidegger percorreu até o fim um caminho impossível, pois, consciente do caráter problemático da filosofia, falou do questionamento, mas recusou ver em sua fundamentalidade algo além de verborragia vazia e deslocou a fundamentalidade para o Ser, fazendo ambos naufragarem no indizível e no inquestionável como única solução do questionamento.
13. O pensamento pré-cataclísmico do entreguerras está inteiramente marcado por essa atitude, que se reencontra em Wittgenstein.
3. A PROBLEMATIZAÇÃO FILOSÓFICA COMO LOGOLOGIA
1. Também em Wittgenstein a referência à problematização é onipresente, com as questões sobre o que garante uma problematização correta, quando ela faz sentido, quais problemas são filosóficos e que linguagem lhes convém, pois, como Heidegger, ele enfrenta a situação histórica da filosofia, mas a assume tomando a linguagem como modalidade da formulação e da solução dos problemas.
2. O argumento histórico lembraria que Wittgenstein participou do Círculo de Viena e procurou com Carnap reformar a concepção da linguagem segundo a ciência e a lógica, que formaliza a língua natural mas remete a ela para ser compreendida, num círculo em que compreender a lógica exige compreender a linguagem e vice-versa.
3. Daí a dupla direção, a de Carnap, que constrói as estruturas lógicas da ciência para unificar os produtos da Razão na linha de Frege e Russell, e a de Wittgenstein, que pensa primeiro a relação entre lógica e linguagem e conclui que a lógica é imanente à linguagem, revelando a univocidade e as relações estáveis exigidas pela inteligibilidade sob a equivocidade adaptável do uso.
4. A lógica é a gramática profunda da linguagem, além de sua sintaxe, e mostra relações de sentido que não se dizem mas se mostram e que qualquer falante compreende, de modo que a teoria lógica é a tematização explícita dessa inteligibilidade, uma linguagem escrita, descontextualizada e unívoca, produto da reflexão da linguagem sobre si.
5. Isso terá pesadas consequências para a concepção da filosofia, mas antes é preciso examinar as insuficiências do argumento histórico.
6. Pode-se ver nessa abordagem apenas outra maneira de filosofar, que toma a linguagem como objeto e calca a filosofia sobre a ciência em nome de um ideal metodológico, escolha recusável por sua arbitrariedade, o que permitiria relegar o Círculo de Viena ao passado e à não filosofia.
7. O argumento histórico é, contudo, uma facilidade retórica de quem adota de antemão o olhar ignorante da exterioridade, pois pensar Wittgenstein historicamente sem caricatura exige ver que está em jogo o estatuto e o futuro da filosofia no universo intelectual contemporâneo, já que a questão do questionamento filosófico resulta da cientificização generalizada do século XIX.
8. O argumento histórico faz perder de vista as questões fundamentais, a saber, por que a ciência e a linguagem poderiam assegurar a sobrevivência da problematização filosófica, em que são filosoficamente fundamentais e por que esse deslocamento é teoricamente necessário do interior da reflexão, e não apenas historicamente condicionado.
9. Ciência e linguagem tornaram-se a chave de toda problematização porque a experiência permite decidir as questões de uma vez por todas, assim como a linguagem formal resolve as suas, enquanto uma linguagem que não diferencia soluções e problemas condena estes a se repor indefinidamente e é necessariamente ilógica, pois a lógica é o discurso do sentido, gramática profunda às vezes ocultada pelas línguas particulares.
10. Uma questão tem sentido se puder ser resolvida, e a questão insolúvel é absurda, um falso problema, pois quem a formula espera uma resposta impossível e dá sentido a seu ato, mas erra porque a questão carece de sentido, cabendo à filosofia mostrar esse descompasso, já que para Wittgenstein o sentido de uma questão é o método para respondê-la, de modo que a teoria da significação se subordina à exigência apocrítica e o Tractatus busca dizer as relações profundas que a lógica, como linguagem ideal, deve mostrar.
11. A lógica permite demarcar problemas e soluções e dizer quando se tem uma solução e quando apenas se duplicou o problema, sendo, como a experiência, apocrítica por dar meios de decidir e verificar, daí a dicotomia restaurada por Carnap entre juízos analíticos e sintéticos, tecido lógico e trama da experiência.
12. Compreende-se assim por que a filosofia, para problematizar a problematização e enfrentar o desafio de sua legitimidade, se concentrou na linguagem pela lógica e na ciência pela experiência, dando origem ao neopositivismo como movimento e doutrina.
13. É preciso recusar o preconceito de que o neopositivismo seria especificamente uma antifilosofia, pois o mesmo cuidado de depuração se encontra em Bergson e Valéry, e a rejeição da metafísica como conjunto de problemas impossíveis não decorre do deslocamento cientificista, que é apenas uma de suas consequências, confusão que procede da ignorância da situação intelectual geral da época.
4. A DISSOLUÇÃO COMO RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS INSOLÚVEIS: WITTGENSTEIN, SCHLICK E CARNAP
1. Para Wittgenstein e Carnap, a filosofia misturou falsos e verdadeiros problemas por falta de uma linguagem, como a lógica, capaz de marcar a diferença problematológica entre problemas e soluções, de modo que as questões filosóficas são em geral desprovidas de sentido e toda filosofia deve ser crítica da linguagem, pois, se uma questão pode ser expressa, sua resposta também pode, e a linguagem deve trazer a diferença entre questão e resposta, embora o questionamento não seja pensado a partir de si mesmo, mas através de um redutor, o que faz parecer óbvio que resolver é fazer desaparecer e que mostrar que um problema não existe equivale a suprimi-lo, ideia partilhada por Bergson, Valéry, Wittgenstein e Carnap.
2. A linguagem é para Wittgenstein o redutor do questionamento, que não precisa ser teorizado, pois a dúvida só existe onde há questão, a questão onde há resposta e esta onde algo pode ser dito, e, sem problematologia, ele toma como evidente que a ausência de questão constitui a resposta, sem poder justificar de modo não circular que a dissolução é resolução, já que essa necessidade decorre da diferença problematológica que ele reabsorve na linguagem.
3. Trata-se de um pressuposto teórico sobre a resolução das questões que terá consequências no restante do pensamento de Wittgenstein, sobretudo em sua concepção do silêncio.
4. Antes de examinar Carnap e Schlick, convém explicar a ideia, aparentemente arbitrária e paradoxal, de que a dissolução de uma questão pode valer como resposta.
5. Uma questão é especificamente filosófica quando sua formulação constitui sua resposta, pois ela se resolve no discurso que a faz surgir, como num sistema panteísta em que formular a questão da liberdade equivale a concebê-la como possível, de modo que responder em filosofia é desdobrar a questão em respostas mantendo a diferença problematológica, enquanto fora da filosofia a resposta visa suprimir a questão.
6. A afirmação da dissolução é resolução não por suprimir a questão, mas por instaurar uma diferenciação explícita entre o que faz questão e o resolutivo, e o modelo da supressão, nutrido pela experiência comum e pela ciência, só se impõe por um golpe de força, pois explicitar a relação questão-resposta obrigaria o positivismo a abandonar a verificação lógico-experimental como critério único, restando-lhe afirmar a priori sua superioridade, o que o torna oponível a qualquer outro modo de validade.
7. O critério de que o sentido é a verificação é autorrefutador por ser inverificável, embora tenha sentido se relacionado ao questionamento como instauração da diferença problematológica, mas reconhecer esse nível como temático limitaria o positivismo a uma modalização entre outras e autorizaria o discurso metafísico da pura diferença problematológica, de modo que sua sobrevivência exige suprimir o fato problematológico que ele próprio põe em prática.
8. Sem esse redutor, resta apenas uma visão particular do responder, imprópria à universalização que reivindica, pois responder declarando uma questão insolúvel é responder ao relacionar diferencial e explicitamente um discurso a uma questão, e reconhecer isso exigiria ampliar a noção de resolução justamente ao que o positivismo dissolve, de modo que, confessando seu fundamento, ele se destruiria tanto em sua crítica da metafísica quanto em sua cientificidade generalizada.
9. Schlick, em Questões Insolúveis? de 1935, explicita o que Wittgenstein diz por aforismos, afirmando que explicar o sentido de uma questão é estipular o meio de resolvê-la, princípio que teria conduzido Einstein à relatividade, de modo que uma questão insolúvel em princípio não é questão, mas sequência de palavras terminada por ponto de interrogação, como a pergunta pela natureza do tempo, raciocínio que leva ao princípio de que o sentido é a verificação.
10. Carnap, que também usa esse princípio contra Heidegger, quer evitar uma linguagem que faça crer possuir respostas quando só tem questões, mas a verificação, alinhamento do sentido à ciência, permanece um critério proposicionalista que reduz o problemático ao assertórico, anula-se por ser inverificável, recalca as demais modalidades da relação questão-resposta e supõe que já se tem a resposta, restando apenas verificar a adequação.
11. Negando a necessidade de enfrentar a problematização a partir de si mesma, o positivismo tornou-se a forma mais radical de proposicionalismo, erigindo a justificação lógico-linguística em única significação possível e o critério de verificação numa guilhotina lógico-epistêmica, até que Carnap teve de admitir que uma questão externa a um quadro de referência pode ter sentido, limitando-se a dizer que ela é problemática e requer exame mais profundo.
12. A impossibilidade positivista provém da incapacidade de pensar a diferença problematológica por si mesma, que se perde na linguagem e se concretiza por uma manifestação privilegiada imposta sem justificação, gerando o paradoxo de provar que se responde mostrando que não se pode responder, ao passo que, partindo dessa diferença, compreende-se que a questão filosófica se perpetua por natureza através das variações históricas das respostas, de modo que sua insolubilidade segundo critérios positivistas é essencial ao filosófico, e o redutor da linguagem dos cientistas empobreceu a filosofia de sua fundação metafísica.
5. A DISSOLUÇÃO DOS PROBLEMAS EM BERGSON E VALÉRY
1. O preconceito antimetafísico não é privilégio do positivismo lógico, e o movimento de dissolução interno à filosofia é bem mais geral, como mostram, no pensamento francês, Bergson e Valéry.
2. Bergson, em O Pensamento e o Movente, dedica-se à posição dos problemas e aos falsos problemas, procurando exorcizar os fantasmas angustiantes e insolúveis que incidem sobre o que não é, como a origem do ser ou da ordem, que só surgem porque se admite implicitamente que poderia não existir nada.
3. Diante de quem se coloca tais questões sobre o nada, Bergson não as resolve, mas não as coloca, e nisso reside sua superioridade, como a garrafa cheia não contém menos que a meio vazia, de modo que a intuição é a garantia de saúde intelectual contra os problemas vertiginosos que nos põem diante do vazio.
4. Bergson partilha o cuidado de toda a tradição ocidental de livrar-se de certos problemas, embora para restaurar a metafísica em sua dimensão mais mística pela intuição, num procedimento de espírito idêntico ao de Wittgenstein ou Carnap, e Deleuze distingue nele os problemas inexistentes, que confundem o mais e o menos, e os mal colocados, que analisam mal os mistos, erro comum à ciência e à metafísica de ver diferenças de grau onde há diferenças de natureza.
5. Valéry, cujos Cadernos poderiam passar por obra de um positivista, considera estéril a problematização filosófica em comparação com a ação e a ciência, censura a metafísica por não responder a questões precisas, vê nos problemas metafísicos ilusões nascidas da linguagem e da impureza dos conceitos, que se desvanecem quando enunciados, define o problema filosófico como aquele que não se sabe enunciar e exige que uma questão contenha a classe de suas respostas, sob pena de ser afirmação disfarçada ou dogma, sem crer, ao contrário de Carnap, que a linguagem possa salvar, já que ela é o próprio lugar da confusão entre questões e respostas.
6. A resposta, para Valéry, é uma afirmação que não pode voltar a ser problema, e só o real e a ação resolvem e até colocam sem ambiguidade os problemas, de modo que toda questão indiferente à prática ou insolúvel por ela é inexistente, verbal ou mal enunciada, e a superação da linguagem natural se faz não por uma linguagem ideal, mas pela vida, embora ele se aproxime do cuidado problematológico ao propor que a filosofia apenas coloque e precise os problemas como ciência dos enunciados.
7. É inaceitável identificar o cuidado com o questionamento à evacuação de certas questões em nome de uma intuição infundada do que deve ser questionar, julgar a diferença problematológica inassumível na linguagem natural e ignorar que, se dissolver é uma forma de responder, é o contrário do filosófico, que responde às questões colocando-as, pois, pensando questões sem pensar o questionamento, cada autor reduz a interrogatividade a um princípio escolhido de antemão, intuição, linguagem ou ação não verbal, e partilha o modelo científico em que as respostas suprimem as questões, tornando impossível o questionamento filosófico e o questionamento do questionamento.
8. Que uma demanda já seja resposta ou que a resposta signifique problema não apaga a diferença problematológica, que deve ser pensada a partir da interrogação sobre o questionamento, e o metadiscurso que critica e depura a linguagem só seria a chave das dificuldades se inscrito numa concepção problematológica da discursividade, ao passo que Carnap elaborou apenas uma lógica proposicional sem vestígio de questionamento.
6. O PARADOXO DO SILÊNCIO EM WITTGENSTEIN
1. Também em Wittgenstein, por não pensar a relação entre silêncio e linguagem em termos de questionamento radical, essa relação aparece como um paradoxo que mina todo o Tractatus.
2. O silêncio é o objetivo visado, de acordo com sua ideia de resolução, pois o problema resolvido desaparece e o insolúvel deve ser dissolvido, de modo que o discurso que dele se ocupava cessa, e o sentido do livro se resume em dizer claramente o que pode ser dito e calar sobre o que não se pode falar, com a pretensão de ter resolvido definitivamente os problemas no essencial.
3. A coerência aparente rompe-se diante da possibilidade e da necessidade do próprio Tractatus em relação a essa concepção de resolução.
4. A linguagem fala por si mesma e sua lógica imanente se mostra mas não se diz, pois enunciar o sentido de uma proposição seria dizer outra coisa e sair da linguagem, tornando impossíveis a paráfrase e a sinonímia completas, a menos que se veja no que é dito o indizível que é seu sentido último, a imagem, de modo que o silêncio do dizer é o sentido que se mostra.
5. O Tractatus diz, porém, o que deveria apenas mostrar-se, construindo uma lógica para a linguagem como se fosse necessário dizer o que é inútil e impossível exprimir, contradição que leva à autoacusação suicida de que suas proposições são elucidativas por serem reconhecidas, ao fim, como contrassensos a serem ultrapassados.
6. O silêncio é campo do sentido e única atitude coerente diante do contrassenso, mas o paradoxo se esclarece como resultado de uma investigação sobre o sentido, pois o problema do Tractatus é a própria problematização filosófica, cuja solução suprime a necessidade dela, tornando a filosofia inútil ou impossível e simples terapêutica da clareza, num paradoxo do Mênon que faz de Wittgenstein o Sócrates do niilismo contemporâneo, de modo que o contrassenso proclamado é a resposta retroativa à questão de saber se a démarche tem sentido, o que só se percebe pensando o livro em termos de problemas.
7. A acusação de contradição só se mantém para abordagens indiferentes à dissociação entre problemas e soluções, pois, se a contradição é o resultado que se projeta sobre a resolução como questionamento de sua própria possibilidade, não se pode atacá-la como se de antemão se soubesse que ela seria a solução.
8. Estabelecida a coerência da démarche, a filosofia continua em má posição, pois o sujeito cartesiano, fundamento, reduz-se a limite indizível da discursividade, o logos revela-se inútil por só poder mostrar o inessencial, e para o resto prevalece o silêncio, solução última em que, resolvidas todas as questões científicas, já não há questões e isso mesmo constitui a resposta.
7. A QUESTÃO E O SISTEMA
1. A filosofia contemporânea, atingida pela morte do sujeito cartesiano e deixada sem fundação, tomou consciência de seu logos impossível, o que gerou dois caminhos, seguir a ciência como ciência da ciência no neopositivismo ou tornar-se discurso sobre o discurso impossível numa metafísica negativa que anuncia o fim da filosofia e foge para a literatura ou a poesia, niilismo a que Wittgenstein também se liga, enquanto o positivismo, francês e germânico tanto quanto anglo-saxão, foi uma resposta à mesma crise, e ambas as soluções, hoje compreendidas historicamente, obrigam a retomar a problematização como questão filosófica e não apenas como historicidade do niilismo.
2. As duas respostas à crise do logos filosófico enraízam-se na mesma questão mal colocada do questionamento filosófico, conceituado a cada vez por um redutor, linguagem, ciência, ação ou ser, que fazia as vezes de primeiro princípio sem se declarar, pois declará-lo destruiria sua pretensão, de modo que se ocultou a questão, impôs-se um fundamento contestável e perpetuou-se a problematicidade do filosófico sem poder dizê-la.
3. A resposta consiste em tomar o questionamento em sua própria originariedade, que é o originário filosófico, tornando-o positividade do pensamento em vez de falha, e reconhecendo que, se na ciência a solução suprime logico-experimentalmente o problema, na filosofia ela não pode aboli-lo, já que a diferença problematológica pode ser assegurada também pela estipulação do que é questão e resposta num discurso, e que a identidade de questão e resposta num mesmo sistema só parece defeito sob um olhar redutor exterior, pois colocar um problema onde tudo parecia evidente é o todo do pensamento criador.
4. O percurso do filosofar contemporâneo mostra que o sujeito puro ou transcendental esgotou suas possibilidades, deixando apenas sujeitos empíricos, o que significa no plano ético o confronto das vontades e a ideologização da moral, a transformação do homem em objeto de ciência e a absurdidade da existência individual, fim do humanismo do qual o existencialismo e as demais correntes buscam saídas na literatura ou na história, modalidades da metafísica negativa e do niilismo, entre as quais o silêncio, ao passo que a ciência serviu de modelo resolutivo oposto à mera confissão de impossibilidade.
5. Essas vias estão hoje esgotadas quando refletidas tematicamente, reflexão que toma a problematização como conceito filosófico e não como vivência imposta pela época, e o que une positivismo e niilismo é o dilema irrefletido da problematização, cuja raiz comum, se vista, faria desaparecer sua oposição, já que ambos são respostas que se ignoram como tais por a questão a que respondem lhes permanecer exterior.
6. O que a desfundamentação do sujeito puro coloca como problema é a própria problematização em sua possibilidade de assunção filosófica, que positivismo e metafísica negativa veem apenas como fissura histórica, rejeitando ambos o questionamento pela cientificização, pela dissolução, pelo silêncio ou pela fuga para fora do campo filosófico, a partir de uma visão a priori não questionada do que é questionar, o que os condena a suas próprias contradições e a uma problematização que é hoje a nossa, destinada a superar a simples historicização do problemático em favor de sua filosofização.
7. A metafísica negativa falou do Ser, do silêncio ou da existência absurda como inapreensíveis por um discurso fundado, e o positivismo caiu na contradição de hipostasiar não logico-experimentalmente o lógico-experimental, critério cujo valor é todo problematológico mas que, pretendendo-se norma universal do proposicional, se autorrefuta, só podendo recuperar sentido aceitável numa concepção que o particularize como modalidade da diferença problematológica e torne de novo possível, senão necessária, a metafísica.
8. Isso só é visível hoje porque o recuo da História permitiu percorrer as vias abertas pelo dilema da problematização, e essa posição é tão histórica quanto aquelas que se revelaram sem saída, de modo que a problematização recuperada como positividade filosófica é ela mesma trazida pela História, e a historicidade, como recalque do histórico, reconfirma-se como dimensão do questionamento agora percebida como tal, embora toda problematização seja tão livre quanto a não problematização, e recusar essa superação apenas confirme a historicidade do questionamento como seu próprio recalque.
9. O questionamento tornou-se historicamente a positividade explícita do filosófico, que deve necessariamente pensá-lo, ainda que sua instauração seja historicamente apenas possível, exigência incontornável de mudança de ponto de vista que se pode recusar pela liberdade de rejeitar o histórico no teórico, mas não eludir filosoficamente, pois filosofar essa recusa confirmaria dialeticamente a radicalidade do questionamento.
10. O que esgota os possíveis abertos pela metafísica negativa e pelo positivismo é ver hoje a que eles respondem sem poder pensá-lo sem se destruir, e voltar à problematização inicial em que se inserem como alternativa, faces de uma mesma moeda, é recuar após constatar suas consequências insustentáveis, mas também voltar a um fundo de pensamento filosófico, historicidade e não apenas histórico.
11. Reconhecido que cada uma dessas soluções responde a um problema que não pode colocar sem tornar-se problematologia e assim se impossibilitar, não é mais possível negar o problematológico, que se impõe prática e teoricamente apesar da liberdade de ignorá-lo, de modo que o próprio leitor dessa leitura histórica está problematologicamente engajado e não pode mais escapar ao questionamento sem contradição.
12. Todos os golpes de força examinados têm em comum, além de suas contradições internas, a incapacidade de ver como funciona o questionamento, sobretudo filosófico, por apreendê-lo através do que não é ele, de modo que a diferença problematológica reduzida a uma manifestação e assimilada a sua modalidade redutora exclui as demais modalizações, tidas por irredutíveis e destinadas à dissolução.
13. A culpa cabe ao filósofo habituado a resolver problemas sem colocar o problema do problema, mas ele apenas respondeu sem saber ao que sua situação histórica exigia, e, quando a problematização se tornou um fato inegável no início do século, o pensamento teve primeiro de assimilá-la em sua radicalidade antes de poder pensá-la em sua positividade nova, que o obriga a abandonar suas antigas evidências antropológicas.
14. Renegar a tradição filosófica seria copiar as condições do progresso de outros domínios, pois um problema filosófico é histórico, enraizado na História e traduzido na sucessão das filosofias, de modo que importa saber o que se disse do questionamento, como ele foi posto em prática quando não podia ser pensado por si e como foi historicamente recusado.
15. Essas são as questões a seguir, pois um problema filosófico é uma questão cuja própria tematização é a resposta, e o rigor filosófico é a explicação desse vínculo, de modo que a filosofia funda sua interrogação dando-a a si mesma ou, quando não pôde, a deslocou para outra coisa que a resolvia por um tempo, sendo a historicidade dimensão constitutiva do questionamento, recalque do que muda e expressão intemporal que se encarna num sistema, razão pela qual a filosofia busca pensar-se como sistema da interrogatividade, agora a partir de si mesma, como convida a liberdade de assumir a História.