JEAN FRANÇOIS BILLETER. Lichtenberg
Georg Christoph Lichtenberg (1746–1799) é mal conhecido nos países de língua francesa, onde passa por mero literato marginal, autor de aforismos, paradoxos e observações divertidas — imagem que oculta sua posição como um dos representantes mais notáveis e profundos do Iluminismo alemão.
A influência de Lichtenberg foi secreta, mas contínua ao longo de duzentos anos.
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Os Cadernos, em que Lichtenberg anotava dia a dia tudo o que lhe passava pela cabeça, tornaram-se um clássico — mantidos de 1764 a 1799, de seus 22 aos 57 anos, até a véspera de sua morte, somam cerca de 1.600 páginas de notas de extensões diversas na edição atual.
Como documento, só encontram equivalente no Zibaldone de Leopardi e nos Cadernos de
Valéry: registros em que se vê um espírito de qualidade rara interrogar-se e falar consigo mesmo sobre todos os temas que lhe interessam.
A antologia aqui apresentada reúne as passagens que mais interessaram ao organizador e às quais ele continuamente retornou ao longo dos anos, seguindo o próprio conselho de Lichtenberg de que é assim que se deve ler os autores — resumindo-os por conta própria (F 1222).
O organizador buscou dar uma ideia dos diversos aspectos da personalidade de Lichtenberg, sem pretender cobrir todos os domínios que lhe importavam.
Foram deixados de lado quase todos os trechos relativos à física, à química, à astronomia e a outras ciências naturais — domínio das pesquisas de Lichtenberg que ocupa boa metade de suas notas.
As duas principais antologias publicadas em francês — a de Marthe Robert (1947) e a de Charles Le Blanc (1997) — privilegiavam notações breves em detrimento dos desenvolvimentos mais longos, e o leve em detrimento do mais difícil, impedindo seus leitores de compreender o personagem e perceber a profundidade de seu pensamento.
A escolha feita aqui visa favorecer uma leitura lenta e refletida das notas selecionadas.
A língua dos Cadernos constitui um dos momentos mais felizes que o alemão conheceu em sua história, e a tradução buscou refletir as disposições intelectuais e morais de Lichtenberg com fidelidade ao seu estilo.
A língua de Lichtenberg é sempre espontânea e precisa — representa o momento em que o alemão se tornava tão ágil quanto o francês da mesma época, antes das pesantezas que o afetaram posteriormente.
Na tradução, procurou-se conservar o caráter impromptu, por vezes inacabado ou pouco claro de certas notas, cujo sentido se capta mesmo assim.
À releitura, foram feitos retoques discretos para fazer ressaltar melhor o propósito do autor.
Lichtenberg representa o momento privilegiado em que o Iluminismo atinge a maturidade — quando a razão admite não ser onipotente e se põe à escuta do que não é ela mesma —, instante de equilíbrio comparável ao de Mozart na música.
Sua escrita sugere leveza ou mesmo inconsequência, mas isso ocorre porque ele não assume a pose do filósofo.
Para Lichtenberg, uma intuição justa basta a si mesma — não necessita de provas, pois uma demonstração só pode enfraquecê-la.
Lichtenberg é um sábio que não cessa de interrogar o funcionamento do pensamento e sabe que os sistemas são úteis apenas como adjuvantes — não devem limitar a liberdade do espírito.
Os trechos reunidos contêm em filigrana uma espécie de Discurso do Método que mostra não como chegar à certeza, como o de
Descartes, mas como se manter na incerteza — aquela que torna o pensamento móvel, curioso e fecundo.
Lichtenberg proclama, como
Descartes, que o exercício do pensamento pertence a cada um, mas mostra muito melhor do que ele como exercê-lo.
O organizador considera ter suas razões para publicar este pequeno volume sob seu próprio nome: trata-se de uma tradução, mas que se inscreve na continuidade de seus trabalhos.