Pierre Lévy
Daniel Bougnoux
Pierre Lévy figura entre os pensadores que definem a nova ontologia nascida da era informática, ao lado de Bruno Latour, Isabelle Stengers, Michel Serres, Edgar Morin, Régis Debray, Jack Goody e Douglas Hofstadter.
A Machine univers já tratava da partilha entre linguagem e cálculo, mostrar e dizer, médium e mensagem.
As Tecnologias da inteligência corrige e desenvolve esse primeiro livro.
A recusa de isolar uma necessidade em última instância ou um ponto fixo dado de antemão revela a mobilidade e a provisoriedade dos quadros mentais.
A visão do conhecimento proposta é fluida e quase cinematográfica, colocando em movimento as tradicionais disjunções entre o vivo e o artificial, o sujeito e o objeto, o material e o espiritual.
A fronteira entre o vivente e o artificial se dissolve com a construção de interfaces — dispositivos de tradução que conectam incessantemente sistemas distintos na informática.
Ao sujeito transcendental kantiano se opõem as ramificações infinitas do fractal e os coletivos cosmopolitas do pensamento.
A estrutura do dobrado — tomada das reflexões de Gilles
Deleuze sobre
Leibniz — complica os edifícios binários do material e do lógico, do corpo e do espírito, da vida e da técnica.
A questão do sentido possui uma estrutura indefinidamente recursiva, e a noção de hipertexto amplia a comunicação para além da linguagem estrita.
O hipertexto é definido como uma rede de signos não apenas linguísticos, mas capaz de incluir números, sons e imagens.
A intuição batesoniana da comunicação como entrada na orquestra é prolongada por essa concepção.
Fazer sentido é ressoar no hipertexto disponível — o que se tomava por conteúdo se revela como relação.
A razão é sempre relacional e mediática, pois pensar exige ferramentas e a razão pura permanece inencontrável.
A pragmática e a mediologia — duas disciplinas presentes ao longo da pesquisa — destituem o sujeito transcendental kantiano de seu pedestal.
Apoiando-se em Michel Serres, demonstra-se como sujeitos e objetos passam continuamente uns nos outros e se constroem reciprocamente.
Quem pensa não é um sujeito isolado, mas um nó em uma rede de relações e mediações.
A técnica não é uma fatalidade diante da qual o ser humano se vê despojado, mas o terreno de uma cultura a ser construída democraticamente.
Todo ser figura uma rede em devir, e o espírito se ramifica entre seus módulos e suas conexões.
Contra
Heidegger — que deixa o ser humano dessapossado diante da técnica — precisam-se as condições de uma verdadeira cultura técnica.
Essa cultura técnica é vista como um dos principais desafios da democracia contemporânea.
A simulação deve ser compreendida não como engano, mas como dimensão interativa que coloca o fenômeno em conversa em tempo real com o pensamento.
A conservação do fenômeno é suplantada pela conversação em tempo real com ele — uma reversão mediológica analisada também por Bernard Stiegler.
O computador assiste uma imaginação devolvida ao seu lugar central.
Situada a montante da cena teórica e do lado da bricolagem, uma reflexão por simulação reata com o pragmatismo dos sofistas.
O conceito de interface reúne todos os temas anteriores, traduzindo sistemas sensoriais, semióticos ou informáticos uns nos outros e humanizando o diálogo homem-máquina.
A construção do computador Apple por Steve Jobs — empilhando camadas e pellículas — exemplifica como o conteúdo desaparece em favor da relação que penetra todo o sistema.
A interface impede que o exterior do usuário se oponha brutalmente ao interior do hardware.
A tradução torna-se a palavra-chave de toda essa reflexão, já que ninguém fala exatamente a mesma língua.
A reflexão de Pierre Lévy acompanha a nova ecologia cognitiva e audiovisual, devolvendo à imaginação seu papel motor em toda pesquisa.