GUSDORF, Georges. Le Savoir romantique de la Nature. Paris: Payot, 1985.
A Natureza, segundo a Naturphilosophie…
A Naturphilosophie propõe a natureza como a revelação em devenir de um Criador divino, cuja obra é coextensiva à duração do universo, implicando uma relação entre imanência e transcendência que fundamenta teologicamente o evolucionismo romântico.
O ato criador original abraça ao mesmo tempo o espaço e o tempo, não sendo um ato único que abandona a criação à sua própria sorte, mas sim um decreto que implica na consciência divina o destino total do mundo.
As ciências históricas crescem ao longo do século XIX, submetendo a maioria das ciências humanas aos seus pressupostos, e a noção de “história natural” se afirma desde as origens gregas, significando “inquérito” e não uma dimensão temporal de gênese.
Até Lineu, o naturalista se colocava como Noé, inventariando uma natureza criada de uma só vez e perfeita, sem integrar a variável temporal, pois a duração seria incompatível com a divindade de um Deus que, após a obra, a julgou boa.
A hermenêutica bíblica e a interpretação figurada da criação…
Uma nova leitura dos textos sagrados, que abandona a interpretação literal do Gênesis, entende o ensino bíblico como uma pedagogia divina proporcional à capacidade mental dos destinatários, permitindo reconciliar a fé com as novas ideias sobre a criação.
A faculdade de teologia que impunha a Buffon o respeito literal ao relato do Gênesis travava um combate de retaguarda em nome de uma ortodoxia absurda e há muito ultrapassada.
O relato mosaico da criação não apresenta o ato como realizado de uma só vez, mas os dias da criação decompõem as origens dos seres segundo uma perspectiva de inteligibilidade articulada no tempo.
O imaginário bíblico se mostrava compatível com o tema aristotélico da cadeia dos seres, que ordenava os vivos numa hierarquia de complexidade e perfeição crescentes, culminando no homem.
A temporalização da cadeia dos seres e o transformismo…
Os progressos do espírito de observação evidenciam zonas de passagem entre os degraus da cadeia dos seres, e a descoberta de mutações permite conceber a ideia de uma promoção das formas ao longo do tempo, temporalizando a história natural.
As linhas de demarcação entre os reinos mineral, vegetal e animal não são nítidas, existindo confins e organismos fronteiriços como corais e zoófitos, assim como o problema do limite entre a animalidade e a humanidade colocado pelos grandes símios antropoides.
Geoffroy Saint-Hilaire, em 1795, formula a doutrina da unidade do plano de composição dos seres vivos, afirmando que a natureza formou todos os seres vivos sobre um plano único, essencialmente o mesmo em seu princípio.
Citação de Geoffroy Saint-Hilaire: “A natureza formou todos os seres vivos sobre um plano único, essencialmente o mesmo em seu princípio, mas que ela variou de mil maneiras em todas as suas partes acessórias. Se consideramos particularmente uma classe de animais, é sobretudo aí que seu plano nos parecerá evidente: encontraremos que as formas diversas sob as quais ela se compraz em fazer existir cada espécie derivam todas umas das outras…”
O transformismo de uma natureza evolutiva se anuncia no século XVIII em autores como Edwards, Monboddo, Robinet, Diderot e Charles Bonnet, cujas obras como a Palingenese filosófica serão fontes de inspiração para as gerações futuras.
A obra de Herder e a filosofia da história da humanidade…
Herder desenvolve, em suas Ideias para a filosofia da história da humanidade, o tema da criação progressiva do universo, onde a luz, o calor e a atração presidem à economia do cosmos, e a força que pensa e age no homem é eterna como a que mantém reunidos os sóis e as estrelas.
A abertura do primeiro livro das Ideias se dá por um cântico das criaturas, um hino ao Criador, onde a força que pensa e age no homem é por natureza tão eterna quanto aquela que mantém os astros.
Citação de Herder: “A força que pensa e age em mim é por natureza tão eterna como aquela que mantém reunidos os sóis e as estrelas. (…) Onde e qualquer que eu possa ser um dia, serei aquele que sou presentemente, uma força no sistema de todas as forças, um ser na imensa harmonia de um mundo de Deus.”
A escala dos seres se ordena, em cada grau de complexidade, segundo um modo único de composição a partir das forças elementares, sendo o homem o último elo, o termo supremo das formas que a organização podia atingir sobre a terra.
Os biólogos românticos e a especialização científica…
Ao contrário de Herder, que era um amador, os biólogos românticos são especialistas em história natural que ocupam cátedras universitárias, pretendendo ser naturalistas tanto quanto filósofos e fazendo avançar o conhecimento em áreas como o galvanismo, a botânica e a psicossomática.
Henrich Steffens, nascido em 1773, só será chamado a Berlim em 1832 devido à resistência de colegas inimigos, o que demonstra os conflitos com os espíritos mais positivos.
A biologia romântica representa uma tentativa de resistir à especialização fragmentadora do conhecimento, mantendo a preocupação com o dinamismo global da natureza e a solidariedade interdisciplinar.
O positivismo e o naturalismo só se imporão na Alemanha com um atraso de uma geração intelectual sobre o resto da Europa, ao contrário do que ocorre em outros países.
A epistemologia romântica e a ruptura com o mecanicismo…
A Naturphilosophie se opõe ao mecanicismo fisicalista herdado de Newton, propondo um novo modelo de saber que revela fatos ignorados e renova domínios como as ciências da Terra, recusando a redução do dinamismo vivo a uma ordem mecânica.
A revolução não galileana desautoriza o fisicalismo mecanicista, pois aplicar a ordem mecânica sobre o dinamismo vivo é desconhecer a espontaneidade e a autonomia em obra na ordem das coisas e dos seres.
Obras como a teoria celular e a doutrina da fecundação e a embriologia são exemplos de descobertas maiores da biologia que procedem das intuições românticas.
O historiador positivo, separando o bom grão do joio, deixa de lado os desvios para concentrar a atenção em achados que não se consegue compreender como puderam se oferecer a pseudossábios indignos, fiéis que eram a fantasmas sem fundamento.
A imaginação criadora e a presença divina na natureza…
A ciência romântica celebra a imaginação libertadora, cuja norma é a imaginação divina, e o biólogo romântico se sente guiado por uma autoridade superior, pois a doutrina da ciência desenvolve a revelação de Deus, cuja presença anima de dentro o desenvolvimento da natureza.
O positivista não sabe o que não sabe, e seu saber se interrompe por todos os lados, enquanto o romântico faz voto de totalidade e prefere o espírito de aventura, nunca satisfeito com o que tem.
A ciência dita positiva procede igualmente de um ato de fé injustificável, e tanto mais pernicioso quanto se camufla sob a respeitabilidade aparente de uma universalidade pretensiosa.
O nudismo intelectualista da ciência galileana só alcança o que acredita ser a verdade renunciando à realidade, triunfando apenas ao largar a presa pela sombra.
A autobiografia como expressão da busca existencial pela verdade…
Os cientistas românticos escrevem voluntariamente o relato de suas vidas, pois a dimensão autobiográfica responde à sua exigência profunda de que a própria vida é um instrumento de conhecimento, restaurando a historicidade da busca pela verdade.
Henrich Steffens publica sua Experiência de minha vida em dez volumes, e Karl Friedrich Burdach escreve uma autobiografia intitulada Retrospectiva de minha vida, publicada pouco após sua morte em 1848.
A obra científica de Steffens é hoje muito tênue, mas sua autobiografia permanece um documento insubstituível sobre o estado de espírito de um Naturphilosoph e sobre o movimento romântico na Alemanha.
O cientista clássico se apaga em sua ciência, e as obras completas de Lavoisier são completas sem Lavoisier, enquanto o cientista romântico, ao escrever sua autobiografia, atesta que atribui interesse à sua vida e à sua morte.
O fragmento e a busca pela verdade total…
Os cientistas românticos, como Ritter e Novalis, utilizam a linguagem do fragmento, pois a verdade total escapa às garras da criatura, e a ordem discursiva por via demonstrativa separa o que estava unido na intenção criadora de Deus.
A lógica humana, estendida no tempo, separa o que estava unido na intenção criadora de Deus, daí a necessidade de buscar o absoluto na fulguração do instante.
Os Fragmentos tirados dos papéis póstumos de um jovem físico, de Ritter, é um recueil curioso onde o autor, prestes a morrer, se apresenta a título póstumo e evoca uma autobiografia estilhaçada em 700 fragmentos.
Novalis, como seu amigo Ritter, viveu sob o regime de uma genialidade efervescente, onde a escrita é o reflexo indireto, não o sentido, mas uma luminescência oriunda do sentido escondido nas profundezas obscuras da realidade.
A Naturphilosophie como saber total e a prioridade sobre a empiria…
Steffens afirma que a Naturphilosophie não é uma parte da filosofia, mas ela mesma o conjunto do saber em sua potência formal, possuindo um direito de prioridade sobre a pesquisa empírica, pois a natureza tem seu fundamento em si mesma e é absoluta.
A Natureza autêntica não é a que se oferece à intuição sensível, prisioneira da finitude, mas a Natureza eterna, em sua identidade imutável, e o que chamamos de Natureza é apenas uma modificação dessa Natureza superior.
A oposição entre filosofia do espírito e filosofia da natureza é desprovida de realidade, pois o espírito é ele mesmo natureza e só pode chegar à consciência de si em estado de encarnação.
O Naturphilosoph afirma sua prioridade em relação à pesquisa empírica, pois esta fornece pontos de partida e verificações úteis, mas a busca do pensador se desenvolve segundo uma dimensão intelectual e espiritual diferente daquela do sábio.
A aritmologia romântica e os números como hieróglifos divinos…
A Naturphilosophie é solidária de um panlogismo matemático que vê no zero o princípio primeiro, e os números e figuras geométricas são arquétipos que regem a economia interna da ordem dos seres, sendo hieróglifos divinos onde se enunciam os segredos da vida.
Lorenz Oken, em seu Manual de Filosofia da Natureza, afirma que o Todo é a realização das ideias matemáticas, e que a filosofia é o conhecimento das ideias matemáticas enquanto mundo, ou a repetição na consciência da gênese do mundo.
Citação de Oken: “A ideia matemática a mais alta, fundamento primeiro da matemática, é o zero (0). A matemática toda inteira repousa sobre o zero”, e como o zero é a figura do nada, “a matemática é fundada sobre o Nada; ela tira sua origem do Nada”.
Ennemoser afirma que é preciso medir e contar para pôr a descoberto o número, isto é, o espírito encerrado na forma, e que na Natureza inteira reina uma harmonia regular do espaço e do tempo.
O panvitalismo romântico e a vida como movimento divino…
Segundo Oken, a vida é o movimento das coisas finitas resultante da polaridade, e ser e vida são conceitos indissociáveis, pois o sopro de Deus é a causa de toda existência, e não há nada de morto no mundo, a não ser o nada.
Oken define a vida como o movimento das coisas finitas tal como resulta da polaridade, pois a vida é um movimento cíclico, e sem vida não há ser.
Citação de Oken: “Na medida em que Deus age, ele cria a vida”, e “a vida não é um fato novo, sobrevindo no mundo depois da criação; ela é algo de originário, uma ideia, um pensamento divino em movimento”.
O panvitalismo animado por Deus corresponde à visão do mundo romântico, onde o mundo mesmo é vivo e não se conserva senão porque é vivo, assim como um corpo orgânico só se conserva porque se produz incessantemente de novo pelo processo vital.
A geognosia romântica e a terra como um organismo vivo…
A geologia romântica, ou geognosia, define a terra como um corpo vivo, cuja vida consiste na produção de cristais, e as montanhas são os órgãos do planeta, enquanto os metais e as pedras preciosas podem ser considerados como suas entranhas e glândulas.
Werner, fundador da escola de Freiberg, foi o mestre da “geognosia” romântica e observador genial dos fenômenos mineralógicos, esforçando-se por pôr em luz as analogias universais.
Steffens publica em 1800 suas Contribuições para a história natural interior da Terra, onde a viagem geológica ao centro da terra é indissociável de uma viagem espiritual às profundezas do espírito.
Schubert, em seus Aperçus sobre o lado noturno da ciência da natureza, mostra que a natureza pretensamente sem vida é trabalhada de dentro por um devir que em breve se realizará nas formas vegetais ou animais, sendo o granit uma rocha “romântica”.
O antropomorfismo cosmológico e a concordância da natureza com o homem…
A frase de Ritter, “a Natureza inteira concorda com o homem”, resume a visão antropocósmica romântica, onde a terra existe em vista do homem, sendo seu corpo físico, e a descrição da terra se torna a descrição do próprio homem.
Citação de Johann Wilhelm Ritter: “A Natureza inteira concorda com o homem (auf den Menschen reimt sich die ganze Welt).”
Ritter afirma que a terra não é senão o órgão do homem, seu corpo físico, e que a própria terra é homem, portanto a descrição física ou química da terra se torna a descrição do homem.
O problema que se pode colocar contra os partidários da ciência objetiva é saber se a assepsia positivista do espaço mental não joga contra os interesses mesmos do conhecimento, pois as recorrências da imaginação não são de ordem patológica.
A oposição entre a vida solar e a vida telúrica…
Kieser, em seu Sistema do Telurismo, desenvolve uma doutrina antropocósmica segundo a qual a polaridade maior da vida humana, a oscilação entre o consciente e o inconsciente, está em relação direta com a alternância do dia e da noite, sendo o sono o resultado mais geral das influências telúricas e a vigília o resultado da influência solar.
A epistemologia romântica descobre o inconsciente, onde reina a lei da noite, em oposição à filosofia das luzes, atenta apenas à lei do dia e indiferente aos ensinamentos da noite.
Kieser escreve que, durante a rotação da terra em 24 horas, a metade da terra é telúrica e a outra metade solar, e essa relação se manifesta na vida humana, onde a meia-noite marca o ponto culminante da vida telúrica do sonâmbulo natural.
A disciplina global da vida universal reduz a importância da oposição entre o domínio “inorgânico” e o domínio “orgânico”, restando apenas uma distinção subalterna entre dois reinos do organismo universal.
A epistemologia romântica e a prioridade do devir sobre a ordem…
A epistemologia romântica insiste no instante da ruptura, instalando-se no intervalo onde a liberdade em sua fecundidade triunfa da necessidade, e denunciando a intervenção soberana de uma inteligibilidade superior, uma graça epistemológica dada e recebida.
O movimento implica mais do que a ordem, ou melhor, a ordem aparente não é senão um movimento mais lento, fixado por nosso pensamento, e o dinamismo venceu o mecanicismo.
A ciência romântica, em seu conjunto, propõe uma celebração da imaginação libertadora, que encontra sua norma na imaginação divina, cujo rastro o ser humano, no tempo da inspiração, reencontra e esposa.
O totalismo romântico tem como aposta o próprio sábio, cuja salvação espiritual está engajada em sua pesquisa, ao contrário da ciência rigorosa que só incorre em riscos limitados.
A prioridade da vida e a superação do abismo entre o inorgânico e o orgânico…
Steffens critica Schelling por não ter sido capaz de articular os domínios do inorgânico e do orgânico, mas para a Naturphilosophie não há fronteira entre esses reinos senão por uma ilusão de ótica, pois o metabolismo dos ciclos vitais engloba o homem.
A Naturphilosophie como ciência autônoma e a crítica ao positivismo…
A Naturphilosophie é uma ciência autônoma, chamada a se constituir por seus próprios meios, ao mesmo tempo dependente e independente de todas as pesquisas empíricas, e sua busca pela verdade integral a coloca em oposição aos cientistas naturalistas que recusam resolutamente a passagem da pesquisa à especulação.
Os sábios naturalistas não querem saber de filosofia e se entrincheiram no campo fechado de sua especialização, enquanto os filósofos se fecham em seus conceitos abstratos e não querem saber nada da ciência em trabalho.
O projeto de Steffens não era se absorver no detalhe da pesquisa empírica, mas, no progresso da ciência, fixar sua atenção sobre os aspectos espirituais que não cessavam de se destacar e que exigiam uma compreensão de conjunto.
A Naturphilosophie não é uma filosofia da ciência que analisa e codifica os procedimentos do conhecimento objetivo, mas antes uma ciência que pretende ser a forma moderna e mais completa da ciência.
O legado e a posteridade da Naturphilosophie…
Apesar das aparências de irrealismo imaginativo, a Naturphilosophie é solidária de um panlogismo matemático e de um organicismo que assegura a unidade entre todos os aspectos do real, oferecendo uma visão de mundo cuja influência se estende para além do movimento romântico.
No século XX, o espiritualismo biológico de
Bergson em A evolução criadora e de seu discípulo Edouard Le Roy, assim como o pensamento de Teilhard de Chardin, apresentam formas de pensamento que se aparentam à Naturphilosophie romântica.
A ideia de que um sábio de grande envergadura poderia se dar pelos meios da ciência propriamente dita uma visão do mundo coerente constitui um dos mitos do positivismo militante.
Os especialistas conseguem às vezes assegurar a ligação entre dois elos vizinhos na cadeia dos conhecimentos, mas o número dos elos não cessa de crescer, de sorte que a realização da inteligibilidade integral recua à medida que a ciência progride.