3.3 Tradição humanística

III. A tradição humanística: a unidade de “res” e “verba”

1. A negação cartesiana das disciplinas humanísticas

1. O exame da primazia do elemento figurativo conduziu a uma nova apreciação filosófica da metáfora, da teoria da acutezza e do ingenium dos teóricos italianos do maneirismo e revelou um significado filosófico do discurso metafórico hoje desaprovado.

2. A afirmação da primazia da imagem não tem apenas importância teórica, ao renovar a apreciação filosófica das teorias maneiristas geralmente tratadas sob o ângulo literário, mas também exige a investigação e a análise da filosofia do humanismo italiano.

3. A problemática do elemento pictórico como essência da atividade engenhosa abre acesso direto ao humanismo e ao problema da raiz comum dos dualismos entre imagem e razão e entre retórica e ciência, o que exige examinar a negação cartesiana da retórica a partir de sua posição racionalista e a crítica de Vico a Descartes, cuja defesa de uma filosofia do ingenium, em que pathos e visão filosófica formam unidade, constitui a última manifestação da tradição humanística antes de sua depreciação definitiva pela filosofia racionalista.

4. O conhecimento do fundamento comum de pathos e logos, surgido do reconhecimento do poder das imagens originárias como fonte de toda filosofia verdadeira, foi aniquilado pelo racionalismo moderno, que relegou ao esquecimento o papel essencial dessa problemática no humanismo italiano e passou a ver o que a Renascença discutia como problema filosófico apenas como pressentimento obscuro do que Descartes e o pensamento moderno desenvolveriam com clareza, ponto de vista presente na História da Filosofia de Hegel, adotado pelo hegelianismo italiano de Spaventa, Croce e Gentile e apenas modificado por Cassirer, que ainda considera a filosofia da época sobretudo como pressentimento do problema do conhecimento.

5. Prevalece em geral a opinião de que a tradição humanística tem significado sobretudo literário e não verdadeiramente filosófico, opinião enraizada nas afirmações de Descartes, cujas teses determinam até hoje a posição da filosofia diante do ideal humanístico e do problema da precedência da palavra.

6. Descartes avalia as disciplinas humanísticas pela quantidade de verdades e certezas racionais que possam transmitir, considera que os autores antigos devem ser lidos apenas por desejo de conhecimento e as línguas antigas servem apenas à compreensão racional dos textos clássicos, julga que esses estudos perderam todo significado filosófico e sustenta que os espíritos mais originais se encontram fora dos círculos humanísticos, já que os que nunca se ocuparam das letras julgam com mais clareza e segurança as coisas da vida cotidiana do que os que permanecem nas escolas.

7. No Discurso do método, Descartes afirma haver mais verdade na reflexão livre de formação literária que cada um faz sobre o que lhe diz respeito do que nas teorias ineficazes do erudito em seu gabinete, que o tornam tanto mais vaidoso quanto mais se afastam do bom senso e exigem tanto mais engenho e artifício para lhes dar alguma aparência de verdade.

8. Permanece incompreensível para Descartes a concepção dos primeiros humanistas italianos segundo a qual a filologia, em seu sentido original, é momento essencial da manifestação do espírito humano e a essência do homem se revela na linguagem de tal modo que seu estudo tem finalidade e sentido próprios e significado filosófico.

9. A retórica, disciplina básica da tradição humanística, é por isso privada de todo sentido positivo, juntamente com suas regras do bem falar, pois o rigor da prova lógica que conduz à verdade seria sempre o melhor, senão o único, método de persuadir.

10. As experiências dos poetas aparecem a Descartes como brincadeiras ociosas e sem valor, nascidas de uma fantasia que representa não o real, mas apenas o possível, levando a imaginar acontecimentos inexistentes, e a ocupação com os antigos lhe parece até perigosa, devendo seus livros ser lidos apenas para conhecer o que descobriram corretamente, sob o risco de que manchas de erros se fixem no leitor, de modo que a tradição humanística se reduz a mera erudição sem significado filosófico.

11. Se o problema da filosofia é idêntico ao do saber e o saber consiste em reduzir afirmações a uma causa originária, os elementos patéticos, as imagens, a fantasia e a arte não desempenham papel algum no processo racional, aparecendo antes como fatores que o perturbam.

12. A posição de Descartes conduziu necessariamente à ruptura com a tradição e à negação da cultura humanística, e a nova filosofia, em oposição à renascentista, que se valia amplamente da formação clássica, criou uma linguagem própria cada vez mais pura terminologicamente, voltada ao esclarecimento dos problemas do saber e do conhecimento, de modo que a prosa filosófica de um Giordano Bruno, ainda determinada pela formação clássica e próxima da linguagem imediata, desaparece em Descartes como forma literária inadequada a fins objetivos.

13. A consciência da tradição filosófica transforma-se plenamente, pois autores clássicos essenciais ao pensamento humanístico, como Cícero, Luciano e Lucrécio, perdem sua autoridade por pouco contribuírem para a teoria do conhecimento, e inicia-se a desvalorização teórica da filosofia humanística e renascentista que perdura até hoje, reduzida a objeto de interesse meramente histórico.

2. Crítica de Vico à filosofia racionalista de Descartes

1. Ao final da tradição humanística, em antagonismo consciente a Descartes, Vico procura restabelecer a relação entre filosofia e retórica e revalidar o significado filosófico das disciplinas humanísticas rejeitadas pelo racionalismo, numa polêmica conduzida pela distinção terminológica entre filosofia crítica e filosofia tópica ou inventiva, terminologia que parece estranha e obsoleta à maioria dos historiadores da filosofia.

2. No capítulo III do De ratione studiorum, Vico observa que seus contemporâneos procuram reconstruir o edifício da ciência iniciando os estudos pela crítica do conhecimento, aludindo à pretensão cartesiana de uma filosofia crítica e não dogmática, segundo a qual nenhuma tese tem valor sem prova explícita de seus fundamentos, em busca de uma razão nova e inabalável que conduza para fora do labirinto de contradições e aporias da tradição.

3. A crítica pretende livrar sua verdade primordial não só do erro, mas também da simples suspeita de erro, e por isso afasta do pensamento tanto as verdades secundárias quanto as verossimilhanças.

4. O método crítico caracteriza-se por partir de uma verdade primordial, evidente e indedutível, sobre a qual se edifica o saber, restando à filosofia apenas deduzir dela as consequências por processos racionais, o que lhe confere caráter inconfundivelmente racional, e por rebaixar todas as demais verdades a verdades secundárias, fundamentos das ciências particulares, válidas apenas para o ser enquanto número, grandeza ou movimento, substituíveis por outros axiomas, como nas geometrias euclidiana e não euclidianas, e correspondentes ao âmbito da techne antiga, cujas ciências particulares não derivam de leis teóricas do conhecimento, mas visam sobretudo ao controle da natureza e à produção do que é útil ao homem.

5. Para Descartes, as ciências particulares, para serem rigorosamente científicas, precisavam derivar de verdades primeiras e possuir caráter filosófico que transcendesse sua particularidade, concepção decisiva para o pensamento moderno e especialmente para o idealismo alemão, que de Fichte a Hegel procurou deduzir as ciências particulares de princípios filosóficos e erguer um sistema das ciências, culminando na tentativa de deduzir a priori a estrutura das ciências naturais, levada por Hegel às últimas consequências e responsável pela reação anti-idealista e antifilosófica da segunda metade do século XIX.

6. A tentativa de ancorar as ciências naturais numa verdade primeira e fundamentá-las filosoficamente opõe-se diametralmente à tradição humanística iniciada por Leonardo da Vinci e culminante em Galileu, na qual as ciências naturais são interpretadas por seus desempenhos práticos e finalidades e excluídas das tarefas da teoria do conhecimento, permanecendo a natureza desconhecida e manifestando-se apenas nos limites das perguntas que o homem lhe dirige na experiência.

7. Descartes rejeita também toda verossimilhança, termo que remonta à filosofia grega, pois Aristóteles sustenta que só há conhecimento do que ocorre regular e necessariamente, de modo que o que pode ser diferente, especialmente as ações e o comportamento humano, sempre confrontados com situações diversas, não pode ser objeto de ciência, e nesse domínio, segundo a Retórica, a verdade pertinente não é a racionalmente dedutível, mas a verossímil.

8. Se Descartes visa exclusivamente às verdades primeiras, o âmbito das possibilidades e da verossimilhança precisa ser banido da filosofia, com a retórica, as artes e a história, ao passo que para Vico do verossímil nasce o senso comum natural, norma de toda prudência prática e da eloquência, pois os oradores frequentemente encontram mais dificuldade com um fato verdadeiro sem verossimilhança do que com um fato falso que pareça plausível.

9. Vico mostra as consequências negativas da filosofia crítica enumerando as disciplinas que ela exclui da formação filosófica, como a poesia, a retórica, a educação política e a história, enraizadas no verossímil, onde nenhuma verdade é absolutamente assegurada, já que a retórica se volta sempre ao estado de espírito particular e mutável dos ouvintes e a prudência política se refere sempre a casos particulares e mutáveis.

10. As falhas da filosofia crítica e racionalista são, assim, mais graves do que parecem, pois ao ignorar as aptidões política e retórica ela despreza duas das mais importantes atividades humanas, e sua preocupação unilateral com a verdade não prepara para o conhecimento dos casos particulares e menospreza a formação política.

11. Essa ordem de estudos tem a desvantagem de tornar os jovens incapazes de agir com prudência na vida civil, de dar ao discurso o colorido dos costumes e de inflamá-lo com o fogo das emoções.

12. O método crítico desconhece ainda, em favor do conhecimento racional, a essência e o papel da imagem e da fantasia, pois coloca sua verdade primeira acima de toda imagem corporal, quando a fantasia floresce na juventude como a razão na velhice, a memória, parente próxima da fantasia, deve ser desenvolvida nas crianças e as aptidões para as artes que reinam na fantasia e na memória, como a pintura, a poesia, a oratória e a jurisprudência, não devem ser reprimidas, e assim como a invenção dos argumentos precede por natureza o juízo sobre sua verdade, a doutrina da tópica deve preceder a da crítica.

13. A inventio precede a demonstração, pois, mesmo que uma verdade primeira permita construir dedutivamente o sistema das ciências, a dedução pressupõe outra atividade, a de descobrir, que Vico identifica com a filosofia tópica, sendo a própria verdade primeira proposta por Descartes resultado de uma invenção.

3. A concepção antiga da tópica. O problema da “inventio”

1. Na Antiguidade, a Tópica de Aristóteles propõe-se encontrar um método para formar silogismos a partir de opiniões aceitas sobre qualquer problema proposto, sem contradizer a própria tese, distinguindo os silogismos derivados de premissas originárias dos que partem de opiniões e mostrando a utilidade da tópica, que permite persuadir facilmente o oponente conhecendo a opinião da maioria e dispondo de um método para encontrar rapidamente os argumentos, reconhecer nas ciências filosóficas as dificuldades de um problema e, como na dialética e na medicina, ter todos os argumentos à mão para usá-los no momento oportuno.

2. Cabe à tópica determinar em torno de quantos e quais argumentos gira o discurso, de que elementos se compõem e com que facilidade podem ser encontrados.

3. A teoria aristotélica da tópica trata do processo de encontrar os argumentos necessários a um discurso, racional ou retórico, e, como os princípios originários não podem ser demonstrados, mas apenas encontrados pela filosofia, isso sugere o modo como Vico conferiu à tópica significado filosófico.

4. Segundo Cícero no De oratore, Aristóteles estabeleceu certos lugares a partir dos quais se encontram os caminhos da argumentação não só nas discussões filosóficas, mas também em todas as causas jurídicas.

5. O termo grego topoi é traduzido em latim por loci, ou ainda por sedes e notae em Cícero e por sedes argumentorum em Quintiliano, e Tácito afirma que se tomam dos peripatéticos os lugares prontos e úteis em qualquer discussão.

6. Numa discussão eficaz todos os argumentos precisam estar presentes, o que exige conhecer os lugares em que se encontram facilmente, de modo que a tópica é uma teoria do argumento e de seu ponto de origem, tanto na discussão retórica quanto na lógica.

7. Na Tópica de Cícero, o termo locus liga-se ao verbo invenire, pois, assim como é fácil descobrir o que está oculto quando seu lugar é mostrado e assinalado, ao investigar um tema é preciso conhecer sua posição, sendo o lugar a sede do argumento.

8. Cícero distingue conscientemente a atividade inventiva da dedutiva e racional, à qual chama dialética, afirmando que todo método cuidadoso de discorrer tem duas partes, uma de descobrir e outra de julgar, e que os estoicos desenvolveram com rigor os caminhos do juízo pela dialética, mas desprezaram inteiramente a arte de descobrir, chamada tópica, distinção que está na fonte da oposição de Vico entre filosofia tópica e crítica.

9. Tópica e dialética opõem-se, cabendo à dialética tirar conclusões por dedução racional e à tópica a arte inventiva, como também se entendia na Idade Média, por exemplo em Boécio, que no De differentiis topicis enfatizava o caráter inventivo da tópica a serviço da obtenção de argumentos.

10. Na divisão tradicional da retórica, todo discurso se compõe do que é significado e do que significa, isto é, de coisas e palavras, e todo discurso político, jurídico ou laudatório se compõe de cinco partes, entre as quais a inventio ocupa o primeiro lugar, pois o orador deve primeiro descobrir o que dizer e depois ordená-lo segundo sua importância, de modo que, num discurso racional ou retórico, as premissas sempre precisam ser primeiro encontradas, cabendo à inventio e à dispositio o conteúdo, à elocutio, que veste e orna, a forma e à actio a unidade entre conteúdo e forma, entre res e verba.

4. A prevalência da filosofia “tópica” e “inventiva” sobre a “crítica” e “racional”

1. Vico lamenta que os modernos desprezem a tópica e, por essa limitação metódica, creiam que basta conhecer algo para descobrir imediatamente o que nele há de verdadeiro e que até o verossímil possa ser deduzido por regras lógicas, sem instrução especial nem conhecimento da tópica, identificando o descobrir com a conclusão a partir de uma verdade primeira em sentido puramente racional.

2. O significado filosófico da tópica responde à questão de se o processo racional basta para deduzir o que aparece, pois, embora contribua para esclarecer o ser, os primeiros conhecimentos são obtidos pela invenção, e os defensores do método crítico não podem estar certos de ter visto tudo, nem excluir que suas premissas reflitam apenas um aspecto particular do ser e que suas conclusões valham apenas sob restrições, sendo o desprezo pela retórica, pela política e pela fantasia prova dessa unilateralidade, já que a invenção originária não pode ocorrer num processo dedutivo incapaz de ultrapassar suas premissas, e somente o empenho em descobrir todas as premissas do mundo humano, entre elas a prudência, a fantasia e o comportamento prático, torna o discurso rico, fértil e inventivo, dotado da força rara e sublime que o faz abundante e nada deixa intacto ou obscuro aos ouvintes.

3. A tópica não é, portanto, uma coletânea de argumentos prontos a aplicar esquematicamente a situações particulares, mas é superior a todo processo racional.

4. Enquanto para Descartes a crítica é um sistema de afirmações lógicas e coerentes, Vico vê na tópica a arte do discurso rico e criativo, sendo a crítica arte do discurso verdadeiro e a tópica arte do discurso abundante.

5. Ao comentar seu tratado De antiquissima Italorum sapientia, Vico considera as três operações do espírito, percepção, juízo e raciocínio, objetos da lógica, que divide em tópica, crítica e método, sendo a tópica a arte de apreender, a crítica a de julgar e o método a de raciocinar.

6. A tópica é o estudo da visão originária proveniente de modos engenhosos de ensino não dedutíveis racionalmente, que encontra e reúne, enquanto a crítica divide e dispõe o reunido, razão pela qual os espíritos tópicos são mais ricos e menos verdadeiros e os críticos mais verdadeiros, porém secos.

7. A tópica tem primazia sobre a atividade racional porque as premissas das conclusões precisam ser conhecidas previamente, e é fruto do ingenium, de modo que a providência dispôs acertadamente despertar no homem primeiro a tópica e depois a crítica, como primeiro se conhece e depois se julga, pois a tópica torna os espíritos engenhosos e a crítica os torna exatos, e nos tempos primordiais importava acima de tudo encontrar o útil à vida, sendo o encontrar propriedade do engenho.

8. O ingenium é a faculdade que tem por objeto o originário e o arcaico e da qual provém a atividade criativa da tópica, contendo a faculdade própria do saber, pela qual o homem compõe coisas que aos desprovidos de engenho parecem inteiramente desconexas, sendo faculdade compreensiva e não dedutiva, já que só se deduz o que já se compreendeu, e capacidade de reunir num todo o disperso e diverso.

9. A diferença entre filosofia tópica e crítica permanece atual, pois, ao confiar o futuro da sociedade às ciências cibernéticas, esquece-se que também nelas o problema principal está em encontrar os pontos de partida, já que o processo cibernético só opera sobre elementos já encontrados, e o desempenho do engenho necessário ao homem não se reduz aos processos puramente racionais e dedutivos praticados em escala incomensurável pela logística.

10. As teorias de Vico enraízam-se no humanismo latino, tradição que atribui papel primordial à retórica e sempre se preocupou com a unidade de res e verba, conteúdo e forma, elementos que, uma vez separados, não podem mais ser recompostos, pois, aceitando-se num discurso apenas o elemento racional, torna-se possível dar-lhe forma retórica meramente externa e incapaz de comover, e a filosofia se retrai progressivamente a um âmbito secundário da história humana até perder seu significado.

11. A redescoberta de Vico pelo idealismo italiano de Croce e Gentile deveu-se sobretudo à identidade entre verum e factum, vista como início do pensamento idealista.

12. Vico foi por isso considerado teórico da atividade criativa do pensamento e, contra suas próprias afirmações, seguidor do cogito cartesiano, interpretação errônea que violenta a base de seu pensamento e impede compreender sua problemática humanística, alheia ao idealismo e à problemática hegeliana, pois a tradição humanística, pela distinção entre verdadeiro e verossímil, possibilita uma profunda reflexão sobre a essência dos atos políticos e da tradição jurídica e impede as tentativas, típicas do idealismo alemão, de derivar da filosofia as ciências naturais, estando ainda por escrever a verdadeira história da tradição humanística em sua posição anticartesiana.

5. Quintiliano como fonte da consciência humanística da unidade entre “res” e “verba”

1. Em Descartes, a precedência do saber desviou desde o início o problema da evidência para a direção racionalista e privou as disciplinas humanísticas de significado filosófico, e a crítica de Vico e sua distinção entre filosofia tópica e crítica são decisivas por mostrar que identificar a evidência com o conhecimento racional encobre todas as disciplinas em que a fantasia, como na arte e na poesia, ou a prudência política são determinantes, abrindo uma nova perspectiva, geralmente despercebida, sobre toda a problemática do humanismo e sobre a prevalência histórica da imagem.

2. O problema da tradição humanística era o da palavra antiga e de sua interpretação, preocupação aparentemente não filosófica, mas alheia à precedência do conhecimento racional, pois deixava aberta a questão das diversas formas de evidência, e a interpretação dos textos antigos mostrou ser impossível interrogá-los apenas em vista de conhecimentos racionais e verdades lógicas, já que textos literários e políticos não se deixam reduzir a esse nível, de modo que compreender e desdobrar a palavra significava desenvolver a própria essência humana e a filologia, como amor às palavras, assumia a categoria de filosofia voltada à essência do homem, sentido dos studia humanitatis, em que a palavra é fenômeno originário e decisivo do homem, experimentado não só pelo pensamento, mas também pela ação poética e objetiva, e não mera expressão do pensamento, do juízo ou da dúvida, revelando a evidência característica do problema metafísico que a filosofia moderna só definiu ao questionar o saber unilateral.

3. A filologia não era, por isso, mero diletantismo nascido da predileção pela Antiguidade, mas filosofia essencial, no sentido defendido por Nietzsche em seus escritos de Basileia, e o significado filosófico dos studia humanitatis está em realizarem pela primeira vez nos tempos modernos uma filologia comprometida, na qual a palavra, sobretudo a antiga, adquire tão alto valor pedagógico que a filologia pode reivindicar abranger a realidade em suas diversas ordens e mundos.

4. Descartes e Vico visavam ao mesmo objetivo, o objetivo, mas o definiam de modo diferente, pois Descartes o entendia desde o início como verdade e buscava um método objetivo que a ela conduzisse, ao passo que Vico tinha em mente algo que abrangesse também formas de expressão do espírito independentes da verdade e sabia que não há métodos objetivos em si, pois não é o método que garante a objetividade, mas o conhecimento que lhe confere sentido.

5. Ao demonstrar o caráter inventivo e tópico da filosofia, Vico esclareceu um fenômeno ignorado pela filosofia crítica cartesiana, preocupada em encontrar uma verdade primordial da qual deduzir um sistema de conclusões, e, ao identificar a fonte originária da filosofia com a inventio, elemento decisivo da retórica, reconduziu filosofia e retórica a uma unidade tal que a filosofia deve ter necessariamente caráter tópico e comprovou a unidade entre pathos e conhecimento arcaico e engenhoso.

6. O problema da unidade entre discurso filosófico e retórico tem raízes na tradição humanística, o que comprova historicamente a proeminência da imagem, como já mostrara a interpretação do Fedro, segundo a qual o processo racional se enraíza numa visão originária de tipos arcaicos em que pathos e conhecimento interior se confundem.

7. Como o pathos é o elemento pelo qual o conteúdo produz efeito e é ele próprio comovido por imagens, compreende-se que a tradição tenha identificado o patético com o aspecto formal do discurso e o conhecimento com o conteúdo, de modo que na Antiguidade a relação entre pathos e conhecimento se apresenta também como relação entre forma e conteúdo do discurso, cuja identidade perdida Cícero já lamentava no De oratore.

8. A tradição humanística da unidade entre res e verba enraíza-se, quanto à Antiguidade, sobretudo em Quintiliano, que, como Cícero, exerceu influência altamente significativa sobre o humanismo.

9. As Institutiones oratoriae, texto clássico da retórica que reúne a teoria de Cícero, dividem o discurso em cinco partes, invenção, disposição, elocução, memória e pronunciação, das quais a primeira corresponde ao conteúdo e as outras quatro à forma, pois não basta encontrar o que dizer, mas é preciso saber como dizê-lo de modo correspondente ao momento histórico, e distinguem, como Aristóteles e já Górgias, três gêneros de discurso, o jurídico, o político e o laudatório, em razão da estrutura temporal do mundo humano, que exige configurar o discurso em vista do futuro, do passado ou do que é sempre válido e digno de louvor.

10. A maioria se aproxima da retórica como se já dominasse todos os outros saberes e lhe faltasse apenas a eloquência, concepção que faz da retórica um complemento formal acrescentado ao conteúdo científico já adquirido e mostra o dualismo entre forma retórica e conteúdo racional, no qual a retórica teria apenas a função de ativação externa para tornar eficaz o conteúdo racional.

11. Quintiliano opõe a essa concepção a tese surpreendente de que nada é alheio à oratória, pois a todo conteúdo corresponde uma forma retórica própria, tese que, se interpretada como exigência de que o orador domine todos os saberes, pareceria utópica e explica em parte o juízo negativo atual sobre as pretensões da retórica tradicional.

12. Se a retórica, que concerne ao discurso patético, fosse competente para todo discurso, o dualismo entre forma e conteúdo teria de ser abolido, e Quintiliano acentua que originalmente não havia separação entre ambos, pois sabedoria e eloquência estavam unidas por natureza e na prática, sendo os homens tidos ao mesmo tempo por sábios e eloquentes.

13. Essa unidade perdeu-se depois, provavelmente por indolência, que levou os oradores a descuidar dos costumes, e porque apenas os estudiosos passaram a reivindicar para si a sabedoria.

14. Res e verba compõem conjuntamente toda afirmação dotada de sentido, pois toda frase pela qual alguém exprime sua vontade contém necessariamente conteúdo e palavra, e a matéria da retórica abrange tudo o que pode ser objeto de discurso nos gêneros laudatório, deliberativo e jurídico.

15. A explanação de Quintiliano sobre o conteúdo do discurso jurídico tem significado exemplar para a superação do dualismo, pois toda causa contém um status, chamado também constatação ou questão, que não é o primeiro conflito das partes, como no tu fizeste, eu não fiz, mas aquilo que dele nasce, o gênero da questão, de modo que o conteúdo jurídico não se esgota nos fatos disponíveis, mas é dado pelo problema jurídico que os contém e que só o jurista hábil apreende, isto é, por tudo o que no caso é digno de ser questionado.

16. Quintiliano refere-se às categorias aristotélicas, pelas quais se interrogam os fenômenos quanto ao ser, à qualidade e à quantidade, o que para os gregos significava acusá-los de ser isto ou aquilo, isto é, defini-los, e, se a situação humana consiste em definir os entes acusando-os em suas categorias para erigir a ordem do mundo, os entes só podem apresentar-se como quaestio e sob o aspecto do que interessa ao homem, resolvendo-se o conteúdo do discurso jurídico na multiplicidade de perguntas pelas quais os fenômenos são delimitados, definidos e configurados de modo reconhecível.

17. A teoria das categorias aplica-se a todo discurso, pois em toda discussão há três questões prescritas pela própria natureza, se algo é, o que é e como é, das quais dependem as questões definidas e indefinidas tratadas nos gêneros demonstrativo, deliberativo e judicial, de modo que os problemas da retórica concernem a toda atividade humana e seu conteúdo adquire significado primordial enquanto se apresenta como quaestio, entendida em sentido amplo como tudo o que pode ser dito plausivelmente em duas ou mais direções opostas, na perspectiva do futuro, do presente ou do passado.

18. A gramática, que tem por fins o ensino correto da língua e a interpretação dos poetas, mostra que res e vis sermonis são inseparáveis, pois nenhum discurso se compõe só de verbos ou só de nomes, residindo no verbo a força do discurso, que exprime a relação com o ainda não, o já não e o agora e pode evocar esperança, medo e saudade, e no nome o conteúdo, que evoca pessoas e coisas, de modo que a unidade entre res e verba está na ligação íntima entre verbo e objeto capaz de exprimir o afeto, e tudo só pode ser experimentado temporal e afetivamente, inseparável do verbo, como confirma Horácio ao dizer que, alcançado o conteúdo, as palavras fluem por si mesmas.

19. O conteúdo da retórica resulta do conhecimento de tudo o que diz respeito ao homem sob formas sempre novas e que por isso precisa ser dito, conhecimento de caráter inventivo colhido na fonte originária como realização do ingenium, razão pela qual Quintiliano aconselha oferecer aos jovens conteúdos múltiplos dos quais nasçam as questões e se desenvolva o espírito inventivo, constatando com melancolia que a ratio, com o passar da vida, obstrui pouco a pouco a visão do originário, tese desenvolvida no humanismo e na Renascença sobretudo na política, como em Maquiavel e Guicciardini, para quem a aptidão política se manifesta na capacidade de encontrar o conteúdo adequado em situações históricas concretas, já que um conteúdo abstrato não conduz a ação alguma.

20. A tese da unidade primordial entre res e verba explica por que os humanistas italianos se chamavam gramáticos e não filósofos, pois filósofo era quem se empenhava num discurso exclusivamente racional e permanecia na separação entre coisa e palavra, ao passo que a formação retórica humanística aspirava à sua unidade.

6. A tradição humanística. Poliziano como “grammaticus”

1. Poliziano dedicou-se, como Petrarca e Leonardo Bruni, ao estudo dos textos antigos com a intenção, partilhada por Petrarca e Salutati, de salvá-los materialmente da destruição e do esquecimento para torná-los disponíveis à interpretação, lamentando que tão grandes escritores tenham sido deformados e destroçados pelos bárbaros e mantidos como em calabouços até retornarem mutilados, e na aula inaugural de 1492, intitulada Lamia, reitera ser intérprete e gramático e não filósofo, ressaltando que o termo grammaticus se tornara muito restrito, pois originalmente designava não o professor de línguas, mas o intérprete capaz de conduzir, além da compreensão das palavras e de suas relações, à discussão pertinente do próprio texto, sendo os gramáticos na Antiguidade os únicos censores e juízes de toda a literatura, de poetas, historiadores, oradores, filósofos, médicos e jurisconsultos.

2. A aparente contradição entre a pretensão de interpretar textos filosóficos e a recusa de ser filósofo desfaz-se porque Poliziano não rejeita a filosofia, mas a defende em toda a Lamia, afirmando que só sob a luz pura se contemplam o homem e Deus e que sem a filosofia como guia da vida, da busca da virtude e da eliminação dos vícios jamais se poderia brilhar nessa luz.

3. Precisamente por seu elevado conceito da filosofia, Poliziano insiste em ser gramático, convicto de que a tarefa mais urgente da filosofia em seu tempo era exercê-la pela interpretação das palavras antigas e não por especulações teóricas.

4. A interpretação da palavra, tarefa do gramático, não se identifica com o ensino de línguas, mas é um empreendimento arcaico e filosófico, como confirma Poliziano ao afirmar que sua obra depende não da ratio, mas das Musas, às quais se consagra movido por grande amor, e que ninguém deve vangloriar-se do que aprendeu, mas do que efetivamente pôs à mesa.

5. Poliziano confirma sua atividade ao escolher textos tão ricos em questões, como os Analíticos, cheios de espinhos e dificuldades terminológicas, que as escolas filosóficas de seu tempo os evitam não por sua inutilidade, mas por suas inúmeras questões, e relaciona conscientemente seu gosto pelas fábulas ao papel filosófico dos mitos, que despertam admiração e incitam a filosofar.

6. Filosofar, para Poliziano, era questionar o significado de uma palavra nos limites de um texto num sentido que o mero conhecimento gramatical não transmite, pois do contrário todo conhecedor de uma língua compreenderia sem mais os poetas, filósofos e oradores e teria acesso à própria coisa, e em polêmica contra os filósofos abstratos ele os compara às corujas, que têm olhos, penas e bico de coruja, mas não a sabedoria das antigas.

7. A exigência de Poliziano de que o gramático seja reconhecido como conhecedor da palavra, da expressão e da forma capaz de interpretar o conteúdo e a coisa e de preservar sua unidade originária baseia-se teoricamente em Quintiliano, segundo o qual o conteúdo surge sempre como pergunta que diz respeito ao homem, o substantivo exprime a coisa e o verbo o modo como ela concerne ao homem, de modo que não há discurso sem unidade de substantivo e verbo, e a linguagem humana já contém a unidade indissolúvel de forma e conteúdo, alcançada sobretudo pelo gramático, que, partindo da língua, pode reivindicar uma filosofia rica e originária.

8. Em sua aula inaugural sobre as Institutiones de Quintiliano e as Silvae de Estácio, Poliziano sustenta que o discurso emocional é a origem de todo conteúdo humano, pois só por ele o homem constitui uma sociedade que lhe permite chegar a si mesmo, de modo que o estudo do discurso patético é estudo de tudo o que concerne ao homem e o conduz à sua realização, já que somente a retórica reuniu em sociedade os homens dispersos, apaziguou os primeiros conflitos e os uniu por leis, costumes e toda a cultura humana.

9. A retórica faz florescer o que é útil ao Estado e origina uma forma de discurso polida, graciosa e urbana, sem nada de grosseiro ou inadequado, enraizada na cortesia, na serenidade e na doçura.

10. Há aqui uma alusão ao que Guazzo chamaria mais tarde de conversazione civile, que não é mera cortesia, mas toda a essência da vida humana.

7. Imagem e retórica. A carta de Giovanni Pico “De genere dicendi philosophorum”

1. No humanismo italiano e na Renascença o problema do dualismo entre conteúdo e forma, logos e pathos, e as tentativas de eliminá-lo reaparecem sempre sob novos aspectos, cuja abrangência total exigiria uma pesquisa de enorme amplitude, razão pela qual cabe limitar-se a poucos exemplos típicos.

2. O papel central desse problema na tradição manifesta-se no breve ensaio De genere dicendi philosophorum de Giovanni Pico della Mirandola, que não se limita a mostrar que o discurso retórico não pode ser substituído pelo racional, mas chega a soluções próprias e dignas de atenção.

3. O ensaio é uma carta de Pico a Ermolao Barbaro, de 3 de junho de 1485, em resposta a outra de 5 de abril em que Barbaro rejeitara o estilo dos filósofos escolásticos e dos filósofos em geral, sendo por isso considerado defensor da forma literária e patética, enquanto Pico, por sua réplica, passou por partidário do estilo filosófico, da res e não da verba.

4. Contra a interpretação de Garin, segundo a qual Pico não teria estabelecido a unidade de res e verba e teria privilegiado a res, os escritos de Pico interessam justamente por alcançarem teoricamente uma inequívoca unidade entre ambas e por descobrirem a diferença entre a filosofia racional e o conhecimento filosófico primário, ao passo que Barbaro defende as pretensões da verba ao negar aos autores germânicos e teutônicos o discurso nítido, elegante, puro e casto que, segundo ele, é o único que dá aos escritores louvor e memória eternos.

5. O argumento decisivo de Barbaro é que, rejeitada a primazia da forma, todo discurso e toda obra de arte só poderiam ser louvados em função de seu conteúdo precioso.

6. Após um prólogo de admiração por Barbaro, Pico defende polemicamente o predomínio da filosofia sobre toda atividade puramente literária ou filológica, afirmando que a glória está não nas escolas de gramáticos e pedagogos, mas nos círculos de filósofos e sábios, onde não se fala da mão de Andrômaca ou dos filhos de Níobe, mas dos princípios das coisas humanas e divinas.

7. Pico justifica sua posição sustentando que os filósofos têm eloquência interior e não exterior, com Mercúrio no peito e não na língua, que sabedoria e eloquência são essencialmente distintas e uni-las seria nefasto, e que nada é mais oposto que as tarefas do orador e do filósofo, já que a retórica visa à ilusão e a filosofia comprometeria sua autoridade ao usar seus meios patéticos e sedutores, argumentos que Descartes retomará a partir da primazia do racional, mas dos quais Pico, por não partir dessa primazia, extrai conclusões bem distintas, reconhecendo um discurso patético, originário, filosófico e retórico, contrário à filosofia puramente dialética, escolástica e racional.

8. Pico defende o discurso filosófico como antirretórico, por não se dirigir aos sentidos e por ter sua unidade destruída por qualquer adorno externo, rejeita a crítica de Barbaro ao latim não clássico dos escolásticos, pois o latim romano não é o único modelo de língua perfeita, cada época tem seu estilo e os filósofos não tinham tempo para considerações léxico-gramaticais, e reitera ao final a prevalência do conteúdo como prevalência da filosofia.

9. Considerada em seu todo, a carta põe no centro o problema da relação entre forma e conteúdo e parece justificar a interpretação tradicional de rejeição da retórica e de predomínio da filosofia sobre interesses gramaticais, já que a insuficiência retórica dos filósofos bárbaros não seria falta grave por não lhes faltar sabedoria, e a eloquência, embora graciosa e sedutora, não seria adequada nem bem-vinda ao filósofo.

10. Pico parece orgulhar-se da aspereza da filosofia, cujo discurso seria arrastado, pesado e desgrenhado, e afirma que o filósofo se preocupa com o que se escreve e não com o modo de formulá-lo, o que lembra a tese posterior de Descartes de que à verdade importa apenas sua comprovação, qualquer que seja a linguagem em que se formule.

11. Toda dúvida sobre a interpretação tradicional parece infundada, mas a crítica de Pico visa evidentemente a uma retórica técnica e superficial, capaz de tornar plausível qualquer tese por meios patéticos, a mesma que Platão critica nos sofistas, cuja tarefa seria mentir, enganar, iludir e mudar à vontade o preto em branco, dotada de força quase mágica, e daí decorre sua crítica ao gramático que idealiza o latim romano e mede por ele todas as outras línguas, formalismo árido diante do qual Pico prefere o ouro puro de cunhagem teutônica às falsas moedas romanas, desaprovando veementemente a retórica tomada como mero meio de persuasão, arma perigosa nas mãos de ignorantes.

12. Apesar disso, Pico não consegue calar sua admiração pela aptidão retórica de Barbaro, desejando ter a capacidade de sentir e exprimir dignamente o que sempre sente a seu respeito.

13. Surpreende que alguém tão contrário à retórica exprima tal admiração pelo estilo de Barbaro, que o comove e enche de prazer maravilhoso por ser sábio, delicado, culto, forte e engenhoso, mas o que ele louva são as qualidades do estilo que sustentam o conteúdo.

14. Pico e Poliziano procuravam cartas e textos de Barbaro cuja leitura, segundo dizem, lhes tirava o fôlego, e admiravam sua capacidade de conduzir os espíritos pela persuasão para onde quisesse, o que mostra que a crítica de Pico à retórica nada tem da rejeição absoluta e posterior de Descartes de todo discurso patético.

15. A filosofia aceita por Pico trata dos princípios das coisas humanas e divinas, e seus filósofos não se dedicam a uma ciência puramente racional, mas confiam também no coração e não só na língua, de modo que o recurso a meios meramente formais e retóricos revelaria insegurança quanto a seus temas, ao passo que, se o conteúdo atua por si mesmo, não precisa de forma patética exterior, como mostram os textos sagrados, em que conteúdo e forma constituem unidade.

16. Pico descreve essa filosofia arcaica num estilo próximo da linguagem mítica, falando do maravilhoso silêncio dos poucos que meditam algo profundo arrebatado do fundo da natureza ou dos céus e lançado aos homens desde a morada de Júpiter.

17. A temática da carta modifica-se com a alusão ao Sileno de Alcibíades, exteriormente grotesco e sórdido, mas interiormente brilhante e valioso, que mostra que quem busca os filósofos para aprender deve libertar-se do superficial e voltar-se para o íntimo da alma e da mente, onde Deus fala diretamente, adotando os ouvidos de Apolônio de Tiana, que, liberto do corpo, não ouvia nenhum Mársias terreno, mas apenas o Apolo celeste compondo em sua lira divina, em harmonia indescritível, os hinos do universo.

18. Pico esboça o ideal de uma filosofia não limitada aos processos racionais, num plano sublime do filosofar fiel à tradição platônica evocada também no Do Sublime, exigindo, a propósito da retórica de Cícero, que o filósofo tenha as Musas na alma e não nos lábios.

19. Tais filosofias agem de modo alusivo e transformador, pois não comovem nem persuadem, mas compelem, agitam e imprimem força à palavra da lei, rude e agreste, porém viva, animada, flamejante e aguda, que penetra a alma e transforma o homem com poder maravilhoso.

20. Pico refere-se à sentença atribuída a Heráclito de que o filósofo deve buscar as palavras não nas amenas selvas das Musas, mas no horrendo antro em que se esconde a verdade, e reconhece que retórica e sabedoria estão unidas por mútuo vínculo apenas no plano de uma filosofia arcaica, na qual o poder da palavra e da forma não é superficial diante do conteúdo.

21. Giovanni Pico não fornece a fundamentação filosófica de seu ideal programático, que se encontra em seu sobrinho Gianfrancesco Pico, cujo De imaginatione enfatiza o poder das imagens e sustenta que, dado o caráter figurativo do originário, todo discurso fundamental deve necessariamente ser por imagens.

8. O “De imaginatione” de Gianfrancesco Pico

1. O De imaginatione de Gianfrancesco Pico della Mirandola, dedicado ao imperador Maximiliano em carta de 19 de dezembro de 1500, procura responder como o espírito humano pode alcançar a unidade primordial entre res e verba, conteúdo e forma, e atribui importância fundamental ao papel da imagem e da luz do espírito, designadas como fantasia e imaginação.

2. Com evidentes referências a Aristóteles, a fantasia é relacionada à luz, phôs, sem a qual não há visão, e aparece como poder da alma de criar imagens, alimentado pelas imagens fornecidas pelos sentidos.

3. A fantasia tem função essencial, pois por um lado opera na esfera das múltiplas formas sensíveis, selecionando-as, já que tudo o que é corpóreo e perceptível por algum sentido exala uma semelhança e imagem de si à imitação da natureza espiritual e incorpórea, e por outro alcança as mais altas esferas do espírito, pois somente por ela as imagens sensíveis são postas à disposição da razão e do intelecto.

4. Para homens e animais, a imaginação é importante porque, por meio de esquemas sensoriais, torna possíveis os instintos e as paixões, já que nenhum ser vivo é impelido para o desconhecido, sendo as imagens da fantasia o que ativa as paixões e dirige os instintos.

5. Os animais têm seu comportamento diretamente determinado pela memória e pela fantasia, por não possuírem faculdade superior, de modo que nelas as imagens da fantasia têm significado imediato e inequívoco e determinam a vida orgânica, razão pela qual seu comportamento é sempre adequado e oportuno.

6. O homem, ao contrário, submete as imagens da fantasia à mens, entendida como ratio e intellectus, que as interpreta humanamente juntamente com as paixões, e, se não se submete a ela, imagens e paixões agem destrutivamente por não estarem inseridas numa ordenação inequívoca, pois a fantasia recebe as imagens dos sentidos, as retém, purifica e oferece ao intelecto agente, que as ilumina com sua luz, delas abstrai as espécies inteligíveis e as deposita no intelecto possível, que assim se alimenta e aperfeiçoa.

7. A fantasia esboça os significados possíveis das imagens, que a luz do intelecto ilumina e define para elevá-las às esferas espirituais, mas, quando as imagens se libertam dessa iluminação, as imagens patéticas e ativas e o conteúdo espiritual tornam-se independentes, forma e conteúdo, verba e res, deixam de constituir unidade e as imagens decaem em aparências sedutoras, raiz do dualismo entre forma e conteúdo.

8. A fantasia deve submeter-se ao domínio da ratio e do intelecto, isto é, da luz espiritual, dom divino a que se deve a revelação do mundo humano, e, apoiando-se na tese aristotélica de que se deve conhecer e crer mais nos primeiros princípios que tudo esclarecem do que naquilo que a ratio, por eles possibilitada, faz conhecer e crer, Pico admite a unidade entre luz do intelecto e fé e identifica, no capítulo XII, a luz inata com a luz da fé, âmbito em que a linguagem já não pode ser racional, mas apenas figurativa e metafórica, afirmando a continuidade entre fantasia, luz do intelecto e fé e a maior intensidade da luz da fé em relação à da fantasia.

9. No Examen vanitatis doctrinae gentium, Pico sistematiza a identidade entre luz do intelecto e fé, afirmando que os filósofos pagãos estabelecem nos princípios preceitos de fé cuja certeza ninguém nega e cuja evidência alguns até admitem.

10. Em De fide et ordine credendi theoremata, Pico distingue quatro gêneros subordinados de luz espiritual, o primeiro dos quais, a luz natural, base e fundamento dos demais e partilhada por todos os dotados de razão, é a origem da forma originária da fé.

11. Se o discurso humano depende não exclusivamente das conclusões racionais, mas sobretudo da luz do intelecto, pela qual as imagens sensíveis recebem sentido espiritual e humano, então o discurso originário e noético é o que exerce poder sobre o homem e realiza a filosofia verdadeira e atuante.

12. Pico reconhece o limiar do espírito em que se efetua a separação entre res e verba, da qual é responsável a fantasia quando não submete suas imagens ao conhecimento noético, produzindo imagens puramente fantásticas que influenciam as paixões, mas, dissociadas do conteúdo espiritual, agem sobretudo de modo sedutor, ao passo que nos animais, sem faculdade superior nem necessidade dela, os esquemas da fantasia não pairam livremente e agem de modo imediato, enquanto no homem a fantasia conduz ao conhecimento e à visão, sendo sua liberdade específica elemento fundamental da condição humana e a conservação e transformação das imagens sensíveis o que conduz o homem a seu mundo, de modo que a filosofia deixa de ser processo racional e dedutivo para tornar-se discurso patético dirigido pelo conhecimento interior.

9. Conclusão: humanismo e práxis

1. Ao fazer da dedução a partir de uma verdade primeira a tarefa principal da filosofia, Descartes transformou o método e o objeto do filosofar, e Vico, último representante da tradição humanística, opôs-se a essa filosofia que viria a fundar o pensamento moderno, convicto de que, embora ela tivesse adquirido feição crítica e o poder de separar o verdadeiro do falso, perderia seu caráter engenhoso e tópico.

2. O pressuposto cartesiano de uma verdade primeira ignora o problema da verossimilhança e, por consequência, o da práxis, pois, como já se afirmava na Antiguidade, o saber só abrange o que ocorre regularmente, e o que pode ser diferente, o possível e o verossímil, não se deixa deduzir pela ciência, de modo que, excluído da filosofia o verossímil, ela já não trataria da arte, da retórica, da história nem do pensamento político, e a práxis se tornaria mera aplicação da teoria.

3. A tradição filosófica do humanismo nega a primazia da verdade por atribuir significado essencial à verossimilhança e vê o essencial não na definição de uma verdade primeira e de suas conclusões, mas na descoberta, na inventio, dos princípios originários do conhecimento e do comportamento, do verdadeiro e do verossímil, de modo que, sendo o originário e arcaico indedutível, o problema essencial da filosofia está não na dedução racional, mas no despertar, na evocação e na descoberta do originário pelo qual algo se impõe na história concreta do homem.

4. A essência e a atualidade do humanismo italiano residem nessa nova concepção do pensamento filosófico, que, contra a escolástica lógica e racionalista do fim da Idade Média, examina o homem em sua evolução concreta, histórica e patética, isto é, em sua historicidade.

5. A origem da sociedade, a reflexão filosófica na história e sobre a história e o papel da fantasia nelas ocupam o espírito humanista, e a visão da primazia da práxis, entendida como abertura aos problemas inadiáveis que concernem ao homem e como reconhecimento de que o significado das coisas nasce de sua relação concreta com ele e de seu esforço por realizá-las, só se tornou possível pela visão do poder da imagem como raiz de toda atividade humana, pela relação entre retórica e filosofia e pela rejeição da primazia da linguagem racional.

6. Daí a necessidade, como propedêutica a uma nova abertura para a tradição humanística, do exame da imagem e do ingenium em torno da diferença radical entre a linguagem semântica e indicativa e a racional e explicativa, abertura que não pode obedecer a interesses meramente românticos, histórico-literários ou históricos em geral.

7. O problema atual de por que ainda filosofia e o da relação entre teoria e práxis só podem ser rediscutidos à luz de uma tradição histórica e concreta encoberta desde Descartes, sem que se trate de defender o ideal empoeirado e inutilmente preservado da formação humanística, que o espírito contemporâneo considera com razão ultrapassado, nem de afirmar uma filosofia que pretenda desdobrar de seus próprios conteúdos tudo o que a verdade deve ser.

8. O rumo às coisas da tradição humanística não pode ser interpretado em sentido fenomenológico, pois o sonho da fenomenologia de chegar às coisas pelo toque mágico da visão das essências cabe a toda filosofia que inclua em suas reflexões mediações subjetivas e objetivas sem se reger pela primazia de métodos sistemáticos que só produzem fetiches e conceitos por eles mesmos inventados.

9. A problemática do humanismo italiano, por sua preferência pela práxis e sua negação da palavra racional e abstrata, conduz à eliminação da dualidade entre a realidade experimentável e o mundo da razão, que leva a um dualismo insolúvel entre teoria e prática, e pertence ao mais profundo conceito humanístico de práxis a tendência à transformação ativa do mundo nascida do reconhecimento de que as questões concretas, atuantes e por isso patéticas impelem à história em que se vive.

10. O antagonismo entre ideia e realidade já não é o ponto de partida da questão atual, pois a filosofia que deixa de exercer função prática perde sua força, reconhecimento que constitui outro ponto crucial da concepção humanística de práxis, e nenhum filósofo que se apresente como autoridade no campo do ser, ligado aos tempos de um Führer, pode encobrir a situação histórica e espiritual presente.

11. Pelo problema do poder da imagem, pela distinção entre linguagem alusiva e racional e pela relação entre retórica e filosofia, o humanismo italiano chega à questão central do que é a realidade histórica e humana e de como ela pode ser configurada.

12. A atualidade dessa problemática evidencia-se no paralelismo entre uma citação moderna e outra humanística.

13. A atitude primária e imediata do homem diante da realidade não é a de um sujeito abstrato, cognoscente e especulativo, mas a de um ser prático e ativo, indivíduo histórico que exerce sua atividade sobre a natureza e os homens num determinado complexo de relações sociais, de modo que a realidade não se apresenta primariamente como objeto a contemplar, examinar e teorizar diante de um sujeito abstrato do conhecimento, mas como âmbito de atividade prática e sensível do qual nasce a visão prática e imediata da realidade.

14. No fim da tradição humanística, numa última e desesperada tentativa de reafirmar sua tarefa e seu sentido diante da metafísica tradicional e do racionalismo cartesiano, Vico escreveu que os filósofos haviam considerado a providência apenas na ordem da natureza e não sob o aspecto próprio do homem, cuja característica principal é ser social, e sustentou que na noite de sombras que encobre a mais remota antiguidade brilha a luz eterna da verdade indubitável de que o mundo histórico foi feito pelo homem e de que seus princípios podem e devem ser encontrados nas modificações do próprio espírito humano.

15. A revolução copernicana da filosofia não ocorreu com Descartes nem com Kant, mas no humanismo italiano, embora as consequências da nova avaliação da fantasia, do ingenium e da primazia da imagem só possam ser discutidas numa futura investigação sobre a essência da tradição humanística italiana.