FINCH, Henry Le Roy; ANDIC, Martin. Simone Weil and the intellect of grace. New York: Continuum, 1999.
Introdução de Martin Andic
1. A reunião dos escritos de Roy Finch sobre Simone Weil concretiza o projeto, desenvolvido até sua última doença, de apresentar um estudo contínuo da importância de uma pensadora situada por ele ao lado de Heidegger e Wittgenstein, cuja contribuição permitiria repensar religião, política, história e cultura mediante o diálogo entre tradições filosóficas e religiosas diversas.
2. A afinidade de Finch com Simone Weil fundamenta-se na liberdade intelectual, no rigor crítico, no amor à verdade e à justiça, na preocupação com a não violência e os marginalizados e na defesa de uma filosofia simultaneamente prática e contemplativa, qualidades que conferem aos Cadernos uma profundidade comparável à dos Pensamentos de Pascal.
3. Os capítulos organizam-se em três grandes campos: a epistemologia religiosa e moral, a crítica da política, da sociedade e da cultura e a renovação humana pelo espírito de verdade, justiça, amor e liberdade.
4. A epistemologia da graça constitui o centro do pensamento de Simone Weil, pois a verdade exige um intelecto impessoal iluminado pelo amor, capaz de discernir o bem verdadeiro entre as fantasias de prestígio, poder e riqueza e de abandonar essas ilusões para acolher o Bem puro que somente Deus pode revelar.
5. O amor à verdade acima da própria vida conduz ao afastamento integral das coisas passageiras do tempo, conforme a exigência platônica de orientar toda a alma para aquilo que ultrapassa sua transitoriedade.
6. A orientação para Deus não resulta de uma iniciativa autossuficiente de quem permanece nas trevas, mas da ação divina que volta o ser humano para a direção correta.
7. A graça não apenas realiza o intelecto, mas torna possível seu primeiro movimento em direção à verdade, sobretudo pelos encontros com a necessidade na matemática, na beleza e na aflição, que podem romper o egoísmo e revelar um mundo criado por amor, no qual permanece livre o consentimento humano à ordem divina.
8. A matemática grega oferece um caminho intelectual de aproximação de Deus ao apresentar verdades precisas que ultrapassam a imaginação e a experiência cotidiana e ao tornar concebível uma mediação entre realidades incomensuráveis, enquanto a gnose permite compreender a distância e a ausência divina no mundo como expressões de um amor que continua possível mesmo nas condições mais adversas.
9. A gnose exige abandonar as perspectivas finitas e egoístas para participar do conhecimento divino, e a infinitude que caracteriza Deus compreende tanto sua grandeza absoluta quanto sua pequenez perante os critérios mundanos, pois sua presença não impõe domínio, manifesta-se na humildade e no silêncio e permanece livre de todo poder que não seja o amor.
10. A aproximação entre Weil, Cantor e a tradição platônica permite conceber a infinitude divina como um Bem inteiramente livre do mal e fonte de todos os bens particulares, enquanto a necessidade matemática pode revelar uma correspondência misteriosa e providencial com as relações de Deus consigo mesmo, com o mundo e com os seres humanos.
11. A afinidade entre Simone Weil e T. E. Lawrence reside na busca de uma ação verdadeira que una integridade moral, disciplina e relações de igualdade, de modo que o mal inevitavelmente praticado somente possa ser purificado quando constitua o meio necessário de impedir um mal maior e de realizar o melhor para todos os envolvidos.
12. A crítica de Weil a Marx preserva a análise das relações de força entre classes, mas rejeita a inevitabilidade histórica da justiça e desenvolve uma teoria da opressão como transformação de pessoas em coisas, cuja superação exige desmistificar o prestígio do poder e organizar o trabalho de maneira que pensamento, ação e compreensão de sua finalidade permaneçam unidos.
13. A insuficiência do determinismo social manifesta-se na capacidade individual de reconhecer e julgar a necessidade, embora o pensamento também possa assumir uma responsabilidade coletiva quando indivíduos deliberam em conjunto, apresentam razões compartilháveis e procuram formar consensos sem renunciar à autonomia de julgamento.
14. O enraizamento nacional legítimo atende às necessidades universais da alma por meio da língua, das tradições, dos lugares e dos vínculos pessoais, mas sua proteção deve fundamentar-se em obrigações para com cada ser humano, pois a injustiça atinge a própria pessoa e exige uma resposta moral mais profunda que a reivindicação de direitos sustentada pela disputa de forças.
15. A rejeição do nacionalismo baseado na violência coletiva deve permitir o reconhecimento da pátria como realidade singular, preciosa e vulnerável, digna de compaixão e amor, conciliando a crítica à dominação colonial com a disposição de defender o próprio país diante da guerra.
16. A perspectiva de uma guerra europeia reúne o horror à destruição e a possibilidade de que os povos colonizados encontrem nela uma ocasião de revanche contra a irreflexão, a indiferença e a crueldade de seus dominadores.
17. A crítica ao patriotismo fundado na glória nacional permanece compatível com um patriotismo orientado pela justiça e pela liberdade de todos os povos.
18. A proposta de punir a mentira deliberada de políticos e jornalistas, embora suscite reservas quanto à liberdade de expressão, procura proteger a liberdade intelectual contra a propaganda e a manipulação, preservando para todos o dever e a possibilidade de examinar qualquer questão e reconhecer as coisas como são, inclusive diante das exigências doutrinárias das instituições religiosas.
19. A crítica de Weil e Heidegger à ciência e à tecnologia modernas identifica uma disposição redutora de submeter a realidade aos desejos humanos, exigindo a superação do personalismo e do subjetivismo por uma receptividade ao que ultrapassa o domínio humano, seja como abertura ao Bem puro, seja como abertura ao ser.
20. A oposição entre o domínio prometeico da natureza e a cooperação receptiva com ela permite aproximar Weil de Hildegarda de Bingen, embora a presença amorosa de Deus no cosmos, afirmada por Hildegarda, corresponda em Weil a uma retirada divina que, próxima do Zimzum de Isaac Luria, cria espaço para a existência do mundo e para um amor capaz de atravessar a maior distância.
21. O amor parental, sobretudo materno, exemplifica uma doação gratuita e impessoal que não depende do merecimento ou das qualidades do filho, favorecendo uma aproximação entre o Deus amoroso e tolerante de Hildegarda e Weil e a figura materna, em contraste com a representação, necessariamente sujeita a qualificações, de um Deus paterno severo, recompensador e punitivo.
22. A justiça divina identifica-se com o amor, e a justiça humana nasce da expectativa comum de receber o bem simplesmente pela condição humana, de modo que essa expectativa e o amor que a reconhece constituem o elemento sagrado da pessoa e o fundamento da comunidade, da religião, do humanismo e da cultura.
23. A compreensão da vida espiritual de Weil exige examinar suas experiências e convicções sem reduzi-las a explicações psicológicas, reconhecendo que sua permanência fora da Igreja decorre da fidelidade à liberdade do pensamento e à verdade, enquanto suas expressões de aniquilamento em Deus e abandono por Cristo traduzem a entrega à vontade divina e a persistência de um amor acolhido com temor e tremor.
24. As diferentes relações do judaísmo, do cristianismo, do hinduísmo e do budismo com o tempo e a eternidade revelam caminhos de superação do eu, desde a continuidade histórica de um povo até a liberdade do presente e a consciência impessoal, culminando numa atenção amorosa ao que é dado que não se conquista pelo esforço egoísta, mas se recebe como intelecto da graça.
25. A abertura às quatro tradições religiosas e às demais tradições humanas exige desapego dos interesses particulares e disponibilidade para o diálogo entre iguais, para aprender, corrigir-se e oferecer razões de discordância, constituindo uma condição da religião autêntica, da humanidade plena e da participação efetiva em um mundo comum.
26. A escolha do título O intelecto da graça, inspirado na expressão dantesca intelleto d’amore, reúne a ideia de um conhecimento transformador acerca da graça e a de um conhecimento inspirado e iluminado por ela, preservando a compreensão de que o saber mais elevado é recebido e participa da beleza e da vida de sua fonte.
27. Todas as notas do texto subsequente pertencem ao editor, com exceção daquelas assinaladas por um asterisco.