Ferraris

Maurizio Ferraris (1956–)

Filósofo, ensaísta e teórico cultural italiano, professor ordinário de Filosofia Teorética na Università degli Studi di Torino e presidente do LabOnt (Laboratorio di Ontologia), Maurizio Ferraris é o principal proponente e articulador internacional do Novo Realismo (Nuovo Realismo). Formado pela Universidade de Turim sob a orientação de Gianni Vattimo, realizou estudos de pós-graduação e pesquisa em Heidelberg com Hans-Georg Gadamer e em Paris sob a égide de Jacques Derrida na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Ao longo de mais de três décadas de magistério e intervenção pública, operou uma inflexão teórica profunda: partindo da hermenêutica do pensamento fraco (pensiero debole) e da desconstrução, Ferraris rompeu publicamente na virada do milênio com o relativismo pós-moderno, o construcionismo social radical e o textualismo nietzschiano-derridiano (“nada existe fora do texto”). O seu projeto filosófico notabilizou-se pela reabilitação ontológica do princípio de realidade através do conceito de inemendabilidade (inamendabilità), pela fundação de uma ontologia social centrada nos documentos e na escrita (documentalidade) e pela teorização do novo mundo digital e da plataformização contemporânea sob a chave da documedialidade e da tecnologia da memória.

1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)

2. Contexto Institucional, o LabOnt e a Revista Rivista di Estetica

3. Recepção Acadêmica e Eixos de Circulação

4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica

1. Objetos Naturais: Existem no espaço e no tempo físicos e são inteiramente independentes dos sujeitos humanos (árvores, montanhas, elétrons, vírus). Se a humanidade desaparecesse amanhã, esses objetos continuariam a existir imutáveis em sua legalidade própria.

  2. Objetos Ideais: São atemporais, aespaciais e universais, independentes das mentes individuais (números, formas geométricas, leis lógicas formais). O teorema de Pitágoras continuaria verdadeiro mesmo se nenhuma mente o estivesse concebendo.
  3. Objetos Sociais: Dependem estritamente da existência de sujeitos humanos reunidos em comunidade (dinheiro, casamentos, governos, dívidas, tratados, leis, propriedades). Todavia, esses objetos sociais não são puras fantasias subjetivas etéreas; eles possuem densidade objetiva e força normativa porque se materializam através da escrita e do registro factual.
* A Documentalidade e a Primazia da Inscrição: Contra John Searle, que baseia a criação da realidade social na intencionalidade coletiva abstrata expressa em declarações linguísticas instantâneas, Ferraris sustenta a primazia material do Documento. Uma promessa dita oralmente sem rastro esvai-se no ar; um compromisso torna-se uma instituição jurídica real apenas quando é registrado numa base material durável: na tábua de argila antiga, no pergaminho, no papel assinado ou nos servidores digitais criptografados da rede. A escrita não é a representação secundária e degradada da fala viva (como pretendia a metafísica fonocêntrica clássica denunciada por Derrida), mas a condição originária e constitutiva de toda a civilização, de todo o direito e de toda a sociedade humana.
* A Documedialidade e a Mobilização Total do Humano: No estágio avançado do capitalismo contemporâneo, a convergência entre os dispositivos de comunicação (a mídia) e os sistemas de arquivamento (os documentos) instaurou a Documedialidade. A técnica digital superou a separação tradicional entre o tempo de trabalho e o tempo de repouso: ao interagirem continuamente com telas, mensagens e aplicativos, os seres humanos realizam uma automobilização total. Cada curtida, busca, deslocamento geográfico ou transação comercial gera uma inscrição perene, alimentando os arquivos massivos de dados que movimentam a economia algorítmica do século XXI. Pensar criticamente o presente exige, portanto, compreender a natureza inescapável dessa imensa maquinaria documental que nos governa e redefine a própria essência do humano.