O que é a hermenêutica?

FERRARIS, Maurizio. L'ermeneutica, Gius, Laterza & Figli, Roma-Bari, 1998.

Uma história da hermenêutica

1. A história da hermenêutica costuma ser apresentada como a passagem de uma arte restrita a determinadas práticas de interpretação para uma filosofia que reconhece na interpretação uma condição de toda compreensão.

2. Na Grécia antiga, a arte da interpretação (hermeneutikḗ tékhnē) consistia em transmitir aos homens mensagens divinas, função que aproxima os intérpretes de oráculos e os poetas da figura de Hermes, à qual uma etimologia tardia associou a hermenêutica.

3. O racionalismo grego clássico atribuía à hermenêutica um lugar secundário, pois identificava o conhecimento seguro com a visão teórica, remetia os oráculos ao domínio da opinião e conferia pouca importância à distância temporal na compreensão de mensagens do passado.

4. A expansão helenística tornou necessária a recuperação filológica dos textos antigos, favoreceu a leitura alegórica dos poetas e, pelo contato com a tradição hebraica e com o Estado romano, deu origem à exegese religiosa e à interpretação jurídica dos códigos.

5. Na Antiguidade tardia, a consolidação das exegeses filológica, jurídica e religiosa coincidiu com a concepção cristã de uma história linear da salvação, que conferiu novo significado à distância temporal e preparou a distinção medieval entre o sentido literal e os sentidos espirituais das Escrituras.

6. O humanismo italiano fez da distância histórica uma condição para compreender os clássicos em sua própria época, recorrendo à filologia para recuperar textos cuja transmissão já não podia apoiar-se na continuidade viva da tradição.

7. A Reforma protestante incorporou a filologia humanista à leitura das Escrituras, pois o princípio luterano da sola Scriptura atribuiu à Bíblia a autoridade em matéria de fé e encontrou em Flácio Ilírico uma defesa do sentido literal diante da proliferação das alegorias.

8. A secularização da exegese envolveu a delimitação tridentina da autoridade bíblica às matérias de fé e moral, o reconhecimento por Belarmino da distância histórica entre os leitores modernos e os antigos e a afirmação do método histórico-gramatical em Espinosa, num período em que também surgiram projetos de hermenêutica geral como o de Dannhauer.

9. O Iluminismo ampliou os recursos filológicos para conhecer a Antiguidade ao mesmo tempo que enfraqueceu sua autoridade, subordinando até os projetos de hermenêutica universal à autonomia de uma razão que buscava reduzir sua dependência de pressupostos.

10. O interesse romântico pela tradição devolveu centralidade à hermenêutica, universalizada por Schleiermacher em razão da possibilidade de mal-entendido em toda comunicação e estendida por Dilthey às objetivações históricas do espírito, embora este ainda confiasse na capacidade do método de resguardar o intérprete de seus próprios preconceitos.

11. Em Heidegger, a hermenêutica torna-se uma dimensão da existência inteira, pois o intérprete pertence à tradição histórica e linguística que procura compreender, e o círculo hermenêutico reconhece nessa condição um recurso da compreensão e um limite à pretensão de objetividade definitiva.

O que não se encaixa nessa história?

1. A coerência narrativa de uma história da hermenêutica pode torná-la persuasiva, mas a validade de suas teses depende de confrontá-la com os fatos que ela pretende ordenar.

2. O uso moderno de «interpretar» como apreensão de um sentido encobre uma longa tradição em que a hermenêutica designava a expressão de um sentido, de modo que sua história reúne duas operações relacionadas e distintas.

3. A leitura retrospectiva da história da hermenêutica toma sua universalização moderna como desfecho necessário e converte práticas e teorias anteriores em meras antecipações de uma concepção que lhes era alheia.

4. A interpretação cristã das profecias judaicas ilustra o viés de uma história que confere ao passado seu sentido a partir do desfecho, pois a leitura posterior pode ser recusada pelos próprios herdeiros da tradição que ela reivindica interpretar.

5. Atribuir a posição secundária da hermenêutica entre os gregos à primazia da visão e à ausência de uma história da salvação torna sua valorização dependente de um dogma cristão, embora juristas e estudiosos da literatura tenham cultivado a interpretação por razões próprias.

6. A noção aristotélica de hermeneía como expressão de impressões admite uma universalidade que ultrapassa o domínio humano, pois abrange a comunicação entre animais, exemplificada pelo canto dos pássaros e pela dança das abelhas.

7. O princípio de Chladenius segundo o qual o que é claro dispensa interpretação põe em questão uma universalização da hermenêutica que depende de tomar a obscuridade como condição normal da compreensão.

8. A prática cotidiana da interpretação e as técnicas interpretativas especializadas exigem competências próprias, pois o conhecimento geral da hermenêutica é insuficiente para assegurar o domínio do direito, da teologia ou da filologia.

9. A prática espontânea da interpretação, as técnicas disciplinares, os projetos de uma hermenêutica geral e a hermenêutica como corrente filosófica correspondem a atividades entre as quais inexiste uma continuidade necessária.

A interpretação se diz de muitos modos

1. A palavra «interpretação» designa operações distintas, entre elas a expressão de impressões, a tradução entre línguas, a execução artística, o esclarecimento de sentidos obscuros, a compreensão do que é estranho, o desmascaramento de intenções e a suposta constituição do mundo por perspectivas históricas e vitais.

2. Os sentidos de «interpretação» encadeiam-se por contiguidade, pois da expressão se passa à tradução e ao esclarecimento, destes à aproximação do que é estranho e à suspeita de engano, até se chegar à tese de que as interpretações ocupam todo o domínio dos fatos.

3. Um encontro entre Kohl e Chirac permite distinguir as funções de quem se expressa, traduz, esclarece, representa, procura compreender ou desmascara, e põe em relevo que a própria conversa pressupõe fatos aos quais os interlocutores possam referir-se.

A universalidade da hermenêutica

1. A riqueza histórica e conceitual da hermenêutica deixa em aberto a questão de quanto sua pretensão de universalidade depende da variedade e da ambiguidade dos sentidos atribuídos à interpretação.

2. Ao tornar-se uma filosofia voltada para o ser, a hermenêutica do século XX ampliou o alcance de uma prática antes dedicada a questões como a compreensão de textos e intenções, mas deixou de lado parte de seus antigos domínios.

3. Até Schleiermacher, a hermenêutica estendia-se dos signos humanos à interpretação da natureza como criação divina, embora a amplitude de seu domínio ainda fosse compatível com a existência de atos de conhecimento que dispensavam interpretação.

4. Os cânones hermenêuticos conservaram desde a filologia helenística uma alternativa fundamental entre a leitura alegórica, que encontra na expressão um sentido diverso do literal, e o método histórico-gramatical, que procura reconstituir o que ela significava para seu autor e sua época.

5. A presunção de coerência do texto e a caridade interpretativa convivem com procedimentos de suspeita que admitem a imperfeição do texto ou o engano do autor, enquanto a hermenêutica contemporânea acrescenta a essas regras teses ontológicas sobre a relação entre pensamento, linguagem e ser e sobre o destino niilista do Ocidente.

6. A hermenêutica filosófica contemporânea encontra em Schleiermacher seu antecedente decisivo, pois a opacidade da individualidade, agravada pela distância temporal, torna o mal-entendido uma possibilidade constante e exige que a compreensão procure alcançar o outro por transposição psíquica ou pela reconstrução de regras e tipos.

7. A tese do mal-entendido universal ganha força quando a investigação passa do sentido de uma expressão, muitas vezes imediatamente compreensível, às intenções de quem fala, sempre sujeitas ao engano, ao autoengano e à perspectiva particular de quem interpreta.

8. A impossibilidade de esgotar a singularidade de uma vida, como a de Aristóteles, fundamenta a distinção de Windelband entre os conhecimentos idiográficos, voltados para as individualidades, e as ciências nomotéticas, que procuram formular leis gerais.

9. A compreensão hermenêutica procura reviver a individualidade histórica e abrir possibilidades de ação e de visão do mundo, enquanto a explicação das ciências naturais busca estabelecer leis que independam da subjetividade de quem investiga.

10. A liberdade de interpretar exige critérios de validade, mas a afinidade entre intérprete e objeto, a autoridade da tradição e a história dos efeitos de uma obra oferecem garantias limitadas, pois a eficácia histórica pode acompanhar o erro e a deferência à tradição pode contrariar a pretensão emancipadora da hermenêutica.

11. O círculo hermenêutico articula o pertencimento à tradição com a possibilidade de revê-la, pois os preconceitos e o mundo da vida fornecem o horizonte de cada juízo, enquanto a exigência heideggeriana de deixar que as próprias coisas orientem a pré-compreensão procura limitar o subjetivismo.

12. A responsabilidade ética atribuída à relação com o ser exige referência aos entes e aos fatos, pois promessas, argumentos e juízos históricos só adquirem consistência quando dizem respeito a algo cuja realidade resiste à dissolução em interpretações.

Hermenêutica e ontologia

1. A identificação entre hermenêutica e ontologia ameaça dissolver o mundo quando concede primazia absoluta à interpretação, como ocorre na versão de Rorty centrada na conversação, ao passo que a tese de Derrida sobre o texto vincula a percepção à inscrição de algo no corpo ou na mente.

2. A sensação de um membro amputado mostra quanto os sentidos e a mente participam da experiência, assim como a constituição kantiana dos fenômenos no espaço e no tempo admite a distinção entre a presença efetiva de uma coisa, sua representação e a alucinação.

3. As teses sobre a impressão sensível na alma e sua expressão em palavras e letras, recapituladas no início do tratado aristotélico Da interpretação, remetem à investigação sobre a alma, na qual se situa o problema ontológico pressuposto pela expressão.

4. O problema da ontologia hermenêutica pertence à tradição filosófica que investiga a relação entre a alma e o mundo de seus objetos, relação que permite distinguir a personagem Madame Bovary do exemplar do livro que se encontra sobre a mesa.

5. A alma, comparável à mão que apreende os entes sem se confundir com eles, oferece condições para acolher suas impressões, de modo que uma ontologia hermenêutica pode aprofundar o vínculo entre a experiência e o mundo preservando a realidade deste.

6. O sentido do ser precede seu conceito e radica na experiência perceptiva de algo presente, de modo que até a investigação ontológica de Deus, dos anjos ou do ser distinto do ente depende, em sua origem, do encontro com a coisa que precede toda interpretação.