EMERICH CORETH (1919-2006)
Questões Fundamentais de Hermenêutica
A hermenêutica constitui um problema fundamental do pensamento contemporâneo, cuja raiz teológica se expandiu para abranger toda a questão da compreensão nas ciências do espírito e na filosofia.
O termo deriva do verbo grego hermeneuein e significa declarar, anunciar, interpretar, esclarecer e, por último, traduzir — uma multiplicidade de acepções que convergem para a ideia de “tornar algo compreensível”.
Há apenas probabilidade filológica — não certeza — de que a palavra derive de Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem se atribui a origem da linguagem e da escrita.
Em grego, o termo já designava de preferência a compreensão e exposição de uma sentença dos deuses ou de um oráculo de Delfos, que precisava de interpretação para ser corretamente apreendido — remetendo desde então a uma dimensão sacra.
Toda compreensão e interpretação — bíblico-teológica, histórica ou das ciências do espírito — remonta a pressupostos cuja investigação e esclarecimento é tarefa da filosofia.
O problema da hermenêutica torna-se assim um problema fundamental — talvez o problema fundamental — no pensamento filosófico do presente.
A palavra “hermenêutica” foi primeiramente formada e empregada no domínio teológico, surgindo apenas na era moderna — como título de livro, a partir dos séculos XVII e XVIII — no sentido de uma “arte da compreensão” ou “doutrina da boa interpretação” da Escritura.
O problema, porém, é muito mais antigo e mais amplo do que a interpretação bíblica, abrangendo textos profanos de toda natureza.
Obras literárias, testemunhos históricos e velhos textos legislativos exigem igualmente compreensão e interpretação corretas.
A hermenêutica bíblica tem afinidade com a hermenêutica histórico-filológica, pois os textos da Escritura devem ser tratados também como testemunhos literário-históricos, iguais a outros escritos do mesmo gênero.
A hermenêutica bíblica tem também parentesco com a jurídica — em ambas se trata de textos que falam normativa e autoritariamente, com pretensão de validade e obrigatoriedade.
A posição da hermenêutica bíblica é singular: trata-se da palavra de Deus transmitida numa palavra humana e histórica — em escritos elaborados pelos homens, surgidos na história e transmitidos por ela — que deve ser investigada conforme sua origem histórica e seu modo de pensar, ao mesmo tempo que se indaga seu sentido mais profundo: a palavra da Revelação divina.
O problema da hermenêutica bíblica deve ser enquadrado no amplo contexto das ciências do espírito e sobre o fundo dos pressupostos teórico-científicos, metodológicos e filosóficos revelados desde Schleiermacher e, depois, particularmente por Dilthey e Heidegger, chegando a Gadamer, herdeiro e continuador dessa tradição.
No campo teológico, o significado da palavra “hermenêutica” mudou profundamente nas últimas décadas — de “arte prática” que formulava regras de correta interpretação da Escritura para um problema filosófico de primeira ordem.
A hermenêutica antiga exigia o conhecimento das línguas, do ambiente histórico e cultural em que a obra surgiu, a consideração da peculiaridade literária e estilística, da situação concreta e da intenção do autor, e a interpretação do texto particular pelo contexto.
A hermenêutica mais recente, influenciada pelas ciências do espírito e pela filosofia, mostrou gradativamente que subjazem a tudo isso problemas mais profundos e fundamentais.
O que significa afinal “compreender”? Como é possível uma compreensão histórica, desde que cada um possui seu horizonte de compreensão — histórica e linguisticamente concreto — que o antecede e ao qual está preso, condicionando uma determinada “pré-compreensão” do objeto?
Existe algo como um encontro ou fusão de vários horizontes históricos da compreensão? Isso seria possibilitado pela própria história, por uma conexão histórico-causal em que a palavra historicamente pronunciada se efetua e se interpreta no decorrer da história?
Não há na base de tudo isso um entendimento mais original como condição da possibilidade de compreensão histórica — uma autocompreensão e compreensão do ser originalmente humana, que se interpreta historicamente?
Desaparece todo nosso conhecimento num acontecer histórico-causal que condiciona o horizonte sempre mutável da compreensão histórica — ou nos atinge, na própria história, a exigência absoluta da verdade?
O conjunto dessas perguntas indica a problemática filosófica contida na hermenêutica tal como a entendemos hoje — não apenas o problema da interpretação teológica da Escritura, nem somente as questões da compreensão histórica nas ciências do espírito, mas o problema fundamental de ordem filosófica a respeito da compreensão em sua essência e em suas estruturas, suas condições e seus limites.