Cioran

Emil Cioran (1911-1995)

PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, 2001.

Emil Cioran, morto em 1995, conhece há cerca de vinte anos uma notoriedade que nem o niilismo de seu pensamento nem a fatura de seus escritos permitiriam prever — e razões que vão além das filológicas ou biográficas explicam esse sucesso recente.

Embora esses traços constituam aspectos do pensamento de Cioran, não fornecem uma chave que dê acesso à unidade profunda de sua obra — o próprio pensador afirma que todos os seus livros, tanto romenos quanto franceses, “procedem de uma mesma visão, de um mesmo sentimento do ser”, acrescentando: “essa visão não me abandonou. O que mudou foi minha maneira de traduzi-la.”

Na ausência dessa chave, recorreu-se com frequência à biografia e às entrevistas concedidas pelo escritor para explicar escritos percebidos como inclassificáveis.

À diferença dos pensadores que viram na existência o fundamento do Ser e, portanto, da história, para Cioran a existência é o lugar de uma fissura original do Ser.

Esse espírito subversivo, esse “desertor de todas as causas”, não é um niilista de má estirpe — a negação tem um limite: a liberdade.

Destruída a ilusão da história e desmascarada a da teoria, resta um outro desafio: a escrita.

Essa busca intelectual e estética não pode, no entanto, fundar regras morais — ainda que o gosto de Cioran pela fórmula o aproxime dos moralistas franceses do século XVIII.