PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, 2001.
1. Partindo das três formas de desespero distinguidas por Kierkegaard em A Doença para a Morte (não ter consciência de ter um eu, não querer ser si mesmo e querer ser si mesmo), Cioran, sem encontrar como o mestre a paz na fé, experimenta sucessivamente e em vão as diversas fugas de si e os desafios que delas decorrem.
A IMANÊNCIA DO DESESPERO
1. Na primeira situação de desespero inconsciente, o homem que ignora sua natureza de espírito é como o doente que se julga sadio por não sentir a doença, pois o desespero, constitutivo da dialética do espírito, já estava sempre presente e só se revela quando um acontecimento perturbador desperta a angústia e a consciência.
2. Cioran também considera o desespero imanente à vida humana, como atesta a ruptura dolorosa com o paraíso da infância, mas, ao contrário de Kierkegaard, vê na serenidade da inconsciência um estado positivo, o único capaz de dar felicidade ao homem em simbiose com seu mundo, ainda que raro e fadado a não durar.
3. Dessa divergência nasce uma hierarquia do ser oposta à de Kierkegaard, na qual o inorgânico autossuficiente ocupa o topo, seguido pelos vegetais de juventude eterna e pelos animais inocentes, enquanto o homem, animal degradado pela consciência e grande desertor do Ser, permanece sem salvação possível, já que a consciência se alimenta de suas próprias tentativas de fuga.
4. A segunda situação de desespero inconsciente é aquela em que a causa parece exterior, como o poder ou um amor impossível, mas na qual o que realmente desespera o ambicioso que não se tornou César é estar preso ao próprio eu, forma mais comum de desespero, semelhante a uma doença em incubação que consome as forças do indivíduo sem que ele perceba.
5. Todo homem é, assim, virtual ou efetivamente desesperado, pois o desespero é inerente à natureza dialética da consciência, querida por Deus para permitir ao homem alcançar a salvação quando descobre que a manifestação do eterno em si é a própria presença divina.
6. Raras exceções, que tornam o desespero ainda mais amargo, são os seres que, por um amor instintivo do mundo, jamais se desprendem da vida e conservam a ingenuidade destruída pelo conhecimento, cada vez mais escassos num mundo moderno cujo imperialismo da posse e do trabalho incessante embrutece os homens e os mantém num desespero inconsciente, ao passo que a ingenuidade oferecia, como na infância de Rășinari, a alegria virginal da inocência fechada à tragédia e à morte.
A PERMANÊNCIA DO DESESPERO
1. A segunda forma de desespero, em que não se quer ser si mesmo, distingue-se da anterior por uma consciência de si mais desenvolvida, que leva o homem ao silêncio e à solidão, perigo supremo segundo Kierkegaard, mas também caminho para compreender a verdadeira natureza do desespero como essência dialética da consciência condenada a sofrer até a morte.
2. Ao crente resta a fé como antídoto, enquanto ao descrente restam apenas o determinismo e o fatalismo, desespero do espírito que se torna atividade pessoal e o impele a fugir de seu estado ora pelo desejo místico de regressar à imediatidade, ora pelo desafio, que faz um uso desesperado do eterno contido no eu para querer desesperadamente ser si mesmo.
O DESAFIO
1. O desafio, terceira forma de desespero, está infinitamente distante do verdadeiro desespero justamente por estar tão próximo dele, pois, em vez de aceitar a perda do eu para encontrar Deus, o eu afirma-se independentemente de Deus e quer dar forma concreta à sua potência infinita.
2. Essa relação consigo, uma espécie de estoicismo, pode ser passiva, buscando a dissolução extática do eu, ou ativa, impondo-lhe tarefas sobre-humanas que não passam de castelos no ar, mas em ambos os casos o desesperado goza de seu sofrimento, recusa toda ajuda e acaba num orgulho demoníaco que, como nos poetas malditos, se ergue contra a Criação e seu Criador como um anjo caído.
3. Há ainda o desespero do cristão que, extraindo gozo do sofrimento como sinal de eleição, recusa-se a abandonar-se à fé, convertendo o desespero em pecado e elevando-o a uma potência infinita, já que sua medida passa a ser Deus.
4. Essa forma de desespero é a mais tenaz, pois o pecado não consiste em ignorar o bem, mas em não querer compreendê-lo nem segui-lo após a revelação das Escrituras, e, ao contrário do pagão, o cristão dispõe do dogma que faz do desespero e do pecado o meio paradoxal oferecido pela bondade divina para conduzir à fé e à vida eterna.
5. O paradoxo e a dialética, escândalo para o descrente, são o motor de toda a Criação, querida assim por Deus para preservar sua onipotência, de modo que quem não consegue crer atravessa a vida como uma sombra, quem não quer crer perde a alma e o espírito, e somente o caminho de Cristo, aceitação do eu e do sofrimento na fé, conduz à transparência libertadora do dom de si.
6. Todas as atitudes de fuga diante do desespero, seja o esquecimento mundano, o recolhimento ataráxico ou cético, seja o desafio demoníaco, são condenáveis por nascerem da recusa de humilhar-se diante de Deus, quando somente a oferenda da própria fraqueza pode trazer a salvação.
7. Um abismo separa Cioran de Kierkegaard por causa de sua atitude diante do escândalo da Criação, evocado pela palavra de Cristo sobre a felicidade daquele para quem ele não é ocasião de escândalo.
8. Obcecado por esse escândalo, Cioran, antes de escolher o desafio supremo do blasfemo que quer ser ele mesmo contra Deus, percorreu toda a via-sacra do desesperado descrita em A Doença para a Morte, cuja leitura foi essencial para a gênese de Nos Cumes do Desespero e de toda a obra posterior.
A INANIDADE DOS ARREPENDIMENTOS
1. A primeira forma de desespero aparece em Cioran apenas como nostalgia vã do paraíso perdido da infância e da inocência, pois o eu revelado pela consciência arrasta a uma decadência entendida como desprendimento progressivo da existência, cuja expressão são arrependimentos multiplicados pela consciência de sua inutilidade: não ter vivido a vida pura, não ter sido melodia unida ao Universo e, sobretudo, não ter sido a própria vida primordial anterior à individuação.
2. A existência só gera arrependimentos, e o suspiro de ter nascido antes do homem, como vegetal ou animal sem consciência, revela que o nascimento é uma catástrofe irreparável porque contém, com a promessa da consciência, o desespero ligado à obsessão da morte.
A ANIQUILAÇÃO DA MEMÓRIA E A TENTAÇÃO DA LOUCURA
1. Diante da irreversibilidade da situação e da irracionalidade da vida, nem o pensamento nem a ação oferecem saída, e a morte voluntária tampouco é solução, pois, resolvendo tudo, nada resolve, restando ao sofredor apenas a ofensiva de criar um novo eu livre do sofrimento.
2. Essa transformação exigiria aniquilar a memória e viver só no instante, mas existir é projetar-se no tempo rumo à morte, horizonte de toda consciência humana, de modo que o desejo de abstrair-se de si se converte num sonho aterrador atravessado pelo pressentimento da loucura.
3. A loucura, desejável apenas em teoria, é só uma morte aproximada que não liberta inteiramente do espírito e cujos lampejos de lucidez agravam o desastre, razão pela qual o eu deve antes dirigir sua ofensiva para fora, convencendo-se de que o que o desespera é o mundo exterior que o impede de se realizar.
4. O ressentimento contra o fatalismo balcânico e o amor ferido pela Romênia fizeram do engajamento juvenil na extrema direita uma tentativa de fugir do desespero interior por meio da ação política, logo revelada ilusória, pois repousava numa crença ideológica e não numa liberdade conquistada a cada instante, e todo engajamento no finito reconduz à finitude.
A VAIDADE DO SABER
1. Na busca do infinito, todas as tentativas e experiências de Cioran fracassam, porque a finitude é uma realidade obstinada que logo se lembra à consciência.
2. A primeira tentativa é a busca do saber, e a filosofia entusiasma de início por mostrar a capacidade da razão de ordenar o caos, alcançar o universal e vencer a incerteza de quem não tem a graça da fé, já que pensar é insurgir-se contra o mistério.
3. O conhecimento, porém, esbarra em limites internos, pois a exigência de coerência força o pensador a falsear o próprio pensamento e a criar falsas janelas para salvar as aparências, de modo que a totalidade abraçada pela razão não passa daquela que ela própria se deu.
4. O saber revela-se um engodo diante da dor autêntica, que impede toda concentração intelectual, e o pensamento, longe de sublimá-la, só a agrava ao atingir sua essência, já que a reflexão ilimitada da consciência não deixa solução a nenhum problema e converte os pensamentos nutridos pelo sofrimento em aporias.
5. Essas aporias atestam a incapacidade do pensamento diante dos problemas existenciais, e o mundo, tornado exterior, inexplicável e inútil, faz da negação uma lei, de modo que o sofrimento destrói o pensamento ao revelar a inanidade de suas pretensões e sua impotência para resolver as dores humanas.
6. Como o pensamento não consegue reduzir as dualidades nem garantir a unidade no infinito, resta esquecer o eu reflexivo e o corpo recalcitrante, e Cioran, impregnado do misticismo da cultura romena, procura no êxtase a paz que a razão lhe recusa.
AS TENTAÇÕES DO ÊXTASE: A MÚSICA
1. A música surge como primeira esperança de salvação porque atinge uma zona mais profunda que a consciência, o universo imediato dos sentidos, abolindo os limites e sofrimentos do corpo, dissolvendo o eu numa harmonia interior e dando acesso imediato à totalidade que a razão tenta em vão reconstruir.
2. Essa sensibilidade musical só desperta em quem é torturado por uma necessidade metafísica de absoluto, e seu poder de abolir as barreiras entre o eu e o mundo provém, sob influência de Schopenhauer, da lembrança de uma vida anterior à individuação, oferecendo, pela libertação da consciência e do tempo, uma sensação de imortalidade.
3. Essa sensação orgânica de absoluto numa unidade cósmica sem morte define o êxtase, no qual a existência é vivida como melodia, permitindo não uma expansão do eu, mas sua dissolução no Ser e a superação da solidão mortal que o separava do mundo.
4. Mozart é o mais puro alquimista dessa felicidade extática por ter preservado a pureza da infância, enquanto Brahms suscita uma melancolia reveladora sem tormento da dualidade, Wagner exprime o inacabamento infinito da busca humana e Bach, acima de todos, traduz como tragédia angélica a queda no tempo, a nostalgia do paraíso perdido e o exílio terrestre dos anjos.
5. Beethoven, admirado na juventude e depois condenado, é a antítese de Bach, pois sua música demiúrgica e prometeica glorifica o humano contra o divino, encerra o homem na consciência trágica de sua condição e encarna o desafio titânico contra o Criador, ao passo que o êxtase autêntico nasce de um salto na morte pelo esquecimento de si.
AS TENTAÇÕES DO ÊXTASE: O AMOR
1. O amor aos outros, sobretudo aos infelizes na alma, oferece outro salto libertador, pois o sacrifício de si por um valor mais precioso que a própria vida produz uma exaltação da renúncia que, ao chamar outro ser à existência, diviniza quem se sacrifica e une as delícias da aniquilação a um orgulho luciferino.
2. No erotismo o triunfo da vida é imediato e, como na música, provoca um salto na eternidade que suprime a dualidade entre espírito e vida, convertendo o ato sexual em triunfo sobre a animalidade e convidando a uma orgia de tipo dionisíaco, rica em metáforas aquáticas de dissolução, que ergue em cada um um templo dos primeiros começos da vida.
3. A salvação aberta pelo amor é efêmera, pois os sentidos acorrentam também ao orgânico e à finitude, exigindo domínio de si, e quando a carne aperta resta ao revoltado dispersar a obsessão insatisfeita numa fuga desenfreada por ruas e florestas até o esquecimento.
4. Como essa dispersão não apaga a falta e o espírito recai na negatividade da reflexão, somente um amor puramente místico poderia eternizar a comunhão extática, o que parece aproximar Cioran de Kierkegaard, que após o fracasso amoroso buscou refúgio em Deus, nome do absoluto primordial que abole a consciência.
AS TENTAÇÕES DO ÊXTASE: A SANTIDADE
1. Desde a adolescência Cioran foi presa de um apelo mais místico que religioso, que alimentou seu fascínio pela vida dos santos, sinal ao mesmo tempo da tentação de fundir-se no infinito divino e de seu fracasso, não por resistência blasfema à fé, mas porque não era feito para ela.
2. Essa constatação lacônica resulta de uma longa série de tentações místicas e revoltas blasfemas, como mostra Das Lágrimas e dos Santos, diante de um Deus que permaneceu o espelho da ferida aberta de Cioran, desejo de fé condenado ao fracasso porque, ao contrário do imperativo kierkegaardiano, a fé só poderia vir da graça ou de uma disposição natural que lhe faltava.
3. O desejo de fé persistiu porque, falhados o conhecimento e os êxtases musical e erótico, crer numa Palavra que justifica até o sofrimento parecia a última estratégia contra o desespero, mas sem apoio nos sentidos nem na vontade a busca de Deus não traz alívio algum e torna-se o desespero último que começa onde terminam todos os outros.
4. Ocupar-se da santidade é combater a doença com a doença, ideia próxima da análise heideggeriana da angústia, segundo a qual suportá-la até o fim revela a finitude a partir da qual o homem deve dar sentido à vida e assumir sua liberdade, caminho cujo desfecho incerto, estoicismo ou suicídio, Cioran descobriu antes das correntes antipsiquiátricas.
5. Buscar Deus diretamente é terapia votada ao fracasso, pois redobra a negatividade da consciência e revela que o misticismo, como o desapego de Mestre Eckhart, nasce do desejo de aniquilar os instintos, exigindo uma morte antes da morte que gela de pavor quem descobre seu apego às seduções medíocres do mundo, ao amor e até ao próprio desespero, de modo que o homem, feito para escavar Deus desde a Queda, perde-se nessa busca, e Deus aparece como invenção dos enfermos e desesperados que se instala nos vazios da alma.
AS PERVERSÕES DO CRISTIANISMO
1. Nascido da impotência humana para encontrar razões de viver na finitude, o cristianismo encerra primeiro um masoquismo impenitente que faz do amor ao sofrimento, como na autoflagelação, a marca da santidade, perversão sem igual e vício do céu.
2. A segunda perversão, mais dissimulada, é uma megalomania que, sob a humildade e a caridade, aspira ao absoluto e à verdade eterna, tornando desprezível toda conquista temporal, de modo que Deus seria a expressão desviada de uma vontade de poder incapaz de se assumir no mundo, uma criação do ressentimento.
3. Daí a secura do coração e a aridez da consciência de que se queixam os místicos, já que quem está inteiramente voltado à conquista do absoluto não pode mais amar os outros, e os legisladores da Igreja, sobretudo São Paulo, traíram essa vontade de dominação ao transformar o dogma em constituição política.
4. Nascida do ressentimento, a religião só perpetua a negação da vida e do espírito por meio de suas interdições, razão pela qual as filosofias crepusculares, a começar pela de Nietzsche, parecem mais consoladoras.
5. Nietzsche, embora admirado, pecou pela ingenuidade de imaginar o super-homem sem perceber que a dialética negativa da consciência é invencível, restando como método desgastar Deus pensando nele sem trégua até que se torne indiferente, além de uma revolta sem fim contra Cristo, que não redimiu o sofrimento humano e privou os homens do orgulho, única defesa capaz de fazer da dor uma eleição íntima e de enfrentar a tragédia da existência com raiva demoníaca.
A IRREMEDIÁVEL FATALIDADE DE UMA TRAGÉDIA SEM HERÓIS
1. O fracasso da busca mística mostra que as aspirações a uma pura espiritualidade são vãs, pois a realidade do corpo faz do sofrimento, refletido pela consciência, um punhal na carne eterno, e o desespero, doença para a morte sem cura nem alívio, arrasta a um declínio mais dramático que o do herói trágico, que, inocente de sua falta, é redimido pela morte e reintegrado à ordem do mundo.
2. O desesperado metafísico não é culpado perante leis eternas, que não existem, mas é totalmente responsável por sua inaptidão à vida, cuja causa é a reflexão imanente da consciência, o que faz dele um monstro e o leva a invejar o herói trágico, que alcança a redenção pela morte enquanto ao desesperado, sem transcendência, é negada a morte redentora, como já pressentira Hölderlin.
3. A tragédia Empédocles, de Hölderlin, retrata o homem moderno que quer dar sentido à vida de seus semelhantes num mundo sem transcendência, e seu inacabamento, apesar de três versões, atestaria a impossibilidade de encontrar sentido para o sofrimento de quem se vê traído pela vida e pelos deuses.
4. Empédocles, feito rei pelos agrigentinos que o tomam por eleito dos deuses, sente-se culpado de sacrilégio contra a vida, confessa sua mentira e é rejeitado, e, privado pelos deuses da morte redentora, só lhe resta encontrar em si a força para matar-se.
5. O suicídio no Etna não traz redenção alguma, nem o reintegra entre os homens nem entre os deuses, pois estar só e sem deuses já é a morte, isolamento metafísico que suspende o ser num nada sem sentido, efeito de uma maldição destinada aos filhos do céu.
6. Essa convicção é o fundo da obra de Cioran, para quem uma fatalidade secreta, a consciência como fatalidade, conduz o mundo, revelando ilusórias as certezas que fazem agir, antecipando e inibindo todo ato, abolindo o livre-arbítrio e pesando sobre o desesperado como um pecado original anterior ao nascimento, o que leva a crer com Calvino na predestinação desde o ventre materno e a concluir que só resta aprender a ser perdedor.
O ÚLTIMO RECURSO: O ORGULHO
1. Diante do fracasso certo, só a aparência ainda oferece sustentação, e manter a cabeça erguida contra o nada torna-se o desafio do desesperado desiludido, aprendizado difícil porque a menor fraqueza ou concessão às ilusões da época, uma vez refletida pela consciência, arruína todos os esforços.
2. Esse desafio, alcançado por uma vida que se dilata até se tornar indomável, impele o indivíduo a querer ter um destino e ser um caso, e Cioran, liberando a revolta contra a mentira religiosa e a megalomania própria a todo espírito, busca justificar esse orgulho de ser contra o nada no amor ferido pela pátria, que o leva a engajar-se na reconstrução nacional romena como meio de adquirir um rosto.