5 Natural e convencional

CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.

1. A investigação do conhecimento das outras mentes exige situações ótimas de reconhecimento, pois somente nelas a impossibilidade de excluir certas possibilidades revela uma condição geral: conservar os conceitos expõe os limites da certeza, enquanto suspendê-los compromete a própria responsabilidade de responder à existência dos outros.

2. Uma terceira fonte de decepção com os critérios surge quando eles ainda não foram suficientemente estabelecidos para quem os emprega ou quando o caso examinado não os satisfaz de maneira plena e inequívoca.

3. Os problemas de avaliação e de interpretação de estrangeiros não constituem automaticamente desvios conceituais, pois podem decorrer tanto da ausência de um conceito convincente quanto do desconhecimento dos conceitos efetivamente empregados, enquanto um caso limítrofe reconhecível pode representar uma descrição informativa sem revelar qualquer defeito nos critérios.

4. A possibilidade de que o outro seja diferente sustenta uma forma natural de decepção conceitual, da qual nasce a objeção de que nenhum esclarecimento da gramática da dor garante que aquilo que parece sofrimento não seja outra atividade, permanecendo aparentemente intacta a separação entre comportamento exterior e experiência interior.

5. As expressões “comportamento” e “a própria dor” também constituem descrições, cuja predominância na reflexão filosófica precisa ser esclarecida, embora descrever alguém exclusivamente em termos comportamentais já faça sua dor aparecer como algo separado.

6. Reconhecer como canto aquilo que inicialmente parecia um grito exige compreender as circunstâncias e o sentido dessa atribuição, pois a aplicação de um conceito fora de suas condições habituais perde sua força ordinária e não se esclarece mediante uma simples estimativa de probabilidade.

7. Se manifestações aparentemente dolorosas constituírem a maneira habitual de alguém chamar seus animais, a descoberta não obriga a abandonar os critérios de dor, mas a deixar de classificar aquelas manifestações como comportamento doloroso, restringindo a dúvida àquela pessoa em vez de estendê-la a todo conhecimento possível.

8. A hipótese de alguém sofrer mediante manifestações semelhantes às nossas expressões de alegria e encontrar consolo naquilo que nos causa sofrimento pretende questionar a ligação entre experiência e expressão, imaginando uma diferença integral que não se deixe reconduzir a circunstâncias excepcionais já compreensíveis.

9. A possibilidade de reações radicalmente diferentes exige perguntar como seria possível conversar, agir e conviver com essa pessoa, pois sua importância reside nos limites práticos do reconhecimento mútuo, frequentemente encobertos quando a dificuldade de conhecer os outros é convertida exclusivamente num problema metafísico.

10. A distinção entre normalidade e anormalidade não pressupõe necessariamente uma teoria anterior aos critérios, pois estes constituem aquilo que qualquer teoria precisaria explicar e remetem sobretudo às condições e aos limites das práticas compartilhadas.

11. A satisfação dos critérios continua parecendo exigir a garantia de que seu objeto realmente existe, como se, sem essa garantia, os critérios fossem incapazes de cumprir a finalidade para a qual teriam sido introduzidos.

12. A diferença aparente entre objetos publicamente avaliáveis e uma dor inacessível ao observador alimenta a suspeita de que aceitar formas de vida significa apenas pressupor a aplicabilidade dos critérios, deixando sem fundamento racional a certeza de que o outro possui aquilo que lhe atribuímos.

13. A resistência à concepção da vida interior como conjunto de objetos privados procura preservar o contato com a interioridade humana, mas pode ser interpretada como negação das sensações, revelando a força da imagem segundo a qual possuir uma vida interior equivaleria a conter alguma coisa oculta.

14. A exigência de relações não contingentes entre estados físicos e psicológicos pretende superar a insuficiência das correlações empíricas, mas conserva a imagem problemática de dois elementos separados cuja conexão precisaria explicar como o comportamento manifesta uma experiência.

15. Reconhecer que alguém se coça porque sente coceira ou que um bebê chora porque sofre não depende necessariamente de inferir estados ocultos a partir de correlações, pois a compreensão dessas atividades já integra o conhecimento de suas razões e das circunstâncias que tornam uma explicação pertinente.

16. As explicações dos motivos para alguém tornar-se psiquiatra dependem de um conhecimento compartilhado sobre desejos, sentimentos e práticas, cuja articulação assume a forma de uma história, mostrando que a investigação psicológica precisa saber utilizar aquilo que ordinariamente já se conhece de seus objetos.

17. Os critérios esclarecem simultaneamente a ação de alguém e a relação com aquilo que nele se passa, permitindo compreender um acontecimento mediante sua história e vinculando aquilo que se chama ou considera alguma coisa à maneira de narrá-la.

18. A possibilidade de comunicar fatos depende de uma concordância nas avaliações e nos interesses que tornam algo digno de ser dito, de modo que compreender uma fala envolve responder ao desejo nela expresso e reconhecer que um discurso desligado de qualquer interesse significativo pode tornar-se coletivamente vazio.

19. As fórmulas que esclarecem aquilo que se chama alguma coisa procuram superar a imagem de uma relação entre duas entidades separadas, embora esse procedimento possa produzir justamente a impressão de um behaviorismo que pretendia evitar.

20. A afirmação de que um processo interior necessita de critérios exteriores exige esclarecer o que autoriza sua classificação como processo interior, mas sua formulação também expõe a tentação de considerar esses critérios incapazes de alcançar aquilo cuja presença deveriam tornar reconhecível.

21. A expressão “processo interior” precisa ser interrogada em vez de aceita como explicação suficiente, pois a questão decisiva não consiste na necessidade evidente de sinais para informar o outro, mas na suspeita de que esses sinais provenham de uma fonte cuja realidade nunca poderia ser verificada.

22. A caracterização gramatical da expectativa como estado, em vez de processo, desloca a investigação para aquilo que efetivamente se atribui a alguém e para as diferenças entre as evidências pertinentes a cada conceito, permitindo perguntar com precisão o que se desconhece ou aquilo de que se estaria quase certo.

23. A expectativa, assim como a opinião, a esperança, o conhecimento e a capacidade, atribui-se a uma pessoa, mas sua natureza só se esclarece mediante perguntas sobre os critérios de sua formação, alteração e persistência, cuja articulação mostra o que se trata gramaticalmente como estado.

24. A gramática da expectativa delineia uma posição a partir da qual se aguarda determinado acontecimento, distinguindo sua história da depressão, da ambição e da fé, cujas relações entre situação presente, movimento e finalidade seguem configurações diferentes.

25. A importância de distinguir estados, disposições e traços de caráter não reside numa classificação previamente concluída, mas na investigação de sua essência mediante a gramática, substituindo a procura de uma definição pela explicitação de seus usos e relações.

26. A classificação de uma condição como interior também exige critérios, pois a interioridade não significa apenas ocultamento ou inacessibilidade, podendo designar uma característica que permeia profundamente a pessoa e, justamente por isso, se torna mais manifesta.

27. O interesse prático ou espiritual pela condição de alguém pode afastar temporariamente a preocupação cética, mas a questão filosófica permanece sendo se a dúvida pode surgir racionalmente e, uma vez formulada, receber uma resposta igualmente racional.

28. A afirmação de que os critérios são exteriores só parece estabelecer sua insuficiência quando se pressupõe uma oposição ainda não esclarecida com alguma coisa interior, cuja identificação precisa ser solicitada em vez de simplesmente presumida.

29. Transformar a observação sobre critérios exteriores numa tese geral conduz ao esvaziamento daquilo que se pretendia dizer, pois a investigação abandona a identificação de estados determinados e passa a exigir apenas a garantia indefinida de que alguma coisa ocorre no outro.

30. A palavra “exterior” indica uma posição relativa a um centro e, por si mesma, não acrescenta nem retira poder dos critérios, mas uma concepção equivocada da interioridade pode fazer desaparecer tanto esse centro quanto a própria inteligibilidade da oposição.

31. Imaginar a própria posição como exterior conduz à representação de um espaço interior inacessível no outro, imagem sustentada por figuras culturais da entrada da vida no corpo e de sua possível partida.

32. A diferença entre conhecer alguém mediante critérios e experimentar a própria condição parece estabelecer uma superioridade radical do autoconhecimento, fazendo o acesso à vida alheia parecer um substituto empobrecido.

33. A relação com a própria dor pode ser mais íntima do que uma relação de certeza, tornando inadequada sua descrição como conhecimento, mas essa observação não se estende automaticamente ao pensamento, cujos usos admitem situações em que alguém finalmente reconhece aquilo que estava pensando.

34. O desconhecimento de si pode envolver a recusa ou a incapacidade de aplicar corretamente critérios já possuídos a características como inveja, ambição ou autodestrutividade, de modo que o reconhecimento alcançado representa uma passagem da obscuridade à clareza, em vez de uma simples progressão da dúvida à certeza.

35. A impressão de que o outro ocupa uma posição superior nasce da transformação do desejo de conhecê-lo no desejo de conhecer aquilo que ele supostamente conhece, embora a relação dele com suas sensações consista em tê-las e não em aprendê-las por uma via privilegiada.

36. A afirmação de que se conhece a sensação alheia apenas pelo comportamento perde parte de seu sentido quando a restrição introduzida por “apenas” não estabelece uma alternativa inteligível, apesar de conservar a aparência de uma observação inteiramente evidente.

37. A percepção desse esvaziamento não elimina imediatamente a convicção de que algo verdadeiro estava sendo afirmado, pois a diferença entre aprender sobre a condição alheia e vivê-la diretamente continua a alimentar a busca de uma formulação adequada.

38. A reação de irritação diante da investigação gramatical nasce da impressão de que uma evidência está sendo negada, enquanto as perguntas de aparência retórica podem exigir uma interrogação autêntica sobre aquilo que produz essa impressão.

39. A filosofia moderna frequentemente parece negar o evidente enquanto declara preservá-lo, como ocorre no ceticismo, no positivismo e no idealismo, tornando instável a distinção entre assegurar o significado ordinário das afirmações e retirar delas aquilo que lhes conferia importância.

40. A garantia de que as coisas existem num sentido compatível com uma doutrina filosófica pode deixar intacta a inquietação sobre a preservação daquilo que anteriormente se julgava conhecer, pois assegurar determinado sentido de existência não equivale necessariamente a conservar a confiança ordinária no mundo.

41. A crítica à formulação cética não nega que o outro possa sofrer enquanto alguém não sofre, mas recusa que dessa diferença decorra automaticamente uma afirmação inteligível sobre conhecimentos privados e inacessíveis, cuja aparência de evidência depende da confusão entre essas duas questões.

42. Os sentimentos característicos de uma expectativa não bastam para constituí-la, pois a mesma sensação pode tornar-se estranha quando ocorre fora das circunstâncias em que algo efetivamente pode ser esperado.

43. O conhecimento das qualidades da própria experiência não determina sozinho a possibilidade de descrevê-la como expectativa, pois essa descrição depende também de circunstâncias reconhecíveis segundo critérios compartilhados.

44. As circunstâncias que constituem uma experiência como expectativa não se confundem com as oportunidades particulares que justificam o observador ao atribuí-la, pois também a própria pessoa precisa dessas circunstâncias para poder afirmar adequadamente aquilo que experimenta.

45. Os sentimentos e as atividades só constituem determinados estados em condições específicas, porque os critérios pertencem aos fatos gerais da natureza e da vida humana que sustentam o significado dos conceitos, impedindo que um instante completamente desligado de qualquer contexto constitua, por si só, amor ou esperança.

46. Uma paixão pode intensificar-se num intervalo brevíssimo, mas sua inteligibilidade depende de preparações, consequências e relações temporais coerentes, pois o decisivo não é a duração isolada da sensação, mas a história lógica que permite reconhecê-la como aquela paixão.

47. A tentativa de separar aquilo que uma experiência realmente é daquilo que se pode chamá-la exige uma descrição inteligível dessa suposta diferença, enquanto a insistência individual numa classificação pode conduzir tanto à aceitação de sua aplicação quanto ao reconhecimento de uma maneira anormal de viver o conceito.

48. O autoconhecimento depende de compreender o lugar e o alcance dos sentimentos nas circunstâncias em que ocorrem, empregando critérios de maneira diferente daquela envolvida no conhecimento alheio, pois dispensar a observação de sua presença não equivale a dispensar seu conhecimento.

49. Uma sensação localizada no dente não basta isoladamente para constituir aquilo que se chama dor de dente, enquanto a possibilidade de um sofrimento sem história caracteriza especificamente o conceito de dor e pode fazer o corpo aparecer como o próprio campo em que ela se concentra.

50. Conhecer-se envolve situar-se no mundo e reconhecer quais acontecimentos contam como realização de uma intenção, expectativa ou afirmação, exigindo compreender as possibilidades dos fenômenos e as circunstâncias que permitem descrevê-los de maneiras distintas.

51. A relação entre alma e corpo e entre linguagem e mundo esclarece-se mediante a apreciação e a aceitação das formas de vida compartilhadas, enquanto a experiência de uma separação entre intenção, realização e consequência pode expressar o desejo de escapar à responsabilidade por sua manutenção.

52. A filosofia tradicional frequentemente substitui a dificuldade prática dessa relação por garantias metafísicas ou impossibilidades teóricas, mas o ceticismo pode exprimir uma recusa profundamente humana da própria humanidade, cuja força não se desfaz mediante uma refutação simples.

53. A dúvida sobre o conhecimento dos outros costuma coexistir com uma confiança excessiva no conhecimento de si, enquanto as formas mais profundas de confissão pressupõem que a expressão da própria interioridade alcança algo igualmente oculto nos demais.

54. O enfraquecimento da confiança numa comunidade pode levar à escrita dirigida a destinatários futuros, anônimos ou imaginários, mas deixa em aberto o destino daqueles que desejam apenas conversar e não encontram palavras capazes de sustentar essa ligação.

55. Os critérios de identificação específica admitem recurso a manuais e especialistas, enquanto os critérios gramaticais envolvem uma igualdade no direito de perguntar e responder, ainda que existam diferenças de capacidade para esclarecer ou contestar suas aplicações.

56. As convenções que orientam os critérios gramaticais não se reduzem a nomes escolhidos ou costumes facilmente substituíveis, pois enraízam-se nas condições gerais da vida humana e nas relações entre intenção, ação, expressão e história, revelando a profundidade convencional da própria natureza humana.

57. As diferenças culturais nas esperanças, nos temores e nos ritos preservam relações gramaticais que permitem reconhecer essas atividades como humanas, embora a reflexão possa tornar estranhas tanto as práticas alheias quanto aquelas que habitualmente parecem familiares.

Normal e natural

1. A centralidade da normalidade e da anormalidade acompanha o reconhecimento de que aprender uma linguagem significa ingressar numa cultura, cujo ensino precisa terminar antes de assegurar tudo o que será aprendido, deixando ao aprendiz a responsabilidade de prosseguir sozinho rumo à participação ou ao isolamento.

2. A separação de uma criança incapaz de continuar a contagem após um gesto de incentivo dramatiza a fragilidade dos fundamentos pelos quais uma comunidade pode classificar e excluir seus membros.

3. A inquietação diante dessa exclusão exige perguntar se as distinções mais graduais de nossas próprias instituições são efetivamente mais racionais, sobretudo quando o afastamento depende do desempenho escolar, da aparência, das posses ou das palavras empregadas.

4. A ordenação de vogais segundo graus de claridade pode parecer uma anormalidade perceptiva, embora também permita reconhecer algum sentido na resposta e torne necessário esclarecer aquilo que se pretende explicar ao atribuir ao outro uma sensibilidade diferente.

5. A identificação da mesma nota em pontos distintos de uma escala exige distinguir uma descrição da reação observada da hipótese de uma diferença adicional na experiência auditiva, pois afirmar que duas pessoas ouvem coisas diferentes pode não acrescentar nada ao desacordo já conhecido.

6. A divergência na audição pode ser compreendida como uma resposta natural diferente da nossa ou simplesmente classificada como anormal, mas a importância atribuída a essa diferença revela também as decisões pelas quais se concede lugar ao outro ou se o transforma em excluído.

7. A continuação inesperada de uma série numérica pode expressar uma compreensão natural da regra diferente daquela pretendida pelo ensino, assim como alguém pode reagir a um gesto de indicação seguindo a direção oposta à habitual.

8. A perturbação diante dessas respostas não decorre de sua completa ininteligibilidade, pois é possível descrevê-las, mas da impotência de tornar a própria orientação compreensível a alguém que parece capaz de entendê-la, experiência que ameaça a confiança na própria inteligibilidade.

9. A comunicação depende de uma sintonia nas reações e nos juízos cujo alcance não pode ser fundamentado por algo mais profundo, de modo que o encontro de seus limites devolve cada participante à própria natureza e à responsabilidade de ocupar sua posição sem suprimir a do outro.

10. A dificuldade não reside apenas em descobrir os limites do entendimento, mas em precisar estabelecer quando a divergência deverá ser aceita como definitiva, aparentemente sem outro fundamento além da própria posição.

11. A prática de vender madeira segundo a área ocupada pelas pilhas, independentemente de sua altura, desafia a possibilidade de convencer os vendedores de que uma simples redistribuição das toras não aumenta a quantidade disponível.

12. A declaração de que a discussão chegou ao fim pode refletir apenas o esgotamento de um interesse específico, como a busca de compradores ou vendedores adequados, sem demonstrar que outras formas de compreensão seriam impossíveis.

13. A coerência da prática comercial pode tornar-se inteligível mediante o conhecimento das condições de armazenamento, transporte, construção e propriedade, pois novas necessidades arquitetônicas ou econômicas podem transformar tanto a utilidade da madeira quanto o sentido de expressões relativas à sua quantidade.

14. A existência de compra e venda não exige que o preço resulte de um cálculo proporcional do valor, como mostra a possibilidade de preços fixos ou determinados pela necessidade pessoal, enquanto interpretar essas práticas como loucura pode revelar os limites da imaginação, da generosidade ou dos compromissos de quem as julga.

15. A contingência histórica de atividades como calcular e inferir não elimina as exigências internas que definem sua realização, pois, uma vez constituídas, elas dependem de procedimentos e concordâncias que permitem reconhecê-las, ensiná-las e praticá-las em comum.

16. A abordagem antropológica da necessidade não a reduz a uma decisão arbitrária, pois aquilo que se reconhece como necessário permanece fora do controle da vontade, embora suas condições históricas e suas aplicações possam mudar sem que se conheça antecipadamente tudo o que será aceito como instância de uma prática.

17. Mesmo as regras aparentemente convencionais de um jogo servem a exigências ligadas à sua estrutura e às capacidades humanas, de modo que certas proporções contingentes revelam possibilidades e limites sem os quais a experiência daquele jogo não existiria.

18. A possibilidade de alterar convenções decorre de sua vinculação a projetos cuja realização pode admitir procedimentos melhores, tornando a liberdade de reunião indispensável para que os participantes examinem suas práticas e compreendam a finalidade daquilo que tratam como necessário.

19. O domínio de uma prática permite reconhecer como transformá-la ou por que abandoná-la, de maneira que revoluções filosóficas, religiosas, artísticas e científicas podem nascer da tentativa de conservar sua ideia fundamental, produzindo divergências nas próprias reações naturais e fazendo diferentes épocas históricas coexistirem numa mesma pessoa.

20. A presença de exemplos matemáticos na investigação da normalidade exige compreender sua função filosófica, independentemente de uma avaliação especializada das posições sobre lógica ou fundamentos da matemática.

21. As capacidades elementares de calcular e inferir pertencem à naturalidade da linguagem, enquanto a continuação de uma série oferece uma imagem da posse de conceitos como capacidade de aplicar palavras em novos contextos sem precisar formular os critérios que orientam cada aplicação.

22. Os exemplos de saber continuar tornam visível a transmissão da linguagem e da cultura, mostrando que a força dos critérios depende de uma naturalidade compartilhada e que o poder de ensinar encontra seu limite na separação do outro.

23. A naturalidade envolvida em tomar algo como evidente por si mesmo manifesta-se quando as consequências de uma regra parecem já estar determinadas porque sua aplicação ocorre espontaneamente, sem exigir uma nova decisão a cada passo.

24. Saber continuar uma série ou empregar uma palavra significa encontrar naturalidade em sua sequência e permitir que a linguagem conduza a expressão, embora aquilo que parece evidente dependa de uma história de interesses humanos que precisa ser descoberta e não pode ser escolhida livremente.

25. A familiaridade pode transformar-se mediante instrução, prática e experiência, mas nem toda aprendizagem alcança a mesma profundidade, como mostram os usos de contagem e medição que permanecem especialmente ligados à língua materna.

26. A tarefa modernista de descobrir o que pode contar como obra de arte pressupõe exemplos anteriormente reconhecidos e envolve a formação de novas convenções e a educação do gosto, da decisão e da intuição, revelando sob o poder das convenções os limites da própria natureza humana.

27. Uma criança pode aprender a provocar a repulsa que passou a reconhecer como confirmação de sua existência, mas uma resposta que recuse essa reação esperada pode ensinar-lhe uma possibilidade nova de aceitação, mostrando que a liberdade de responder não se restringe a figuras excepcionais.

28. As narrativas matemáticas sobre práticas estranhas podem ser lidas como dramatizações da infância e dos limites da educação, cuja aparente eficácia frequentemente se confunde com a aprendizagem das respostas esperadas, sem assegurar que a compreensão pretendida tenha realmente ocorrido.

29. O esgotamento das razões pode conduzir tanto à exclusão do aprendiz quanto ao reexame daquilo que parecia evidente, especialmente quando suas perguntas revelam que as respostas disponíveis não bastam para sustentar com responsabilidade os próprios costumes e convicções.

30. Reconhecer que certas conclusões foram apenas absorvidas permite interrogar os fundamentos e as finalidades das convenções, fazendo da filosofia um confronto entre a cultura e a vida individual por meio das possibilidades que suas palavras e critérios permitem imaginar.

31. A filosofia pode constituir uma educação de adultos, pois a maturidade física não encerra a necessidade de formação e a comunicação séria expõe a exigência de transformar as próprias reações naturais, mudança cuja profundidade permite compreendê-la como conversão e renascimento.