CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.
Prefácio
1. A reunião de escritos provenientes de quatro períodos distintos ultrapassa a revisão da tese de doutorado A reivindicação da racionalidade, apresentada a Harvard em 1961, pois incorpora tanto trabalhos anteriores à maior parte das publicações já realizadas quanto reflexões posteriores a todas elas.
2. O encontro com as conferências e o seminário de J. L. Austin em Harvard, em 1955, provocou uma transformação decisiva no percurso filosófico, interrompendo a preparação de uma tese sobre a ação humana mediante procedimentos de investigação associados à filosofia da linguagem ordinária.
3. A investigação das implicações dos procedimentos de Austin para a filosofia moral conduziu à compreensão da competência moral como capacidade de explicar, justificar e elaborar as próprias ações, vinculando o conhecimento de si à constituição do sujeito e reconhecendo no discurso moral tanto o debate público quanto o exame íntimo das responsabilidades e das relações com os outros.
4. A assimilação dos procedimentos de Austin pela epistemologia tradicional, realizada por Thompson Clarke, revelou que a linguagem ordinária pode sustentar e desestabilizar essa tradição, enquanto o estudo das Investigações filosóficas tornou progressivamente perceptível a ligação entre a escrita filosófica e o problema do outro.
5. A articulação entre a escrita e o problema do outro permitiu aprofundar a tentativa de reaproximar as tradições filosóficas de língua inglesa e continental, até que a necessidade de compreender sua separação se transformasse na investigação da divisão entre filosofia e literatura no interior de uma mesma cultura.
6. A preservação das possibilidades filosóficas abertas pela recepção de Austin e das Investigações filosóficas prevaleceu sobre a atualização sistemática do trabalho diante de novos movimentos intelectuais, pois a incorporação parcial dessas influências à filosofia acadêmica americana parecia neutralizar caminhos cuja fecundidade ainda precisava ser demonstrada.
7. A centralidade das Investigações filosóficas exigiu conquistar certa liberdade em relação à sua influência para desenvolver uma investigação própria, de modo que a ausência de um exame sistemático dos demais escritos tardios de Wittgenstein corresponde à busca de formas de escrita capazes de prolongar e, por vezes, negar seus procedimentos.
8. A composição definitiva preserva cerca de três quartos da tese original, que constituem aproximadamente metade do volume, mantendo a estrutura das partes Dois e Três, substituindo a antiga introdução e combinando fragmentos anteriores com novos desenvolvimentos na parte Um.
9. A circulação independente da tese, sua utilização por outros pesquisadores e sua consulta frequente nos arquivos de Harvard contribuíram para impedir seu abandono, embora permanecesse a dificuldade de publicar escritos que já não poderiam ser produzidos da mesma maneira no presente.
10. A interpretação da filosofia tardia de Wittgenstein envolve a incerteza quanto à necessidade e à originalidade do que ainda pode ser dito, sobretudo quando se reconhece que a forma de sua obra pertence ao próprio pensamento e que sua expressão parece simultaneamente insuperável e aberta a algo ainda não expresso.
11. A recepção de Wittgenstein e Austin permanece historicamente incompleta enquanto as transformações pessoais provocadas por seus pensamentos não encontram expressão pública, situação ligada à resistência dessas filosofias à profissionalização e, no caso das Investigações filosóficas, à exigência de uma conversão que divide tanto o público quanto cada leitor.
12. A crítica filosófica pode exigir uma transformação dos próprios interesses e critérios de importância, tornando a aparente destruição de certezas uma experiência de conversão que expõe quem permanece na filosofia a dúvidas sobre seu lugar, suas capacidades e a existência de um campo adequado ao seu trabalho.
13. Os quatro períodos de elaboração compreendem a redação da tese em 1961, a reformulação realizada em 1970–1971, o desenvolvimento decisivo da parte Quatro em 1973–1974 e a conclusão em 1977, num percurso em que a revisão dos critérios e do problema das outras mentes desembocou na relação entre reconhecimento e esquiva e na compreensão do ceticismo acerca dos outros como tragédia, assumindo a escrita a forma de um diário filosófico cuja autonomia dos segmentos favorece a expressão aforística.
14. A elaboração filosófica permaneceu inseparável das aulas, dos seminários e das conversas, especialmente durante os anos de Berkeley entre 1957 e 1961, quando o diálogo contínuo com estudantes e colegas constituiu uma experiência concreta de comunidade intelectual possibilitada, em parte, pelas obras de Austin e Wittgenstein.