Walden

CAVELL, Stanley. The Senses of Walden. Nova Iorque: Viking Press, 1972/1992.

OS SENTIDOS DE WALDEN

REFLETINDO SOBRE EMERSON

UM ESTADO DE ÂNIMO À LA EMERSON


Que esperança há em um livro sobre um livro? Meu interesse por essa questão da crítica, enquanto escrevia meu livro sobre Walden, residia em determinar por que Walden trata, em si, de um livro, de sua própria escrita e leitura; e em realizar certas experiências para determinar como um texto filosófico é inspirado por outro, por que a história da filosofia é uma história dessas inspirações e o que, consequentemente, constitui um texto original, ou iniciador. Dessa perspectiva, Walden surgiu e me atraiu sob uma sucessão de perspectivas. Foi escrito em um momento, por assim dizer, pré-filosófico de sua cultura, um momento ainda primitivo no que diz respeito à sofisticação ou profissionalização da filosofia, quando a filosofia, a literatura e a teologia (assim como a política e a economia) ainda não haviam se isolado umas das outras, mas quando essas separações já podiam ser sentidas como iminentes, para o bem ou para o mal. Esse momento pré-filosófico, medido no tempo americano, ocorreu antes que as tradições filosóficas alemã e inglesa começassem a se afastar uma da outra, e eu esperava que, se conseguisse mostrar que Walden cruzava meu próprio campo filosófico, pudesse, assim, reencenar uma antiga troca entre essas tradições. (Presumo a rima de alguns dos conceitos que enfatizo — por exemplo, os do estranho, do professor, do cotidiano, do amanhecer, do clarear e da resolução — com conceitos presentes em Nietzsche e em Heidegger.)

Perguntaram-me, a respeito da minha abordagem da dissociação entre a escrita e a fala, que relação proponho entre o que afirmei e o que está implícito na ideia de literatura como “écriture”, tal como é abordada nos escritos de Jacques Derrida e Levi-Strauss. Por um tempo, pensei em dizer algo a respeito neste livro, mas acabei concluindo que essa tentativa seria equivocada neste contexto, por várias razões: (1) O que eu tinha a dizer sobre a declaração de Walden a respeito da escrita em si foi formulado antes de eu conhecer as visões pertinentes desses autores; por isso, pareceu-me que seria irrelevante ou presunçoso entrar em uma disputa filosófica sobre uma questão que Walden apenas ilustraria, e não inspiraria. (2) Ainda não conheço nem compreendo as visões pertinentes desses autores suficientemente bem para contestá-las ou concordar com elas. Se, por exemplo, eles sugerem que a palavra escrita (em oposição à falada) é retrógrada como veículo de expressão cultural (em oposição a culta), então não concordo, e certamente o autor de Walden também não concorda. Ambas as formas de expressão haviam se tornado, em sua opinião, igualmente retrógradas e voltadas para o futuro. Sua insistência na escrita, como tal, não tinha o objetivo de mistificar seu pensamento e, assim, protegê-lo do vulgar; pretendia, ao contrário, demonstrar o esoterismo assustador da linguagem de sua cultura tal como era, para preservar suas palavras contra o desejo insano de prejudicá-las e negá-las — como se seu público não fosse analfabeto, mas disfásico. (3) Minhas observações sobre a escrita em si não pretendem ser generalizações relativas a toda a literatura, mas sim reconhecimentos específicos da intenção deste escritor neste livro, em particular duas fases dessa intenção: fundamentar sua conquista da condição da escrita em si especificamente em sua conquista de uma Escritura genuína; e alarmar sua cultura recusando-lhe sua voz, ou seja, negando seu consentimento tanto à chamada sociedade quanto ao que chamo de “conspirações” de silêncio desesperado que impedem que essa sociedade seja dele, ou de qualquer um. Essa recusa não é, de fato — embora o seja na representação —, uma retirada; é um confronto, um retorno, um voltar-se constante para seus vizinhos. Isso significa, em primeiro lugar, que ele teve de se estabelecer como vizinho; o que, em seguida, significa estabelecer-se como estranho; o que, por sua vez, significa estabelecer o conceito e o reconhecimento de vizinhos e estranhos; isso significará estabelecer seu leitor como seu estranho.