CASTORIADIS, Cornelius. L'institution imaginaire de la société. Paris: Éditions du Seuil, 1975.
6. A instituição histórico-social: indivíduos e coisas
1. Tudo o que existe se presta parcialmente a uma organização identitária-conjuntista, mas nenhuma organização desse tipo consegue esgotá-lo, pois a possibilidade efetiva de distinguir e categorizar o existente convive com a insuficiência, as lacunas e as incoerências que essas determinações acabam revelando.
2. A história da física oferece uma demonstração privilegiada dessa situação, na qual as transformações do conhecimento não podem ser compreendidas como simples aproximação progressiva de uma verdade definitiva nem como sucessão de rupturas epistemológicas abstratamente enunciadas.
3. Os impasses da física contemporânea remetem a um modo de ser que ultrapassa a lógica identitária, de maneira que suas eventuais soluções não eliminariam o surgimento de novos enigmas nem tornariam inteiramente inteligíveis, segundo essa lógica, as relações entre teorias historicamente distintas.
4. A insuficiência das categorias identitárias se intensifica diante do histórico-social e da constituição do indivíduo, exigindo pensar conjuntamente a instituição social e a psique como imaginação radical, cujo fluxo representativo não se submete integralmente à determinação.
I. O modo de ser do inconsciente
1. O inconsciente desconhece o tempo identitário e a exclusão dos contrários, existindo como fluxo indissociavelmente representativo, afetivo e intencional cuja organização não pode ser apreendida pelas exigências habituais de distinção e determinação.
2. As representações oníricas e infantis não se deixam decompor em unidades claramente separadas, pois aquilo que a interpretação traduz como substituição de um termo por outro pode existir psiquicamente como presença simultânea e indistinta de figuras que a linguagem desperta distingue.
3. A redução da condensação e do deslocamento à metáfora e à metonímia subordina indevidamente o inconsciente à linguagem da vigília, encobrindo que suas representações diferenciadas emergem de configurações arcaicas cuja separação constitui o verdadeiro problema a esclarecer.
4. A representação é intrinsecamente não decomponível em elementos definitivamente delimitados, porque suas remissões permanecem indefinidas e permitem que aquilo que nela não está também participe de sua presença, sem obedecer a regras determinadas de implicação ou consequência.
5. A associação entre representações não consiste em relacionar termos previamente independentes, mas em manifestar e transformar um copertencimento cujos componentes e modalidades se redefinem durante o próprio processo associativo.
6. A representação constitui uma multiplicidade inconsistente que não é simples unidade nem pluralidade de elementos determinados, pois suas proximidades, distâncias e relações podem alterar-se continuamente sem encontrar limites comparáveis aos dos objetos físicos.
7. A linguagem permite fixar provisoriamente fragmentos do fluxo representativo como referências de orientação, mas esses recortes não devem ser confundidos com o movimento psíquico que procuram esclarecer nem suportam uma reconstrução científica integral de seu sentido.
8. A possibilidade de interpretar representações inconscientes e de descrevê-las por um aparelho psíquico organizado suscita a questão de saber se essa inteligibilidade restabelece efetivamente uma ordem lógica ou apenas introduz outra perspectiva sobre seu modo de ser.
9. A interpretação do sonho não elimina sua existência específica enquanto representação, assim como uma explicação física da cor não suprime seu ser sensível, sendo ilegítimo converter a descoberta de um significado em dissolução ontológica do fenômeno interpretado.
10. Nenhuma redução do imaginário a conteúdos reais ou racionais esclarece por que o sentido somente pode apresentar-se na psique como representação, nem elimina a existência e o modo de ser próprios dessa apresentação imaginária.
11. A interpretação psicanalítica constitui uma atividade prático-poética singular, cujos sentidos permanecem vinculados ao processo de transformação do sujeito e podem ser continuamente reelaborados, sem se reduzirem a equivalências generalizáveis ou verificáveis segundo critérios usuais.
12. A impossibilidade de interpretar inteiramente um sonho não decorre apenas das resistências circunstanciais do sujeito, mas também da incompletude essencial de suas conexões, reconhecida pela distinção entre sonhos inacessíveis à interpretação e a impossibilidade de esgotar mesmo os sonhos interpretados.
13. O umbigo do sonho designa um entrelaçamento de pensamentos que permanece insondável porque suas ramificações se prolongam indefinidamente pela rede psíquica, da qual o desejo onírico emerge em um ponto de particular densidade.
14. O sentido do sonho é essencialmente interminável e indeterminado, de modo que a interpretação encerra provisoriamente em formulações aquilo que, como magma de representações, intenções e afetos, não possui por si mesmo uma conclusão determinada.
15. A tentativa de ordenar os sentidos incompatíveis do inconsciente mediante sua distribuição entre instâncias coerentes encobre sua indistinção constitutiva, pois a ambivalência, a divisão do eu e a coexistência de injunções inconciliáveis persistem no interior das próprias instâncias.
16. A ausência de lógica identitária no inconsciente não resulta da justaposição de várias lógicas coerentes, mas de seu modo de ser como magma produzido e continuamente manifestado pela imaginação radical.
II. A questão da origem da representação
1. A descoberta freudiana da importância do imaginário convive com tentativas de reduzi-lo a acontecimentos reais, causas positivas ou heranças filogenéticas, revelando a persistência de pressupostos deterministas que encobrem o alcance de sua própria descoberta.
2. A centralidade e a relativa autonomia da fantasia evidenciam a ação indispensável da imaginação na vida psíquica, mas deixam aberta a questão de sua relação com os demais processos, da origem de seus conteúdos e da fonte de sua eficácia.
3. A pulsão somente alcança existência psíquica mediante uma delegação representativa, o que exige esclarecer de onde procede a representação que a apresenta e por que ela assume determinado conteúdo.
4. A investigação da origem da representação encontra paradoxos desde seus primeiros passos, porque os elementos mobilizados para explicá-la já pressupõem capacidades que a própria explicação deveria esclarecer.
5. A primeira representação não pode ser deduzida da pulsão nem do afeto, tornando necessário reconhecer na psique uma capacidade originária de produzir imagens cuja ligação com o corpo antecede qualquer procedimento representativo já constituído.
6. A representação não pode receber sua forma pronta da realidade nem resultar de uma elaboração gradual que dispense um começo organizador, pois até a experiência mais rudimentar pressupõe uma capacidade prévia de transformar impressões em uma configuração psíquica.
7. A psique é uma atividade formadora que existe no que forma e no modo como forma, constituindo-se como imaginação radical capaz de fazer surgir uma representação a partir da ausência de representação.
8. A vida psíquica pressupõe uma representação originária simultaneamente formada e formadora, na qual se encontram os germes dos esquemas que permitirão organizar as representações posteriores e elaborar as contribuições provenientes do exterior.
9. A necessidade de reconhecer essa capacidade originária permanece implícita na problemática freudiana, mas é frequentemente encoberta pela concentração nas fantasias derivadas e nas formações imaginárias já constituídas.
10. A análise clínica das fantasias tende a privilegiar produtos secundários e a conceber a imaginação como reprodução compensatória de satisfações anteriores, deixando sem esclarecimento a representação originária cuja ruptura e restauração orientam o funcionamento psíquico.
11. A interpretação das fantasias como deformações de objetos reais pressupõe justamente a capacidade criadora que procura evitar, pois a organização sistemática e significativa dessas deformações não pode ser fornecida pela percepção nem por uma pulsão anterior à representação.
12. As fantasias habitualmente qualificadas como originárias já pressupõem elementos, personagens e relações diferenciados, conservando seu vínculo com o arcaico sobretudo na impossibilidade de fixar o sujeito em uma posição, porque sua intenção tende a coincidir com a cena inteira.
13. A permutabilidade das posições na fantasia lhe confere organização e sentido ao figurar, por meio de elementos distintos, uma reunificação que não pertence à experiência desses elementos, mas à maneira imaginária de articulá-los.
14. A imaginação radical precede a organização psíquica das pulsões e encontra no narcisismo originário a representação e o investimento de um si que é tudo, anterior à distinção entre sujeito, objeto e posições particulares no interior de uma cena.
15. As formações culturais não podem ser integralmente explicadas como compensações de desejos individuais, porque sua existência pressupõe a instituição social como campo já significativo capaz de produzir e sustentar as significações que oferece aos indivíduos.
16. A redução do imaginário a uma resposta compensatória diante de faltas previamente dadas encobre tanto a constituição significativa da situação desencadeadora quanto a origem dos elementos pelos quais a psique ou a sociedade elaboram suas respostas.
17. A definição do sujeito como desejo sustentado pela ausência de seu objeto exige esclarecer como essa ausência adquire para ele o sentido específico de uma falta.
18. A falta somente existe como falta de um objeto previamente constituído como desejável, de modo que a relação entre sujeito e desejo pressupõe a instituição psíquica do investimento e das condições pelas quais perda, diferença e ausência podem significar algo.
19. A adequação biológica entre organismo e objeto não explica o mundo psíquico, porque a criação de representações não é determinada pelas necessidades corporais nem inteiramente livre perante elas, como demonstra a própria possibilidade de a dinâmica psíquica contrariar a conservação vital.
20. O apoio da psique no corpo constitui uma relação originária irredutível à causalidade e à simbolização unívoca, pela qual dados somáticos privilegiados sustentam e incitam criações imaginárias sem determinar antecipadamente suas formas ou significações.
21. A constituição psíquica de algo como ausente pressupõe a capacidade de apresentá-lo imaginariamente e uma referência originária à plenitude em que nada falta, anterior à distinção entre representação, intenção e afeto e preservada nas satisfações alucinatórias e nas fantasias.
III. A realidade psíquica
1. A ausência de um índice de realidade no inconsciente não significa dificuldade de separar verdade e ficção, mas a existência de uma região na qual essas determinações não se aplicam e que a imaginação radical faz surgir como realidade psíquica.
2. Nada pode existir para a psique fora do modo da representação, enquanto a conexão do pensamento com representações de palavras e com a convicção de verdade constitui uma aquisição tardia e parcial.
3. Os processos inconscientes são indissociavelmente representativos, afetivos e intencionais, de maneira que a questão da realidade psíquica originária envolve simultaneamente a emergência da representação, da conexão e do princípio de prazer.
4. Nas formações adultas secundárias, podem ser distinguidas origens perceptivas, racionais e imaginárias das representações, acompanhadas por critérios de realidade, coerência e prazer que orientam diferentemente suas conexões.
5. Essas distinções não possuem validade para o inconsciente originário, no qual inexistem provas de realidade ou racionalidade e a representação precede a oposição entre interior e exterior como presença de tudo enquanto si e de si enquanto tudo.
6. A representação originária do si-tudo antecede a falta e o desejo e constitui o protótipo de um sentido pleno, no qual existência, satisfação e investimento coincidem sem distância nem necessidade de retorno reflexivo a si.
IV. O núcleo monádico do sujeito originário
1. A organização psíquica originária constitui uma inclusão total em que sujeito, mundo, representação, afeto e intenção coincidem, tornando impossível separar o seio, o corpo e o prazer ou formular uma relação entre termos previamente distintos.
2. A aparente absurdidade dessa descrição decorre da necessidade de levar a sério as características do inconsciente reconhecidas por Freud, sem neutralizá-las por interpretações positivistas ou estruturalistas.
3. A impossibilidade de atribuir ao sujeito um lugar fixo na fantasia remete a um estado originário em que ele não participa apenas da cena, mas coincide com sua totalidade, tornando inseparáveis objeto desejado, realização do desejo e organização da situação.
4. O desejo tende a reconstituir um estado de fechamento e domínio no qual o outro e o objeto se subordinam integralmente ao sujeito, preservando por meio das fantasias a exigência de unidade anterior à separação.
5. A indestrutibilidade do desejo não se explica simplesmente pela impossibilidade de satisfazê-lo na realidade externa, pois, na realidade psíquica, os desejos se realizam representativamente assim que emergem.
6. O desejo verdadeiramente irrealizável é o retorno à unidade originária que a própria psique já não consegue representar, permanecendo essa perda de si como orientação permanente dos processos inconscientes após a ruptura monádica.
7. Toda identificação posterior pressupõe uma pré-identificação originária na qual os termos que a linguagem distingue ainda são o mesmo, como na identidade imediata entre sujeito e seio anterior à incorporação de um objeto separado.
8. A história do sujeito consiste em criações e reorganizações representativas inseparáveis de sua socialização, pela qual a sociedade impõe à psique uma organização heterogênea sem poder eliminar as marcas de sua unidade originária.
9. O núcleo monádico não é originalmente recalcado, mas tornado irrepresentável pela emergência da diferença, continuando a orientar o inconsciente dinâmico pela exigência de unificação que sustenta a onipotência, a condensação e os demais processos primários.
10. A exigência de conexão universal e de sentido encontra uma de suas fontes na unidade monádica, de modo que a razão pode desenvolver-se a partir dessa loucura originária, mas também recair no imaginário de uma identidade total que elimina a alteridade.
V. A ruptura da mônada e a fase triádica
1. A constituição do indivíduo social articula inseparavelmente a transformação criadora da psique e a imposição de formas histórico-sociais, produzindo a coexistência sempre problemática entre um mundo privado e um mundo comum.
2. A mônada psíquica é formação e figuração de si cuja atividade representativa ultrapassa as necessidades do organismo, mantendo um fluxo de imagens que não depende da presença de estímulos e tende a organizar tudo como expansão de sua própria esfera.
3. A socialização impõe à psique a separação mediante uma ruptura provocada pela presença de outros, tornando possível a constituição de uma realidade relativamente independente e compartilhável sem eliminar a tendência monádica ao fechamento.
4. O indivíduo se constitui entre a atração permanente do polo monádico e as sucessivas integrações da diversidade, enquanto a instituição social responde a essa tensão oferecendo identidade reconhecida, satisfações e um mundo investido de significação.
5. As necessidades somáticas apenas oferecem apoio à ruptura da mônada, pois sua satisfação é inicialmente vivida como restauração da unidade originária que a psique também procura reproduzir por alucinação e fantasia.
6. O desprazer corresponde à ruptura do mundo monádico, na qual a ausência do seio é vivida como perda de uma parte do próprio sujeito e fornece os primeiros germes das oposições entre presença e ausência, realidade e negação, figura e fundo.
7. A psique cria um exterior para expulsar o desprazer e nele situar o seio mau, enquanto conserva o seio gratificante por incorporação e introjeção, transformando a identidade originária em uma relação possessiva com algo parcialmente distinto.
8. Projeção e introjeção esboçam simultaneamente a fronteira entre interior e exterior, a oposição entre bom e mau e a diferenciação relativa de representação, afeto e intenção, acompanhadas pela distribuição positiva e negativa dos investimentos libidinais.
9. O objeto somente começa a constituir-se como real quando seus aspectos gratificantes e frustrantes são reconhecidos como dependentes de uma mesma pessoa, cuja capacidade de dispor dele estabelece uma perda que escapa ao domínio do sujeito.
10. O outro se constitui necessariamente sob o signo da ambivalência e recebe, por projeção, a onipotência anteriormente atribuída pelo sujeito a si mesmo, tornando-se simultaneamente fonte de amor, ódio e poder sobre o objeto.
11. A fantasia passa a organizar-se segundo uma estrutura triádica de sujeito, objeto e outro, cujas posições permanecem submetidas à exigência monádica de copresença, circulação dos afetos e reunificação dos elementos separados.
12. A constituição inicial do real e do outro continua governada pelos esquemas da imaginação radical, mas a passagem pela estrutura triádica é decisiva para a sobrevivência e para os desenvolvimentos posteriores do sujeito.
13. A fase triádica apenas inicia a socialização, porque a renúncia à onipotência própria a transfere ao outro, cuja figura ainda pode ser manipulada na fantasia como fundamento imaginário de toda realidade.
14. O outro já socializado transmite um mundo instituído por sua linguagem, seus gestos e suas respostas, enquanto a criança projeta sobre ele um esquema de ação e reação que fundamenta a culpa inconsciente e a representação de uma causalidade exterior.
15. As sucessivas identificações e relações com objetos parciais aprofundam a diferenciação psíquica, separando a satisfação imaginária do princípio de prazer da evitação do desprazer vinculada às ações atribuídas ao outro.
16. A interiorização do outro como fonte de proibições institui um supereu arcaico e o recalque propriamente dito, pelo qual continuam representadas inconscientemente experiências que não devem alcançar expressão.
VI. A constituição da realidade
1. A aquisição de signos não basta para constituir uma realidade comum, pois, enquanto o outro conserva o domínio absoluto das significações, a linguagem permanece submetida a um uso privado que sustenta um pseudomundo dependente de sua onipotência.
2. A realidade comum somente pode constituir-se quando o outro reconhece e significa que não é senhor das significações, remetendo a criança à instituição social como ordem anônima que limita todos os indivíduos e torna possível sua existência compartilhada.
3. A significação fundamental da situação edipiana reside no encontro com desejos e relações que não estão à disposição da criança nem dos próprios pais, impondo o reconhecimento da instituição, da autonomia dos outros e de um sentido aberto que ultrapassa o circuito monádico.
4. A família patriarcal é uma realização histórica contingente dessas funções socializadoras, mas nenhuma transformação institucional elimina a necessidade de romper a onipotência infantil e introduzir a criança em um mundo de desejos legítimos e significações compartilhadas.
VII. A sublimação e a socialização da psique
1. A sublimação constitui a dimensão psicogenética da socialização, pela qual a psique se apropria de formas e significações socialmente instituídas e estabelece uma interface entre seu mundo privado e o mundo comum.
2. A dependência recíproca entre sublimação e sociedade evidencia sua irredutibilidade mútua, enquanto o reconhecimento freudiano da realidade como domínio das instituições impede identificar o princípio de realidade a uma natureza simples e imediatamente dada.
3. A sublimação substitui objetos privados de investimento por objetos que existem e valem socialmente, exigindo simultaneamente a capacidade imaginária da psique de operar substituições e a criação coletiva de formas que ela não poderia produzir sozinha.
4. A sublimação não consiste apenas em dessexualizar pulsões ou mudar suas finalidades, mas em transformar o modo de ser e a significação de seus objetos, fazendo surgir uma interseção entre mundo privado e mundo público.
5. A passagem da mãe como objeto sexual à mãe terna transforma o próprio objeto mediante sua inscrição em relações socialmente instituídas, embora suas diferentes configurações continuem coexistindo no magma representativo do sujeito.
6. Sublimação e recalque não se excluem, pois a constituição de coisas, indivíduos e linguagem pública implica redistribuir os investimentos entre representações antigas e novas sem abolir as posições anteriormente ocupadas pela psique.
7. A constituição do indivíduo social transforma a intenção em projeto de modificação do real e torna possível obter prazer de atividades e situações sociais, nas quais a própria representação de um estado de coisas se converte em fonte de satisfação.
8. O indivíduo social recupera parcialmente a ligação originária entre representação e prazer, mas agora sua satisfação depende de coisas e pessoas que não estão à sua disposição e cujo investimento positivo pressupõe a instituição coletiva.
9. O modelo identificatório articula significações sociais e imaginação singular, permitindo eventualmente transformar a instituição do indivíduo, enquanto a integridade da imagem de si pode adquirir um valor superior à conservação do corpo e da própria vida.
VIII. O conteúdo histórico-social da sublimação
1. A psicogênese não explica sozinha a formação do indivíduo social, porque fatores biológicos e pulsionais constantes não podem produzir por si mesmos a diversidade das instituições e das histórias, cuja compreensão exige reconhecer a criatividade do imaginário.
2. A pulsão anal não deriva da função biológica de eliminação, mas da instituição das fezes e da limpeza como objetos significativos nas relações sociais, articulada à capacidade da imaginação psíquica de investir o corpo com representações heterogêneas.
3. A sublimação pressupõe objetos e modelos identificatórios socialmente criados, típicos e complementares, cuja articulação coletiva torna possível uma organização relativamente coerente e não pode ser deduzida da variabilidade individual dos objetos pulsionais.
4. Os processos psíquicos pelos quais alguém assume uma posição social constituem condições indispensáveis de reprodução da sociedade, mas pressupõem significações historicamente instituídas que a psique isolada não pode produzir.
5. A constituição do capitalista exige o investimento específico da empresa como organização expansiva de pessoas e máquinas, tornando insuficiente explicá-lo pela relação com dinheiro, propriedade ou pulsão anal e pressupondo uma rede complementar de instituições e investimentos coletivos.
IX. O indivíduo e a representação em geral
1. A instituição social faz existir um mundo comum para a psique sem absorvê-la, pois sociedade e psique permanecem inseparáveis e reciprocamente irredutíveis em razão da diferença entre seus modos de ser.
2. A sociedade deve permitir ao indivíduo encontrar sentido nas significações instituídas e conservar um mundo privado de representação, afeto e intenção no qual continue ocupando uma posição central.
3. A impossibilidade de absorver a imaginação radical é uma condição positiva da vida social, porque a formação do indivíduo não elimina a criatividade nem a emergência contínua de novas representações.
4. As representações conscientes compartilham com as inconscientes um modo de ser que escapa à lógica identitária, tornando-se perceptível quando se suspende a organização conjuntista imposta pela visão social habitual.
5. O fluxo representativo constitui um magma que não é conjunto de elementos nem caos indiferenciado, sendo cada representação delimitada apenas por um recorte provisório orientado por finalidades e referências linguísticas.
6. A representação de algo não exige uma enumeração determinada de propriedades e componentes, pois a figura imaginada pode permanecer singular e indeterminada sem impedir o reconhecimento ou o uso linguístico, salvo quando uma tarefa específica exige critérios decisórios.
7. A determinação aparente das coisas depende dos limites de atenção e prática instituídos socialmente, além dos quais o objeto pode transformar-se em enigma, experiência poética ou ponto de partida para investigações científicas intermináveis.
8. Mesmo na ausência de uma percepção deliberadamente orientada para coisas, persiste um fluxo de imagens e figuras que se combinam, se dissolvem e se transformam, tornando a representação uma presença contínua da vida psíquica.
9. O modo de ser da representação comporta diferenciações e remissões constantemente alteradas, mas não permite determinar universalmente seus termos, suas relações ou o conjunto de representações que cada uma pode fazer surgir.
10. A temporalidade do fluxo representativo não precisa ser concebida como ordem exterior que o submete, pois a emergência de novas figuras também constitui temporalização e espacialização, enquanto a linearidade resulta de sua projeção na sequência do discurso.
11. As determinações identitárias permitem falar da representação sem apreender sua organização própria, exigindo distinguir e articular os circuitos irredutíveis da lógica identitária e do pensamento que reconhece seus limites.
12. A dependência do pensamento em relação à linguagem não obriga a aceitar integralmente a ontologia de seu componente identitário, pois a própria linguagem também remete ao magma de significações que permite interrogar essa ontologia.
13. A referência a uma coisa percebida estabelece imediatamente um conjunto relativamente estável de determinações e exclusões, explicando por que a coisa foi elevada a protótipo lógico e ontológico de todo existente.
14. A referência a uma representação apenas fixa um ponto provisório de orientação em algo fluido e transformador, cujo modo de ser ameaça a ontologia da determinação por não corresponder a uma unidade já constituída.
15. A necessidade de identificar linguisticamente uma representação não autoriza transformar essa identidade em determinação plena, porque seu ser consiste precisamente em ultrapassar e alterar continuamente aquilo que provisoriamente se designa como ela mesma.
16. A lógica identitária somente se aplica universalmente como condição do dizer, não como apreensão efetiva de todos os modos de ser, e suas próprias exigências absolutizadas a destroem ao exigir definições e determinações que ela não consegue fornecer integralmente.
17. A pretensão de um conceito simultaneamente lógico e pleno pressupõe uma metafísica da essência e da substância, na qual a identidade do objeto e suas propriedades essenciais estariam determinadas previamente a toda investigação.
18. Abandonada a ontologia da essência-substância, o conceito pleno perde sua função, restando definições decisórias transitórias e significações cuja elaboração lógica é parcial e interminável.
19. A representação é imaginação radical como autoalteração e emergência de figuras, constituindo o elemento do pensamento sem precisar representar algo exterior ou substituir uma realidade previamente existente.
X. O preconceito da percepção e o privilégio das “coisas”
1. A tradição reduziu a representação a pensamento confuso, cópia imperfeita ou obstáculo ao ser porque sua lógica e sua ontologia não conseguiam apreender a imaginação radical que nela se manifesta.
2. A representação põe em questão a identificação do ser com determinação, unidade e identidade comum, razão pela qual sua descoberta psicanalítica ameaça não apenas normas morais, mas a organização lógica e ontológica tradicional.
3. O reconhecimento de um mundo comum não exige eliminar a diversidade irredutível das representações, pois o próprio ser de uma obra ou do mundo inclui a capacidade de fazer surgir experiências e sentidos diferentes.
4. A representação foi subordinada à questão de sua contribuição para a verdade e o conhecimento, sendo concebida a partir de sujeitos e coisas previamente definidos como cópia interior, percepção enfraquecida ou fonte de erro.
5. A representação é apresentação incessante e autoalteração do sujeito, na qual um mundo pode surgir e certas figuras se estabilizam como percepções, sem que essa estabilização transforme o fluxo originário em composição de imagens previamente separadas.
6. O privilégio concedido às coisas e à percepção encobriu a imaginação ao tomar como modelo universal do ser entidades distintas e determinadas, embora coisas e indivíduos já constituam dimensões da instituição social.
7. O privilégio ontológico da coisa expressa a subordinação da filosofia às exigências do legein e do teukhein, elevando a percepção a paradigma das relações com o ser.
8. A substituição da percepção pela constituição não supera esse paradigma enquanto preserva a oposição entre atividade e passividade, cuja validade deriva de relações instituídas e não alcança o surgimento do fluxo representativo.
9. A emergência psicogenética da percepção e das coisas pressupõe um fluxo representativo anterior, cuja transformação não pode ser reduzida à preparação de um sujeito normal destinado a reconhecer objetos já determinados.
10. A percepção e as coisas somente se constituem mediante uma socialização específica que forma os sentidos, o corpo, a linguagem e o fazer, tornando impossível explicar sua emergência apenas pela história singular da psique.
11. A existência de apoios naturais transculturais não determina a percepção de cada sociedade, pois toda abertura efetiva ao mundo pertence a indivíduos histórico-sociais e resulta de uma ruptura que cria formas não previamente contidas na natureza da psique.
12. As oposições entre gênese factual e fundamento de direito, empírico e transcendental ou ciência e ontologia possuem validade relativa, porque toda fundamentação remete a fatos e toda ciência pressupõe determinações ontológicas.
13. A percepção exige uma linguagem histórica determinada e um fluxo representativo que a ultrapassa, de modo que o imaginário social e a imaginação psíquica constituem condições lógicas e ontológicas da realidade, e não simples acréscimos subjetivos ao dado.
XI. Representação e pensamento
1. Todo pensamento pressupõe figuras, imagens e esquemas não dedutíveis que a imaginação faz surgir e a linguagem estabiliza em signos, tornando a instituição social uma condição da consciência e impedindo compreender o pensar por uma perspectiva exclusivamente egológica.
2. As perspectivas psicogenética e sociogenética são inseparáveis e irredutíveis, mas o pensamento somente se realiza plenamente quando, enraizado nelas, busca uma verdade que ultrapassa suas determinações mediante o reconhecimento conjunto de mundo, psique, sociedade e significação.
3. Reconhecer a filosofia como instituição histórico-social não elimina sua abertura ao mundo, pois a existência de mundos privados e de mundos sociais distintos constitui a própria condição para interrogar um mundo comum e a verdade.
4. A reflexão deve seguir simultaneamente o caminho que esclarece o enraizamento psíquico e institucional do pensamento e aquele que interroga suas instituições, sem pretender uma origem absolutamente exterior a elas e permanecendo aberta à criação de novas formas.
5. Esses dois caminhos se implicam continuamente sem se reduzirem à antinomia, à complementaridade ou à circularidade, constituindo uma relação própria que expressa o modo de ser do pensamento histórico e do fazer pensante.