BOUVERESSE, Jacques. La parole malheureuse: De l'alchimie linguistique à la grammaire philosophique. Paris: Éditions de Minuit, 1971.
Introdução
I
1. A influência de Wittgenstein sobre o neopositivismo lógico e a filosofia da linguagem comum encobre divergências profundas, pois a concordância com Carnap acerca da impossibilidade de uma metafísica descritiva corresponde a interpretações radicalmente diferentes do significado dessa impossibilidade e de suas consequências filosóficas.
2. A identificação de Wittgenstein com o positivismo ignora seu respeito pela inquietação religiosa e pela tendência humana de enfrentar os limites da linguagem, reconhecida como uma disposição pessoal digna de consideração.
3. A busca metafísica, ética e religiosa de significação ultrapassa o interesse pelos fatos e manifesta uma tendência humana que precisa ser esclarecida, enquanto o positivismo pretende eliminar seus sintomas sem investigar aquilo que neles se anuncia.
4. Os equívocos de Russell, Carnap e Kreisel acerca de Wittgenstein revelam que suas investigações sobre lógica e matemática não procuravam solucionar problemas científicos, mas preservar a autonomia absoluta da filosofia diante dos métodos e resultados das ciências, inclusive da linguística.
5. O desconforto de Wittgenstein em Cambridge relaciona-se à sua formação vienense e a afinidades intelectuais mais próximas de Agostinho, Schopenhauer, Tolstói, Dostoiévski, Kierkegaard, Kraus e outros representantes de sua cultura de origem que da tradição empirista britânica.
6. A aparência analítica do discurso de Wittgenstein convive com uma orientação ética que permanece sobretudo implícita e, próxima da posição de Karl Kraus, reconhece na defesa da integridade da linguagem uma obrigação fundamental diante da dissolução dos valores tradicionais.
7. A intensidade do retorno filosófico à linguagem acompanha a consciência da responsabilidade ética, encontrando na vida e na obra de Wittgenstein uma expressão particularmente rigorosa dessa ligação.
8. O cuidado com a linguagem aproxima Wittgenstein de Kraus, mas distingue-se dos projetos de reforma tecnicista porque pressupõe que o pensamento já depende de uma linguagem capaz de organizar-se e de oferecer as condições de sua própria compreensão.
9. O pensamento enraíza-se e desenvolve-se na linguagem em vez de simplesmente revestir-se dela, e a fala humana depende de uma escuta prévia da língua à qual pertence.
10. O desenvolvimento histórico da língua permite reconhecê-la como língua materna, anterior às iniciativas individuais de expressão.
11. A linguagem possui uma precedência constitutiva sobre o falante, que somente fala na medida em que corresponde às suas possibilidades.
12. A reforma positivista procura ajustar a linguagem a um pensamento previamente estreitado, enquanto a crítica de Wittgenstein permite reconhecê-la como solo firme e morada habitável, transformados em prisão pela tentativa de ultrapassar à força seus limites.
13. A hipótese de uma insuficiência ou perversão fundamental da linguagem carece de sentido porque não produz consequências práticas, e o esclarecimento filosófico deve eliminar seus usos parasitários sem destruir o meio linguístico do qual depende.
14. As perguntas gerais sobre a possibilidade e a legitimidade da linguagem encontram seu limite no fato de que ela é efetivamente utilizada e de que as justificações precisam terminar, favorecendo uma investigação pragmática de situações concretas em lugar de generalidades e pressupostos abstratos.
15. A atenção às práticas concretas não implica aceitar uma teoria pragmatista que as justifique pelo êxito ou pela utilidade, pois a invenção de formas de vida alternativas evidencia que o caráter habitual de uma técnica não demonstra sua superioridade funcional.
16. A comparação entre matemática e sistemas de medida impede atribuir verdade absoluta ou simplicidade universal às convenções, enquanto as formas de vida imaginárias servem para libertar o entendimento de imagens dominantes e esclarecer práticas reais, sem constituir hipóteses científicas sobre sociedades possíveis.
17. A linguagem pertence à história natural humana, como caminhar ou respirar, mas essa condição não autoriza concluir que ela seja um instrumento essencialmente infiel ou incapaz de representar a realidade.
18. A investigação das funções de expressões particulares é legítima, mas a pergunta pela utilidade da linguagem em sua totalidade conduz a generalidades triviais ou falsas, pois o interesse dos jogos de linguagem nasce de sua participação efetiva na vida.
19. A procura de uma função comum a todas as palavras reduz suas diferenças a generalizações vazias, assim como as exigências abstratas de maior simplicidade, regularidade ou precisão ignoram a diversidade constitutiva dos jogos de linguagem.
II
1. As expressões linguísticas podem funcionar como instrumentos sem que a linguagem inteira possua uma função única, pois a pluralidade dos jogos de linguagem impede privilegiar a descrição e a transmissão de informações como sua essência.
2. A comparação filosófica deve estabelecer diferenças em vez de impor uma unidade, porque expressões exteriormente semelhantes podem pertencer a jogos distintos, cujas características e transformações somente se esclarecem por exemplos ligados às formas de vida.
3. A defesa das diferenças exige limitar as pretensões uniformizadoras da lógica sem rejeitar seus resultados, reconhecendo que os usos artísticos e heterodoxos dependem de usos ordinários e que a linguagem comporta tanto a racionalidade quanto sua contestação.
4. A confusão entre funções distintas aproxima o positivismo filosófico de certas tendências artísticas, pois os metafísicos tratam a filosofia como ciência e os positivistas transformam a ciência em filosofia, ignorando, de maneiras opostas, a importância daquilo que não pode ser descrito.
5. O inexprimível manifesta-se no próprio exprimível sem converter-se em conteúdo descritivo, como acontece na obra de arte que mostra algo irredutível a explicações e cuja realização não decorre da subordinação dos meios a uma finalidade inteiramente formulável.
6. A vontade moral e estética não acrescenta fenômenos superiores ao mundo nem altera seu conteúdo descritível, embora possa transformar seus limites e o modo de vivê-lo.
7. Os mundos do indivíduo bom e do mau, do feliz e do infeliz, podem coincidir quanto aos fatos e ainda assim diferir profundamente, pois a significação ética do Tractatus reside sobretudo no que permanece em silêncio e somente pode ser delimitado a partir do interior do discurso.
8. A afinidade entre Kraus, Loos e Wittgenstein consiste na capacidade de separar corretamente, opondo-se à tendência especulativa de estender continuidades por metáforas e de substituir as diferenças concretas por explicações gerais sedutoras.
9. A especulação torna-se enganosa quando apresenta a possibilidade de metáforas abrangentes como prova de realidades igualmente gerais, apagando a especialização das expressões e impondo continuidades artificiais entre domínios distintos.
10. A ciência procura reduzir diferenças e unificar explicações, enquanto a filosofia precisa preservar distinções ameaçadas, impedindo que resultados científicos sejam transferidos para funções explicativas que não lhes pertencem.
11. O fascínio das explicações redutivas pode transformar analogias em mitologias intelectuais, razão pela qual a satisfação proporcionada por uma explicação deve intensificar a vigilância crítica em vez de substituir seu exame.
12. As diferentes caracterizações da significação formuladas por Wittgenstein não precisam ser entendidas como definições sucessivamente abandonadas, pois cada uma esclarece certos aspectos e pode ocultar outros quando convertida em explicação universal.
13. A ausência de um método de verificação para determinadas proposições deve ser registrada como uma diferença relevante, e não utilizada para negar sua condição de proposições, pois o esclarecimento filosófico exige permitir que a linguagem conserve sua diversidade.
III
1. O caráter aforístico da filosofia de Wittgenstein decorre de uma recusa deliberada do sistema, produzindo um conjunto aberto de observações e detalhes cuja ampliação permanece sempre possível.
2. O aforismo procura modificar a maneira de perceber os fatos por uma formulação reveladora, enquanto a filosofia torna perceptível aquilo que permanece despercebido apesar de estar continuamente diante dos olhos.
3. A prática filosófica pode persuadir em favor de um estilo de pensamento sem descobrir fatos ocultos, pois sua tarefa consiste em tornar visível o que a familiaridade tornou excessivamente evidente.
4. O esclarecimento filosófico reorganiza conhecimentos já disponíveis, como uma composição que altera o enquadramento dos elementos e desfaz o encanto de explicações antes consideradas irresistíveis.
5. A aproximação entre Wittgenstein e Nietzsche ultrapassa o estilo aforístico e abrange a solidão, o ascetismo, a inquietação constante, o extremismo intelectual e o envolvimento pessoal integral numa tarefa cuja comunicação parece condenada ao fracasso.
6. A investigação filosófica foi vivida por ambos como um destino que colocava em risco a própria existência, acompanhado da convicção de que a compreensão exigia leitores previamente próximos de suas preocupações e disposições.
7. A consciência da própria inatualidade levou Wittgenstein a reconhecer que uma iniciativa filosófica individual não pode, por si só, transformar as maneiras coletivas de pensar e viver, das quais dependem as doenças intelectuais de uma época.
8. A transformação de um modo de vida pode eliminar problemas ligados a determinadas práticas, assim como o abandono do uso de automóveis poderia fazer desaparecer doenças produzidas por esse hábito.
9. A busca de clareza e transparência distingue a investigação de Wittgenstein de uma civilização orientada para o progresso e a construção de estruturas cada vez mais complexas, pois seu esforço procura aprofundar a compreensão das mesmas coisas em vez de ampliar indefinidamente o campo das realizações.
10. A passagem do Tractatus às Investigações filosóficas substitui a busca da essência pelo exame dos casos particulares, preservando a separação entre filosofia e ciência e procurando esclarecer o diverso e o impreciso mediante perguntas sobre evidências cotidianas negligenciadas.
11. A proximidade pessoal entre Wittgenstein e Nietzsche não elimina a oposição entre suas finalidades filosóficas, pois o primeiro procura esclarecer, elevar e pacificar o espírito, mantendo a impassibilidade da escrita apesar de sua própria intensidade emocional.
12. A comparação entre o filósofo tradicional e um humorista involuntário fundamenta-se na exploração de semelhanças superficiais entre expressões de funções diferentes, cujo esclarecimento exige um trabalho rigoroso sobre equívocos aparentemente profundos.
13. A possibilidade de uma filosofia composta apenas de perguntas exprime a substituição das respostas doutrinárias por um questionamento sistemático das próprias questões.
14. A substituição de uma resposta por outra pergunta evita impor uma solução inadequada a um problema cuja formulação ainda precisa ser esclarecida.
15. As perguntas filosóficas frequentemente exigem dissolução em vez de solução, e sua confrontação com outras perguntas pode revelar, por analogia ou contraste, a ausência de sentido que uma resposta direta deixaria intacta.
16. A distinção entre possibilidade empírica e possibilidade lógica ou gramatical pode ser evidenciada por pares de perguntas que desfaçam a aparência factual de determinadas impossibilidades.
17. A impossibilidade de um cão simular a dor não deve ser confundida com uma honestidade que o impediria de adotar um comportamento disponível.
18. A impossibilidade de a mão direita dar dinheiro à esquerda não resulta de avareza, mas das condições que conferem sentido à ação de dar.
19. A possibilidade de jogar xadrez sem a rainha não se esclarece apenas pela habilidade individual, pois também envolve a determinação do jogo considerado.
20. A pergunta sobre ter a dor de dente de outra pessoa difere da pergunta sobre sentir dor no dente alheio, evidenciando regras distintas no uso das expressões de dor e de posse.
21. A comparação entre observar a mente e observar o estômago de outra pessoa exige reconhecer diferenças gramaticais que a forma semelhante das perguntas pode encobrir.
22. A impossibilidade de uma máquina calcular de cabeça não se explica simplesmente pela ausência de uma cabeça, pois a dificuldade envolve o uso da própria expressão.
23. A aparência factual das questões metafísicas cria a ilusão de que suas respostas forneceriam novos conhecimentos, quando elas podem apenas tornar explícitas regras gramaticais que governam o emprego das palavras.
24. A profundidade atribuída a numerosos enunciados metafísicos corresponde ao enraizamento de nossas formas conceituais e linguísticas, cuja incompreensão permite apresentar como descobertas sobre a realidade aquilo que pertence às condições usuais de expressão.
25. Algumas perplexidades filosóficas podem exigir ironia, interrupção ou respostas desconcertantes, em procedimentos parcialmente comparáveis aos do zen, embora o tratamento das dificuldades deva preservar a compreensão de suas motivações.
26. A filosofia constitui uma atividade na qual o percurso esclarecedor não se separa do resultado, sem produzir conclusões doutrinárias, demonstrações ou refutações análogas às da investigação científica.
27. A confusão entre diferentes tipos de pergunta sustenta a aparência radical da metafísica, mas a impossibilidade de formular significativamente certas inquietações não diminui sua importância ética, artística ou religiosa.
IV
1. A vontade de redução exige esclarecer o temor diante da pluralidade que leva a procurar uma unidade capaz de suprimi-la.
2. A novidade reivindicada por Wittgenstein para sua atividade filosófica envolve uma transformação metodológica comparável a grandes mudanças científicas, na qual a formação pelo exercício e pela discussão deveria substituir a dependência de pensadores excepcionais.
3. A nova investigação pretende dissolver as perguntas da filosofia anterior pela identificação de suas condições linguísticas, conservando a generalidade, a importância para a vida e para as ciências e a independência diante de resultados científicos particulares.
4. A crítica ao essencialismo impede definir uma essência única da filosofia e permite reconhecer diferentes herdeiros dessa tradição, entre os quais a filosofia analítica preserva diretamente numerosos problemas clássicos.
5. A ruptura de Wittgenstein com a tradição distingue-se da filosofia analítica por rejeitar o progresso entendido como reformulação científica dos problemas antigos e por vincular a investigação a perplexidades efetivas, em vez de convertê-la numa descrição autônoma de fatos linguísticos.
6. A compreensão de uma expressão não depende da capacidade de fornecer sua análise final, e a redução de seu significado a dados elementares pode impor ao uso efetivo uma interpretação que o falante não reconhece como aquilo que compreendia.
7. A avaliação filosófica das reduções matemáticas deve esclarecer o resultado de sua realização, distinguindo diferentes procedimentos e evitando interpretar a conexão formal entre teorias como descoberta de um fundamento último.
8. A formalização lógica da aritmética precisa ter esclarecidos seus objetivos e critérios de êxito, pois a possibilidade de construir uma tradução não garante que ela satisfaça a finalidade filosófica que motivou sua procura.
9. A existência de alguma tradução possível não assegura que ela corresponda às exigências específicas da tradução desejada.
10. A tradução das matemáticas numa linguagem lógica não demonstra que sejam lógica ou dependam dela como fundamento, pois as diferentes regiões matemáticas possuem autonomia e mantêm entre si semelhanças que não estabelecem uma relação de origem ou justificação.
11. A consideração filosófica das matemáticas deve conferir às diferenças a mesma importância atribuída às analogias, sem adotar como finalidade a uniformidade, a economia ou a elegância procuradas pelas construções formais.
12. Uma tradução bem-sucedida pode esclarecer diferenças estruturais relevantes entre teorias, mas também evidenciar uma indeterminação que impede tratá-la como simples revelação de sua identidade essencial.
13. A tradução matemática pode admitir várias versões igualmente satisfatórias sem que uma delas seja a única correta ou superior às demais, diferentemente das alternativas geralmente imperfeitas de uma tradução poética.
14. As construções de Frege e Russell, von Neumann e Zermelo representam os números naturais mediante diferentes sistemas de conjuntos, preservando a prática aritmética sem impor uma identificação ontológica única.
15. Traduções que preservam a verdade dos enunciados aritméticos podem atribuir valores opostos a enunciados adicionais sobre pertença a conjuntos, tornando problemática a expectativa de descobrir por esses meios o que um número realmente é.
16. A redução oferece sistemas de objetos capazes de reproduzir o comportamento dos números, em vez de apresentar necessariamente uma entidade determinada como sua essência, embora possa substituir objetos problemáticos por outros considerados mais seguros.
17. A pluralidade de reduções pode satisfazer quem procura eliminar certas entidades, mas inquieta quem espera encontrar uma explicação única e definitiva de sua natureza.
18. A unificação das matemáticas pela teoria dos conjuntos esclarece operações e relações sem resolver perguntas essenciais sobre seus objetos, e a eliminação formal de expressões não garante a preservação prática de todos os seus usos anteriores.
19. As diferentes axiomatizações da teoria dos conjuntos não revelam uma essência única do conjunto, e a coexistência de teorias rivais impede compreender adequadamente suas relações apenas pela oposição entre descrição do mesmo objeto e descrição de objetos distintos.
20. A evolução da investigação dos fundamentos aproxima-se de Wittgenstein ao substituir a justificação pela clarificação, reconhecer uma pluralidade de práticas inter-relacionadas e tratar as reduções como traduções que não conduzem a uma significação final independente de outros signos.
V
1. A indeterminação da tradução radical permite que reconstruções incompatíveis de uma língua desconhecida sejam igualmente compatíveis com todo o comportamento linguístico observável, assim como diferentes traduções matemáticas podem preservar uma mesma prática aritmética.
2. A indeterminação da tradução não constitui apenas um caso da subdeterminação geral das teorias pelos fatos, pois acrescenta uma indeterminação própria que permanece mesmo quando se admite uma reconstrução determinada da natureza.
3. As hipóteses de tradução possuem um estatuto diferente dos pressupostos teóricos gerais, porque sistemas igualmente compatíveis com o comportamento linguístico podem interpretar de maneiras opostas uma mesma fala estrangeira.
4. A significação atribuída a uma expressão sob determinado esquema de tradução não equivale simplesmente à verdade condicionada por uma teoria científica, e o problema filosófico dessa indeterminação não se resolve pela constatação de que os tradutores conseguem efetivamente traduzir.
5. A tese de Quine procura retirar o poder explicativo de noções como significação, ideia, proposição e atitude proposicional quando se supõe que elas designam conteúdos determinados independentemente dos critérios comportamentais disponíveis.
6. A crítica de Wittgenstein e Quine à linguagem como tradução do pensamento contesta a existência de significações previamente constituídas e linguisticamente neutras que garantiriam uma correspondência inequívoca entre todas as línguas.
7. A concepção wittgensteiniana dos jogos de linguagem aproxima-se da relatividade linguística, enquanto a indeterminação defendida por Quine dificulta sua comprovação empírica porque a reconstrução da visão de mundo de uma língua depende de hipóteses de tradução.
8. A possibilidade de determinar as atitudes proposicionais de um falante está diretamente ligada à determinação da tradução, de modo que a reconstrução de sua metafísica pressupõe justamente aquilo cuja identificação permanece problemática.
9. A diferença entre línguas não demonstra por si só uma diferença determinada entre modos de pensar, pois comportamentos observáveis podem ser compatíveis com reconstruções conceituais alternativas e igualmente adequadas.
10. A controvérsia entre Quine e Chomsky envolve a dificuldade de distinguir divergências factuais de diferenças na maneira de descrever os mesmos fenômenos, exigindo uma interpretação caridosa que não atribua ao behaviorismo de Quine as limitações de suas versões mais rudimentares.
11. A discussão sugere uma oposição entre formas de descrição cuja intensidade filosófica excede a localização de divergências científicas precisas, pois existe amplo acordo sobre o conhecimento disponível e as lacunas explicativas dos fenômenos linguísticos.
12. A produtividade criadora da linguagem não constitui o verdadeiro objeto da divergência, porque Quine reconhece a geração indefinida de frases a partir de elementos finitos e não reduz a aprendizagem a um repertório de sequências inteiras memorizadas.
13. A controvérsia sobre o inatismo diz respeito principalmente à descrição da dotação originária, pois as disposições comportamentais inatas admitidas por Quine não se opõem necessariamente aos mecanismos teóricos postulados pela linguística transformacional.
14. A posição de Quine não corresponde a um behaviorismo restrito a predicados de observação, porque reconhece o caráter teórico dos conceitos e a presença inseparável de pressupostos teóricos mesmo nas descrições mais imediatas.
15. A tarefa filosófica consiste em investigar o fascínio exercido pela imagem de uma competência linguística virtualmente infinita e a resistência à explicação por estímulos, distinguindo a ênfase na informação exterior da ênfase nos mecanismos internos de seu processamento.
16. A complexidade da resposta linguística pode tornar pouco produtiva sua explicação imediata como resposta, mas não autoriza transformá-la numa iniciativa inteiramente independente da causalidade sem ultrapassar os limites de um mentalismo metodológico.
17. A interpretação da competência como modelo abstrato, e não como teoria da produção efetiva das frases, reduz a divergência com um behaviorismo que também admite estados internos hipotéticos e sua possível realização neurológica.
18. A reconstrução da competência a partir de seus efeitos observáveis permite inferir propriedades abstratas de um mecanismo desconhecido, mas não constitui por si só uma explicação científica de seu funcionamento.
19. A teoria da competência conserva uma ambiguidade ao pretender orientar pesquisas neurofisiológicas e psicolinguísticas sem determinar sua realização física, podendo estimular a procura injustificada de processos que correspondam diretamente às operações do modelo formal.
20. A crítica filosófica não deve impedir a formulação de hipóteses científicas arriscadas, mas esclarecer a fixação em determinadas representações, pois a libertação de suas decepções pode exigir uma mudança no modo de ver os fatos, e não a descoberta de fatos diferentes.