BLUMENBERG, Hans. Ein mögliches Selbstverständnis: Lebensthemen. Erste Auflage, Originalausgabe ed. Berlin: Suhrkamp, 2022.
INTRODUÇÃO: O QUE NÃO É EVIDENTE POR SI MESMO
1. A expectativa de que cada pessoa apresente uma compreensão de si pode tornar-se uma exigência antecipada, diante da qual até a admissão de nunca ter procurado compreender-se parece suscitar reprovação.
2. A elaboração cuidadosa de uma autocompreensão pode funcionar como defesa contra interpretações alheias indesejadas, embora a tentativa de esclarecer os interesses que orientam o conhecimento transforme em problema aquilo que antes permanecia evidente por si mesmo.
3. A posse de uma autocompreensão pode não atender a nenhum interesse efetivo e até dificultar a compreensão do mundo, que aparece como o problema fundamental da filosofia na exclamação tardia de Schopenhauer.
4. O desejo de compreender o mundo pode ser tomado como núcleo de uma autocompreensão, sobretudo quando nasce da inquietação de atravessar uma existência passageira sem chegar a compreender a realidade em que ela transcorre.
5. A autocompreensão não é simplesmente resultado do autoconhecimento, pois frequentemente organiza projetos, desejos e intenções, enquanto conhecer-se exige acolher aquilo que se descobre, inclusive quando não corresponde ao que se pretende ser.
6. A desconfiança filosófica deve ser considerada à luz da brevidade da vida, pois a dúvida pode favorecer a compreensão, mas também obrigar repetidamente a recomeçar sem necessidade.
7. Quem não compartilha as grandes dúvidas epistemológicas, as suspeitas ideológicas, a expectativa de uma revelação do ser ou o temor de constantes antropológicas pode ser definido pelos outros sobretudo por aquilo que não é.
8. A pergunta pela utilidade da filosofia não precisa preceder seu exercício, pois a investigação de sua origem pode esclarecer a força de uma atividade que não se abandona ou se inicia arbitrariamente segundo critérios externos de finalidade.
9. A identificação de alguém com o esclarecimento não depende apenas de sua intenção, pois toda atividade esclarecedora pressupõe que se determinem previamente as obscuridades a serem combatidas e que seu objeto se preste a esse trabalho.
10. A exigência de autocompreensão ameaça aquilo que é evidente por si mesmo e pode enfraquecer o solo necessário à vida e à formulação de perguntas efetivamente inevitáveis.
11. A disposição de interrogar continuamente o próprio sentido de cada ação compromete a economia da vida e pode consumir a atenção em pequenos conflitos, deixando o pensamento impotente diante dos maiores.
12. A parábola nietzschiana de quem insiste em ver e revelar a si mesmo evidencia que a opacidade protege o ser humano não apenas diante dos outros, mas também diante de si próprio.
13. A consciência da própria transitoriedade pode estimular o desejo de revelar sem reservas a singularidade da experiência pessoal, na esperança de preservá-la da perda definitiva, mesmo diante de consequências dolorosas.
14. A busca moderna de transparência sobre si adquiriu nova legitimidade quando a revelação da vida interior passou a associar-se à promessa indefinida de saúde e de alívio do mal-estar.
15. A filosofia não pode simplesmente abandonar seus problemas nem transferi-los a uma instância superior, embora permaneça exposta às mudanças de orientação e aos entusiasmos que atravessam sua própria história.
16. As rápidas mudanças de vocabulário, referências e prestígio das escolas mostram a fragilidade da influência filosófica, como ocorreu com o afastamento da escola fenomenológica em relação a Husserl e a redescoberta posterior do mundo da vida.
17. A experiência das ascensões e quedas de escolas filosóficas suscita a suspeita de que transformações anteriormente interpretadas como necessárias à história do pensamento também tenham dependido da pressão de tendências passageiras.
18. Nenhuma autocompreensão filosófica assegura independência plena diante do espírito do tempo, cujos efeitos alcançam inclusive os mecanismos institucionais que estabelecem e modificam os cânones.
19. A filosofia envolve perguntas cuja resposta poderia perturbar a vida tanto quanto sua ausência, mas a recusa de respondê-las deixa disponível um espaço que outras doutrinas podem ocupar.
20. Entre as verdades capazes de oferecer serenidade encontra-se a ideia expressa por Sêneca de que quem pode morrer não pode ser submetido à coerção.