BLUMENBERG, Hans. Schriften zur Technik. 1. Auflage, Originalausgabe ed. Berlin: Suhrkamp, 2015.
1. Na Antiguidade, o ente natural tem prioridade ontológica sobre o fabricado, pois a natureza é e é verdadeira por si mesma, como exprime a metáfora da luz que torna o cosmos uma ordem inteligível.
2. Sendo o fundamento do ser e o da verdade um só, a contemplação constitui o acesso privilegiado à verdade que se oferece por si mesma, enquanto a técnica e a ação correta dependem da ordem natural previamente dada.
3. Embora a natureza seja ontologicamente anterior ao produzido, ela se torna cognoscível por meio da técnica, cuja distinção entre matéria e forma fornece o esquema para analisar conceitualmente os entes naturais.
4. Na Idade Média, a natureza permanece verdadeira por si mesma enquanto criação divina, e a confiança em que a verdade se manifesta fundamenta uma prática dialética na qual ela acaba por prevalecer no confronto das opiniões.
5. A ideia cristã de criação estabelece uma nova relação entre natureza e técnica, pois a natureza passa a ser compreendida como produto da arte divina e sua verdade absoluta como adequação da coisa ao intelecto criador.
6. Enquanto a ordem medieval da criação permaneceu inquestionada, a produção da natureza foi atribuída exclusivamente a Deus e seu conhecimento permaneceu especulativo, sem que se concebesse sua aplicação técnica.
7. O nominalismo tardomedieval rompe a segurança da correspondência entre o intelecto humano e o divino, levando a compreender a verdade como resultado do trabalho e instrumento da autoconservação e do domínio da realidade.
8. Em Descartes, a certeza do conhecimento funda-se na possibilidade de o sujeito reconstruir racionalmente seu objeto, de modo que a ciência e sua aplicação técnica derivam de uma concepção da verdade que associa conhecer e poder.
9. A ciência moderna projeta antecipadamente seus objetos em hipóteses que funcionam como planos de construção, e o experimento realiza a possibilidade de produzir o fenômeno que se procura explicar.
10. O experimento evidencia a passagem de uma verdade que se manifesta espontaneamente para uma verdade obtida pelo trabalho e pela superação de dificuldades, em uma relação com o conhecimento que já se anunciava no final da Idade Média.
11. Em Kant, a razão só conhece aquilo que produz segundo seu próprio projeto, e essa autoria fundamenta sua atitude de interrogar a natureza e exigir que ela responda às questões formuladas.
12. A relação experimental com a natureza é uma relação de poder, pois a física conhece possibilidades de produção de fenômenos e a técnica atualiza uma dimensão inerente à própria verdade científica.
13. Em Vico, a verdade humana tem por critério aquilo que o próprio ser humano faz, encontrando na história o domínio privilegiado de sua atividade criadora e na matemática o exemplo de um conhecimento cujas condições são produzidas pela razão.
14. A relação entre técnica e verdade funda-se na relação entre liberdade e verdade, que em Kant alcança sua expressão na certeza do imperativo moral e na primazia da razão prática sobre o conhecimento teórico limitado aos fenômenos.
15. Embora Kant distinguisse a razão prática da razão técnica voltada aos meios, o desenvolvimento posterior subordinou a verdade à capacidade de previsão e intervenção, fazendo prevalecer uma racionalidade orientada pela eficácia.
16. A modernidade substitui a prioridade do que é pela do que deve ser, tratando a natureza como recurso para fins futuros e privilegiando a pergunta técnica sobre como produzir a realidade por meio do trabalho.
17. A compreensão técnica da liberdade apresenta o ser humano como um ser que produz a si mesmo, concepção que encontra expressão filosófica em Sartre ao definir sua existência pelo que ele faz de si.
18. O mundo produzido pela liberdade humana adquire uma dinâmica própria e passa a ser percebido como necessário e inevitável, constituindo o paradoxo de uma segunda natureza originada da técnica.