BLUMENBERG, Hans. Schriften zur Technik. 1. Auflage, Originalausgabe ed. Berlin: Suhrkamp, 2015.
2. A relação entre natureza e técnica como problema filosófico
1. Embora a realidade técnica seja produzida com base em conhecimentos e cálculos, os problemas que ela apresenta ultrapassam a compreensão de seu funcionamento e ainda carecem de uma formulação filosófica adequada.
1. A situação problemática atual
1. Como a técnica se constituiu historicamente enquanto ciência natural aplicada, suas questões parecem pertencer ao campo das ciências da natureza e partilhar seus métodos.
2. A experiência histórica mostra, porém, que a técnica se afastou de sua continuidade funcional com a natureza, passando de seu uso para a sobrevivência à exploração de recursos e à pretensão de transformá-la integralmente.
3. Sob uma perspectiva antropológica, a técnica aparece como resposta à insuficiente adaptação natural do ser humano e à necessidade de produzir as condições de sua própria existência, da qual a técnica moderna constitui uma realização consciente e deliberada.
4. Essa explicação antropológica também se revela insuficiente diante da crescente autonomia da técnica, cuja dinâmica sobrepuja decisões e necessidades humanas, enquanto as referências à sua suposta força demoníaca favorecem uma resignação que a filosofia deve questionar.
5. A avaliação das possibilidades da filosofia diante da técnica exige a consideração de um horizonte histórico mais amplo.
2. O ente natural e o ente fabricado na metafísica grega
1. Na compreensão grega, ser e natureza são quase equivalentes, pois o ente natural possui em si mesmo o princípio de seu ser e de seu devir e integra uma continuidade autossuficiente e temporalmente infinita de formas constantes.
2. O ente produzido pela técnica só pode ser considerado um ente por sua dependência da natureza, uma vez que a capacidade humana de fabricar se funda no logos e na participação do ser humano na ordem do cosmos, sem constituir um princípio independente dela.
3. Nessa interpretação, a teoria ocupa uma posição superior à prática porque seu acesso ao ser fundamenta a produção e impede que a ação se converta em violência arbitrária, delimitando assim o alcance da liberdade.
3. A inversão da relação entre natureza e arte pela ideia de criação
1. Uma concepção da técnica que amplie radicalmente o campo da liberdade humana exige uma transformação da compreensão antiga do ser, segundo a qual a natureza autossuficiente constitui o fundamento de toda produção.
2. A ideia de criação rompe a autossuficiência da natureza ao concebê-la como originada do nada pela liberdade divina, invertendo a relação antiga entre natureza e técnica e fazendo da primeira o resultado de um ato criador.
3. A concepção cristã da criação singular de cada alma fundamenta a autonomia do ser humano em relação à natureza e torna possível compreendê-lo como um ser técnico que, inserido no mundo natural, deve confrontá-lo sem receber dele uma orientação predeterminada para sua existência.
4. O aprofundamento teológico da diferença entre natureza e existência humana
1. A consciência cristã do pecado original aprofunda a separação entre existência humana e natureza, tornando o trabalho e o esforço necessários à vida e contribuindo para uma compreensão da técnica moderna cuja origem não se explica apenas pela aplicação da ciência.
5. A superação da distinção medieval entre uso e fruição
1. A limitada manifestação da técnica na Idade Média relaciona-se tanto à influência da metafísica antiga quanto à distinção entre o uso terreno do mundo e a fruição reservada à realização eterna, cuja superação favoreceu o desenvolvimento técnico e econômico moderno.
2. A ciência moderna não pode ser entendida como origem autossuficiente da técnica, pois sua própria orientação para a aplicação e sua ascensão foram estimuladas por uma vontade técnica historicamente constituída.
3. A substituição do uso finito do mundo pela fruição ilimitada acompanha a passagem ao universo infinito e inaugura uma dinâmica de exploração e conquista da natureza, na qual se acentua a contradição entre o objetivo da fruição e a exigência do trabalho.
6. A unidade da origem da ciência, da técnica, da arte e do poder no início da modernidade
1. A arte e a técnica modernas derivam da antiga unidade da capacidade humana de produzir e partilham uma nova compreensão de suas possibilidades, associada tanto à vontade de fruição quanto ao poder criador, cuja formação remonta ao nominalismo do final da Idade Média.
2. Ao negar à razão finita o acesso à essência da criação divina e conferir ao conhecimento uma função prática, o nominalismo favorece uma concepção técnica e criadora do saber, pela qual a autonomia humana surge da necessidade de construir um mundo próprio.
3. A natureza, compreendida cientificamente como extensão quantificável e inacessível em sua essência, torna-se matéria-prima da atividade humana e objeto de um projeto moderno de domínio e recriação compartilhado no Oriente e no Ocidente.
4. A unidade das origens modernas da arte e da técnica manifesta-se no debate renascentista entre imitação e invenção, na figura de Leonardo da Vinci e na concepção do poder político como disponibilidade racional dos destinos coletivos.
5. A teologia procura conservar a autonomia humana vinculada a Deus, como mostra Nicolau de Cusa ao associar a liberdade de pertencer a si mesmo à relação com o divino.
6. As noções de reforma em Marsilio Ficino, de projeto científico e moral em Descartes e de atividade produtiva em Vico exprimem, de diferentes maneiras, a capacidade humana de reorganizar o mundo e a história a partir da distância entre existência e natureza.
7. Ciência, técnica, arte e poder podem ser compreendidos a partir de uma origem comum na significação histórica do ser, de modo que o problema da técnica não se deixa isolar dessa unidade.
7. A segunda natureza do mundo das máquinas como consequência da vontade técnica
1. A distinção entre ferramenta e máquina, destacada por Ortega y Gasset, apresenta uma objeção à interpretação da história da técnica moderna como desenvolvimento contínuo de um mesmo princípio.
2. A produção técnica, inicialmente motivada pela necessidade humana, tende a afirmar-se como uma segunda criação e a realizar-se numa segunda natureza, cujas máquinas reproduzem a autonomia de funcionamento atribuída à natureza concebida como um mecanismo.
3. A aspiração a uma segunda natureza já se manifesta nos autômatos barrocos e no ideal do movimento perpétuo, anteriores à utilização industrial das máquinas, e encontra na ideia de organização a concepção do orgânico como produto de uma construção.
4. A exigência de fabricação irrestrita pode levar a segunda natureza técnica não apenas a possibilitar a supressão da primeira, mas também a impulsioná-la, embora a experiência dessa fase ainda esteja em seus primórdios.