BLUMENBERG, Hans. Arbeit am Mythos. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1979.
Introdução de Robert M. Wallace (edição inglesa)
1. Nossas atitudes antitéticas diante do mito
1. A permanência e a renovação dos mitos na imaginação moderna desafiam tanto a expectativa iluminista de que a ciência eliminaria os preconceitos míticos quanto a tendência romântica de considerar o mito uma dimensão originária e mais fundamental da natureza humana.
2. A racionalidade científica e o trabalho contínuo sobre os mitos herdados podem ser compreendidos como atividades compatíveis e indispensáveis ao esforço humano de tornar possível a existência.
2. Uma alternativa não romântica à concepção iluminista da relação entre racionalidade e mito: a superação do absolutismo da realidade
1. Cassirer conferiu ao mito uma dignidade própria como forma simbólica fundamental, ao lado do conhecimento, da linguagem, da arte e da religião, levando a sério sua coerência interna e sua força.
2. Apesar dessa valorização, a interpretação de Cassirer conserva a suposição de que a ciência torna o mito obsoleto, tratando as culturas tradicionais como privadas de racionalidade, os motivos inconscientes como resíduos infantis, a literatura mítica como atividade meramente estética e o nazismo como regressão incompreensível.
3. A alternativa à oposição entre a substituição iluminista do mito pela ciência e sua fusão romântica consiste em compreender o mito a partir do problema que ele procura resolver, em vez de defini-lo pelo suposto estágio científico que viria depois dele.
4. O absolutismo da realidade designa uma situação-limite em que o ser humano carece de controle sobre as condições de sua existência e se percebe ameaçado por uma realidade indeterminada, hipótese relacionada à vulnerabilidade de antepassados cujos instintos já não bastavam para orientá-los em um ambiente ampliado e ambíguo.
5. As formas simbólicas podem ser compreendidas como realizações culturais mediante as quais o ser humano enfrenta sua insuficiente adaptação instintiva e torna biologicamente viável uma existência que não está assegurada de antemão.
6. O mito enfrenta a angústia indeterminada ao transformá-la em temor diante de poderes nomeados e delimitados, cuja pluralidade impede a concentração de uma ameaça absoluta e cuja evolução narrativa introduz formas progressivas de ordenação do mundo.
7. Ao reduzir a pressão do absolutismo da realidade, o mito abre espaço para a compreensão e o controle de fenômenos específicos, mas sua função não é substituída pelo conhecimento científico, que permanece parcial diante de uma ameaça potencialmente abrangente.
8. A interpretação funcional das formas simbólicas abandona a ideia de uma sequência histórica dirigida necessariamente do mito à ciência e reconhece sua contribuição simultânea para a superação das dificuldades fundamentais da existência humana.
9. Essa perspectiva permite reconhecer a presença conjunta de mito e racionalidade nas culturas e nos indivíduos, atribuir relevância prática ao trabalho literário sobre imagens e distinguir os mitos herdados das ideologias e construções políticas que procuram apropriar-se de sua autoridade.
10. A existência de transformações históricas decisivas, como o surgimento do dogma e da autoafirmação humana moderna, não exige ordená-las como etapas de uma evolução finalista, pois a unidade da história reside no enfrentamento contínuo do absolutismo da realidade por meios distintos e complementares.
3. A antropologia filosófica subjacente à alternativa de Blumenberg à concepção iluminista
1. A antropologia filosófica que sustenta a interpretação do mito relaciona-se à análise das condições da existência humana e aos conceitos desenvolvidos na investigação da legitimidade da modernidade.
2. A comparação entre o absolutismo da realidade e o estado de natureza das teorias políticas permite questionar se as realizações atribuídas à natureza humana não são, antes, condições produzidas para tornar possível a própria existência.
3. A antropologia filosófica não deve pressupor que a existência humana esteja assegurada, mas compreender suas realizações como respostas artificiais a condições que, consideradas isoladamente, ameaçariam a sobrevivência.
4. Assim como o estado de natureza hobbesiano explica a necessidade de uma ordem política, a insuficiência instintiva permite compreender as formas simbólicas como soluções produzidas para enfrentar um problema anterior, embora elas tenham passado a parecer componentes naturais da humanidade.
5. A singularidade humana reside nas atividades pelas quais se torna viável a própria existência, de modo que o mito pode ser interpretado segundo sua função nesse empreendimento abrangente.
6. A avaliação dessa antropologia exige situá-la diante da tradição clássica, das teorias modernas do contrato social e das dificuldades produzidas pela ciência e pela epistemologia modernas.
7. O conceito de função articula a interpretação do absolutismo da realidade e a análise da legitimidade da modernidade, permitindo esclarecer o papel das realizações humanas sem reduzi-las à sua origem material.
8. A origem factual dos mitos permanece inacessível, razão pela qual as teorias que a explicam por fenômenos astronômicos, rituais ou psíquicos devem ser examinadas criticamente sem que se suponha possível decidir definitivamente entre elas.
9. A hipótese do absolutismo da realidade não pretende determinar a origem dos conteúdos dos mitos particulares, mas esclarecer a função geral pela qual suas diferentes narrativas contribuem para afastar a angústia diante de uma realidade ameaçadora.
10. A distinção entre conteúdo e função também esclarece a modernidade, pois ideias novas podem ocupar posições herdadas de épocas anteriores, como ocorre quando a noção de progresso passa a desempenhar a função anteriormente atribuída à interpretação providencial da história.
11. No caso do mito, a função pode ser o aspecto mais acessível à investigação, não sendo possível separar com segurança um conteúdo originário autêntico de uma função posteriormente imposta.
12. A persistência do mito ao longo de diferentes épocas decorre de sua relação com a realização elementar da vida humana, conferindo à antropologia funcional uma abrangência maior do que a análise histórica das posições intelectuais próprias de cada período.
4. Uma alternativa não iluminista à concepção romântica do mito: o “darwinismo das palavras”
1. As teorias românticas e muitas pesquisas posteriores tendem a atribuir aos mitos uma força originária e uma forma já constituída, enquanto sua durabilidade pode ser explicada por uma longa seleção de narrativas e variações na interação entre narradores e ouvintes.
2. O “darwinismo das palavras” descreve a formação da força e da pregnância dos mitos por um processo hipotético de transmissão, transformação e seleção, que oferece uma alternativa à ideia de uma revelação inicial ou de formas míticas inteiramente preexistentes.
3. As pesquisas sobre culturas orais frequentemente privilegiam a organização simultânea dos mitos ou os mecanismos de sua preservação, deixando em segundo plano o processo histórico pelo qual suas narrativas adquiriram força e memorabilidade.
4. A seleção cultural difere do darwinismo social porque atua sobre construções, instituições e instrumentos que os seres humanos submetem à adaptação, protegendo-os parcialmente da incidência direta da seleção sobre seus próprios corpos.
5. A seleção de teorias, técnicas e instituições pode produzir progresso objetivo ao aperfeiçoar meios de previsão, prevenção e ação, embora seus resultados permaneçam sujeitos a incompatibilidades e limitações.
6. As instituições são estruturas herdadas de pensamento e comportamento cuja variedade resulta de longos processos de seleção, não podendo ser explicadas adequadamente como produtos planejados da imaginação individual.
7. A crítica ao poder supostamente ilimitado da imaginação complementa a rejeição da ideia de um mito originariamente revelado, oferecendo uma explicação histórica da riqueza cultural que supera a oposição entre herança mítica e criação poética.
5. Por que essa teoria não é obscurantista nem antirracional
1. A valorização das instituições produzidas pela seleção histórica suscita a questão de saber se a razão conserva um papel crítico ou se deve submeter-se às tradições e aos resultados de processos impessoais de adaptação.
2. A experiência do nazismo levou Cassirer a enfatizar a ameaça de um retorno do mito à vida política, em contraste com sua análise anterior, que reconhecia a coerência interna e a dignidade das formas míticas.
3. A insuficiência aparente das explicações econômicas, sociais e políticas do nazismo torna compreensível a busca de fatores irracionais para esclarecer sua ascensão e suas consequências.
4. A falta de um critério preciso para distinguir mitos tradicionais de construções políticas fabricadas favoreceu a identificação do nazismo com o mito em geral, apesar das diferenças entre propaganda planejada e narrativas herdadas.
5. A tendência racionalista de chamar de mito tudo o que resiste à razão favorece sua demonização como uma força arcaica e antagônica, especialmente em épocas percebidas como crises da racionalidade.
6. A imagem de um poder mítico que ameaça a razão possui ela própria caráter mítico, pois transforma uma dificuldade histórica e intelectual em narrativa sobre o confronto entre forças personificadas.
7. A pregnância dos mitos tradicionais resulta de uma longa seleção narrativa e não pode ser reproduzida simplesmente por construções ideológicas deliberadas, cuja apropriação do prestígio do mito deve ser distinguida das possibilidades críticas oferecidas pelas narrativas herdadas.
8. Uma razão consciente de seus limites pode reconhecer que o esclarecimento se desenvolve de maneira desigual e evitar a expectativa de satisfazer todas as necessidades humanas, bem como a atribuição de seus próprios fracassos a um inimigo mítico absoluto.
9. A valorização da seleção histórica das instituições exige esclarecer se a crítica racional de práticas herdadas permanece legítima e em que condições se justifica sua transformação.
10. As instituições distribuem os encargos de justificação ao estabelecer uma presunção em favor de práticas que sobreviveram e foram aperfeiçoadas ao longo do tempo, cabendo a quem as contesta apresentar razões para sua mudança.
11. A atribuição desse encargo ao crítico suscita a questão de como conciliar a autoridade provisória das instituições com a exigência de fundamentar racionalmente os modos de agir e pensar.
12. A exigência iluminista de autonomia requer que cada pessoa examine, tanto quanto possível, as razões de suas crenças e ações, em vez de aceitar uma autoridade científica como substituto de seu próprio pensamento.
13. A finitude da vida humana impede que cada pessoa justifique desde o início todas as práticas e estruturas intelectuais de que necessita, assim como impede que a investigação racional coletiva alcance uma fundamentação integral e definitiva.
14. As instituições oferecem apoios necessários à ação, mas tornam-se perigosas quando exigem submissão a fundamentos que não podem ser questionados, enquanto a crítica racional também pode destruir irrefletidamente recursos herdados indispensáveis à própria possibilidade de experimentação.
15. A aceitação provisória de práticas que resistiram ao tempo constitui uma resposta racional à tensão entre a investigação potencialmente interminável e a duração limitada da vida humana.
16. A presunção em favor das instituições não impede sua crítica e transformação, pois uma prática herdada pode ser abandonada quando se apresentam razões suficientes para demonstrar que deixou de cumprir sua função.
17. A relação entre mito, tradição e racionalidade pode ser concebida como uma cooperação sujeita à crítica, superando a oposição que pretende favorecer exclusivamente um desses elementos.
6. Algumas aplicações concretas
1. A distinção entre mito, politeísmo, monoteísmo e dogma permite examinar com seriedade tanto as tradições religiosas quanto atitudes quase religiosas relacionadas a ideias como a revolução e o ser.
2. A permanência dos mitos na literatura moderna é compatível com sua transformação, pois novas interpretações podem fazer surgir aspectos que não precisam ser considerados conteúdos presentes desde a origem.
3. As releituras de Sísifo por Camus e de Fausto por Valéry exemplificam como a alteração de motivos narrativos torna perceptíveis novas possibilidades de mitos anteriormente conhecidos.
4. O estudo das versões registradas do mito permite compreender tanto o trabalho narrativo anterior à documentação escrita quanto as épocas e os autores que retomaram suas figuras.
5. A trajetória do mito de Prometeu e o trabalho de Goethe sobre imagens mostram como a elaboração imaginativa e a reflexão conceitual se articulam na vida e na produtividade de um indivíduo, assim como na história da espécie.
7. “Pôr fim ao mito” e a autonomia humana
1. As tentativas modernas de pôr fim ao mito podem assumir a forma de um mito filosófico totalizante, que não deixa espaço para outras narrativas, ou da transformação extrema de um mito particular até que sua continuidade se torne problemática.
2. A pretensão de encerrar o mito corresponde ao ideal de superar definitivamente o absolutismo da realidade pelo domínio completo do sujeito, seja mediante uma narrativa filosófica abrangente, seja mediante a aparente dissolução de um mito tradicional persistente.
3. As tentativas de produzir um mito final estimularam obras filosóficas e literárias, mas não demonstraram que as narrativas tenham perdido sua capacidade de gerar novas variações e de continuar sendo retomadas.
4. O absolutismo inicial da realidade e sua superação definitiva funcionam como casos-limite hipotéticos entre os quais se desenvolve a condição humana, sem que se possa demonstrar a realização completa de qualquer dos extremos.
5. A impossibilidade de demonstrar o fim da necessidade do mito não obriga a abandonar o ideal de autonomia nem a considerar inúteis os esforços filosóficos e literários que procuram aproximar-se dele.
6. O trabalho sobre mitos finais pode contribuir para a autonomia ao tornar mais compreensível e eficaz o enfrentamento das condições humanas, mesmo sem eliminar definitivamente a dependência em relação à realidade.
7. Os mitos finais podem ser diferenciados segundo atribuam ao sujeito a responsabilidade pela totalidade do mundo ou concentrem sua atenção na responsabilidade por si mesmo.
8. A imagem de uma imortalidade na qual o indivíduo conservaria a lembrança de seus atos e conheceria todas as suas consequências explicita a responsabilidade pessoal sem exigir que ele assuma o domínio da realidade inteira.
9. O mito da reencarnação e o postulado kantiano da imortalidade procuram enfrentar a possibilidade de resignação moral, preservando a esperança de justiça e de aperfeiçoamento diante das dificuldades encontradas pela boa vontade no mundo.
10. As imagens da imortalidade e da reencarnação podem favorecer a autonomia ao reforçar a responsabilidade do indivíduo por seu destino, em continuidade com a aspiração iluminista de autoafirmação humana.
11. A formulação mítica apresenta sua impossibilidade de verificação sem pretender passar por conhecimento teórico, tornando mais acessível sua função prática do que a distinção esquemática entre razão teórica e postulado moral.
12. A contingência das condições físicas e sociais da existência continua ameaçando a autonomia, e o progresso científico, embora amplie o controle sobre a realidade, também evidencia determinações que escapam ao domínio do sujeito.
13. Os mitos finais conservam relevância quando ajudam a enfrentar essa contingência persistente e a sustentar a responsabilidade do sujeito por si mesmo como condição mínima da autonomia.
14. Mesmo as tentativas mais abrangentes de encerrar o mito podem ser entendidas como esforços de superar a dependência e afirmar a responsabilidade pessoal diante das determinações físicas e sociais.
15. A busca da autonomia permanece necessária ainda que sua realização definitiva não possa ser assegurada, e nela o mito e a razão continuam a desempenhar funções complementares diante do absolutismo da realidade.