Novo Heidegger

BEISTEGUI, Miguel de. The New Heidegger. London: Bloomsbury Publishing, 2005

Introdução

1. em certo nível, o objetivo desta obra é bastante simples: transmitir a magnitude do terremoto filosófico que o pensamento de Heidegger representa e, como consequência imediata, comunicar a excitação sentida por tantos leitores ao descobrir um novo curso, um novo texto heideggeriano, ou ao reabrir Ser e Tempo pela milésima vez, esperando-se alcançar qualquer pessoa com conhecimento mínimo da história da filosofia — ou mesmo sem ele —, não se exigindo conhecimento prévio de Heidegger.

2. Heidegger é notoriamente um pensador difícil — como o são, aliás, todos os grandes pensadores —, não menos por seu uso experimental do idioma alemão, expressão direta da novidade de seu pensamento, dificuldade que se intensifica com frequência na tradução para outro idioma, como o inglês.

3. quanto ao título, O Novo Heidegger, “novo” deve ser entendido à luz do fato de que, dos aproximadamente cem volumes planejados das obras completas de Heidegger, “apenas” cinquenta foram publicados até o momento, tendo Heidegger falecido em 1976 e seus textos (cursos, livros, conferências públicas) sido lentamente liberados desde então — lentamente demais, na opinião de muitos —, não havendo data clara para a conclusão dessa publicação, mas havendo toda razão para crer que as primeiras décadas deste século continuarão a ver publicações desse pensador que entrou na cena filosófica de modo espetacular em 1927, ano de publicação de Ser e Tempo, até hoje seu texto mais lido e significativo.

4. a última década, aproximadamente, testemunhou a publicação de algumas das obras mais importantes (e mais desafiadoras) de Heidegger, quase todas datadas do final dos anos 1930, sendo esses volumes particularmente esclarecedores quanto às suas visões sobre o niilismo e a “maquinação”, o (pós-)humano e o divino, a morte de Deus e/ou a fuga dos deuses (ou Nietzsche e Hölderlin), a linguagem e a poesia, o espaço e o tempo e, sobretudo, a verdade.

5. essa abordagem não implica negligência dos textos “antigos”, hoje canônicos e enormemente influentes, mas, havendo já diversas introduções e comentários gerais disponíveis (sobre Ser e Tempo, por exemplo), optou-se por privilegiar uma abordagem temática do conteúdo do pensamento heideggeriano, enfatizando os aspectos que mais claramente emergem de sua produção recentemente liberada.

6. um segundo sentido do título compreende os desenvolvimentos mais significativos da literatura sobre Heidegger, consistindo estes, em sua maior parte, em avanços substanciais na área de sua biografia e na gênese de seu pensamento, tendo os trabalhos de estudiosos como Ott, Safranski, Kisiel e Sheehan permitido reconstruir os anos iniciais de Heidegger como pensador, lançando luz sobre sua relação com o catolicismo e o cristianismo, o neokantismo, a lógica, a matemática e as ciências naturais, e a fenomenologia husserliana.

7. finalmente — embora talvez de modo menos explícito —, O Novo Heidegger pretende transmitir o extraordinário impacto de seu pensamento sobre a vida filosófica e não filosófica do século XX, tratando-se de um pensamento que abriu áreas inteiras e ajudou a repensar outras mais clássicas, incluindo a fenomenologia, a desconstrução, a hermenêutica, a ontologia, a arte e a arquitetura, a inteligência humana e artificial, a psicoterapia e a ecologia.

8. o Capítulo 1 (“Uma Questão de Vida”) introduz a filosofia como atividade ou possibilidade da própria vida (ou existência), como aquilo que se poderia chamar atividade “vital”, semelhante, nesse sentido, a qualquer outra atividade humana, distinguindo-se, contudo, por dirigir-se à própria vida, e por incidir sobre a vida como o suporte (ou a condição de possibilidade) de todas as atividades, havendo, portanto, um entrelaçamento entre a vida como objeto ao qual a filosofia se dirige e a vida como sujeito a partir do qual a filosofia se torna possível — nisso residindo a singularidade da filosofia, que é a reflexão ou a dobra da vida sobre si mesma, na e pela qual a vida se revela a si mesma, constituindo, como tal, uma intensificação da vida, um aumento de seu potencial, contrastando-se com a ciência, vista como processo de desvitalização (Ent-lebnis), por mais importante e interessante que seja, não sendo a vida pressuposta na ciência a mesma vida que a ciência tematiza.

9. o Capítulo 2 (“A Verdade que Jaz Abaixo”) trata da questão da verdade, questão que, de muitos modos, coincide com a própria matéria do pensamento heideggeriano, interrogando-se o que Heidegger entende por verdade, uma vez que a vida ou a existência já não pode tornar-se objeto de investigação científica, e o que é a verdade fora de seu quadro de referência científico.

10. o Capítulo 3 (“Do Espaço e do Tempo”) volta-se à questão do espaço e do tempo do ponto de vista da vida, chegando Heidegger, bem cedo, à convicção de que a vida fática, ou existência, como “fundamento” pré-teórico da vida metafísica e científica, pressupõe concepção diversa de espaço e tempo.

11. o Capítulo 4 (“O Domínio da Técnica”) estende a análise da verdade em sua dimensão histórica, perguntando qual é a configuração da verdade que hoje nos acomete, qual é a luz na qual as coisas hoje se manifestam, sendo a resposta heideggeriana — “técnica” — conhecida, mas frequentemente mal compreendida.

12. o Capítulo 5 (“O Poder Salvador da Arte”) trata da concepção heideggeriana de arte e poesia como antídoto ao pensamento técnico e calculante, sendo a arte, para Heidegger, o outro lado, frequentemente oculto, da essência da técnica, forma de saber e de verdade que, contudo, não se desdobra como produção e maquinação, mas como poética.

13. o Capítulo 6 (“À Deriva Política: O Caso com o Nacional-Socialismo”) trata do aspecto mais delicado e controverso do pensamento e da vida de Heidegger, tendo sido sua vida a de um acadêmico e filósofo, não podendo seu engajamento político, dado o que afirma sobre a facticidade da vida e a conexão entre vida e filosofia, ser posto de lado como episódio meramente marginal — o que não significa, contudo, que seu pensamento seja intrinsecamente fascista, como alguns sustentaram.